sábado, fevereiro 25, 2012

O AMOR É DO CUIDADO, PELAS PALAVRAS, PELA PRÓXIMA VEZ - Falando destas coisas com o poeta Sidnei Schneider

 

1-Preciso começar esta entrevista perguntando sobre o impronunciável. Talvez pelo que me faz lembrar da forma como nos conhecemos, em que existia uma pronúncia letra por letra do nome próprio. Pois bem, o que seria o impronunciável na poesia?

Sidnei com “d” mudo e tudo com “i”? É, gosto de me reconhecer quando recebo um livro autografado (risos). Penso que a poesia vai ao limite da aproximação da linguagem com o real. O poeta quer porque quer o impossível, dar a ver o mundo e as relações humanas usando apenas uns vinte e poucos símbolos, o alfabeto. Por isso rejeita a expressão gasta, opera desvios na linguagem corrente, usa diversos recursos que a língua oferece. Como se pode concluir, alguma coisa sempre ficará de fora, permanecerá não dita, porque o real e a linguagem não são a mesma coisa. Posso descrever uma fruta, mas não me alimentar da palavra bergamota. Como estou falando com uma psicanalista, talvez devesse acrescentar que, evidentemente, conforme Freud já apontava, também na psique humana o manancial do inconsciente não se esgotará, por mais que o transformemos em literatura ou objeto de análise.


2-Este impronunciável faz parceria letra a letra, palavra a palavra. O que pensas disto?

Toda a letra ou palavra, todo o significante, isolado ou em relação ao que há ou não há a sua volta no texto, é significativo, nas suas múltiplas possibilidades de leitura, especialmente na poesia. O vazio não é desprezado, as chamadas entrelinhas falam e colocam-se como espaço aberto à participação do leitor. Algo vai restar não dito, porque a linguagem não dá conta de se equiparar completamente ao real da realidade, do mesmo modo como não simboliza completamente o real do inconsciente. Creio que temos aí pontos de encontro interessantes entre poesia e psicanálise.


3-Nisso incluímos os contrários, contidos nas raízes dos vocábulos... Assim tudo muito igual ao que faz uma escuta em psicanálise. A negação como forma de falar de algo. A poesia se coloca a favor disso por, justamente, testemunhar o que não é acessível, o que é construído na hora, pelo leitor. Assim, qual a semelhança ou diferenças entre poetar e analisar-se?

Sim, a lógica aristotélica, que dizia que se A é A, então A não pode ser não-A, excluída uma terceira possibilidade, só serve para casos mais simples e limitados. Amor e ódio, vida e morte são faces da mesma medalha, compõe uma unidade dialética e podem se transformar um no outro ao menor sinal, à menor mudança. Assim como a atração e repulsão das partículas que dão existência ao átomo ou a gravidade centralizante e a fusão nuclear explosiva que “equilibram” uma estrela, o pensamento só existe a partir de contínuas contradições e sínteses em movimento. A palavra, da mesma forma, é unidade contraditória, para além das modificações de suas raízes etimológicas. João Cabral de Melo Neto, em Dúvidas apócrifas de Marianne Moore, trata da questão: “Como saber, se há tanta coisa/ de que falar ou não falar?/ E se o evitá-la, o não falar,/ é forma de falar da coisa?” Num poema, cada expressão ou palavra já é escolhida pelo poeta objetivando uma matriz ampla de significados, embora, obviamente, outros lhe escapem. O leitor, que vai ao poema com suas vivências e leituras, sua consciência e inconsciência, termina de criar o poema que o autor, muito modestamente, só esboçou. Assim, uma obra admite múltiplas e variadas leituras, embora dela não se possa extrair leituras quaisquer, como sugeriu Umberto Eco. Podem haver leituras que não correspondem ao que um texto, enquanto objeto artístico acabado, tem a oferecer através dos seus signos ou de suas elipses. Eventualmente podem ser úteis se trazidas para a análise clínica, mas fogem completamente do campo da literatura. Porque são leituras particularíssimas, somente daquela pessoa, impossíveis de serem aceitas pelos outros. Assim, se um psicopata lê os versos de Camões “Amor é fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói e não se sente” e interpreta que eles são neonazistas e o autorizam a abrir fogo contra a multidão, essa leitura, do ponto de vista do seu histórico pessoal, deve fazer algum sentido, mas é impossível de ser compartilhada socialmente, por mais explicações que se desse para justificá-la. Ou seja, saímos do campo da literatura, e entramos no dá psicanálise, sendo que o leitor não precisaria ser um perturbado mental, mas apenas uma pessoa comum fazendo uma leitura demasiado particular de um texto qualquer.


4-Tua escrita é encantadora, revelando espaços inusitados enquanto traz marcado o cuidado com a palavra, com a significância. Prefiro chamar isso de cuidado com o tempo, quando apresentas um ritmo de construção definido pela cautela, pelo rigor poético. Qual tua formação, teus conhecimentos nisto que segue como campo da palavra?

Esse elogio, “encantadora”, eu não tinha recebido ainda (risos). Sei lá quais são os meus conhecimentos, prefiro bater na porta do desconhecido. Li e leio de um tudo, muita poesia, um tanto de ficção, estudos críticos, passei por um curso de Letras, fiz teatro, atuei na política. Não só literatura me interessa, nem apenas filosofia, história, economia, antropologia, as chamadas ciências humanas. Gosto de geologia, paleontologia, astrofísica, química e física quânticas, etc.


5-Já perdi a conta de quantas vezes tu me puxaste as orelhas (heheheh). E quando gostas do texto... pior ainda! Lembro de um personagem, meu cortador de mato.... Então tua paixão pelo texto, teu envolvimento arrebatador é virulento, no sentido de que ficamos pensando, pensando... se fomos negligentes com aquele personagem, se não o qualificamos, se não o apresentamos como devia (heheheheh). Isso é fantástico porque, a mim, faz referência a esta existência, em cada um, de muitos e a escrita faz valer isso, da melhor forma ou da pior. O que me dizes?

Bem, nunca pretendi puxar orelhas de ninguém, não é esse o meu foco. Quando me pedem uma opinião sobre determinado texto, se tenho tempo e condições eu dou. Digo sempre que não desejo a concordância do escritor, mas provocar o seu debate interno, destravar a sua discussão quando já não consegue pensar nada criticamente novo sobre o que produziu.  Uma vez que opinei algo, o escritor necessariamente vai se confrontar com isso, para discordar, concordar, pensar outra coisa ou eleger as razões do acerto que fez e eu não percebi. Imagino que é como ter a experiência da crítica pública antecipada, o que talvez possibilite ampliar a consciência sobre a própria linguagem. Não acredito que a poesia ou a ficção possam ser uma espécie de vômito do inconsciente. É necessário muito trabalho, aproveitar essa matéria inicial até transformá-la em arte, dar duro. Não confiar na espontaneidade, de que assim se alcançaria um bom resultado. O espontâneo é uma escrita imediata, ainda pouco endereçada ao outro enquanto objeto estético, ainda não totalmente construída com esse fim, sendo uma possível exceção a isso rara, pouco frequente.


6-Acrescento que a forma como abordas o texto alheio faz esta báscula: texto próprio, texto do Outro. Este cuidado com que determinas uma aliança legítima entre privado e público: o texto tem um autor mas...é do Outro. O que achas disso?

Muitas coisas que podem satisfazer o escritor, que possui todas as conexões e referências, igualmente podem não fazer sentido nenhum para a recepção. O poeta Paulo Henriques Brito escreveu em Um pouco de Strauss: “Não escrevas versos íntimos, sinceros,/ como quem mete o dedo no nariz./ Lá dentro não há nada que compense/ todo esse trabalho de perfuratriz,/ só muco e lero-lero.//(...)// Esquece o eu, esse negócio escroto/ e pegajoso, esse mal sem remédio/ que suga tudo e não dá nada em troca/ além de solidão e tédio:/ escreve pros outros.// Mas se de tudo que há no vasto mundo/ só gostas mesmo é dessa coisa falsa/ que se disfarça fingindo se expressar,/ então enfia o dedo no nariz, bem fundo,/ e escreve, escreve até estourar. E tome valsa.” Escreve-se para alguém, para um público, desde um público, “Le style, c’est l’homme”, o estilo é o homem (faz o homem), mas vem do outro: “o homem a quem nos dirigimos”, acresceu Lacan, “apenas para alongar a sentença”. “Le style, c’est l’Autre”, diria ele, apesar de nunca ter feito essa brincadeira com a frase originalmente proferida em 1753 pelo naturalista Leclerc de Buffon e utilizada depois por Karl Marx para se defender da censura prussiana, sendo a nova de Haroldo de Campos.

enriques Brito

7-Estes dias falávamos sobre o Amor pelas palavras. Há um certo encantamento, envolvimento que faz as vezes de paixão...pela palavra. Nelas não há limites, podem ser o que imaginamos, podem trazer vestígios de lembranças ou lugares não visitados. Então lembro Freud, naquilo que apontava como estranho familiar, sua perspicácia para dizer sobre as revisitações na fala. O que seria, na escrita, um estranho familiar?

