Escrevo para me alfabetizar.
Mas sou um eu ,sempre a outra
...a que quer saber falar!
terça-feira, janeiro 11, 2011
Vertente de si
Minha língua é terra materna de pai. Descabida de qualquer sentido, encanto, patrocínio, apenas diz coisas por mim. Recebe a última voz e, sem pedido, pergunta: onde queres em mim? Nasço como a vertente que diz que não, mas nem sabe mentir.Vai sem pressa, vou sem fim.
Larva de vulcão
E eles penduram umas coisas no armário,uns peixes no aquário.Gente como nós, em prisões.Andam numas coisas duras que nunca viram pó.Extinção.
domingo, janeiro 09, 2011
Os "ãos"
É como agulha em tecido, é o bordado que faz a mão.É a chuva mais esperada que planta a intenção.Não há resto sem estrada, nem caminho de algodão.Há um moinho que nada, riacho, farinha e pão.
Agarradinho
Repara que te falo baixinho que é só para nem falar.Um respiro sem som de nada e sei, entenderás.Neste não, toda a delícia, que sempre quis te dizer.
Já volto, mas fica entre nós: agora mesmo éramos um só.
Já volto, mas fica entre nós: agora mesmo éramos um só.
sábado, janeiro 08, 2011
Por que Indecentes Palavras?
Geralmente não me concedo justificativas. Elas não funcionam. É natural que este seja um registro parecido com isto, portanto curto. Mas nem tanto, nem pouco, nem tarde, um texto que me traz perguntas mais do que respostas. Então me permito.
Também é fato que ultimamente tenho me perguntado sobre esta nomeação. O que há de tão indecente em se falar de universais assuntos? Ah! Sim! É que não são de todos estas questões; sobre esta função específica de viver para além, esta mesma determinação que têm os gametas na sua perpetuação, quando vistos assim.Mas perpetuação do quê?
Quero os líquidos, eu dizia há pouco... quero o sêmen dos que desejam plantar.Isso é indecente quando se trata de canção.Só porque eu não sei cantar!
São as palavras indecentes? Sim, sempre o são. O registro delas, bem mais. É verdade pura, letra após letra, texto após texto. Nem tanto pelo que dizem, mais pelo que não é possível dizer.O apelo da vida mais do que morrer.
Mas morrer é o que se espera, é bondade sem ser sincera; dá lucro para alguns que se sustentam na perversa permissão de não existirem.
A sexualidade não é passível de ser reprimida. Ela vem. Não como retorno.Não!Ela somente está! Seja no adultério, no trabalho das prostitutas, no direito conjugal, no ato passional, nas fantasias únicas. Que Freud não me deixe mentir ela surge e se adapta ou não, ela se encaixa para sobreviver. Amar... ah, é outra coisa. É escolher.
Costumo pensar que a sexualidade não faz muita coisa além do que perpetuar uma sobrevida. Isso é moralmente aceito, por incrível que pareça.
Amar, porém, é registro de impossibilidade de consumação. Afinal sempre se quer mais quando se ama. Isso é indecente. O desejo do amor não é somente sexual. Sustenta-se para além disto, na falta inscrita no corpo.Ou seja: sou tua enquanto me tens, sou teu enquanto te falto.O ato em si...é somente parte.
A sexualidade e o amor, quando juntos, fazem coisas que não morrem mais no mundo.
Mas afinal, qual a palavra que não é sexual? Vamos escrever juntos?
Seguimos...
Crime e castigo
Minha nudez será castigada, desde antes da primeira palavra.É só o frio de sempre que, sem pele, é nada.
Velório do pai
O que eu faço agora, Aninha? Fica quieto aí, disfarça! Daqui a pouco chega mais gente e tu sabe que nunca nos foi permitido conversar.
"Fazendo Amor" com Carlos Leser
Se cada suspiro teu for assim, quero ouvir teus gritos nunca.
Se cada suspiro teu for assim, quero me encostar no canto da tua boca.
Se cada suspiro teu for assim, palavra-poema, ah, vida louca.
Se cada poema teu for assim, me deixarei suspirar enfim.
Carlos Leser
Se cada suspiro teu for assim, quero me encostar no canto da tua boca.
Se cada suspiro teu for assim, palavra-poema, ah, vida louca.
Se cada poema teu for assim, me deixarei suspirar enfim.
Carlos Leser
sexta-feira, janeiro 07, 2011
Roubo
Das areias vou roubar as conchas.Palavras ao ouvido que te deixe às tontas.Não me é permitido soletrar mas...vamos nadar?
Letra de par
Vamos embora hoje, para aquele , aquele lugar.Qualquer um que seja longe, que seja perto da estrada única que há.Vamos agora para aquela canção e sejamos a letra, o par de emoção.
A casa de A
Aprendi que casa não se escreve com A. Mas o que se faz com o telhado e o "se" do beijo que chega para ficar?
Tua voz
Traga-me uma concha da tua viagem.Preciso das palavras que faltaram, sem elas não posso nadar.Mesmo sendo sereia, nada sou sem teu mar.
Menino sem palavra ou palavra sem menino?
