Sobre o consumo de gente
E não é somente o vício.Quem consome está aliciando crianças num
trabalho de morte.É cada vez maior o número de crianças pequenas( de 6,7
8,anos)que além de começaram a usar crak ou cocaína, sevem de
aviãozinho para os que vendem e compram.Esta
é a pior ditadura dos últimos tempos!Se em algum momento usar drogas
estava relacionada ao filme charmoso, ao rock rebelde, saibam...hoje
usar droga é obedecer a um sistema que determina a morte do sujeito
antes da morte de seu corpo.Talentos como o desta moça, consumida pela
obediência é uma referência ao que tem acontecido.Para além de uma
campanha "Não às drogas" deve-se ter por lema:"Não ao consumo de gente".
quinta-feira, maio 10, 2012
segunda-feira, maio 07, 2012
Abismo
É meu isso que aqueço e seguro e velo e teço, como se fosse um lençol! Meu isso que esfria e morre e treme, corpo semente...corpo que é só.Entre ele e eu que escrevo, esta ternura sem paz nem tempo que registra somente depois.Entre nós o abismo sem vento que pede da morte, o nascimento ...da palavra o que não brotou.
É meu isso que aqueço e seguro e velo e teço, como se fosse um lençol! Meu isso que esfria e morre e treme, corpo semente...corpo que é só.Entre ele e eu que escrevo, esta ternura sem paz nem tempo que registra somente depois.Entre nós o abismo sem vento que pede da morte, o nascimento ...da palavra o que não brotou.
ENGANO
...Será que voltas?Será que estás? O sapato esquecido boceja na hora de acordar.Na espera das ruas que continuam a existir, das frases que ainda estão por vir, faz o trabalho diário de esperança.É infinita a presença que repara a falta.Será que voltas? Será que estás?... o sapato esquecido não para de falar.
RESPOSTA À REDAÇÃO DO JORNAL IBIÁ SOBRE BIGAMIA,EXCLUSIVIDADE NO RELACIONAMENTO E FORMAS NOVAS DE RELAÇÃO.
O " relacionamento liberal' como chamamos é coisa de uma época, a nossa.Nela incluimos mudanças de comportamento, de valores , de relação com o mal estar que nos traz a civilizaçaõ.É isso mesmo! Civilização traz um mal estar benfazejo naquilo que dá forma às relações socias tornando-as...possíveis.Não há a tal felicidade vislumbrada pelas ações que levantaram a bandeira da liberdade.Primeiro a pílula e em seguida...a liberação sexual.É certo que a sexualidade não é passível de ser reprimida, no sentido que se pode honrar a teoria psicanalítica das pulsões.O que ocorre é que...somso seres da cultura! Não somos...como diria... "naturais".A natureza humana é, por referência...cultural.Nisso as coisas mudam: numa época as coisas eram certas desta forma e em outras...de outra forma.Porém o que não é mutável diz respeito a dependência de afeto e acolhimento.De certa forma é a demanda de um reconhecimento de que somos da mesma...espécie.O olhar, o toque, a palavtra, o gesto, são facetas humanas muito mais pela forma como são recebidas pelo outro: como se fosse para si mesmo.Neste aspecto somos seres apaixonados!Uns pelos outros e, nesta marcação podemos dizer que é nosso melhor defeito.Porém é fato também que exisstem escolhas e elas nunca são pelo " tudo".Podemos estranhar se incidir desta forma.Existe o que repetimos porque temos preferências, porque também é de gosto e valor uma espécie de conforto que o outro oferece na verdade que aponta: não queremos tudo.É neste aspecto que não é certa a premissa de que seria da natureza humana os trios, os quartetos e tantas outras formas de exercício da sexualidade.Podemos dizer, sim, que são marcas de uma certa fase da vida ou, mesmo de um tempo da história da civilização.Para além da moral existe uma ética determinada pelo desejo e ele, o desejo é de reconhecimento do que nos faz impossibilitados de fazer e querer tudo.Nesta imposição da verdade que determina nosso corpo, nossa fala, nossas ações,o melhor de tudo é dar o valor àquilo que construímos nas relações afetivas, no trabalho, no mundo.Não é raro que, na fuga de uma certa moral vigente se caia numa outra, com as mesmas questões mas num ação contrária.Por exemplo: a monogamia não é satisfatória ... então : poligamia! rsrsr Isso é clássico e apenas uma outra determinação da mesma coisa.
Estes dias surpreendeu-me um slogan no facebook: " Não sou cadela para ser fiel".Chamou-me a atenção pela simplicidade ingênua que, pela impostura, chegava a parecer verdade.Respondi que: " quando uma escolha faz valer uma repetição estamos diante de significantes de gente".
Então ficam as fantasias sexuais como as que poderiam valer a respeito de não escolhermos, de continuarmso pensando que o tudo é possível.Vale lembrar que é a escolha, a falta do tudo que permite ...fantasiar.Hoje atuamos como se as coisas e pessoas pudessem exigir ...a satisfação de suas fantasias.Oras!Elas deixam de ser fantasias e..
Não estamos por aqui para sermos felizes.Apenas para aprendermos um pouquinho a respeito de momentos importantes que nos damos ao deixar no mundo mais do que lixo.
Bem...continuamos...
O " relacionamento liberal' como chamamos é coisa de uma época, a nossa.Nela incluimos mudanças de comportamento, de valores , de relação com o mal estar que nos traz a civilizaçaõ.É isso mesmo! Civilização traz um mal estar benfazejo naquilo que dá forma às relações socias tornando-as...possíveis.Não há a tal felicidade vislumbrada pelas ações que levantaram a bandeira da liberdade.Primeiro a pílula e em seguida...a liberação sexual.É certo que a sexualidade não é passível de ser reprimida, no sentido que se pode honrar a teoria psicanalítica das pulsões.O que ocorre é que...somso seres da cultura! Não somos...como diria... "naturais".A natureza humana é, por referência...cultural.Nisso as coisas mudam: numa época as coisas eram certas desta forma e em outras...de outra forma.Porém o que não é mutável diz respeito a dependência de afeto e acolhimento.De certa forma é a demanda de um reconhecimento de que somos da mesma...espécie.O olhar, o toque, a palavtra, o gesto, são facetas humanas muito mais pela forma como são recebidas pelo outro: como se fosse para si mesmo.Neste aspecto somos seres apaixonados!Uns pelos outros e, nesta marcação podemos dizer que é nosso melhor defeito.Porém é fato também que exisstem escolhas e elas nunca são pelo " tudo".Podemos estranhar se incidir desta forma.Existe o que repetimos porque temos preferências, porque também é de gosto e valor uma espécie de conforto que o outro oferece na verdade que aponta: não queremos tudo.É neste aspecto que não é certa a premissa de que seria da natureza humana os trios, os quartetos e tantas outras formas de exercício da sexualidade.Podemos dizer, sim, que são marcas de uma certa fase da vida ou, mesmo de um tempo da história da civilização.Para além da moral existe uma ética determinada pelo desejo e ele, o desejo é de reconhecimento do que nos faz impossibilitados de fazer e querer tudo.Nesta imposição da verdade que determina nosso corpo, nossa fala, nossas ações,o melhor de tudo é dar o valor àquilo que construímos nas relações afetivas, no trabalho, no mundo.Não é raro que, na fuga de uma certa moral vigente se caia numa outra, com as mesmas questões mas num ação contrária.Por exemplo: a monogamia não é satisfatória ... então : poligamia! rsrsr Isso é clássico e apenas uma outra determinação da mesma coisa.