Poetas e ficcionistas, talvez mais que os leitores, sentem amor pelas palavras, morrem de amor por elas. Mas um criador não pode simplesmente morrer de amor pelo que enfileirou no jorro inicial, pelas suas próprias palavras, pois corre o risco de satisfazer, e de modo pouco digno e artístico, apenas a si mesmo. Um poema, um conto, um romance exigem bem mais. Da mesma forma como não é corriqueiro se conseguir expor com exatidão e clareza a complexidade do que se está pensando ou sentindo a cada instante, não é tão imediato traduzir em um objeto de poesia as ideias, imagens e sons das palavras que se movimentam na cabeça do poeta. É preciso trabalhar muito, tanto para melhor expressar o que se pretendeu como para chegar ao que há de desconhecido e que não se revelou antes. Existe a necessidade de apresentar aos leitores, e inicialmente a si mesmo, algo esteticamente interessante e bem acabado. Nesse sentido, escrever causa prazer, mas também exaustão e até dor. Um escritor brasileiro da atualidade, nesse momento não recordo quem, disse que escrever é uma atividade inglória, pois mais do que escrever a atividade do escritor é cortar, cortar palavras, períodos, textos inteiros que vão parar no lixo ou são deletados, nos quais havíamos colocado tanto, independente de serem autobiográficos ou não, enfim, que cortar é sempre cortar na carne e isso dói. Não amar demais as próprias palavras, saltar para fora do círculo narcísico, faz bem à literatura. Claro, há prazer também, no meu caso principalmente quando o texto está nascendo e quando o dou por finalizado, depois de muitos cortes e modificações. O excessivo amor por qualquer coisa que se expeliu bordeja o amor pelas fezes. Podemos mais do que isso, oferecer nosso melhor.

Se, desde Freud, o sujeito não é mais visto como de todo apreensível, a retomada obsessiva dos mesmos temas ou imagens por um escritor, tão comum na literatura, remete ao estranho (oculto) e familiar (conhecido). Olhar para o próprio texto depois de muito tempo, sem lembrar necessariamente de todo o percurso de trabalho que o tornou o que é, pode causar essa impressão de estranheza e familiaridade, de ter sido um outro o seu autor. O estranho-familiar faz pensar numa arte que não causa somente prazer no receptor, como Freud havia proposto inicialmente, mas instigação e perturbação, ocorridas durante sua visita ao Moisés de Michelangelo. Para mim é uma questão interessante e não totalmente resolvida, porque essa perturbação acaba redundando, mais cedo ou mais tarde, se a obra atinge a arte maior, em motivo de prazer estético. Admiramos estupefaciados, por exemplo, uma obra francamente horrível como Saturno devorando os filhos, o deus do tempo pintado por Goya. Um poema de Brecht revela a busca do estranhamento enquanto estética: “Sob o familiar, descubram o insólito./ Sob o cotidiano, desvelem o inexplicável./ Que tudo que é considerado habitual/ Provoque inquietação./ Na regra, descubram o abuso./ E sempre que o abuso for encontrado/ Encontrem o remédio.” (A exceção e a regra). De todo modo, penso que essa pergunta melhor caberia aos psicanalistas.


8-Amor pela palavra... amor pela cidade...amor por uma mulher...quais as diferenças?

No caso da tua enumeração, são todas femininas. Amo também, desde adolescente, a realidade: por pior que seja quero estar bem próximo, saber dela. Isso não tem a ver, necessariamente, com escrita realista estilo século 19, já que toda ficção é um universo inventado, uma mentira. Mas toda boa ficção, seja fabular, realista, científica, fantástica ou qualquer outra, é tanto melhor quanto mais consegue dar, através dos liames entre o mundo criado e o real, pela mentira uma verdade.


9-Sei de teus conhecimentos sobre a cultura grega e o quanto em alguns textos isso aparece. Como o poema “Prometeu”. Poderia falar um pouco disso?

A escritora e professora Jane Tutukian, ao apresentar meu livro de poesia Quichiligangues (2008), sugeriu que meu interesse pelo mundo grego devia ser consequência do curso de Letras. Sem desdizê-la, eu poderia afirmar que é anterior. Quando criança, meu pai me contou a história do rio em que não se entra duas vezes, achei fantástica. Mais tarde descobri que era de Heráclito e não sei se meu pai sabia do autor. Entre os sete e os dez anos li os doze volumes de uma enciclopédia: a espada de Dâmocles e outros relatos se inscreveram talvez para sempre na minha memória. Na sexta série precisava escolher um livro para leitura. Fiquei entre dois na livraria, o que não escolhi era Prometeu acorrentado, de Ésquilo. A curiosidade permaneceu e mais tarde a satisfiz.


10-A fala, a exposição, a voz... Além de algumas entrevistas podemos assistir tua fala dizendo poesia. É o caso de “Porta”, que se encontra no YouTube. O que isso contribui na construção de um dizer poético?

Acredito que a verbalização do poema pode despertar o interesse de um novo leitor e ajuda na divulgação da poesia. Nos últimos dez anos, mais ou menos, esse tipo de expediente serviu para tirar a poesia do limbo. Multiplicaram-se os saraus, os eventos, os festivais no Brasil inteiro. Posso dizer poemas em público, realizar palestras, dar oficinas, participar de debates, mas para mim não há nada mais produtivo do que a escrita e a leitura silenciosas.


11-O que é campo da fala, para ti?

Não pretendo, visto não ser especialista, mero leitor curioso, abordar essa expressão de Lacan em termos psicanalíticos. Talvez se possa sugerir apenas que a poesia busca desvendar o que não é percebido imediatamente. Se um poeta escreve sobre um pano de chão, poderá tratar das relações de trabalho pelas quais esse trapo passou até chegar a uma determinada casa, lembrar a flor de algodão que um dia ele já foi, etc. Ou seja, a poesia amplia a perspectiva e suspende as certezas do leitor, muitas vezes as do próprio poeta. É claro que há no escritor um processo de escuta (leitura, no sentido amplo do termo) de si mesmo e do outro, que busca o desconhecido: “ouço, como um, aviso/ o que não diz nada/ não como um sino/ mas um sopro”, escrevi há uns vinte anos.

Assim, o campo da fala para a literatura, para a minha pelo menos, é o do silêncio. A observação, a rememoração, a elaboração interna, a escrita e a leitura realizadas na quietude. Não importa que entrem aí a vivência de infinitas falas, intertextualidades oriundas de leituras e diversas artes, etc. Meu campo, minha fala, minha produção advém desse silêncio. Em suma, meu silêncio é minha fala. E como todos sabem, o silêncio fala.


12-Filhos, filhos... És um pai de três. Para mim a maternidade acrescentou possibilidades neste campo da fala. Costumo brincar que a maternidade rompe qualquer significado, sendo uma experiência do REAL, da qual nunca retornamos (eheheheheh). O que é ser pai, para ti?

Depois que me divorciei, após um ano e pouco, meu filho pequeno veio morar comigo. Um pouco mais, veio a filha do meio. Similar a muitas mães, fui um pai solteiro. Curti a função, então socialmente nova, amava e amo meus filhos, e não deixei de fazer o que gostava. Recentemente, minha filha menor, já adulta e universitária, por razões inusitadas, também veio. Tenho dificuldades para fazer muitas coisas, mas recordo que sempre que pintava um problema grande com um dos filhos, instantaneamente eu me mobilizava e era como se soubesse exatamente o que fazer. Por pior que fosse a fatura, ficava alerta e lúcido como uma serpente.


13-Tuas experiências com os índios... O que mais te fez diferença nelas?

Não são lá grandes experiências, mas fiz duas viagens enormes pela Amazônia, uma mais pelo Brasil, a outra adentrando a Amazônia Peruana. Não saí esperando encontrar aldeias intocadas, mas atento às modificações culturais devido ao contato com a nossa civilização. No Baixo Mucajaí, em Roraima, os poucos habitantes, de origem nordestina, pescam de rede ou anzol, mas os yanomammi migrados da Guiana Inglesa não se adaptaram, continuam pescando com arco e flecha. No entanto, a ponta da flecha, originalmente de osso de peixe, agora é feita com alumínio industrial batido em forma de seta, e o fio do arco, a exceção de uma pequena parte de fibras vegetais, é de arame. No Mato Grosso diziam, por brincadeira, que os Uru-Eu-Wau-Wau de Rondônia iam me pegar, mas nem sei se eram mesmo antropófagos, como os Juma. No Acre, próximo ao Rio Juruá, os Kampa fazem beberagens de plantas alucinógenas até surgir o dia atrás das árvores altas, então pegam um espinho e espetam um sapo deixado num cercadinho, e depois espetam em si o leite do sapo, ficando imediatamente sóbrios. Próximo da Laguna de Yarinacocha, em Pucallpa, no Peru, vivem os Shipibo, que fabricam tecidos inacreditáveis, cerâmicas lindíssimas e praticam rituais do yagé em palafitas, com um lugar reservado para o vomitório, que acreditam purificador.


14-O trabalho é o próprio, o que se produz sem contestação. Porém, no que se refere a poesia, sabemos que não dá para sobreviver se contarmos somente com a escrita. O que é para ti o trabalho como produção no mundo e o trabalho que te dá subsistência? Há diferença? Há padecimento?

Vivo dentro de uma equação pré-estabelecida: trabalho com estatística para sobreviver e fico livre para fazer o trabalho que eu quiser em termos de poesia e literatura. Acredito, com Maiakóvski, que poetar é um trabalho.