Menino, entrego todo o dinheiro da carteira se me deres cem palavras. Olhos assustados, pés cansados de dor. O revólver erguido impune, Que conversa era aquela agora? Não sei não tia! Vai passando que tô com pressa. Vou repetir, guri: cem palavras e te entrego tudo, nem vai ser assalto!Pára com isso tia!Não tenho nada e passa a grana que tá me enchendo o saco. Olha aqui gurizinho, estou pedindo com calma que é para tudo sair bem. Assassinato é coisa séria, roubo seguido de morte, então, nem se fala! É só me dar cem que tudo passa.O que tu queres? Minha história, porque eu moro na rua, estas coisas? É, pode ser. Tá bom...Mas olhando para o vídeo que depois vai para a TV. Nada disso, dona, que eu não posso aparecer, não!Vai dizendo, vai dizendo... Sei lá: eu nasci e depois vieram... me perdi na droga que cigarro de pedra é inferno...Tipo um rap? Não sei guri! Vai falando de ti mesmo... De mim? Sou aviãozinho e todo mundo me conhece como ladinho. Ladinho? Mas isso não quer dizer um lugar? Que lugar, tia? Tá complicando, tá complicando. Prá que este negócio de falar? Tô bem sei mãe nem pai. Não quero e nem sei sobre estas coisas. O que a coroa quer? Também tá a fim? Não falou cem ainda. Fica quieta e me passa o dinheiro!E pára de encher!Prá cada uma das que te disse vai levar pancada. Aguenta vagabunda. Não fala mais? Porque? Muito sangue, muito. Perdoa eu não sei me dizer.
quinta-feira, janeiro 06, 2011
Ensaio sobre o amor IV
O elevador descansa e espera A moça dos botões dos andares esferas Sorri esperança alegria de ser testemunha de alguma coisa Nem sabemos Dizem todas as pulsações Mas há o incômodo do movimento o giro dos apertos É só um salto de balé Ele quieto e eu ninguém Quando morremos dói demais Mas há de ser morte o que nos faz honrar as melhores horas de uma noite se a vida voltar
Uma febre repentina pede um mal estar Despedimo-nos na rua como a indiferença faz
Estranho ir embora sozinha Desmaio sem respiração Algumas pessoas socorrem alguém me diz Coração É somente febre respondo sonâmbula Febre de trem
Quando criança assistia o trem abrindo a rua minha estrada Esperava por ele Nunca parava Um dia parou quieto e tremi Sei quando estou diante de um trem pelo silêncio que sai de mim
Quando se trata disto não há solidão Um homem me segura abraça apertado Diz-me Minha filha o que te falta Falo sem falar e ele me dá sal Tens a pressão muito baixa Sorri encantado e respondo do que não sei Fico no colo de meu melhor pai O que sabe dos trens
quarta-feira, janeiro 05, 2011
LETRA DE PELE,FEMININOS OSSOS QUE FAZEM CANÇÃO -Entre duas: palavra e palavra,Carmen Silvia Presotto
1-Devemos ao Luis Seguilla nosso encontro. Melhor! Devemos à fome de Luis estarmos hoje, conversando (ehehehehh). Para além de, quem sabe, termos que oferecer a ele um jantar sempre que venha, em pagamento pela dívida, gostaria de saber de teu envolvimento com a poesia portuguesa que é riquíssima.
Adriana que bom esta fome de encontros, de conVersar, de compartilhar e devemos sim a Luís Serguilha um jantar de encontros, porque desde aquele dia do encerramento da festipoa, onde ele era um dos convidados, não desgrudamos mais de estar juntas em palavras e poesia. Ah, e convidemos o Fernando, já que é dele o grande trabalho deste encontro (rs!)
Bem, a Poesia Portuguesa, chegou até a mim através de Pessoa, como deve acontecer com muitos. Na Faculdade de Letras lemos Camões, mas quem mais me fez vibrar e ir atrás dos recantos lusitanos foi Amália Rodrigues, muito antes, quando menina ao escutar os fados, ao escutar sua voz sentia um encantamento intenso. Vieram também outras canções, Tanto Mar de Chico Buarque nos sinalizando setas daquela mundo e depois veio o mar de Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e meu amor aumentou... vieram os contemporâneos, veio HerbertoHelder, Serguilha, veio Domingos da Mota, Sylvia Beirute e António Amaral Tavares e sabemos que ainda virão tantos outros.
2-Raramente saio de casa. Já fui apelidada de tatu bola, por uma amiga. No lançamento do livro “ O melhor da festa”, na festipoa, fui. Adorei!Meu habitat natural!Pois bem...a primeira poesia tua que ouvi foi: o Luis está com fome.Vocês não querem comer alguma coisa?Quero dizer que o que me chamou a atenção foi qualquer coisa do pó e do pão. Algo como o universal em qualquer língua, como o reconhecimento de que podemos sair e buscar o pouco que se faz necessário. Na verdade não há exageros se pensarmos que não nos conhecíamos e que Luís era um convidado na festa, sem muitos conhecidos também.Pois bem...entre os desconhecidos: a fome!(ehehehe). Carmen...do que tens fome?
Tenho fome de gente Adriana, é banal mas tenho. Sou uma sedenta por trocar vivência, por aprender, por escutar histórias e causos. Quando descubro uma nova palavra vibro que nem criança e as palavras chegam com pessoas, com conversas, com leituras, não é mesmo?
Sofro de um canabalismo literário... Às vezes sou uma criança grande, e nesses momentos necessito de outros, porque vivemos um tempo em que nos relacionamos muito, conversamos muito em tempo real, em trocas de e-mails, em troca de poemas, temos milhões de amigos, temos milhões de escritos, mas a cada tanto preciso de um reconhecimento olho a olho, humano por demais, que me leiam de fato, que revise meus poros, que me espante as horas mormacentas. Tenho fome de sentar para conVersar e fazer girar a linguagem que é a nossa maior riqueza, porque fui criada assim numa roda de diálogos, de bate-papo, de giros amigos.
-“Tomazzini, isto há de ser uma aventura”!Lembra? Luis falando por nós à nossa amiga. Há algo a ser dito, neste sentido, porque fui xingada pelos filhos, quando voltei as três da manhã (eheheheh). Conversamos sobre poesia,casais,separações,encontros.Falavas de teu amor pela escrita, pelos amigos e, de certa forma, pelo momento, instante.O tempo fazendo poeira (eheheh). Há quanto tempo escreves? Como descobriste teu desejo em relação as letras?