Estes dias surpreendeu-me um slogan no facebook: " Não sou cadela para ser fiel".Chamou-me a atenção pela simplicidade ingênua que, pela impostura, chegava a parecer verdade.Respondi que: " quando uma escolha faz valer uma repetição estamos diante de significantes de gente".
Então ficam as fantasias sexuais como as que poderiam valer a respeito de não escolhermos, de continuarmso pensando que o tudo é possível.Vale lembrar que é a escolha, a falta do tudo que permite ...fantasiar.Hoje atuamos como se as coisas e pessoas pudessem exigir ...a satisfação de suas fantasias.Oras!Elas deixam de ser fantasias e..
Não estamos por aqui para sermos felizes.Apenas para aprendermos um pouquinho a respeito de momentos importantes que nos damos ao deixar no mundo mais do que lixo.
Bem...continuamos...
sábado, fevereiro 25, 2012
O AMOR É DO CUIDADO, PELAS PALAVRAS, PELA PRÓXIMA VEZ - Falando destas coisas com o poeta Sidnei Schneider
1-Preciso começar esta entrevista perguntando sobre o impronunciável. Talvez pelo que me faz lembrar da forma como nos conhecemos, em que existia uma pronúncia letra por letra do nome próprio. Pois bem, o que seria o impronunciável na poesia?
Sidnei com “d” mudo e tudo com “i”? É, gosto de me reconhecer quando recebo um livro autografado (risos). Penso que a poesia vai ao limite da aproximação da linguagem com o real. O poeta quer porque quer o impossível, dar a ver o mundo e as relações humanas usando apenas uns vinte e poucos símbolos, o alfabeto. Por isso rejeita a expressão gasta, opera desvios na linguagem corrente, usa diversos recursos que a língua oferece. Como se pode concluir, alguma coisa sempre ficará de fora, permanecerá não dita, porque o real e a linguagem não são a mesma coisa. Posso descrever uma fruta, mas não me alimentar da palavra bergamota. Como estou falando com uma psicanalista, talvez devesse acrescentar que, evidentemente, conforme Freud já apontava, também na psique humana o manancial do inconsciente não se esgotará, por mais que o transformemos em literatura ou objeto de análise.
2-Este impronunciável faz parceria letra a letra, palavra a palavra. O que pensas disto?
Toda a letra ou palavra, todo o significante, isolado ou em relação ao que há ou não há a sua volta no texto, é significativo, nas suas múltiplas possibilidades de leitura, especialmente na poesia. O vazio não é desprezado, as chamadas entrelinhas falam e colocam-se como espaço aberto à participação do leitor. Algo vai restar não dito, porque a linguagem não dá conta de se equiparar completamente ao real da realidade, do mesmo modo como não simboliza completamente o real do inconsciente. Creio que temos aí pontos de encontro interessantes entre poesia e psicanálise.
3-Nisso incluímos os contrários, contidos nas raízes dos vocábulos... Assim tudo muito igual ao que faz uma escuta em psicanálise. A negação como forma de falar de algo. A poesia se coloca a favor disso por, justamente, testemunhar o que não é acessível, o que é construído na hora, pelo leitor. Assim, qual a semelhança ou diferenças entre poetar e analisar-se?
Sim, a lógica aristotélica, que dizia que se A é A, então A não pode ser não-A, excluída uma terceira possibilidade, só serve para casos mais simples e limitados. Amor e ódio, vida e morte são faces da mesma medalha, compõe uma unidade dialética e podem se transformar um no outro ao menor sinal, à menor mudança. Assim como a atração e repulsão das partículas que dão existência ao átomo ou a gravidade centralizante e a fusão nuclear explosiva que “equilibram” uma estrela, o pensamento só existe a partir de contínuas contradições e sínteses em movimento. A palavra, da mesma forma, é unidade contraditória, para além das modificações de suas raízes etimológicas. João Cabral de Melo Neto, em Dúvidas apócrifas de Marianne Moore, trata da questão: “Como saber, se há tanta coisa/ de que falar ou não falar?/ E se o evitá-la, o não falar,/ é forma de falar da coisa?” Num poema, cada expressão ou palavra já é escolhida pelo poeta objetivando uma matriz ampla de significados, embora, obviamente, outros lhe escapem. O leitor, que vai ao poema com suas vivências e leituras, sua consciência e inconsciência, termina de criar o poema que o autor, muito modestamente, só esboçou. Assim, uma obra admite múltiplas e variadas leituras, embora dela não se possa extrair leituras quaisquer, como sugeriu Umberto Eco. Podem haver leituras que não correspondem ao que um texto, enquanto objeto artístico acabado, tem a oferecer através dos seus signos ou de suas elipses. Eventualmente podem ser úteis se trazidas para a análise clínica, mas fogem completamente do campo da literatura. Porque são leituras particularíssimas, somente daquela pessoa, impossíveis de serem aceitas pelos outros. Assim, se um psicopata lê os versos de Camões “Amor é fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói e não se sente” e interpreta que eles são neonazistas e o autorizam a abrir fogo contra a multidão, essa leitura, do ponto de vista do seu histórico pessoal, deve fazer algum sentido, mas é impossível de ser compartilhada socialmente, por mais explicações que se desse para justificá-la. Ou seja, saímos do campo da literatura, e entramos no dá psicanálise, sendo que o leitor não precisaria ser um perturbado mental, mas apenas uma pessoa comum fazendo uma leitura demasiado particular de um texto qualquer.
4-Tua escrita é encantadora, revelando espaços inusitados enquanto traz marcado o cuidado com a palavra, com a significância. Prefiro chamar isso de cuidado com o tempo, quando apresentas um ritmo de construção definido pela cautela, pelo rigor poético. Qual tua formação, teus conhecimentos nisto que segue como campo da palavra?