15-Quais os trabalhos que mais gostaste de fazer? Quero dizer, incluindo oficinas, publicações, palestras...

Em literatura, o que mais gosto é de ler e escrever.


16-E das publicações, qual a que te deu mais gosto?

Quichiligangues, um livro pequeno, teve uma acolhida ao mesmo tempo modesta e extraordinária. Ver impresso minha primeira publicação, uma tradução de José Martí, foi uma grande alegria. Assim como ter bastante gente no lançamento de Plano de Navegação, meu primeiro livro autoral, pois eu temia que não fosse ninguém.


17-Aliás... o que é publicar?

Começar a fazer coisas no mundo com a linguagem da poesia. Ou da ficção: meu primeiro livro de contos, Andorinhas e outros enganos, já está na editora.

18-Já fizeste trabalhos em parcerias, projetos para leitura e escrita, organização de espaços de discussão, etc. Poderias falar um pouco disso?

Produzi eventos de poesia, mas é um fato que, mais ocupado, se escreve menos. Por dois anos estive a frente da produtora do PortoPoesia, mas resolvi me desligar no final de 2008 por discordância quanto a relação conflituosa com organizadores de eventos similares e doei minha parte da produtora aos outros três, depois dois, sócios. Com a artista plástica Anico Herskovitz, organizei duas edições do Poemas Gravados. Dou respaldo à FestiPoa Literária, ao Cidade Poema e a outros eventos. Em 2011, participei do Sport Club Literatura no StudioClio (Prêmio Fato Literário), da III Jornada de Poesia Moderna da PUC-RS, do Cabaré do Verbo na Casa de Cultura Mario Quintana, de coletivas do Castelinho Cultural do Alto da Bronze, da Feira do Livro de Porto Alegre, do Sarau Literário da Zona Sul, viajei pelo interior através do ArteSesc, percorri escolas, etc. Colaboro com a revista Verbo 21, editada pelo escritor Lima Trindade desde Salvador, atendo a convites de periódicos, escrevo apresentações, faço entrevistas, mas decidi me dedicar mais à escrita criativa, deixando um tanto de lado a produção de eventos.


19-Qual a função social do escritor, hoje? E do texto?

O escritor se manifesta como cidadão e principalmente através da sua obra. O texto responde a uma época histórica, direta ou indiretamente, e tanto melhor se está em consonância com ela, apontando para o futuro. Sinteticamente, a função social do escritor é humanizar o mundo através da celebração e da crítica presente nos seus textos, na melhor forma estética que ele consiga atingir depois de dar o máximo de esforço. A velha e entrada em séculos tese da arte pela arte acaba maltratando a arte que imagina defender.


20-Gostaria de falar mais alguma coisa?
Agradecer o convite para a entrevista e a gentileza da entrevistadora. Desculpar-me pela demora na resposta.

Querido Sidnei, é uma honra tê-lo como convidado. Pelo isso ou aquilo, para mim muito mais por este cuidado especial. Sendo isso, amamos as pessoas, pois que amamos as palavras que constituem cada um, enquanto semelhantes, enquanto diferentes, numa mesma raiz. Seja sempre bem vindo neste espaço e nas minhas palavras, que já se fizeram tuas.

Beijo com todas as letras

Adriana Bandeira

SIDNEI SCHNEIDER é poeta, contista e tradutor. Publicou os livros

Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999),

Versos Singelos-José Martí (SBS, 1997) e lança esse ano Andorinhas e outros

enganos (contos). Participa de Poesia Sempre (Biblioteca Nacional, 2001),

Antologia do Sul (Ass. Legislativa, 2001), O melhor da festa I e II (Nova Roma,

2008 e Casa Verde, 2009), Poemas Gravados (Autores, 2009), Moradas

de Orfeu (Letras Contemporâneas, Florianópolis, 2011) e de outras dez

publicações. 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM (1995), 1º lugar

no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS (2003). Participa dos

projetos ArteSESC e Autor Presente e é membro da Associação Gaúcha de

Escritores.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Anos de sempre

Nem falei sobre meu dia.Nem disse poesia.Apenas reclinei a cadeira e já iam meus anos a dizer por mim.Que passa a estrada em solo,o grão que vive a queda...para poder germinar.

Esperança

Quando o corte faz risco em folha, fazendo a réstia do sol nascer na estrada, ainda na madrugada recobre a luz, o trigo.Que o pão há de ser feito aos dias, aos goles, aos anos, para que se doure o caminho a cada vez que nos dizem que isso é nada.

Cedida

Imagino o vestígio do agora, quando depois de tanto,não se falar mais nada.Vulto qualquer na porta de casa,estranho lugar então.Nem saberei dizer que não moro mais onde me procuras, que não sei mais das tuas quenturas e que nem sou eu mesma, enfim.Imagino teu olhar encontrando caminho, buscando esta, à que me cedi.

Arquitetura

Restam as horas primeiras como repetição da voz do sol.Voltar ao que me fez não inteira, terra estranha e passageira, o verso a ser inscrito na mão.E tão sem fim é o primeiro encanto como casa a ser denhada, como parede a ser pintada, única construção.Linhas que nem falam, nem calam.Apenas vez do destino escondido no que não diz não.

Suspiro

Felicidade...é um tempo esquisito, perdido do dito ou não dito...é um lugar do estar.

Fui

E quase na areia fica gravada a certeza da pequena estada, um pé de mim na areia.A praia ainda deserta fez levar o mar ao descaso e hoje apenas o vento carrega meu embaraço.Estive ali, ali mesmo..onde hoje nem imagino quem era a que se foi.Estive tão perto e tão longe de ser o que nem se achou.Apenas tão rápida... a onda do mar...levou.

Paixão

Para ouvir poesia é preciso a solidão companhia de uma única voz.Mas como sempre são duas...a poesia que me procura é a que se apaixonou.

Vão

Buracos desenham os rios.São as passagens da terra, são as estações primaveras, um tempo que muda por si. Entre os restos...toda a intenção de sumir. Entre os vãos, réstia do existir.

Diálogos

E a casa do amor é todo o tempo que resta...e ela respondeu: sem pressa...porque um dia passa e nem vou mais estar.

Teu cheiro

A rua estreita
deságua
letra curso
pele escura alva
condição da frase
por vir
são calçadas
que me trazem
o livro guardado
palavra perfume
segredo sagrado
toda tua
a respiração que faz
o cheiro existir

Teus olhos

Era tão estranha a verdade, como noite de cheiros e ruídos de antes.Tão estrangeira a imagem que me trazia ao pé do morro.Sorridente com todos os vagalumes presos num vidro grande.E já ia longe o tempo em que esperavas pelas luzes, que esperavas pela verdade.Tão estarnha a notícia que jazia imortal sobre as nuvens.Há quantos anos não existem mais teus olhos?

Freud e José



...Então não sabem nem ler e escrever... Eu? Bem, ando a cata da qualidade disto, quero dizer, de não isso, deste volume de coisas que se agiganta quando deitam na primeira voz. O que imagino, doutor Sigmund é que desejam mas ...desejam tantas coisas! Isso aprendi desde cedo. Existem muitas e muitas... palavras.
É, a dor de estar alheio nunca foi tão desperta assim. Mas o escape, a impaciência dita em desavenças rende alguns silêncios.Costumava brincar com o cachorro mas as crianças não são tão dóceis com eles.Nem mesmo eu. Ah!Como? Não... quero dizer que por mais que me dedique e me esconda em latidos para estar próximo, a ele nada supera sua vida de cão.
Hoje sinto frio de gente, de notícias. Aguento em vidros, como poderia dizer. É, vidros... aquilo que a cada momento quebra-se no chão dos pés, mesmo que seja somente no pensamento.
Esta manhã, por exemplo, lembrei-me dos cânticos, das músicas, dos ensinamentos religiosos. Lembrei-me de Jesus e do quanto inventam coisas. Ora! Jesus nascido de uma virgem? Sem pressa desfio o rosário, porque esta é uma palavra bonita: “rosário”. Deslizo com as mãos... as mesmas de Augusta, quando tive a ver o que seria o ser da mulher.
Nunca aprendi sobre tudo. Nem sei sobre os termos que se poderia. Ah!Uma palavra que não existe ainda. As mulheres, ou melhor, Augusta era rosário.De madrepérolas pela virgem, pela madre, pela raridade que me fiz em ser outro.
Não! Nada de mães, doutor Sigmund. A minha não poderia estar. Era de mim a mais linda de se ler, se soubesse escrever.
De fato Jesus é crucificado no que significa, naquilo que gruda de verdade. A cada coisa esquisita a verdade contida dispara subversiva, invasiva e amiga.É o espírito das coisas, doutor Freud. O espírito das coisas!
Rosário e, ainda, Anunciação. E este era mesmo o nome, todas com A. Ela, erguia sua presença num manto sagrado, renunciando aos feitiços que as tais maquiagens podem fazer. Era a do mercado, dos lagostins. Vinha da praia, disfarçada de gente e, por deus! Eu era um Homem peixe. Sereia, doutor....elas existem.Trazia os peixes do mar, os pequenos em cestas. O tal manto encobria seus olhos verdes e o cabelo que alisava seus quadris até as coxas. Apenas uma vez falou.E se fosse de dizer , certamente, diria todas as coisas do mundo em apenas uma voz. Perguntou-me as horas e, disfarçado, escondendo minha cauda que emergia por sobre o casaco, respondi-lhe serenamente que era hora de estar comigo. Nada disse. Apenas arrastou-me ao seu habitat natural, suas esferas entre a areia e o sal, a brisa primeira que inventou o mar.
Ora doutor...acho que não era analfabeta...acho que nada tem a ver com minha mãe!Tenho apenas 16 anos, doutor Sigmund!... Talvez com o pai. Sempre pensei que ele pudesse, vez ou outra, ser um peixe. Isto tranqüilizou-me quando voltei da praia com a leve sensação de nunca mais.Uma espécie de descrença ou esperança que, ao bem da balança é quase a mesma verdade.Depois do mar todo, da mulher e das palavras que nunca vou dizer, vim neste pensamento, se morro ou arrebento em cada próxima vez. Não calar ou dizer, escrever e me ler. Morrer e nadar. E nadar... e morrer.
Ah!Sim doutor Sigmund... Mas por que motivo se despede assim? Mas todo o final da sessão deve ser desta forma?
Um silêncio de voz carece cuidado. A delícia do olhar diz do outro lado:
- Adeus, José. Nadar!
-Até quando doutor? Até quando?
-Para sempre, até a próxima primeira vez. A propósito... para meus arquivos: qual seu sobrenome?
-Saramago, doutor Freud!...Saramago... Até mais!
(Adriana BAndeira)