Sim, o tempo fazendo poeira e nós perfilando os vôos...Te leio e me dou conta de como é difícil abandonarmos a culpa milenar de estarmos feito outras, lá, amando o momento, xingadas por poemar, conversar... é difícil, para alguns, compreenderem que somos muitas em um só corpo. Os filhos, a família nos querem sempre inteiras e de preferência em tempo integral, mas isso é bom, porque nos dividimos de fato no papel para escrevermos e aí escrevemos aos dias: cartas, diários, bilhetes, mails, mais tardes poemas, depois crônicas,e poemas, novelas e poemas e se vivermos a tempo escreveremos romances e sempre poemas... um fado isso, não?
Meu desejo em relação as letras começou com 13 anos, num poema em homenagem ao aniversário de minha cidade Sarandi. Ganhei o concurso e nunca mais parei de escrever, penso que nesse desejo esteja o desejo de ser amada, de existir para sempre e então, penso que estar no jornal da cidade, sendo lida me fez perceber que no escrito está a imortalidade.
Na minha opinião, o maior sonho de todo escritor é morrer no papel pelo simples fato de saber que um dia vai morrer de fato, narcisismo primário... Então, por sentir fortemente o vazio, a dor da partida, vamos simbolizando e treinando o momento derradeiro em vírgulas, em travessões, em dois pontos, em ponto e vírgula, em ponto e eu, em reticências meus vício retrô... (assim posso morrer três vezes, hehehe)
4-Quando entrei em vidráguas para dar uma olhadinha... Não saí mais.Há uma denúncia do profano, do escondido.Diz-se isto, geralmente, do feminino mas...O que pensas de Ferreira Goulart?
Hehehe, que bom que percebes isso lá em Vidráguas. Realmente o escondido fascina, penso que isto esteja na poesia, um lugar onde profanamos a morte, a vida, o desejo, o amor, mas nunca um poema, já que nos deslocamos entre metáforas sempre e sempre que nos chega um poema é uma alegria, lemos com maior carinho cada versos, cada momento.
O feminino de que falas penso ser uma compensação da criação, pois vemos o ato de criar como uma posição feminina da linguagem, não um gênero do corpo. É ruim quando colocam a carne onde não deve, mas sabemos que as palavras não deveriam pesar, apesar de pesar a alguns e muito. No entanto, para nós palavras são carne, comestíveis e por isso tenho fome de conVersar.
Gullar é nosso maior poeta vivo, está aí para comprovar a importância do escrever, do poemar, do repensar e de existirmos com ele além do Poema Sujo, uma obra de Arte. Gullar é onde nada é mais.
5-Vidráguas é um convite. Ali estão reunidos poemas, textos, reflexões de várias pessoas.Como pensaste Vidráguas?
O Vidráguas foi pensando por mim e Ricardo Hegenbart, meu parceiro Vidráguas, justamente como este lugar onde muitos poderiam existir em poemas, em textos, reflexões, fotografias. Por isso, mantemos a casa aberta, falamos sempre, que se for bom para nós será bons aos outros, acho que este é o nosso princípio. Algo do religare grego penso eu, agora, porque essa é nossa religião: fazer aos outros o que desejamos para nós e assim tem sido... lemos, escutamos, conversamos, publicamos no site, trocamos ideias, publicamos em livro sempre respeitando quem chega, respeitando o estilo, algo muito difícil hoje em dia, alguns até se espantam com tal democracia, mas driblamos a demagogia dos que não acreditam e seguimos... Vidráguas é nossa Ítaca, e todos devem ter uma para seguir em frente.
6-Anáguas ! Quem não lembra desta palavra? Aquela saia colocada por baixo, aquela forma diferenciada de esconder , cuidados com todo o prazer.Mais do que isto anáguas é uma SAIA, um verbo no imperativo que escorrega moldando um vestido,uma pontinha de renda a denunciar o que escapa.Textos eróticos?O que são?
Hey, aí está a sublimação do que falo ser possível em poesia. Já no falo está o “falo” então, vivemos escorregando nossa sexualidade entre palavras, entre meias palavras, algo que sabemos ser vital em sentimentos, porque a coisa é fálica sempre... por baixo dos panos há muitas escaramuças em todos os sentidos da linguagem, mas nos textos eróticos podemos ser sempre potentes, as deusas, os heróis, os piores, os melhores, os desejáveis de sempre amor, etéreos, e aí penso entrar o amor platônico, já que sem Eros não há vida, sem Eros tudo será morte, será nada, e como não queremos mortalhas, buscamos Anáguas, buscamos o sensível para amar além da idade, além do tempo, além do além... e a Arte não teme se desnudar, porque nascemos nuas de palavras, nascemos escondidos de vida e aos poucos vamos formando nossas segundas peles, nossas defesas de viver e nossas anáguas de morrer sempre com muito amor de construção!!
Criamos a coleção Anáguas para trabalharmos a poesia erótica em Vidráguas. Este ano teremos mais publicações e também estaremos criando uma coletânea de poemas eróticos, já estás convidada a participar.
7-A sexualidade e a poesia... O que uma coisa tem em comum com a outra?
Tudo, porque a palavra é a carne do poeta. Com palavras nos desnudamos, nos vestimos, amamos, suamos, porque a palavra é nossa holografia, nossa linguagem, nosso sentir e nosso fluir e isso é a Poesia, um tempo de viver de amor mesclado de desejo e, por isso, digo que está em todos os gêneros. A Poesia é a mãe da linguagem, e na linguagem está a nossa sexual idade. E deve ser leve, deve ser anáguas...
8-Por causa da fome do Luis também acabaste me falando de teu envolvimento com a psicanálise. Como isto também me fala...Pois bem, os dois lugares, de escritor e psicanalista dizem respeito a palavra.Qual a diferença entre estes dois lugares?