Esse elogio, “encantadora”, eu não tinha recebido ainda (risos). Sei lá quais são os meus conhecimentos, prefiro bater na porta do desconhecido. Li e leio de um tudo, muita poesia, um tanto de ficção, estudos críticos, passei por um curso de Letras, fiz teatro, atuei na política. Não só literatura me interessa, nem apenas filosofia, história, economia, antropologia, as chamadas ciências humanas. Gosto de geologia, paleontologia, astrofísica, química e física quânticas, etc.
5-Já perdi a conta de quantas vezes tu me puxaste as orelhas (heheheh). E quando gostas do texto... pior ainda! Lembro de um personagem, meu cortador de mato.... Então tua paixão pelo texto, teu envolvimento arrebatador é virulento, no sentido de que ficamos pensando, pensando... se fomos negligentes com aquele personagem, se não o qualificamos, se não o apresentamos como devia (heheheheh). Isso é fantástico porque, a mim, faz referência a esta existência, em cada um, de muitos e a escrita faz valer isso, da melhor forma ou da pior. O que me dizes?
Bem, nunca pretendi puxar orelhas de ninguém, não é esse o meu foco. Quando me pedem uma opinião sobre determinado texto, se tenho tempo e condições eu dou. Digo sempre que não desejo a concordância do escritor, mas provocar o seu debate interno, destravar a sua discussão quando já não consegue pensar nada criticamente novo sobre o que produziu. Uma vez que opinei algo, o escritor necessariamente vai se confrontar com isso, para discordar, concordar, pensar outra coisa ou eleger as razões do acerto que fez e eu não percebi. Imagino que é como ter a experiência da crítica pública antecipada, o que talvez possibilite ampliar a consciência sobre a própria linguagem. Não acredito que a poesia ou a ficção possam ser uma espécie de vômito do inconsciente. É necessário muito trabalho, aproveitar essa matéria inicial até transformá-la em arte, dar duro. Não confiar na espontaneidade, de que assim se alcançaria um bom resultado. O espontâneo é uma escrita imediata, ainda pouco endereçada ao outro enquanto objeto estético, ainda não totalmente construída com esse fim, sendo uma possível exceção a isso rara, pouco frequente.
6-Acrescento que a forma como abordas o texto alheio faz esta báscula: texto próprio, texto do Outro. Este cuidado com que determinas uma aliança legítima entre privado e público: o texto tem um autor mas...é do Outro. O que achas disso?
Muitas coisas que podem satisfazer o escritor, que possui todas as conexões e referências, igualmente podem não fazer sentido nenhum para a recepção. O poeta Paulo Henriques Brito escreveu em Um pouco de Strauss: “Não escrevas versos íntimos, sinceros,/ como quem mete o dedo no nariz./ Lá dentro não há nada que compense/ todo esse trabalho de perfuratriz,/ só muco e lero-lero.//(...)// Esquece o eu, esse negócio escroto/ e pegajoso, esse mal sem remédio/ que suga tudo e não dá nada em troca/ além de solidão e tédio:/ escreve pros outros.// Mas se de tudo que há no vasto mundo/ só gostas mesmo é dessa coisa falsa/ que se disfarça fingindo se expressar,/ então enfia o dedo no nariz, bem fundo,/ e escreve, escreve até estourar. E tome valsa.” Escreve-se para alguém, para um público, desde um público, “Le style, c’est l’homme”, o estilo é o homem (faz o homem), mas vem do outro: “o homem a quem nos dirigimos”, acresceu Lacan, “apenas para alongar a sentença”. “Le style, c’est l’Autre”, diria ele, apesar de nunca ter feito essa brincadeira com a frase originalmente proferida em 1753 pelo naturalista Leclerc de Buffon e utilizada depois por Karl Marx para se defender da censura prussiana, sendo a nova de Haroldo de Campos.
enriques Brito
7-Estes dias falávamos sobre o Amor pelas palavras. Há um certo encantamento, envolvimento que faz as vezes de paixão...pela palavra. Nelas não há limites, podem ser o que imaginamos, podem trazer vestígios de lembranças ou lugares não visitados. Então lembro Freud, naquilo que apontava como estranho familiar, sua perspicácia para dizer sobre as revisitações na fala. O que seria, na escrita, um estranho familiar?
Poetas e ficcionistas, talvez mais que os leitores, sentem amor pelas palavras, morrem de amor por elas. Mas um criador não pode simplesmente morrer de amor pelo que enfileirou no jorro inicial, pelas suas próprias palavras, pois corre o risco de satisfazer, e de modo pouco digno e artístico, apenas a si mesmo. Um poema, um conto, um romance exigem bem mais. Da mesma forma como não é corriqueiro se conseguir expor com exatidão e clareza a complexidade do que se está pensando ou sentindo a cada instante, não é tão imediato traduzir em um objeto de poesia as ideias, imagens e sons das palavras que se movimentam na cabeça do poeta. É preciso trabalhar muito, tanto para melhor expressar o que se pretendeu como para chegar ao que há de desconhecido e que não se revelou antes. Existe a necessidade de apresentar aos leitores, e inicialmente a si mesmo, algo esteticamente interessante e bem acabado. Nesse sentido, escrever causa prazer, mas também exaustão e até dor. Um escritor brasileiro da atualidade, nesse momento não recordo quem, disse que escrever é uma atividade inglória, pois mais do que escrever a atividade do escritor é cortar, cortar palavras, períodos, textos inteiros que vão parar no lixo ou são deletados, nos quais havíamos colocado tanto, independente de serem autobiográficos ou não, enfim, que cortar é sempre cortar na carne e isso dói. Não amar demais as próprias palavras, saltar para fora do círculo narcísico, faz bem à literatura. Claro, há prazer também, no meu caso principalmente quando o texto está nascendo e quando o dou por finalizado, depois de muitos cortes e modificações. O excessivo amor por qualquer coisa que se expeliu bordeja o amor pelas fezes. Podemos mais do que isso, oferecer nosso melhor.
Se, desde Freud, o sujeito não é mais visto como de todo apreensível, a retomada obsessiva dos mesmos temas ou imagens por um escritor, tão comum na literatura, remete ao estranho (oculto) e familiar (conhecido). Olhar para o próprio texto depois de muito tempo, sem lembrar necessariamente de todo o percurso de trabalho que o tornou o que é, pode causar essa impressão de estranheza e familiaridade, de ter sido um outro o seu autor. O estranho-familiar faz pensar numa arte que não causa somente prazer no receptor, como Freud havia proposto inicialmente, mas instigação e perturbação, ocorridas durante sua visita ao Moisés de Michelangelo. Para mim é uma questão interessante e não totalmente resolvida, porque essa perturbação acaba redundando, mais cedo ou mais tarde, se a obra atinge a arte maior, em motivo de prazer estético. Admiramos estupefaciados, por exemplo, uma obra francamente horrível como Saturno devorando os filhos, o deus do tempo pintado por Goya. Um poema de Brecht revela a busca do estranhamento enquanto estética: “Sob o familiar, descubram o insólito./ Sob o cotidiano, desvelem o inexplicável./ Que tudo que é considerado habitual/ Provoque inquietação./ Na regra, descubram o abuso./ E sempre que o abuso for encontrado/ Encontrem o remédio.” (A exceção e a regra). De todo modo, penso que essa pergunta melhor caberia aos psicanalistas.