quinta-feira, dezembro 15, 2011

música de menina

É o barulho das xícaras ainda extintas, no tinir das flores na chuva.Era o verão das madrugadas,as janelas abertas nas calçadas,compartindo o antes e o depois de dormir.São ainda os primeiros vestígios,copos,luas,cadeiras,vestidos que me fizeram nascer menina.Ah!Volto aos utrensíliuos quando a dor cega minha cantiga.

Busca

...um eu te buscará, mesmo que distante!Um eu te trará de volta, ainda que antes, nem saibas que eu te quer.Um par de velas, um leito, um verbo em relevo e deito...na terra para te tocar.Sou apenas um dos cais.

Dia de chuva

O encanto das sombras cercou-me impunemente buscando a luz que nem habitava em mim.A luz é sempre da rua, das passagens obscuras, recantos de onde verte a palavra .Por hora ressentida e inquieta convivo com isso, este tecido escuro que me persegue.Por vezes some, adormece e é quando eu...planto terra,esparramo grãos.

Perdoa-me

Perdoa-me por morrer de prazer,de rir, de querer.Perdoa-me por morrer!

Conceder-se

Concedo-me o pouco da graça, letra intacta e suspiros em som.Concedo-me a solidão imaginada, em que me falto e à mim cala, qualquer outra voz.Dou-me, ainda que tardia, a escutar as luzes que me vasculham, escuridão.Amo-me ainda que pouco, ainda que os restos de uma razão.Se for tarde, que me procurem as horas para reclamar e dizer diferente.Sendo cedo, que me dêem a angústia da espera, pequenas paixões.Sendo a hora, a certa estrada, que eu me ceda às raízes desterradas, para plantar-me nova e abrir botão. Que eu volte a dizer que amo, ainda hoje, nascida do chão.(Adriana Bandeira)

domingo, novembro 13, 2011

sexta-feira, novembro 11, 2011

Amor proibição

Na mala tuas pequenas dores.Na minha mão a falta da tua pequena canção.Os filhos...nos partem para sempre!

Restos

Na sala o barulho de antes.O passo sagrado vestido de corredor.Lua,fonte de gesto...te quero em vestígio de amor.

Sem perdão

Juntei as uvas colhidas estranhas, porque o vinho me silenciou palavras.Colhi a madrugada em verso de quando segurava estrelas, com as primeiras manhãs de lua que não perdoa a paixão.

P


Pergunte ao pó de onde veio a palavra.E ele sem dizer muito apenas faria suspiro!

Passageira

Os pingos plantaram o dia na palma da terra aquecida, linha cortada desenhando o chão.Somos o que nos desenha no verbo, só chuva de verão.

Minha casa

Hoje reparto a estrada em verso e nada. Condição de toda morada.

Carrapicho

Na dobra do vestido uma única letra guardada.Ela gruda estranha , alada e nem parte sem esta dor. Já, agora, foi.

Tempo das Flores


Agora há pouco...e nem é hoje nem ontem. Apenas cheguei com os ramos e flores...e já neste tempo louco, nem existiam mais os campos.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Resposta para a barca

 E se o risco fundou a palavra e vertendo água decifrou o rio....queria a inscrição da voz tardia que deu nome ao que se fez.
 

quarta-feira, outubro 12, 2011

Despedida

Quando até a palavra dói...se sangra mais do que deveria.Ou se morre ou se nasce na despedida.

sábado, outubro 08, 2011

Desenhos

Quando desenhei tuas mãos, já era tarde.Mas somente o tempo da noite faz sombra de riscar paredes.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Sagrado

 
Carrego qualquer coisa que não digo,verso antigo que já nem esqueci mais.(adriana bandeira)

quinta-feira, setembro 29, 2011

Casa de poeta

 
Quero cultivar o acaso, a bagunça, o despreparo.Quero cultivar a terra, antes mesmo de plantar.Quero só! A palavra que registra o tempo, que passa sem parar.(adriana bandeira)

quarta-feira, setembro 28, 2011

Para o barqueiro da terra além mar

O corpo da palavra é toda a poeria que o vento espalha.Corpo da palavra é tudo o que já foi.

terça-feira, setembro 27, 2011

Palmo de terra

 
E na rua...abriram-se as flores, nas casas as roupas de dormir. Há que se ter um palmo de terra para o corpo, enfim.Há que se ter um sonho sem pressa, sem o não de cada sim.

leituras

Estava com a roupa da morte que se extingue na letra.Estava sem o ar das primeiras vezes, sem nascer embora nascida.Estava sem ser lida, quando me escolheste.

Andarilha


  O tempo mudou os retratos, arrumou roupas no armário, despediu-se de intenções.A palavra buscou-me pela mão e saímos para nunca mais voltar.Ausentes para sempre, do mesmo lugar.(adriana bandeira)

segunda-feira, setembro 26, 2011

estranhas palavras

Se aos poucos desaparecemos e nem mais sentimos mais do que dor.Se aos poucos as palavras surgem estranhas,mortificadas pela distância, de uma vez só. É pela falta que o desejo instalou em nós e  existimos ainda, não tão sós.

Para ti,amor:


 Éramos tantos, quando segurei tua mão.Sou única e tua, desde então!

sexta-feira, setembro 16, 2011

Seguimento

Dizem os grãos que a melhor palavra nasce na terra cavada com a falta de existir.Falam os que germinam que nada nasce antes da hora, depois da demora, nada antes de prosseguir.

quinta-feira, setembro 15, 2011

Nome

Chama-se resquício a parte pequena que entalha, a forma efêmera da palha ou o brilho da pequena luz.Chama-se de resto o olhar que some nos olhos de quem recebe...a primeira e última letra que nunca cessa de dizer.

Ceia

 
Da cozinha ouço tua voz que nem mais está.Não comerei nunca até que eu mesma me sirva de ternura, num próximo jantar.

Rápido demais

 
Diz a sorte do dia que cansei de respirar.E era ainda tarde quando morri de ar.Mas veio o desassossego, balão esfomeado, retalho do retalho e deu outro nome para a vida: recado.

as rendas

esvaziem as gavetas, as caixas,os versos.esvaziem os recados porque todo sinal é incerto.o vazio permite a ternura,forma doce de partitura que compõem a melhor canção.Ouçam as queixas, as gueixas...As prendas, quando amam, vão ao encontro: oceano

quarta-feira, agosto 31, 2011

desexistir

Basta algumas horas para que se vá o barco com todo o sonho e mar.Alguns instantes para irmos dele para sempre, para mais.

Para ti

Da água, esfera partida, do dia em noite esquecida, aos outros tudo o que em mim desenhou.

sábado, agosto 13, 2011

rapidamente

Vesti minha roupa, meu melhor batom.Fechei a porta sem barulho algum.Nem vivi.

mentiras

É sem verdade minha estranha morada.As paredes caíram e só o vento desenha a quietude do canto.Tão mentirosa minha força maior, tão pequena e insana que no frio medonho invento palavras e minha pele se desfaz aos anos.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Piano

Tecer , ar de fios de som, pano.

Seguindo

perdendo se acaricia
o que segue em rios
o que passa
o que se viu
ou nem tanto
 nem existiu

ganhando
se fala demais
se grita
e perdoa
e ri a toa
como se fosse para sempre
o que ainda nunca vem

seguindo se recebe
o que nem ganha nem perde
as tardes
os dias
os anos
de abriu
em abril.

aprendendo a falar de amor

na luz
toda
a discreta
é mirada
na falta
nem tudo
é espera
do olhar
da fala

metamorfose

a rasura desenhou
um anel
sou letra só 
quando falo
em risco
de nascer papel

segunda-feira, julho 25, 2011

poeminha a dez mãos

Bicicleta é susto que anda, chocolate é doce de festa, bombons...minha promessa.Assinado: Anita e Adriana

Fala da escrita

Se resolvo,moro na razão errada.Indecisa,calo a verdade de nada.Por vezes escrever...é a única palavra falada.