Aprendi com um grande Poeta, Oscar Miguel Menassa, que quando a escuta é poética a palavra será psicanalítica. Também compreendi com ele que quando é possível o poema, será possível a vida... mas, deixei o lugar de psicanalista para me vestir de poeta, escritora, editora e a usar a psicanálise como ferramenta para meu conviver entre as pessoas e a escritura diária.
Mas, tanto poeta quanto o psicanalista, tem na palavra a materialidade com que se tece os sonhos. Freud nos dois princípios do suceder psíquico nos revela isso, temos duas vidas, uma sonhada e uma desperta, então os dois lugares trabalham por esta construção e digo sempre: sonhar sonhamos todos, a diferença estará no que fizermos com os sonhos... e como diz Gullar, a vida não nos basta, por isso a reinventamos.
9-Carmen escreve...a mulher Carmen escreve. Marido, filhos...Há uma diferença importante entre o ficcional e o tempo real, de um sujeito.Neste sentido, o titulo desta entrevista: duas Carmens- palavra e palavra.Como percebes isto?
Amei esta letra de pele, com ela tatuas o fazer poético, a importância da escritura na minha vida. Sim, há diferenças entre as Carmens , mas há quem confunda, isso é do nosso ofício, então, penso que quem não pode confundir somos nós mesmos.. a mão que escreve é a mesma que educa, que alimenta, que ama, que odeia, mas a que vive é sempre mão dupla, às vezes tripla até... então, espantemos os “euísmos” e vamos viver em muitos contextos, difícil mas possível.
10- E a editora? Já pensavas em tê-la? Qual o principal objetivo nisto?
A editora foi nascendo junto com o nosso trabalho, crescendo junto a mim e Ricardo. Ao perceber a dificuldade de poetas jovens, menos conhecidos de existir, vimos que é importante estarmos abertos para que cheguem novos escritos, novos momentos. Pensamos a editora como um trabalho artesanal, isto é, de escutar e respeitar cada um que nos procura, ler os escritos, respeitar a Voz que se apresenta, sugerir, trabalhar junto e incentivar e propiciar a quem desejar a ter o seu livro, falamos em livro do autor, porque pensamos que quem chega a nós tem sua trajetória para narrar, contar, concretizar, para isso nos ausentamos e buscamos construir com quem chega. Escutar, projetar, viabilizar um sonho possível... e principalmente, incentivar e fomentar a Poesia no mercado, é difícil, mas se está sendo bom para nós, será bom para outros. Já falei em outra entrevista, mas repito aqui, o editor de hoje me parece ter o mesmo papel do antigo livreiro, alguém que lerá os manuscritos e estará próximo do sujeito da publicação, entrecruzando escritos, viabilizando caminhos.
E nunca se escreveu e se publicou tanto poesia quanto hoje, então algo está mudando... antes, não sabíamos que a maioria banca seus livros, agora isso é conversa comum, penso que a diferença estará no que se fizer com o que e com quem publicarmos, por isso pensamos cada livro como um projeto de vida.
11- Agora... Postigos!Tem um poema aqui que me pega de jeito. Perdoa, mas vou transcrever: “Existe um sono a que chamo silêncio/velho mapa de onde voam meus pés/vento/em que me espelho momentos/existe um tempo em que desperto memórias/terras/em que calço meus rastros/fendas/onde soluço meus ossos.” É Pisares, em Postigos.Pois é minha amiga...pode falar um pouco deste silêncio até os ossos?
Incrível, mas amo este poema e este primeiro verso estava muito tempo em mim, onde ia seguia com ele anotado nos cadernos... aí, teve um dia que comecei uma oficina de quatro encontros com Gullar no Polo do pensamento no Rio e escuto algo dele, sobre o livro que havia encaminhado a sua editora, Em Alguma Parte Alguma , e que havia um poema que se chamava “Reflexão sobre o osso da minha perna” e ao falar ele nos recita uma parte do poema, ou todo, não recordo... só sei que ao escutar “...de mim/já que a pele/e a carne/ irrigam-nas o sonho e a loucura...” despertei ao meus versos e solucei até os osso...
É como ele diz no poema e tento dizer em meus soluços enrodilhada em seus versos: “o osso é parte mais dura e a que menos sou eu...” o osso é desprovido de carne, de palavras, de vida e dura.
Então, que as musas existem, existem... mas, que nos peguem trabalhando, como aconteceu com meu “muso” Gullar.
12-Quando me explicavas o que era Postigos, pensei no abrir e fechar dos olhos que registra sempre o diferente. São as denúncias de que somos sempre outros, de instante a instante. Também pensei no inconsciente e suas escapadelas, como piscadas de olho na janela ( eheheheh). Enfim!pensei em muita coisa.Porém, mais do que se imagina há um apelo para a conversa.Tua escrita chama outra, teu poema pede que se responda com poesia.” Versos que conversam”, não é ?Podes falar um pouco disto?
Sim. Acredito nisso. Acredito que os versos conVersam. Não há dom sem trabalho, isso precisamos entender, divulgar e passar a diante. Poeta que lê poeta tem mil versos na mão... muitos ainda falam em dom,como falam em vocação para professor, para médico e com isso dizem também: se é dom vem de graça, não custa nada, então nada a trocar, porque se não há valor de troca, não há mercado ... mas sabemos e vivenciamos já, que os tempos estão mudando, os blogues aumentando, a poesia se volatizando e sabemos que ler vicia, escrever vicia, contar vicia, conversar vicia, Arte e Poesia vicia, são hábitos que temos que ter a diário, por isso nunca se escreveu e leu tanto poesia, é verdade, mas talvez porque agora estamos nos publicando, estamos na rede, estamos na leitura de todos e não mais ouvindo: não, poesia não vende, não muda isso, não isso, não aquilo... bem, sabemos ainda não vende, mas cada vez mais lida será que não venderá? Algo está mudando e rápido Adriana e para melhor!!!