8-Amor pela palavra... amor pela cidade...amor por uma mulher...quais as diferenças?
No caso da tua enumeração, são todas femininas. Amo também, desde adolescente, a realidade: por pior que seja quero estar bem próximo, saber dela. Isso não tem a ver, necessariamente, com escrita realista estilo século 19, já que toda ficção é um universo inventado, uma mentira. Mas toda boa ficção, seja fabular, realista, científica, fantástica ou qualquer outra, é tanto melhor quanto mais consegue dar, através dos liames entre o mundo criado e o real, pela mentira uma verdade.
9-Sei de teus conhecimentos sobre a cultura grega e o quanto em alguns textos isso aparece. Como o poema “Prometeu”. Poderia falar um pouco disso?
A escritora e professora Jane Tutukian, ao apresentar meu livro de poesia Quichiligangues (2008), sugeriu que meu interesse pelo mundo grego devia ser consequência do curso de Letras. Sem desdizê-la, eu poderia afirmar que é anterior. Quando criança, meu pai me contou a história do rio em que não se entra duas vezes, achei fantástica. Mais tarde descobri que era de Heráclito e não sei se meu pai sabia do autor. Entre os sete e os dez anos li os doze volumes de uma enciclopédia: a espada de Dâmocles e outros relatos se inscreveram talvez para sempre na minha memória. Na sexta série precisava escolher um livro para leitura. Fiquei entre dois na livraria, o que não escolhi era Prometeu acorrentado, de Ésquilo. A curiosidade permaneceu e mais tarde a satisfiz.
10-A fala, a exposição, a voz... Além de algumas entrevistas podemos assistir tua fala dizendo poesia. É o caso de “Porta”, que se encontra no YouTube. O que isso contribui na construção de um dizer poético?
Acredito que a verbalização do poema pode despertar o interesse de um novo leitor e ajuda na divulgação da poesia. Nos últimos dez anos, mais ou menos, esse tipo de expediente serviu para tirar a poesia do limbo. Multiplicaram-se os saraus, os eventos, os festivais no Brasil inteiro. Posso dizer poemas em público, realizar palestras, dar oficinas, participar de debates, mas para mim não há nada mais produtivo do que a escrita e a leitura silenciosas.
11-O que é campo da fala, para ti?
Não pretendo, visto não ser especialista, mero leitor curioso, abordar essa expressão de Lacan em termos psicanalíticos. Talvez se possa sugerir apenas que a poesia busca desvendar o que não é percebido imediatamente. Se um poeta escreve sobre um pano de chão, poderá tratar das relações de trabalho pelas quais esse trapo passou até chegar a uma determinada casa, lembrar a flor de algodão que um dia ele já foi, etc. Ou seja, a poesia amplia a perspectiva e suspende as certezas do leitor, muitas vezes as do próprio poeta. É claro que há no escritor um processo de escuta (leitura, no sentido amplo do termo) de si mesmo e do outro, que busca o desconhecido: “ouço, como um, aviso/ o que não diz nada/ não como um sino/ mas um sopro”, escrevi há uns vinte anos.
Assim, o campo da fala para a literatura, para a minha pelo menos, é o do silêncio. A observação, a rememoração, a elaboração interna, a escrita e a leitura realizadas na quietude. Não importa que entrem aí a vivência de infinitas falas, intertextualidades oriundas de leituras e diversas artes, etc. Meu campo, minha fala, minha produção advém desse silêncio. Em suma, meu silêncio é minha fala. E como todos sabem, o silêncio fala.
12-Filhos, filhos... És um pai de três. Para mim a maternidade acrescentou possibilidades neste campo da fala. Costumo brincar que a maternidade rompe qualquer significado, sendo uma experiência do REAL, da qual nunca retornamos (eheheheheh). O que é ser pai, para ti?
Depois que me divorciei, após um ano e pouco, meu filho pequeno veio morar comigo. Um pouco mais, veio a filha do meio. Similar a muitas mães, fui um pai solteiro. Curti a função, então socialmente nova, amava e amo meus filhos, e não deixei de fazer o que gostava. Recentemente, minha filha menor, já adulta e universitária, por razões inusitadas, também veio. Tenho dificuldades para fazer muitas coisas, mas recordo que sempre que pintava um problema grande com um dos filhos, instantaneamente eu me mobilizava e era como se soubesse exatamente o que fazer. Por pior que fosse a fatura, ficava alerta e lúcido como uma serpente.
13-Tuas experiências com os índios... O que mais te fez diferença nelas?
Não são lá grandes experiências, mas fiz duas viagens enormes pela Amazônia, uma mais pelo Brasil, a outra adentrando a Amazônia Peruana. Não saí esperando encontrar aldeias intocadas, mas atento às modificações culturais devido ao contato com a nossa civilização. No Baixo Mucajaí, em Roraima, os poucos habitantes, de origem nordestina, pescam de rede ou anzol, mas os yanomammi migrados da Guiana Inglesa não se adaptaram, continuam pescando com arco e flecha. No entanto, a ponta da flecha, originalmente de osso de peixe, agora é feita com alumínio industrial batido em forma de seta, e o fio do arco, a exceção de uma pequena parte de fibras vegetais, é de arame. No Mato Grosso diziam, por brincadeira, que os Uru-Eu-Wau-Wau de Rondônia iam me pegar, mas nem sei se eram mesmo antropófagos, como os Juma. No Acre, próximo ao Rio Juruá, os Kampa fazem beberagens de plantas alucinógenas até surgir o dia atrás das árvores altas, então pegam um espinho e espetam um sapo deixado num cercadinho, e depois espetam em si o leite do sapo, ficando imediatamente sóbrios. Próximo da Laguna de Yarinacocha, em Pucallpa, no Peru, vivem os Shipibo, que fabricam tecidos inacreditáveis, cerâmicas lindíssimas e praticam rituais do yagé em palafitas, com um lugar reservado para o vomitório, que acreditam purificador.