Olhar de espera

O ponto mora no quadro que pede o olhar na tela.O ponto é toda...a segunda espera.

A hora

É a fresta
da ternura
gota alva
abertura
por onde nasce
todo
o segredo.

domingo, julho 24, 2011

Todo os dias

Temos uma simples reparação.O dia nos atravessa inconsciente, marcando sempre, a próxima condição.Somos a última invenção.

Reconstituição

O resto é parte tão pequena que acaba desenhando sempre mais do que a cena.

Palavra não toda

Dizem os gestos
que se fosse toda
a palavra nem seria metade
mas o único possível
incesto.

Palavra magia

Não pergunte
se já vais.
Nem assenta
a história tua
palavra magia.
Que estranho lugar é este
...das despedidas.

Vidro embaçado

Respiração de vitral aquece o sono,como sonho de caixa que desenha um coração na janela.Respiração de gente nem sempre não é de quem já morreu.

Pela primeira vez

Quero o que se constrói,o que indiferente se funda,quando da primeira vez.Quero morrer costurando palavra, roupa do frio,tecido da casa.Nem pela estação nem pelo gosto, nem pelo gesto olhar.Mas pelo tempo que passa e não pára, que estanca e não segura a própria mirada.

quinta-feira, julho 14, 2011

poeminha a quatro mãos

Para Anita chiquita,pecosa,xuxosa...Para a Anita chila ...minha palavra escrita em: perfume,batom,creme,xícara,chocolate,boneca,maclanche,boneca do sábado animado,livro da cigarra e a formiga...assinado...Anita!

quarta-feira, julho 13, 2011

deslealdade

Receio em esperas que ordene o cuidado: amor sem tato, resta olhares e ouvidos atentos.Censuras! Ainda nua,sangro minha falta de lealdade, rua,esfinge,verdade que prepara sempre o que vem depois.

Letra de pé

A sombra fez o desenho do pai na janela.E para sempre ficou lá,o pé da letra dela.

segunda-feira, julho 11, 2011

Vida curta

Meu pé inchado que dá gosto não dançar.Fui forrozeá e gastei um osso que nem vaca, que nem porco, quando esconde a hora da "carneação".Encosto minha barriga que mexe, meu peito que esquece e vou dormir de tanto frio.Nasci sem ninguém saber que morri.

Lininha do forró
Vozes: o marcador vozes representa várias falas, de outros tantos.

Depois do fim do mundo

Recolho o terço enrolado, eu que nem sou de rezar! Guardo num papel de seda, apaziguado como sendo meu primeiro ato de fé.Percorro ainda alguns lugares e recolho sapatos, uma garrafa e um livro.Tudo sobreviveu depois da última explosão do mundo.

Mudança

A rua nem me traz.Mas venho ainda com as flores de antes, como despida de chances na intenção de mudar.A nua, mora ali, onde ninguém mais.

domingo, julho 10, 2011

TEAR

 Aberta a folha tecido, leve suspiro que a agulha inventa.Desenha os olhos, o ventre , a voz que sente de algum lugar suspirar.Penélope não desmancha! Só borda na noite o avesso, pelo que, à ele, " te ar".

quarta-feira, julho 06, 2011

Poemas de rua...a cidade em mim: colonização



Ruídos de antes

Assombra a voz
que desata o rio.
É de restos a língua
da pátria descalça.
Ouço  segredos  da mata,
 numa mistura de pele
 e mar.
Ainda o estalo da casa
 rezando missa, matando gente
 para os animais.





Tempo da Enunciação

Fui colonizada, importunada pela estrada esquisita que sangra ainda o ventre do mês. Concebida na ordem estranha que determina uma, a cada vez. Por hora escondida ,ouço homens falando sobre terras, segredo de guerra.Ainda pronunciam meu nome como parte de acordo, trabalho do sonho, para dormirem em paz.




Palavra de índio

Tínhamos um segredo. Não seríamos os únicos no infinito azul da água e do céu. Revelado, nas folhas que surgiram do riso alado, reverenciamos a verdade incansável da primeira invasão.Hoje ainda os gritos e a palavra, que carregamos na pele da mão.
Adriana bandeira
Abril 2011


Sinal de nascença
Recolho do braço o relógio do pai .Já não o tenho mas está ali, a marcar.Na hora do sempre açoitando negro fujão.Só não entendo as roupas que lavo, o canto que falo, sem calar.Tão longe de casa, pele escura sem marca.Construindo  estrada que não tem perdão.
Adriana Bandeira
Abril 2011


Dia de fala
A fome mata o amor. O rio acorda e leva e trás. Abre o bicho no meio que a carne se aproveita  mais.Olha nos olhos que é para não ter covardia.Hora do descanso, do desfecho, da folia.A Nega prepara o azeite.Torresmo do bicho morto na enchente.Ladrão?Eu sou o carneador, o amador do cheiro de gente.
Adriana Bandeira

quinta-feira, junho 30, 2011

Estrada de Ferro, olhos da construção...( continuação)

Se a violação plantava no ventre,também erguia o verso transparente, como a água primeira que encheu os pulmões.Carregava como traço, firme compasso,a ternura que falava outra língua acudida, enquanto manchada de puta, mulher, vadia.O pai percebia a evolução da barriga e a dor da mãe nem falava, nem anunciava, nem sorria.Apenas num dia olhou-me com tanto amor que quis crer o que na verdade nasceu depois: tens novidade, disse ela, esta que abriu a estrada e que nunca mais volta sem dor.Roupas e panelas no pequeno riacho, eram recriadas no tacho, gamela que recolhia o suor das tardes e dos lençóis.O ferro da rasura, cantando múscia em dó de duas, as migalhas do ruivo inglês.Andou em círculos e me chamou: sei que o filho é do Engals.Disse que sim e que não.O filho era do trem que viria, um dia, como o fez.

segunda-feira, junho 27, 2011

uma vez

Gosto de cheia de rio que traz barco, seio,traço verdade que não se contem.Gosto do que trasborda, refaz caminho,costura parto que faz nascer.Mas, por alguma vertentente, cheia de rio acontece só uma, a cada vez.

quinta-feira, junho 23, 2011

Tempo de árvore

Ouça-me bem, que nos abre a revolta em tantas partes, que por hora no tempo se fecham também, o que do sonho antes nos inventou.Repara que ao assassinar, " drogar", atam-se nós de obediência que nunca morrem se não os findamos...que em parte só revolucionamos quando nos pomos a amar os outros, nas suas vozes de antes  e depois.Ah!Então nada há de ser obediência quando a ordem da ciência é pura morte da invenção!Plantar nem é tecnológico pois que faz do tempo uma estação.Somos a lei que deseja um rastro, fio espaço de colheita em rio de cheia,somos as macieiras que nesta época anunciam um saber.

Noite sem fim

A longa noite dos dias, as horas da falta de sonho, de ventre que sinta.São as mesmas da primeira ferida que me fez morte e vida,nascer como qualquer palavra, como uma esquina estrada de antes depois de mim.

Desenha-me

Beija-me onde me dói a verdade, palavra que me fez estranha,diferente e pertencendo a ti.Beija-me onde desenhas meu corpo com o que me falta, o que me fazes ficar ou partir.Beija-me apenas...para que eu possa existir .

Eu mesmo falando

E quando eu apanhava eu dava...quando ardia eu sangrava o Outro, a cada nova aparição.E sempre, que não me engane nenhum doutor, nada disso vai passar.Sou esta pequena solidão.Ah!, sim...e sou também o que quiser de mim.


Antes de viver, 12 anos.
(adriana bandeira)
PS:o marcador vozes é resguardado a este trabalho em que escrevo como outro ou outra, numa tentativa de registrar vozes tantas,
de qualquer um.

Cães

E no meio da noite recebo um chamado estranho.Os cães sempre avisam sobre o abandono.

a alma do pão

Sobre o livro,
a mesa.
Sobre a mesa,
a certeza
de que o pão nunca
esteve fora
da alma.

escolha

Ainda que me falta a lembrança,a liberdade,a gratidão... que nunca me falte a rima, o som, a esquina em que possa ao menos dizer sim ou não.

Semente de gente

Gosto das sementes
e óvulos e esperma
de gente
é toda palavra
que perpetua
o grão.

domingo, junho 19, 2011

UM OLHAR SOBRE A CIDADE...LÁ DE CIMA VEMOS O CAIS: conversando com Pedro Jalvi

1-Pedro Jalvi...Lá de cima se vê o quê?Se sente o quê?Dá para falar?

Lá de cima a gente vê como tem pessoas pequenas que, no entanto, imaginam ser grandes.
Vemos, também, que nem tudo é tão grande que não possamos ficar acima. Afora isso, o
estar lá no alto, voando, é das melhores sensações que o ser humano pode experimentar.
Além da autoconfiança temos de confiar no equipamento; é preciso a noção exata do que
se está fazendo; e quais são os nossos limites. Quem voa, sem sombra de dúvidas, é um ser
humano diferenciado. E muito melhor.




2-Depois de muitos anos te reconheci numa foto estranha, no Orkut, em que estás junto a uma
aparelhagem esquisita.O que é?Precisamos saber!