13-No lançamento do livro Postigos... também fui! Acho que estou ficando saidinha (ehehehehe). O acolhimento dados aos convidados, o piano e os amigos fizeram com que o lançamento de Postigos parecesse um pouco como... uma celebração de nascimento.Mas não somente do livro!Não! Fomos chamados, convocados a ler e reinventarmo-nos a cada poema.Sei que lançaste primeiro no Rio de janeiro e depois aqui no StudioClio.Como foi esta experiência?
Postigos é um livro e são portinholas, são janelas, são reflexos de leituras e de conVivência, nele está a Lua, a mulher, as dobras do tempo e encaiXes, está o selo Vidráguas. Nele estão os olhares atentos e amigos de intenso tempo que acreditam no amor de construção, nos tijolos invisíveis de nosso cotidiano. Por isso, Postigos é uma festa sim. Postigos para mim, para Ricardo, para Vidráguas é uma célebre ação, tem que ser comemorado. No Rio, com Marcio, Saulo, Oliani. Aqui, com Ricardo e Tiago, Américo, Adriana, Berenice, Tânia e Pedro Du Bois, Denise, Ronald, tinha que ser festejado entre os acordes de Chopin, no StudioClio com amigos e familiares, poetas e escritores. No livro, ainda estão Aline, António, Ivan, Gerci, Walmor e Nestor... Sim, um livro que reúne versos, imagens, áudio, música e amigos é uma grande comemoração Vidráguas, porque entre nós os versos conVersam, amam, e ganham vida e postigam (rs)!
14-Qual a diferença entre pele e palavra, Carmen?
E, há?!!
A pele é a palavra da alma, ela responde, ela conversa e atua... Eu, sou exemplo disso, vive na pele o que deveria ter vivido no papel. Imagina que tive por muito tempo uma dermatite de contato grave, quase crônica. Mil e um medicamento, sempre com o anti-alérgico na mão, até conhecer um dermatologista que me disse: isso é psicosomático, Carmen... eu sabia, mas como curar, como tornar consciente o problema?... foi aí que ele me disse: olha cada vez que der desespero e começar a te coçar, em vez de rasgar a pele, seja a hora que for, tenha sempre um caderno e uma caneta perto, escreva cada reação, cada momento vivido dessa coceira e todas as sextas-feiras venha aqui para me ler o que escreveres... gente escutar isso, foi um bálsamo, não precisa mais me rasgar e assim tive meu primeiro leitor depois do poema que fiz aos 13 anos, e ter um leitor cura, porque escrever para ser escutada me curou. Não cito o nome aqui, mas quem quiser pode dar meu telefone que passo, ok?
Por isso, escuto a todos. Observo que cada poema traz algo da pele da mão que escreve e respeito muito isto, pois foi assim que curei uma dermatite de contato ao ser lida. Então Adriana, essa é a diferença da palavra, para mim ela estava na pele, colada nela estava meu desejo, apenas faltava quem o interpretasse.
15-Gostarias de registrar mais alguma coisa?
Um beijo grande Adriana e obrigada por este convite, li a entrevista de Jorge, um primor e me honra estar agora em conversas ao seu lado. Parabéns pelo blog Indecentes Palavras, por teus escritos e que bom que nos encontramos e saibas que lá em Vidrágua e em meu coração já estás tatuada. Seguimos!!
O que dizer, Carmen?Talvez não precise mas deixo escrito sobre a satisfação do nosso encontro, da dívida que tenho com a fome de Luis, da referência que tens sido na minha estrada; por não me sentir tão sozinha ao tê-la, para sempre, convidada.
Beijo com todas as letras
Com todas as letras, e tônicas acentuadas sempre, beiiiiiijos! Gracias.
terça-feira, janeiro 04, 2011
Subterrâneos
O sol está tão forte...que esburacou meu corpo inteiro, fazendo letra onde pele receio.É esta falta de chuva que me faz! Arranha céus em bueiros.
Aviãozinho de filho de "doutô"
No dia da minha revolta escrevi amor com sangue de coelho.Fiz chá com erva daninha e urtiga e caldeirão.No dia da minha revolta criei asas como o passarinho que já morto voa até aprender a ser gente.Sou avião, sou cortador, sou da coragem engenheiro.Que ninguém me interrompe quando tô no direito de morrer ou de matar.Sou aquele do corpo fechado, de batida, de tremores e de anseios...tenho medo só do Fiapo.Se ele me pega, cativeiro.
Dois prá lá, dois prá cá
Daqui de longe pergunto se não cheguei cedo ou tarde para te convidar para dançar.Mas a música está tocando e já tomei tua mão.Este tempo faz da distância finita...Tua minha respiração.
Um par de brincos,presente de Jorge Rein
LIGAÇÃO A COBRAR
Do outro lado da linha, o pescador.
HIGH HOPES
Aspirava algo mais, além de coca e cola.
Jorge Rein
Do outro lado da linha, o pescador.
HIGH HOPES
Aspirava algo mais, além de coca e cola.
Jorge Rein
domingo, janeiro 02, 2011
Tua para sempre
Para ter-me sempre, esteja na hora e local combinados,venha sendo ou não convidado e sente-se a mesa para o jantar.Abra a palavra com cuidado, o mesmo segredo do vinho e mar.Já não era eu, tua, lá?
Chuva para as flores
Subia correndo, num gesto de vida.Trazia espalmada a água perdida...para as flores não secarem de falta.Subi lenta demais, sem tempo.Já era outra : sapatos na mão,verdade, veneno. Levava flores para a chuva que caía morrendo.