14-O trabalho é o próprio, o que se produz sem contestação. Porém, no que se refere a poesia, sabemos que não dá para sobreviver se contarmos somente com a escrita. O que é para ti o trabalho como produção no mundo e o trabalho que te dá subsistência? Há diferença? Há padecimento?
Vivo dentro de uma equação pré-estabelecida: trabalho com estatística para sobreviver e fico livre para fazer o trabalho que eu quiser em termos de poesia e literatura. Acredito, com Maiakóvski, que poetar é um trabalho.
15-Quais os trabalhos que mais gostaste de fazer? Quero dizer, incluindo oficinas, publicações, palestras...
Em literatura, o que mais gosto é de ler e escrever.
16-E das publicações, qual a que te deu mais gosto?
Quichiligangues, um livro pequeno, teve uma acolhida ao mesmo tempo modesta e extraordinária. Ver impresso minha primeira publicação, uma tradução de José Martí, foi uma grande alegria. Assim como ter bastante gente no lançamento de Plano de Navegação, meu primeiro livro autoral, pois eu temia que não fosse ninguém.
17-Aliás... o que é publicar?
Começar a fazer coisas no mundo com a linguagem da poesia. Ou da ficção: meu primeiro livro de contos, Andorinhas e outros enganos, já está na editora.
18-Já fizeste trabalhos em parcerias, projetos para leitura e escrita, organização de espaços de discussão, etc. Poderias falar um pouco disso?
Produzi eventos de poesia, mas é um fato que, mais ocupado, se escreve menos. Por dois anos estive a frente da produtora do PortoPoesia, mas resolvi me desligar no final de 2008 por discordância quanto a relação conflituosa com organizadores de eventos similares e doei minha parte da produtora aos outros três, depois dois, sócios. Com a artista plástica Anico Herskovitz, organizei duas edições do Poemas Gravados. Dou respaldo à FestiPoa Literária, ao Cidade Poema e a outros eventos. Em 2011, participei do Sport Club Literatura no StudioClio (Prêmio Fato Literário), da III Jornada de Poesia Moderna da PUC-RS, do Cabaré do Verbo na Casa de Cultura Mario Quintana, de coletivas do Castelinho Cultural do Alto da Bronze, da Feira do Livro de Porto Alegre, do Sarau Literário da Zona Sul, viajei pelo interior através do ArteSesc, percorri escolas, etc. Colaboro com a revista Verbo 21, editada pelo escritor Lima Trindade desde Salvador, atendo a convites de periódicos, escrevo apresentações, faço entrevistas, mas decidi me dedicar mais à escrita criativa, deixando um tanto de lado a produção de eventos.
19-Qual a função social do escritor, hoje? E do texto?
O escritor se manifesta como cidadão e principalmente através da sua obra. O texto responde a uma época histórica, direta ou indiretamente, e tanto melhor se está em consonância com ela, apontando para o futuro. Sinteticamente, a função social do escritor é humanizar o mundo através da celebração e da crítica presente nos seus textos, na melhor forma estética que ele consiga atingir depois de dar o máximo de esforço. A velha e entrada em séculos tese da arte pela arte acaba maltratando a arte que imagina defender.
20-Gostaria de falar mais alguma coisa?
Agradecer o convite para a entrevista e a gentileza da entrevistadora. Desculpar-me pela demora na resposta.
Querido Sidnei, é uma honra tê-lo como convidado. Pelo isso ou aquilo, para mim muito mais por este cuidado especial. Sendo isso, amamos as pessoas, pois que amamos as palavras que constituem cada um, enquanto semelhantes, enquanto diferentes, numa mesma raiz. Seja sempre bem vindo neste espaço e nas minhas palavras, que já se fizeram tuas.
Beijo com todas as letras
Adriana Bandeira
SIDNEI SCHNEIDER é poeta, contista e tradutor. Publicou os livros
Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999),
Versos Singelos-José Martí (SBS, 1997) e lança esse ano Andorinhas e outros
enganos (contos). Participa de Poesia Sempre (Biblioteca Nacional, 2001),
Antologia do Sul (Ass. Legislativa, 2001), O melhor da festa I e II (Nova Roma,
2008 e Casa Verde, 2009), Poemas Gravados (Autores, 2009), Moradas
de Orfeu (Letras Contemporâneas, Florianópolis, 2011) e de outras dez
publicações. 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM (1995), 1º lugar
no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS (2003). Participa dos
projetos ArteSESC e Autor Presente e é membro da Associação Gaúcha de
Escritores.
Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999),
Versos Singelos-José Martí (SBS, 1997) e lança esse ano Andorinhas e outros
enganos (contos). Participa de Poesia Sempre (Biblioteca Nacional, 2001),
Antologia do Sul (Ass. Legislativa, 2001), O melhor da festa I e II (Nova Roma,
2008 e Casa Verde, 2009), Poemas Gravados (Autores, 2009), Moradas
de Orfeu (Letras Contemporâneas, Florianópolis, 2011) e de outras dez
publicações. 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM (1995), 1º lugar
no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS (2003). Participa dos
projetos ArteSESC e Autor Presente e é membro da Associação Gaúcha de
Escritores.
quarta-feira, fevereiro 08, 2012
Anos de sempre
Nem falei sobre meu dia.Nem disse poesia.Apenas reclinei a cadeira e já iam meus anos a dizer por mim.Que passa a estrada em solo,o grão que vive a queda...para poder germinar.
Esperança
Quando o corte faz risco em folha, fazendo a réstia do sol nascer na estrada, ainda na madrugada recobre a luz, o trigo.Que o pão há de ser feito aos dias, aos goles, aos anos, para que se doure o caminho a cada vez que nos dizem que isso é nada.
Cedida
Imagino o vestígio do agora, quando depois de tanto,não se falar mais nada.Vulto qualquer na porta de casa,estranho lugar então.Nem saberei dizer que não moro mais onde me procuras, que não sei mais das tuas quenturas e que nem sou eu mesma, enfim.Imagino teu olhar encontrando caminho, buscando esta, à que me cedi.
Arquitetura
Restam as horas primeiras como repetição da voz do sol.Voltar ao que me fez não inteira, terra estranha e passageira, o verso a ser inscrito na mão.E tão sem fim é o primeiro encanto como casa a ser denhada, como parede a ser pintada, única construção.Linhas que nem falam, nem calam.Apenas vez do destino escondido no que não diz não.
Fui
E quase na areia fica gravada a certeza da pequena estada, um pé de mim na areia.A praia ainda deserta fez levar o mar ao descaso e hoje apenas o vento carrega meu embaraço.Estive ali, ali mesmo..onde hoje nem imagino quem era a que se foi.Estive tão perto e tão longe de ser o que nem se achou.Apenas tão rápida... a onda do mar...levou.