É um pára-motor. Simplificando: trata-se de um motor aeronáutico que vai conectado às
costas do piloto através de um equipamento. A “asa” é um parapente. É a menor aeronave
motorizada capaz de transportar pessoas, que temos por aí. Eu voava com um equipamento
destes. Vendi-o devido a uma crise financeira.

3-lembro do Netojos II !rsrsrsrsrsrs...Aquele grupo de teatro que reanimava as artes
dramáticas de nossa cidade depois de muito anos.Estamos ficando velhões , hein Jalvi?
rsrsrsrsrs.Pois é, não lembro direito quais os personagens, qual o texto na época.Porém, vou
te confessar, que lembro da tua voz! rsrsrsrsr.Era o comentário das atrizes nos bastidores!
rsrsrsrsrsrs.Outra hora conto mais das coisas que falávamos...sobre a tua voz.Ou não
conto,jamais!rsrsrsrsrrsPois bem...para ti Jalvi, o que é ter uma voz que causa gosto aos
outros?

É, e lá se vão trinta anos...Bah, devias ter me contado na época sobre os cochinhos nos
bastidores... Eu era tímido pra caramba, embora já trabalhasse em rádio e fazendo teatro.
Quando me elogiavam ficava tão vermelho quanto um pimentão. Pois, é! A minha voz
continua a mesma, mas, em compensação, os meus cabelos... Adriana, eu sempre digo que
para apagar a história só matando os velhos. Pois bem, esta alusão ao Grupo Netojos II (não
esquecendo que nos anos 40/50 houve o Netojos I), nos remete ao fato de que Montenegro
foi muito mais rica artística e culturalmente do que é hoje, e, no entanto, agora é que a
chamam de “Cidades das Artes”. De alguma forma este passado precisaria ser resgatado - e
devidamente registrado - para que a geração atual e as futuras saibam que nem tudo por aqui
foi a mediocridade que se vê hoje.

4-Costumo dizer que a voz é o sujeito.Nos seus diferentes discursos, nas suas diferentes
posições e endereçamentos.Porém, ocorre que quem narra um fato, principalmente num
veículo de imprensa, de propagação da notícia, precisa, imagino, nãos e apresentar tanto, não
comover-se tanto.Como é, para ti, dizer-se, aos ouvintes?


Olha, Adriana, cada situação é uma situação. Eu sempre digo para quem está começando: no
rádio a entonação da voz, numa locução, pode se tornar um editorial; na televisão, uma
expressão facial - além do tom de voz -, da mesma forma, será interpretada como uma
opinião. Mas as minhas experiências, através da voz, são muitas e riquíssimas. No rádio
profissional ,antigamente, só uma boa voz não bastava. O talento, como um todo, era

fundamental. Tempos atrás (hoje isto já quase não existe) se criava uma relação de muita
confiança entre o ouvinte e o locutor, o comunicador. Ao longo da minha carreira vivi
situações riquíssimas deste envolvimento, desta relação estreita com os ouvintes. O meu
trabalho em rádio sempre foi além da notícia (também era a notícia, é claro). Eu nunca fiquei
no ar menos de cinco horas consecutivas, de segunda à sexta. Os meus programas sempre
iniciaram às sete horas da manhã e se estendiam até o meio-dia. Imagine, então... a gente
passava a ser quase um familiar dos ouvintes. Hoje se fala muito no Zambiazi, mas este
trabalho desenvolvido por ele, fazíamos muitos anos antes. A diferença é o fato dele atuar
dentro de Porto Alegre e com o respaldo da estrutura da RBS. Para quem trabalhava no
interior se tornava muito mais complicado. Adriana, vivi fatos emocionantes, decepcionantes,
alegres, tristes, indiferentes, enfim. No rádio que eu faço, o dia de hoje não é igual ao de
ontem e nem será ao de amanhã. Para teres idéia deste envolvimento, já vivi o caso de uma
adolescente condenada à morte por uma doença incurável que dizia não aceitar morrer sem
me conhecer pessoalmente; de uma senhora idosa (já falecida) que, por vontade dela, tornou-
se “vó adotiva” dos meus filhos e os tratava como se fossem netos de sangue. Também passou
a cuidar de mim como a um filho. Ela, uma senhora culta, dizia que os filhos legítimos não lhe
davam a mesma atenção que eu dedicada à ela. Olha, foram tantas histórias bonitas nestes
mais de trinta anos. E em várias cidades. Hoje em dia nos Facebook e Orkut da vida, pessoas
me localizam e, num primeiro momento nem sei de quem se tratam, mas daqui há pouco
começam a descrever situações e eu acabo ligando-as a estes acontecimentos proporcionados
pelo rádio. Tenho muitas histórias bonitas e se fosse narrá-las aqui não haveria espaço
suficiente no teu blog. Já na parte jornalística, propriamente dita, também vivi situações
grandiosas. Antes de completar vinte anos de idade, já havia entrevistado presidente da
República, o general João Batista Figueiredo; consegui entrevista exclusiva com o governador
do Estado, Amaral de Souza (naquele tempo isto era quase impensável, devido ao regime
militar, pior ainda para um “pós-adolescente”). Fazer jornalismo era mais do que cumprir
expediente e apresentar um trabalho qualquer. Era viver aventuras. De todos os tipos. E hoje
quando eu vejo a gurizadinha da Imprensa(e não só nos veículos de Comunicação do interior,
nos grande também), em sua maioria medíocres, “arrotando” como se fossem os “caras”, fico
indignado. Como já disse anteriormente, sobra tecnologia e falta talento. O rádio, jornal e tv
não me deram dinheiro, mas, com certeza, proporcionaram grandes, enormes emoções.
Parodiando Roberto Carlos, eu posso dizer em alto e bom som que emoções eu vivi!

5-A tua paixão por voar...no teu tão esperado texto de encontro ( rsrsrsrsrrs), quando
aceitaste o convite para Indecentes palavras, relatas teu sonho de menino de ...voar.E aí, como
encaminhaste isso?

A minha paixão por tudo o que voa começou quando criança. Eu morava no Passo da Cria,
próximo a uma das cabeceiras da pista de pouso e decolagem do Aeroclube de Montenegro
(naquele tempo lá era interior do município). As minhas brincadeiras, em cima das árvores,
eram “de avião”. Eu saltava do telhado da casa com guarda-chuvas, simulando pára-quedas.
Quando nos mudamos para a cidade, casualmente passei a residir ao lado da casa do falecido
Paulo Streb, que era piloto e pára-quedista. Ele me oportunizou voar as primeiras vezes no
avião Paulistinha que havia no Aeroclube. Lembro até hoje a matrícula da aeronave: PP-RPJ (as
duas últimas letras, iniciais de Pedro Jalvi). Eu só não fui, aos 13 anos de idade, para a Força
Aérea Brasileira porque a minha mãe não permitiu. Queria ser piloto da Esquadrilha da

Fumaça. Bem, o sonho de ser piloto de avião se perdeu nas dificuldades financeiras para
custear um curso. Mas aos dezessete anos me tornei pára-quedista, esporte com o qual
também sonhava. Foi em Caxias do Sul. Vivi o pára-quedismo por mais de vinte anos. Mas a
prática deste esporte era bem diferente dos dias atuais, por vários aspectos. Desde a questão
segurança até os tipos de equipamentos. Atualmente, podemos dizer que é uma atividade
quase cem por cento segura. A tecnologia domina a fabricação de equipamentos. Para teres
uma idéia, no tempo em que fiz o curso levávamos quase seis meses do início das aulas até o
primeiro salto. Hoje, tu chegas pela manhã na área de salto e à tarde já fazes o primeiro salto
livre, acompanhado de dois instrutores. Nas “antigas” a gente saltava em queda-livre e ao
comandar o pára-quedas ficávamos torcendo para que o “redondão” abrisse, pois panes eram
comuns. A navegação do velame, um suplício; e a aterragem, uma incógnita. Mas havia mais
beleza em tudo. Era romântico. Tem um filme bem antigo (baixei na Internet), que assisto
quando bate a saudade daqueles tempos. O nome é “Os Pára-Quedistas Estão Chegando”,
com o Burt Lancaster. A estória se desenrola de forma muito semelhante ao que fazíamos,
viajando por várias cidades em atividade de saltos. A cada fim-de-semana novas aventuras.
Os “pqds” eram recebidos nas cIdadezinhas como verdadeiros heróis. As crianças tocavam na
gente para ver se éramos “de verdade”! Tudo muito bonito. Tenho saudade. Parei com o
pára-quedismo quando as áreas de saltos viraram “área de negócios”; os clubes se
transformaram em empresas e a prática do esporte passou a ser coisa para a elite financeira,
tais os custos que passaram a ter. Não era mais para mim. Afora isso, comecei a ver os
caras “fumando” coragem para saltar. Sempre detestei drogas. Não as aceito sob qualquer
pretexto, muito menos no esporte e num esporte como este, de alto risco. Paralelamente ao
pára-quedismo, conheci o vôo livre. No final dos anos 80 comecei um curso de pilotagem de
asa delta, em Igrejinha, (eu morava, então, em Taquara),mas não continuei devido à mudança
de cidade. Mais adiante surgiu no Brasil o parapente (que é primo em segundo grau do pára-
quedas e parente distante da asa delta). Fiz uns treinamentos e uns vôozinhos, mas, devido a
nova mudança de cidade, não continuei. Alguns anos depois retomei o vôo em parapente.
Neste ano estou parado face à alguns percalços, mas pretendo recomeçar em breve. Em
síntese (nem tão sintética assim) é isso. Mas continuo um apaixonado por aviões e por tudo
que voa, e, hoje, o computador também me permite voar diversas máquinas por vários céus...