Ensaio sobre o amor III
Escrevo para ti que nem é ele, escrevo para este outro inconseqüente. Surge subversivo e inquieto, nas horas todas em que nem lembro. E nem é ele um mesmo , nem a única palavra, seu nome.Não! É só desassossego que rasga a inquietante história dos receios. Dizem alguns que o medo nasceu do desejo ou o próprio desejo nasceu do medo.A verdade fantasma de ter-se nas mãos a falta de palavra, a falta da água que a chuva faz lembrar.
Alucinante silêncio, o do vinho que descansa sem saber se vai ser bebido. Olhando de longe, escondido, dando-se em fermentos que fazem crescer o gosto, sofrimento de transformação.Tornar-se sempre o que o tempo esculpe porque somente o tempo faz da pedra o rosto, do vento a forma perfeita da palavra só. Assovio da voz.
As crianças seguem para casa. Passam falando, com seus livros nas costas, correndo soltas em pequenos rasgos de luz.É meio dia de verão...ainda.
Hora de descansar. Até agora tirei os sapatos e bebi apenas um cálice.
As crianças estão alegres descendo a rua... alguém se prepara para amar.
Tempo a tempo
Ontem tive coragem e deixei o bilhete, no portão do jardim dele: te quero! O recado fôra escrito há 40 anos atrás.Oras,que importa o tempo? Nem a casa estava mais lá!
sábado, janeiro 01, 2011
Simpatias de casal
E não tem erro! Segura o amor para sempre!...é duas velas de sete dias,brancas, que não é para fazer o mal.Deixa acesa em lugar de passagem , queimando até o final. Isso é o que mãezinha faz para resolver coisas do coração.O quê? Se ele te ama? Isso aqui não é questão.Condição é condição.
O namorado
Quando anoiteceu preparei a embarcação.Tecidos, letras e a melhor música que lembro.Não sei cantar!
Manifesto silencioso
Abrir a a carne todos os dias! Cortar em cubos as partes vestidas.Secar o corpo com toalhas e gesto.Como evitar que os filhos não sigam um manifesto?
Costuras
Teu pedido suspiro faz-me serpente.Nem ouço as palavras... são vertentes que desalinham o cais. É quase manhã e as estrelas precisam dormir.Não sabemos ,não amamos, não queremos o suficiente para despontuar. Tecido da verdade? Saber querer amar.
Daqui de dentro
Daqui esperei a brisa que te traria no primeiro navio.Chegaram-me as encomendas, as tuas horas decências em que não podes vir.Deixei de amar, voltei a sorrir.Fiz-me acompanhar da mais bela mulher que me quer, para pensar que hoje te vi.Mas...onde eu ando se não estás aqui?
Primeiro carnaval
Pó da terra faz a estrada.Pele palavra que me ensina a caminhar.Nem vejo, nem sinto, nem cheiro.Cuido da horta, jardim inteiro.São delícias que respiram nas veias, hortaliças em som de vogal.Na terra se faz a última cama, da terra se tem a melhor ceia, o primeiro carnaval.
quarta-feira, dezembro 29, 2010
A nudez é sempre humana,a palavra também
Chamo Leituras freudianas a possibilidade de pensarmos a psicanálise como parte de nossas vidas. Depois da descoberta de Freud nunca mais foi possível separar alguns conceitos, percepções e mesmo saberes que cada um carrega de forma peculiar. Podemos pensar que estes conceitos servem somente para alguns e que, certamente, metade da população não sabe nada sobre psicanálise. Isso seria verdade se estivéssemos diferenciados por alguma rede não humana, uma capa protetora capaz de barrar a transmissão de saberes através da linguagem. Quando falamos que psicanálise é para quem pode pagar, não estamos lembrando que o pagamento de muitos diz respeito aos sacrifícios do corpo nos efeitos colaterais dos remédios, distribuídos gratuitamente; muitas vezes está num diagnóstico pseudo-psicanalítico que imprime numa criança o termo: hiperativo; nos excessos de uma visão deturpada de infância que faz com que as crianças possam tudo porque Freud falou isto ou aquilo. São os conceitos usados de forma inescrupulosa.
Existem famílias em que, por motivos óbvios, dormem todos no mesmo quarto. Pensar isto como uma forma incestuosa não tem nada a ver com psicanálise. É o mesmo que marcar um poema de Hilda Hilst como: pornográfico. Escutar o que ocorre nesta organização, na poesia de Hilda...,sim!
É neste aspecto que não há como dizer que a psicanálise não existe para alguns. Há um saber em todos os que passam por estas vivências, de uma forma ou de outra. Porém, resta lembrar algumas questões para fazer valer a descoberta freudiana: quando se trata de escuta psicanalítica e quando se trata de escuta que exerce poder sobre o outro? É esta a diferença... uma ética que nasce com o desejo de analisar, somente.É este o desejo do analista.
Estes lugares: analista, psicanalista, analisante são de uma mesma pessoa, são lugares subjetivos ocupados em diferentes momentos. Os psicanalistas não estão isentos de suas paixões, de seus sofrimentos e de suas dúvidas. O que fazem deles analistas é o tratamento que conduzem, suas perspectivas em pesquisa e suas vivências sobre sua própria verdade, no divã. Vale lembrar que os analistas estão atrás do divã, pontuando, apontando, interpretando...também silenciando. Os psicanalistas estão discutindo os casos, escrevendo, pensando. Os analisantes estão deitados no divã, indiscutivelmente por muito tempo, por algum tempo, vez ou outra... por algum tempo, por muito...Não tem fim, até terminar! Assim como não tem fim o desejo de fazer poesia.
O brilhantismo de Freud, porém, não diz respeito aos conceitos, somente. Não!O que é raro e surpreendente é sua virtude em querer saber a respeito do sofrimento humano; abrir uma escuta onde já estava determinada uma prescrição (precisamos lembrar que Freud era um neurologista, estudava a fisiologia das enguias, sendo um dos precursores na descoberta das sinapses cerebrais).