Paixão
Para ouvir poesia é preciso a solidão companhia de uma única voz.Mas como sempre são duas...a poesia que me procura é a que se apaixonou.
Vão
Buracos desenham os rios.São as passagens da terra, são as estações primaveras, um tempo que muda por si. Entre os restos...toda a intenção de sumir. Entre os vãos, réstia do existir.
Diálogos
E a casa do amor é todo o tempo que resta...e ela respondeu: sem pressa...porque um dia passa e nem vou mais estar.
Teu cheiro
A rua estreita
deságua
letra curso
pele escura alva
condição da frasepor vir
são calçadas
que me trazem
o livro guardado
palavra perfume
segredo sagrado
toda tua
a respiração que faz
o cheiro existir
Teus olhos
Era tão estranha a verdade, como noite de cheiros e ruídos de antes.Tão estrangeira a imagem que me trazia ao pé do morro.Sorridente com todos os vagalumes presos num vidro grande.E já ia longe o tempo em que esperavas pelas luzes, que esperavas pela verdade.Tão estarnha a notícia que jazia imortal sobre as nuvens.Há quantos anos não existem mais teus olhos?
Freud e José
...Então não sabem nem ler e escrever... Eu? Bem, ando a cata da qualidade disto, quero dizer, de não isso, deste volume de coisas que se agiganta quando deitam na primeira voz. O que imagino, doutor Sigmund é que desejam mas ...desejam tantas coisas! Isso aprendi desde cedo. Existem muitas e muitas... palavras.
É, a dor de estar alheio nunca foi tão desperta assim. Mas o escape, a impaciência dita em desavenças rende alguns silêncios.Costumava brincar com o cachorro mas as crianças não são tão dóceis com eles.Nem mesmo eu. Ah!Como? Não... quero dizer que por mais que me dedique e me esconda em latidos para estar próximo, a ele nada supera sua vida de cão.
Hoje sinto frio de gente, de notícias. Aguento em vidros, como poderia dizer. É, vidros... aquilo que a cada momento quebra-se no chão dos pés, mesmo que seja somente no pensamento.
Esta manhã, por exemplo, lembrei-me dos cânticos, das músicas, dos ensinamentos religiosos. Lembrei-me de Jesus e do quanto inventam coisas. Ora! Jesus nascido de uma virgem? Sem pressa desfio o rosário, porque esta é uma palavra bonita: “rosário”. Deslizo com as mãos... as mesmas de Augusta, quando tive a ver o que seria o ser da mulher.
Nunca aprendi sobre tudo. Nem sei sobre os termos que se poderia. Ah!Uma palavra que não existe ainda. As mulheres, ou melhor, Augusta era rosário.De madrepérolas pela virgem, pela madre, pela raridade que me fiz em ser outro.
Não! Nada de mães, doutor Sigmund. A minha não poderia estar. Era de mim a mais linda de se ler, se soubesse escrever.
De fato Jesus é crucificado no que significa, naquilo que gruda de verdade. A cada coisa esquisita a verdade contida dispara subversiva, invasiva e amiga.É o espírito das coisas, doutor Freud. O espírito das coisas!
Rosário e, ainda, Anunciação. E este era mesmo o nome, todas com A. Ela, erguia sua presença num manto sagrado, renunciando aos feitiços que as tais maquiagens podem fazer. Era a do mercado, dos lagostins. Vinha da praia, disfarçada de gente e, por deus! Eu era um Homem peixe. Sereia, doutor....elas existem.Trazia os peixes do mar, os pequenos em cestas. O tal manto encobria seus olhos verdes e o cabelo que alisava seus quadris até as coxas. Apenas uma vez falou.E se fosse de dizer , certamente, diria todas as coisas do mundo em apenas uma voz. Perguntou-me as horas e, disfarçado, escondendo minha cauda que emergia por sobre o casaco, respondi-lhe serenamente que era hora de estar comigo. Nada disse. Apenas arrastou-me ao seu habitat natural, suas esferas entre a areia e o sal, a brisa primeira que inventou o mar.
Ora doutor...acho que não era analfabeta...acho que nada tem a ver com minha mãe!Tenho apenas 16 anos, doutor Sigmund!... Talvez com o pai. Sempre pensei que ele pudesse, vez ou outra, ser um peixe. Isto tranqüilizou-me quando voltei da praia com a leve sensação de nunca mais.Uma espécie de descrença ou esperança que, ao bem da balança é quase a mesma verdade.Depois do mar todo, da mulher e das palavras que nunca vou dizer, vim neste pensamento, se morro ou arrebento em cada próxima vez. Não calar ou dizer, escrever e me ler. Morrer e nadar. E nadar... e morrer.
Ah!Sim doutor Sigmund... Mas por que motivo se despede assim? Mas todo o final da sessão deve ser desta forma?
Um silêncio de voz carece cuidado. A delícia do olhar diz do outro lado:
- Adeus, José. Nadar!
-Até quando doutor? Até quando?
-Para sempre, até a próxima primeira vez. A propósito... para meus arquivos: qual seu sobrenome?
-Saramago, doutor Freud!...Saramago... Até mais!
(Adriana BAndeira)
quinta-feira, dezembro 15, 2011
música de menina
É o barulho das xícaras ainda extintas, no tinir das flores na chuva.Era o verão das madrugadas,as janelas abertas nas calçadas,compartindo o antes e o depois de dormir.São ainda os primeiros vestígios,copos,luas,cadeiras,vestidos que me fizeram nascer menina.Ah!Volto aos utrensíliuos quando a dor cega minha cantiga.
Busca
...um eu te buscará, mesmo que distante!Um eu te trará de volta, ainda que antes, nem saibas que eu te quer.Um par de velas, um leito, um verbo em relevo e deito...na terra para te tocar.Sou apenas um dos cais.
Dia de chuva
O encanto das sombras cercou-me impunemente buscando a luz que nem habitava em mim.A luz é sempre da rua, das passagens obscuras, recantos de onde verte a palavra .Por hora ressentida e inquieta convivo com isso, este tecido escuro que me persegue.Por vezes some, adormece e é quando eu...planto terra,esparramo grãos.
Conceder-se
Concedo-me o pouco da graça, letra intacta e suspiros em som.Concedo-me a solidão imaginada, em que me falto e à mim cala, qualquer outra voz.Dou-me, ainda que tardia, a escutar as luzes que me vasculham, escuridão.Amo-me ainda que pouco, ainda que os restos de uma razão.Se for tarde, que me procurem as horas para reclamar e dizer diferente.Sendo cedo, que me dêem a angústia da espera, pequenas paixões.Sendo a hora, a certa estrada, que eu me ceda às raízes desterradas, para plantar-me nova e abrir botão. Que eu volte a dizer que amo, ainda hoje, nascida do chão.(Adriana Bandeira)
domingo, novembro 13, 2011
sexta-feira, novembro 11, 2011
Amor proibição
Na mala tuas pequenas dores.Na minha mão a falta da tua pequena canção.Os filhos...nos partem para sempre!