6-A cidade e a voz...é algo assim como acostumarmo-nos coma s esquinas e as pequenas
praças.Então, existem aqueles que falam em função de um ideal político, de algo que requer
a denúncia....E outros falam porque amam o lugar onde nasceram e fazem da sua voz, a dos
outros.Estas seriam posições apontadas por mim, é claro.Mas tu,Jalvi...de onde tu falas?




Adriana, ao longo de 34 anos (comecei com pouco menos de 14 anos de idade, acreditem!
) o meu ideal sempre foi fazer algo pelos menos favorecidos; dar voz àqueles a quem nunca
possibilitaram o direito de expressão. Muitas pessoas pensam que o Jalvi brigão (no bom
sentido e, às vezes, no mal, também); que diz aquilo que outros não têm coragem; que coloca
o dedo na ferida; que “mete a mão” nos grandões, surgiu ontem (porque fiquei década e meia
fora de Montenegro). Nada disso. Eu iniciei profissionalmente já fazendo “bronca”! Nem 15
anos eu tinha quando duas viaturas da Brigada Militar foram me prender no estúdio da Rádio
América (tempos da ditadura militar), numa operação com direito à sirenes abertas, carros
entrando na contra-mão, homens armados até os dentes descendo das “pata-chocas” (como
eram chamadas as viaturas à época), tudo porque critiquei com veemência e a indignação de

adolescente, já inconformado, a BM e o Exército, porque militares mataram um motoqueiro
pelas costas, em Passo Fundo, e, depois, quando dos protestos, teve a matança de meia
dúzia de manifestantes. Anos mais tarde o destino me levou àquela cidade, onde fiz um
pouco de história também. Nas muitas outras cidades por onde passei não foi diferente.
A minha trajetória no rádio, tv e jornal, daria um livro de muitas páginas. Só que a minha
cidade, infelizmente, não me conhece profissionalmente e nem a minha história. Ainda por
cima, alguns babacas, do mesmo meio profissional, e também de fora, sempre procuraram
diminuir ou abafar esta trajetória. Motivados por ciúme e inveja, sentimentos que sempre
acompanham os incapazes. Então, Adriana, de onde eu falo? Eu falo de onde ninguém quer ou
não gosta de falar, por falta de coragem, de argumentos, de honestidade ( e esta é a palavra
mágica: honestidade). Eu falo -e falarei ainda mais quando a Montenegro FM estiver no ar -
por este povo que continua sem voz diante de tantos poderosos que não só tem direito à voz,
como, aproveitando este “direito”, gritam bastante sem que alguém faça um contraponto no
mesmo tom e volume.

7-Sobre as falas e suas vicissitudes...Dizem alguns que as mulheres falam demais
rsrsrsrrsrs.Dizem alguns que elas dizem a verdade rsrsrsrsrsrs.Ocorre que, existem estudos,
as más línguas, como gosto de dizer, que às mulheres está dado um lugar de falta de
reconhecimento, vindo a ser suprimido somente, para algumas, se um homem as escuta
fazendo valer o que foi dito.De forma sutil e nem sempre...,veja bem! Nem sempre!, concordo
com isso.Assisto algo assim os mais diferentes âmbitos.O que achas disso?

Adriana, se nós, os homens (falo “homem”, no sentido sexo masculino) ouvíssemos mais as
falas das mulheres, faríamos menos besteiras, tenha certeza. A mulher tem mais sensibilidade,
e, parece, “vê além” para e em tudo. Se no decorrer da minha vida tivesse ouvido mais as
mulheres, menos besteiras fariam parte do meu curriculo. Com certeza!

8-Ao longo dos anos o que mudou por aqui?

Montenegro cresceu (só geograficamente que não. Ao contrário, diminuiu bastante), o
dinheiro trocou de mãos, surgiram novas oportunidades, etc. Mas gostem ou não, a verdade
é uma só: a mentalidade da maioria continua a mesma coisa. Medíocre. Putz, acho que isto
é coisa de “DNA” do município. Como disse, fiquei quinze anos fora e vi e vivi muitas outras
cidades, com povos diferentes e diferenciados. Depois retornei e a mentalidade reinante não
havia se alterado. Em algumas situações até piorou. Quando da volta, residindo novamente
aqui mas trabalhando em outros municípios, acontecia aquele choque: durante a semana
convivia com um tipo gente e sua maneira de pensar; aos fins de semana, na minha terra, algo
totalmente diferente. Aqui é preciso ser meio como Dom Quixote, lutando contra moinhos de
vento, e se trata de uma luta totalmente inglória. Como gosto da minha cidade, e nesta altura
do campeonato não vou mais trocá-la, resolvi relaxar e... Mas às vezes perco a paciência,
principalmente quando vejo uma nova elite econômico/financeira/política, sem cultura, sem
vivência, sem nada de bom para oferecer, usando o “zé povo” como escada para subir ainda
mais alto. Também a elite de outrora, hoje decadente, usando dos mesmos expedientes
para tentar se manter, de forma desesperada, nestes lugares elevados. Me indigno mesmo.
E mais “louco” fico quando vejo uns bobões, pensando serem espertos – mas na verdade são
meros instrumentos - dando guarida a este tipo de coisa. Imaginam ser inteligentes, mas, na verdade, são uns burrões, trouxas. O que é bem pior.




9-Assisti ao filme feito pelo Adriano Alves,Leandro Gonçalves e outros...Aquele dos
Crisóis.Muito legal! Crescestes enquanto ator,não?Como é este teu envolvimento com a
representação?A voz é uma forma de representar?Como forma as filmagens?

Adriana, depois que fiz teatro em Montenegro, acabei em Taquara. Lá, tinha a Ângela
Gonzaga, atriz de teatro premiadíssima(irmã dos professores Sérgius e Régis Gonzaga), que
integrava um famoso grupo de Porto Alegre (não recordo o nome agora). A Ângela, reiteradas
vezes me convidou para fazer teatro, com o devido aperfeiçoamento, é claro, em Porto Alegre.
Não quis. Talvez tivesse dado certo e seguido carreira. Mas sabe daquela história de ter um
passarinho na mão ao invés de dois voando? À época já estava com filhos e não podia correr
riscos. Mas o rádio também é um exercício diário de interpretação. Tu precisas fazer com que
o ouvinte “veja” aquilo que estás falando. A narração esportiva, por exemplo (narrei futebol
profissional por mais de vinte anos), é um exemplo. Tu tens que contar em velocidade as cenas
que passam rapidamente à frente dos teus olhos, sem errar, dosando na emoção,
interpretando o acontecimento no momento exato, fazendo projeções dos instantes
seguintes, e tudo de forma muito equilibrada. Ah, e sendo submetido a julgamento por
milhares de pessoas cara a cara, dentro do estádio. Tem de ser “artista”, não tenhas dúvida.
Bem, mas depois, nos anos 90, fiz muito comercial de TV como ator e locutor. Como os anos
não perdoam, o tempo passou, o cabelo escasseou e a balança indicou que a fase estava por
acabar. A etapa de “galã mexicano” se expirara. Nestes períodos surgiram muitos convites
para vôos mais altos, como São Paulo e Rio de Janeiro. O meu temor sempre foi o de arriscar
tendo crianças pequenas (fui pai muito jovem) e, ao mesmo tempo, guardava no meu íntimo
aquela imensa vontade de voltar para Montenegro, ficar próximo dos familiares, e ter “uma
casinha branca com varanda, um lugar de mato verde pra plantar e pra colher” (música do
Gilson). E que continua sendo o meu sonho... Eu andava por diversas geografias, mas sempre
com o pensamento e os olhos voltados para Montenegro. Agora, depois das voltas do mundo
e das voltas que o mundo deu (outra música, esta do Demétrius), me arrependo de não ter
arriscado. Refletindo friamente acho que teria me saído bem. Talvez hoje eu pudesse ser um
vilão da novela das nove, não é? Queres que eu seja sincero? Me arrependo muito, mas muito
mesmo, em ter retornado para Montenegro, rejeitando oportunidades para as quais outras
pessoas dariam qualquer coisa em troca para tê-las. Não valeu à pena mesmo, embora esteja
tentando, e faz tempo, aplacar os prejuízos causados por estas escolhas. Aliás, em última
instância, nós somos frutos das nossas escolhas, não é mesmo? Mas, voltando ao assunto
propriamente dito: tivemos aquelas experiências com os filmes do Adriano Alves de Oliveira.
Pena que as boas iniciativas em Montenegro morrem na casca. Hoje, com o advento da TV
Cultura, e com os recursos técnicos disponíveis seria bem mais fácil produzir outros filmes,
curta-metragens, mini-séries, tele-teatros, etc. Esta idéia dos filmes locais deveria ser
retomada. Eu sempre quis fazer um curta-metragem em cima do conto “Um Dia a Lua Cai”, do
Pedro Stiehl, mas, infelizmente, ficou só na vontade. Hoje em dia com este fundo de incentivo
à Cultura, em Montenegro, até daria para retomar a proposta, mas, imagine, quando vissem
na documentação Pedro Jalvi Machado e Pedro Stihel, os “pedros” acabariam
levando “pedradas” e não dinheiro... Para uns e outros que mexem com “cultura” por aqui,
nós ainda somos malditos. Mas veja que beleza aquela produção do Paraguaio, em parceria
com o Diego K, numa música e letra do Pedro Stiehl (o vídeoclip “Não te Culpo”, no Youtube).