Colocar o saber do lado de quem fala, daquele que diz algo sobre sua dor é apostar na potência de cada um. É neste aspecto que Freud transmite o que de fato institui uma análise: o desejo do analista de colocar-se a escutar o Outro, a fala.
A psicanálise, neste contexto, é fundada numa ética e sem ela na há psicanálise, ou seja, não há o analista e seu paciente. Pode haver outro tipo de par... não este.
É Lacan que nos ajuda a pensar em Leituras Freudianas. Na sua releitura da obra de Freud resgata os termos em alemão (aqui entre nós, um tanto modificados nas traduções, o que ocasiona diferenças fatais nesta ética psicanalítica), as vivências, a prática de Freud, instituindo a condição de que à qualquer um, que tenha interesse em psicanálise, está dado ler o texto inconsciente, reinventando-se, interando-se sobre sua verdade. Lacan nos convida a descobrir, a exercitar uma escuta em que o saber está suposto nesta linguagem que sempre é falha.
Mas... por que Leituras Freudianas num blogue?Oras!A psicanálise está nas pessoas. E não se trata de tentarmos fazer encaixar um sujeito num conceito psicanalítico (eheheheh). Não!O sujeito é que , vez ou outra se diz, revela-se nas suas paixões. Nisso a psicanálise e a poesia são todo o registro de um pedaço de possibilidade. Diria nosso amigo: a pontinha de um iceberg. Diria nosso outro amigo: nada é mais profundo do que a pele.
Freud, ao ser perguntado: Quem são seus mestres?, aponta sua biblioteca, seus livros com os quais tinha longas conversas também. Ali os clássicos da literatura. Pois bem...”Leituras Freudianas” está na rua pela simples razão de que foi na rua, com as pessoas, com os livros que Freud descobriu um traço Universal de humanidade. Para além das pulsões, mal estares, associações, descobriu justamente o falho, o que aparece sem querer e surpreende; para além da doença, ao contrário disto, fez mostrar toda a potência humana no ato de dizer-se para ser outro. Há ternura implícita na verdade que sempre aponta uma nudez. Esta ternura possível, num reconhecimento de falta, faz das leituras, únicas, e da poesia um ato do dizer.
Adriana Bandeira
Dezembro 2010
domingo, dezembro 26, 2010
Ensaio sobre o amor II
Naquele dia precisava dizer-lhe. Mesmo que o tempo pedisse a alegria das horas. Quase em silêncio,encantaria os pássaros que se alçavam dos ninhos.Era a festa da ternura!Há vida maior do que saber que se sabe ir embora?
Diria sobre minha incessante vontade de ouvir-lhe a voz nas ruas do dia.
Adormeceria para sempre, noite após noite escutando qualquer coisa, sua voz que se apagando restava no sonho, como parto de mim. Poderia contar de suas mulheres, de suas descobertas, suas denúncias. E tudo seria outra coisa pelo encanto de sua voz, registro feito desde criança no que se perde de lembrança. A voz é um eu inteiro!
Algumas palavras riscando meu corpo que abria em restos. Outras apenas me fazendo dormir.
Assim eu lhe diria: não nos veríamos mais a não ser se todas as noites fôssemos barco e cais. Acabei por escrever um bilhete que nunca entreguei: não volto mais.
Era verdade... Nunca voltei do vôo, de lá... de todas as noites que me dás.
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER- Uma noite em Buenos Aires com Carlos Karnas
1 - Olha só Carlos... acabei de me dar conta de que te conheci num quarto com divã (eheheheh). Explico: ganhei teu livro “Um quarto de mil” de presente, com uma indicação de que provavelmente gostaria. Comecei a ler e não parei mais... Mas, esta forma peculiar que tive contato com teu texto faz com que eu pergunte: o que tu tens a dizer sobre a psicanálise?
Que coisa, hein? Presentearam-te com feito meu e me conheceste em quarto com divã? Caramba! Não sabia disso, do local agora revelado. Parece-me maravilhoso! O que haverá de verossímil entre o fato (ato) e o meu "Um Quarto de Mil"? Daqui poderemos viajar por significados e significantes; pelo real, simbólico e imaginário até o 'corte', para utilizarmos termos psicanalíticos, não é mesmo? E como assim? - talvez seja a hora de perguntar. E o que eu tenho a dizer sobre a psicanálise? Simples: nada ou quase nada. Faço ficção. O meu descomprometido envolvimento com seres psicanalistas me fez observar que eles são tão comuns mortais e frágeis. E sacanas. Por vezes diferem tanto do ofício que praticam que o comprometem. Já os presenciei insossos, desinteressantes, medrosos e arrogantes Já percebi os que transam mal e as suas manias incríveis. Duvido do amor que muitos pregam. Entretanto carregam, conservam e sustentam um discurso. Diz-se um saber. Mais: têm o privilégio de saber das aflições, angústias, temores e a negritude da alma do analisando que quer dar conta da falta ou encontrar a saída para o seu impasse. Tudo e todos fazem 'sintoma'. Então, da psicanálise, endeusada por analista e pelo analisando, faço-a um fetiche ficcional. Nunca me deitei no divã, não me deitarei para análise. No divã penso em outras coisas prazerosas para o corpo e para a alma, mesmo que ele seja estreito. Ouço, os outros, falarem. Não procuro leitura sobre a psicanálise, mas não a desprezo quando surge. Imagino e crio diante do que ouço e leio. Provavelmente traduza o que surge de almas. Lembro do título “Escolha”, um dos meus contos do livro “Um Quarto de Mil”. Sugiro-te a releitura e que o (a) nosso (a) leitor (a) de agora o leia também. Provavelmente eu seja metafórico. Engraçado (ou gozo, gozado)! Ao receber essas tuas perguntas para respondê-las, sabes o que me veio à mente? Algo banal, mas melodioso, a letra de uma música de Nando Reis: “(...) Por onde andei, / enquanto você me procurava, / será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me faltava? / Agora eu sinto a sua falta / e a falta é a morte da esperança, / como em dia que roubaram o seu carro / deixou uma lembrança. / Que a vida é mesmo coisa muito frágil, / uma bobagem, uma irrelevância, / diante da eternidade / o amor de quem se ama.” Joga isso para onde quiseres: canta, brinca, manipula, despreza. É psicanálise? Apenas um escrito? Palavras? Uma declaração? Uma canção? Algo mais? O quê? Eu me divirto e dou risadas com a mais de dúzia interpretações que vou estabelecendo agora na minha vertente. Então proponho para ti e leitores que também se soltem nessa vereda, com graça, leveza e pensar. Sem deduções. Não sofro o suficiente à ponto de abraçar ou ser abraçado pela psicanálise. Questiono-me, sim, incessante e insistentemente. Mas, na psicanálise, que é a dos outros e a de cada um, recolho belas histórias, alegres e sofridas. Na ficção se trabalha melhor a verdade.