Restos
Na sala o barulho de antes.O passo sagrado vestido de corredor.Lua,fonte de gesto...te quero em vestígio de amor.
Sem perdão
Juntei as uvas colhidas estranhas, porque o vinho me silenciou palavras.Colhi a madrugada em verso de quando segurava estrelas, com as primeiras manhãs de lua que não perdoa a paixão.
Passageira
Os pingos plantaram o dia na palma da terra aquecida, linha cortada desenhando o chão.Somos o que nos desenha no verbo, só chuva de verão.
Carrapicho
Na dobra do vestido uma única letra guardada.Ela gruda estranha , alada e nem parte sem esta dor. Já, agora, foi.
Tempo das Flores
quinta-feira, outubro 13, 2011
Resposta para a barca
E se o risco fundou a palavra e vertendo água decifrou o rio....queria a inscrição da voz tardia que deu nome ao que se fez.
quarta-feira, outubro 12, 2011
Despedida
Quando até a palavra dói...se sangra mais do que deveria.Ou se morre ou se nasce na despedida.
sábado, outubro 08, 2011
Desenhos
Quando desenhei tuas mãos, já era tarde.Mas somente o tempo da noite faz sombra de riscar paredes.
quinta-feira, outubro 06, 2011
quinta-feira, setembro 29, 2011
Casa de poeta
quarta-feira, setembro 28, 2011
Para o barqueiro da terra além mar
O corpo da palavra é toda a poeria que o vento espalha.Corpo da palavra é tudo o que já foi.
terça-feira, setembro 27, 2011
Palmo de terra
leituras
Estava com a roupa da morte que se extingue na letra.Estava sem o ar das primeiras vezes, sem nascer embora nascida.Estava sem ser lida, quando me escolheste.
Andarilha
O tempo mudou os retratos, arrumou roupas no armário, despediu-se de intenções.A palavra buscou-me pela mão e saímos para nunca mais voltar.Ausentes para sempre, do mesmo lugar.(adriana bandeira)
segunda-feira, setembro 26, 2011
estranhas palavras
Se aos poucos desaparecemos e nem mais sentimos mais do que dor.Se aos poucos as palavras surgem estranhas,mortificadas pela distância, de uma vez só. É pela falta que o desejo instalou em nós e existimos ainda, não tão sós.
sexta-feira, setembro 16, 2011
Seguimento
Dizem os grãos que a melhor palavra nasce na terra cavada com a falta de existir.Falam os que germinam que nada nasce antes da hora, depois da demora, nada antes de prosseguir.
quinta-feira, setembro 15, 2011
Nome
Chama-se resquício a parte pequena que entalha, a forma efêmera da palha ou o brilho da pequena luz.Chama-se de resto o olhar que some nos olhos de quem recebe...a primeira e última letra que nunca cessa de dizer.
Ceia
Rápido demais
as rendas
esvaziem as gavetas, as caixas,os versos.esvaziem os recados porque todo sinal é incerto.o vazio permite a ternura,forma doce de partitura que compõem a melhor canção.Ouçam as queixas, as gueixas...As prendas, quando amam, vão ao encontro: oceano
quarta-feira, agosto 31, 2011
desexistir
Basta algumas horas para que se vá o barco com todo o sonho e mar.Alguns instantes para irmos dele para sempre, para mais.
sábado, agosto 13, 2011
mentiras
É sem verdade minha estranha morada.As paredes caíram e só o vento desenha a quietude do canto.Tão mentirosa minha força maior, tão pequena e insana que no frio medonho invento palavras e minha pele se desfaz aos anos.
quinta-feira, agosto 11, 2011
Seguindo
perdendo se acaricia
o que segue em rios
o que passa
o que se viu
ou nem tanto
nem existiu
ganhando
se fala demais
se grita
e perdoa
e ri a toa
como se fosse para sempre
o que ainda nunca vem
seguindo se recebe
o que nem ganha nem perde
as tardes
os dias
os anos
de abriu
em abril.
o que segue em rios
o que passa
o que se viu
ou nem tanto
nem existiu
ganhando
se fala demais
se grita
e perdoa
e ri a toa
como se fosse para sempre
o que ainda nunca vem
seguindo se recebe
o que nem ganha nem perde
as tardes
os dias
os anos
de abriu
em abril.
aprendendo a falar de amor
na luz
toda
a discreta
é mirada
na falta
nem tudo
é espera
do olhar
da fala
toda
a discreta
é mirada
na falta
nem tudo
é espera
do olhar
da fala
segunda-feira, julho 25, 2011
poeminha a dez mãos
Bicicleta é susto que anda, chocolate é doce de festa, bombons...minha promessa.Assinado: Anita e Adriana
Fala da escrita
Se resolvo,moro na razão errada.Indecisa,calo a verdade de nada.Por vezes escrever...é a única palavra falada.
domingo, julho 24, 2011
Todo os dias
Temos uma simples reparação.O dia nos atravessa inconsciente, marcando sempre, a próxima condição.Somos a última invenção.
Palavra não toda
Dizem os gestos
que se fosse toda
a palavra nem seria metade
mas o único possível
incesto.
que se fosse toda
a palavra nem seria metade
mas o único possível
incesto.
Palavra magia
Não pergunte
se já vais.
Nem assenta
a história tua
palavra magia.
Que estranho lugar é este
...das despedidas.
se já vais.
Nem assenta
a história tua
palavra magia.
Que estranho lugar é este
...das despedidas.
Vidro embaçado
Respiração de vitral aquece o sono,como sonho de caixa que desenha um coração na janela.Respiração de gente nem sempre não é de quem já morreu.
Pela primeira vez
Quero o que se constrói,o que indiferente se funda,quando da primeira vez.Quero morrer costurando palavra, roupa do frio,tecido da casa.Nem pela estação nem pelo gosto, nem pelo gesto olhar.Mas pelo tempo que passa e não pára, que estanca e não segura a própria mirada.
quinta-feira, julho 14, 2011
poeminha a quatro mãos
Para Anita chiquita,pecosa,xuxosa...Para a Anita chila ...minha palavra escrita em: perfume,batom,creme,xícara,chocolate,boneca,maclanche,boneca do sábado animado,livro da cigarra e a formiga...assinado...Anita!
quarta-feira, julho 13, 2011
deslealdade
Receio em esperas que ordene o cuidado: amor sem tato, resta olhares e ouvidos atentos.Censuras! Ainda nua,sangro minha falta de lealdade, rua,esfinge,verdade que prepara sempre o que vem depois.
segunda-feira, julho 11, 2011
Vida curta
Meu pé inchado que dá gosto não dançar.Fui forrozeá e gastei um osso que nem vaca, que nem porco, quando esconde a hora da "carneação".Encosto minha barriga que mexe, meu peito que esquece e vou dormir de tanto frio.Nasci sem ninguém saber que morri.