Quer dizer: em Montenegro o que não falta é gente de talento, mas talento este que, via de
regra, é abafado pela mediocridade...

10-As mulheres...O que é amar uma mulher?É possível?

Vai da calmaria ao turbilhão. Mesmo assim, se isso não fosse possível, o mundo seria em
preto-e-branco.

11-A cidade, a mulher...encontra semelhanças?Quero dizer, quando falas para A cidade...é
uma forma de amar?

Ah, eu e Montenegro tem sido um grande caso de amor não correspondido. É desigual. Só eu
amo. Mas acredito que em breve vou conquistá-la e haverá reciprocidade neste sentimento. E
isto vai se dar através da Rádio Montenegro FM, que em breve estará no ar.

12-Sabendo da nova rádio...Poderia contar um pouquinho do processo de criação disso?

Adriana, quanto eu tinha vinte e dois anos de idade já era sub-gerente de rádio. Logo depois,
fui alçado à gerência e, de lá para cá, dirigi seis emissoras de rádio, quatro dentro do mesmo
grupo de Comunicação. Antes disso tinha sido apresentador de telejornais. Também fui editor
e diretor de jornais. Trabalhei em agências de publicidade. Enfim, fiz de tudo em Comunicação.
Neste setor ganha dinheiro quem vende, e bem, publicidade. A minha praia nunca foi vendas,
mas criação, produção, etc. A minha especialidade era pegar um veículo de
Comunicação “quebrado “ e levantá-lo em pouco tempo, tornando-o rentável e com
credibilidade junto ao público. Modéstia à parte, nunca falhei nisso. Eu era gerente da Rádio
Santa Cruz, uma emissora muito forte do interior, quando vendemos a emissora para a Igreja
Católica. Fui para lá com a missão de reerguer a rádio e vendê-la. A missão foi cumprida. Não
cheguei a sair de Santa Cruz do Sul, pois o prefeito de então, Sérgio Moraes, me convidou para
assessorá-lo e, também, veio a proposta do Grupo Gazeta de Comunicação para trabalhar lá.
Aceitei as duas propostas. Lá pelas tantas, a rede em que eu trabalhava, antiga proprietária da
Rádio Santa Cruz, quis que eu retornasse para fazer a transição da Rádio Progresso, em Novo
Hamburgo, cuja freqüência foi vendida para o Grupo Sinos, e levar para aquela cidade a
emissora, também de nome Progresso, que funcionava em São Leopoldo. Era uma coisa
totalmente louca e fadada ao fracasso. Deu certo. Depois, prefeito de Santa Cruz me chamou
de volta. Lá fui eu e fiquei em Santa Cruz até ser contratado para coordenar a campanha de
Iolanda e Heitor à Prefeitura de Montenegro. À partir daí decidi fincar pé em Montenegro e
não mais sair daqui. Procurei o Adriano Alves de Oliveira e propus a criação de uma entidade, a
Associação Pró Desenvolvimento de Montenegro, para solicitarmos a abertura de licitação
para a implantação de uma emissora de rádio comunitária aqui no município. E assim foi feito.
Outras entidades participaram da disputa e nós acabamos os vencedores. O início de tudo foi
em 1996 (a concessão de um canal de rádio ou televisão é muito demorada) e se estendeu até
junho do ano passado (2010) quando recebemos a outorga do Ministério das Comunicações.
Daí, era preciso a aprovação do Congresso Nacional. Imagine, num ano eleitoral como fazer
andar qualquer projeto dentro da Câmara dos Deputados e do Senado? Conseguimos. Agora
só resta aguardarmos a finalização de alguns trâmites burocráticos e a finalização do projeto
técnico para a Rádio Montenegro FM ir ao ar. Mas um dos motivos que nestes anos não sai
mais de Montenegro para trabalhar fora, é que a Legislação que regula a concessão de canais

comunitários, diz que os sócios tem de ser residentes no município área de atuação da
emissora. Para trabalhar fora teria de morar neste outro município. Em sendo assim, estaria
enganando um órgão federal, o Ministério das Comunicações, e não gosto destas coisas de
fachada. Preferia carregar um pouco de “pedra” neste período, mas fazendo as coisas com
total lisura. A diferença é que agora vou poder empreender aqui na minha terra o rádio
vitorioso e de sucesso que fiz em tantas outras cidades. É incrível, mas embora tenha sido um
profissional premiado e de longa carreira, a minha própria cidade ainda não me conhece como
comunicador. A nossa rádio vai ser democrática, dando voz a todos os segmentos da
comunidade montenegrina, e lutando sempre pelas causas da nossa gente. Não tenha dúvida
que a Rádio Montenegro FM vai escrever novas páginas na história da Comunicação em nosso
município.

13-Quais os trabalhos que mais te deram gosto em realizar? Todos da área de Comunicação.
Mas os programas de rádio tinha um gosto especial, pois eu ajudava muitas, mas muitas
pessoas mesmo. Tenho histórias lindas sobre isto. E, veja bem, nunca pedi nada em troca,
como muitos fazem: usam a força de um programa de rádio, “ajudam” pessoas, mas depois
querem o voto numa eleição. Em municípios de porte, como Passo Fundo e Santa Cruz, eu
poderia ter concorrido a vereador com todas as chances de êxito. Preferi não trair a confiança
dos meus ouvintes, pois, naquela época, sempre dizia que não os faria de trampolim para
seguir carreira política. Através dos programas de rádio fizemos obras sociais grandiosas,
ajudando famílias e, também, comunidades inteiras. Graças a Deus, tenho muitas e belas
histórias para contar aos meus netos. Pobre de quem não as têm.

14-Voar...O que é voar?O que é falar?O que é ...existir neste lugar e tempo?

Voar... em todas as áreas e em todos os momentos da minha vida acho que sempre voei.
Voar é se superar, vivendo a todo instante uma grande e nova emoção; é o estar no alto,sabendo que no momento de pousar a operação tem de ser perfeita. E o voar te faz sentir mais profundamente a existência, te dando a noção exata do tempo, pois tu te sentes mais gente e gente diferente, escapando da linha da mediocridade, em que tantos fazem questão de permanecer.




. 15-Jalvi...a pior mordida é a do amigo.a pior das traições, das desilusões nem sempre é da ordem passional no sentido sexual.A traição de amigo, quase mata! Para ti...o que é ser e ter amigos?

Ah, Adriana, amigo verdadeiro é coisa em extinção. Hoje em dia sempre há algum tipo de interesse norteando as relações. Olha, tenho muitos conhecidos. Amigos mesmo, o número não equivale aos dedos de uma mão. Ao que parece nos dias atuais as pessoas fazem questão de serem maus caracteres e isso só faz aumentar as traições. Quem me tem por amigo, pode ter certeza que não será traído. Fidelidade é imprescindível. Mas dificilmente se encontra reciprocidade. E às vezes faz uma falta danada um amigo de verdade!

16- Qual a função da informação?Quero dizer...quando a notícia aparece é dela sua conseqüência.Costumo pensar que a notícia é,sempre, a fala que nos alcança em algum momento. A boa, a ruim...A notícia é quase uma dor de verdade que sucumbe a qualquer explicação.Neste sentido aproxima-se da poesia porque nos carrega...sabe-se lá para onde.O que achas disso?

A informação é esta grande alavanca que está, mais do que nunca, movimentando o mundo.
Quando digo isso me refiro a todos os tipos de informação. Já a notícia, a informação
jornalística, nos últimos anos também assumiu grande importância. Antigamente as emissoras
de rádio, por exemplo, priorizavam a música, o entretenimento e os noticiosos não passavam
de um apêndice na programação para mero cumprimento da Legislação. Hoje, não. Temos
rádios que têm 24 horas de notícias. Assim como emissoras de tv exclusivamente noticiosas.
Eu até não diria que a notícia tem uma proximidade com a poesia, mas com uma crônica do
dia a dia.




17-Tem mais alguma coisa que gostarias de dizer em indecentes palavras?

Que nem todas as palavras são indecentes! E a palavra continua sendo a arma mais poderosa
colocada à disposição do povo. Saibamos usá-la com decência para combater os indecentes.

Querido Jalvi...é um prazer imenso te reencontrar!
O prazer é todo meu!

O estranho e inusitado é te encontrar em foto, por email e...não em voz.É certo que ela é apenas um traço que me traz até aqui, lembrando de tempos encantadores,de pessoas que queriam voar.Traz-nos até hoje, em indecentes palavras, em que se ouve uma canção, a melhor delas, o desejo de reencontar. Assim, aqui, me vi em ti, ensaiando, lendo teu texto como “ script”, te recebendo como parte feliz desta cidade, deste lado de mais.Sempre ,por aqui, te aguardo, como a um balão colorido que possa chamar para passear ,pela notícia da vida que se há de falar.Venha sempre!

Beijo com todas as letras

adriana bandeira