Lininha do forró
Vozes: o marcador vozes representa várias falas, de outros tantos.
Lininha do forró
Vozes: o marcador vozes representa várias falas, de outros tantos.
Depois do fim do mundo
Recolho o terço enrolado, eu que nem sou de rezar! Guardo num papel de seda, apaziguado como sendo meu primeiro ato de fé.Percorro ainda alguns lugares e recolho sapatos, uma garrafa e um livro.Tudo sobreviveu depois da última explosão do mundo.
Mudança
A rua nem me traz.Mas venho ainda com as flores de antes, como despida de chances na intenção de mudar.A nua, mora ali, onde ninguém mais.
domingo, julho 10, 2011
TEAR
Aberta a folha tecido, leve suspiro que a agulha inventa.Desenha os olhos, o ventre , a voz que sente de algum lugar suspirar.Penélope não desmancha! Só borda na noite o avesso, pelo que, à ele, " te ar".
quarta-feira, julho 06, 2011
Poemas de rua...a cidade em mim: colonização
Ruídos de antes
Assombra a voz
que desata o rio.
É de restos a língua
da pátria descalça.
Ouço segredos da mata,
numa mistura de pele
e mar.
Ainda o estalo da casa
rezando missa, matando gente
para os animais.
Tempo da Enunciação
Fui colonizada, importunada pela estrada esquisita que sangra ainda o ventre do mês. Concebida na ordem estranha que determina uma, a cada vez. Por hora escondida ,ouço homens falando sobre terras, segredo de guerra.Ainda pronunciam meu nome como parte de acordo, trabalho do sonho, para dormirem em paz.
Palavra de índio
Tínhamos um segredo. Não seríamos os únicos no infinito azul da água e do céu. Revelado, nas folhas que surgiram do riso alado, reverenciamos a verdade incansável da primeira invasão.Hoje ainda os gritos e a palavra, que carregamos na pele da mão.
Adriana bandeira
Abril 2011
Sinal de nascença
Recolho do braço o relógio do pai .Já não o tenho mas está ali, a marcar.Na hora do sempre açoitando negro fujão.Só não entendo as roupas que lavo, o canto que falo, sem calar.Tão longe de casa, pele escura sem marca.Construindo estrada que não tem perdão.
Adriana Bandeira
Abril 2011
Dia de fala
A fome mata o amor. O rio acorda e leva e trás. Abre o bicho no meio que a carne se aproveita mais.Olha nos olhos que é para não ter covardia.Hora do descanso, do desfecho, da folia.A Nega prepara o azeite.Torresmo do bicho morto na enchente.Ladrão?Eu sou o carneador, o amador do cheiro de gente.
Adriana Bandeira
quinta-feira, junho 30, 2011
Estrada de Ferro, olhos da construção...( continuação)
Se a violação plantava no ventre,também erguia o verso transparente, como a água primeira que encheu os pulmões.Carregava como traço, firme compasso,a ternura que falava outra língua acudida, enquanto manchada de puta, mulher, vadia.O pai percebia a evolução da barriga e a dor da mãe nem falava, nem anunciava, nem sorria.Apenas num dia olhou-me com tanto amor que quis crer o que na verdade nasceu depois: tens novidade, disse ela, esta que abriu a estrada e que nunca mais volta sem dor.Roupas e panelas no pequeno riacho, eram recriadas no tacho, gamela que recolhia o suor das tardes e dos lençóis.O ferro da rasura, cantando múscia em dó de duas, as migalhas do ruivo inglês.Andou em círculos e me chamou: sei que o filho é do Engals.Disse que sim e que não.O filho era do trem que viria, um dia, como o fez.
segunda-feira, junho 27, 2011
uma vez
Gosto de cheia de rio que traz barco, seio,traço verdade que não se contem.Gosto do que trasborda, refaz caminho,costura parto que faz nascer.Mas, por alguma vertentente, cheia de rio acontece só uma, a cada vez.
quinta-feira, junho 23, 2011
Tempo de árvore
Ouça-me bem, que nos abre a revolta em tantas partes, que por hora no tempo se fecham também, o que do sonho antes nos inventou.Repara que ao assassinar, " drogar", atam-se nós de obediência que nunca morrem se não os findamos...que em parte só revolucionamos quando nos pomos a amar os outros, nas suas vozes de antes e depois.Ah!Então nada há de ser obediência quando a ordem da ciência é pura morte da invenção!Plantar nem é tecnológico pois que faz do tempo uma estação.Somos a lei que deseja um rastro, fio espaço de colheita em rio de cheia,somos as macieiras que nesta época anunciam um saber.
Noite sem fim
A longa noite dos dias, as horas da falta de sonho, de ventre que sinta.São as mesmas da primeira ferida que me fez morte e vida,nascer como qualquer palavra, como uma esquina estrada de antes depois de mim.
Desenha-me
Beija-me onde me dói a verdade, palavra que me fez estranha,diferente e pertencendo a ti.Beija-me onde desenhas meu corpo com o que me falta, o que me fazes ficar ou partir.Beija-me apenas...para que eu possa existir .
Eu mesmo falando
E quando eu apanhava eu dava...quando ardia eu sangrava o Outro, a cada nova aparição.E sempre, que não me engane nenhum doutor, nada disso vai passar.Sou esta pequena solidão.Ah!, sim...e sou também o que quiser de mim.
Antes de viver, 12 anos.
(adriana bandeira)
PS:o marcador vozes é resguardado a este trabalho em que escrevo como outro ou outra, numa tentativa de registrar vozes tantas,
de qualquer um.
Antes de viver, 12 anos.
(adriana bandeira)
PS:o marcador vozes é resguardado a este trabalho em que escrevo como outro ou outra, numa tentativa de registrar vozes tantas,
de qualquer um.
a alma do pão
Sobre o livro,
a mesa.
Sobre a mesa,
a certeza
de que o pão nunca
esteve fora
da alma.
a mesa.
Sobre a mesa,
a certeza
de que o pão nunca
esteve fora
da alma.
escolha
Ainda que me falta a lembrança,a liberdade,a gratidão... que nunca me falte a rima, o som, a esquina em que possa ao menos dizer sim ou não.
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