2 - Também sobre ‘Um quarto de mil”, não reparei logo sobre tua proposta de escrever contos com, exatamente, 250 palavras. Poderia falar um pouco disto, de onde veio esta idéia?
Está lá em “Gênese”, o conto que inaugura o “Um Quarto de Mil”. Alguém pede ao porteiro um quarto de mil. Outro, o que está atrás do balcão, olha atônito aquele pedinte, nada diz e lhe alcança uma chave. O pedinte a pega, paga e se desfaz. “Afinal, que lugar é esse?” Está lá escrito. Serei eu ou o personagem quem pergunta? Quanto a mim, pessoa, talvez eu seja irrelevante, de existir limitado no permanente e interminável exercício de realizar coisas inconsequentes. Por isso desencavo dignidades assim como os meus próprios personagens. Produzo textos, contos com as imagens que capto, com os cotidianos lembrados, as alucinações, fantasias e tentativas experimentais com as palavras. A partir da leitura de muitos escritores e contistas, imaginei tentar algo diferente para mim. Os meus escritos ficcionais e intimistas, sonhados e experimentados, são cenas e fotografias humanas, são fantasias e intempéries as quais estabelecem as delícias e os conflitos dos amantes na penumbra e no fulgor de cosmologia aberta ou fechada. E onde acontece, o gemido da dor e do prazer? O momento de simplesmente cerrar as pálpebras? Mais propriamente em alcovas, onde o pensamento mais instigante permeia todo o resto que poderá fermentar no breu. Quarto, o ambiente, é intimidade e revelação, ao mesmo tempo templo de se praticar e conviver com o que se quer. Quarto é compartimento e nave. Pois então, por que não estabelecer aquela aliança simbólica entre o ambiente, os temas dos escritos e as personagens, num formato igualmente compartimentado de textos com exatas 250 palavras? “Um Quarto de Mil”. Essa ideia vingou na minha cabeça como uma marca e diferença para eu me lançar como escritor. Persegui isso com afinco, aplicação, alegria e sofrimento. Consegui a minha fórmula interior, talvez intelectual. Assim estabeleci um regramento à minha produção, ao meu desconhecido estilo de escrever. Pratiquei a exatidão com disciplina para estabelecer a marca que, agora, ninguém mais poderá me tirar. Ela é única, universal. Não existe na literatura o que criei e atingi. Enfim, a minha diferença e o meu diferencial. Sacrifiquei muitas histórias para elas se conterem em 250 palavras. Isso resultou num advento para o leitor: textos compactos, rápidos e fáceis de ler, mas com o impulso de se pensar no que está escrito, em se pensar mil coisas. Em 250 palavras há conto, que poderá ser romance, peça de teatro, sinopse de filme. Não te parece assim o meu “Um Quarto de Mil”? Penso que produzi contos ficcionais breves para o imaginário do leitor fluir. Quem não o leu, experimente-o.
3 - Teu texto é encantador. Retrata uma época, um tempo e os traços das relações pessoais. Num dos contos falavas das lacanianas e do quanto não aceitavam dividir seu divã com ninguém mais (eheheheh). A preocupação com esta idéia me custou uma protelação na minha vidinha (ehehehe). Pois bem, pergunto: o que você acha que mudou na forma das pessoas se relacionarem?
Êta perguntinha capciosa. Fico surpreso ao saber que um conto meu possa ter influenciado na protelação de algo da tua “vidinha”, como dizes. Que coisa, hein! A psicanálise não fala do mal-estar da cultura? Olha, eu nada sei sobre isso. Considero-me ingênuo e desqualificado para falar desse tema. Eu apenas observo comportamentos nas pessoas, nos casais. Tu citas um dos meus contos envolvendo psicanalistas lacanianas. “Leonina” é o título. Sei que muitas estão putas comigo. As lacanianas, especialmente, me surpreendem sempre. Percebo que não conseguem ser no real aquilo que elas mesmas discursam ou gostariam ser. Há dicotomia entre o discurso e a prática delas. Entre querer ser e praticar, as e os lacanianos que conheço se traem. Divirto-me com isso. Mas, sim, os relacionamentos das pessoas mudam, constantemente mudam. Vivemos tempos de exigências e não nos damos conta que exigimos cada vez mais. Estamos pouco tolerantes e a cumplicidade, me parece, é efêmera, está abandonada, esquecida ou se tornando desconhecida no semântico. Há fundamentações passadas e históricas que eram parâmetros nas relações. Mudaram, continuam mudando. Estabelecem-se os estorvos, os incômodos, os dissabores nos relacionamentos dos homens e mulheres, machos e fêmeas. Liberações, independências, autonomias e novas posturas se estabeleceram para o afloramento de muitos desejos. Parece que homens e mulheres (até elas) disputam virilidades permanentemente (viril = relativo ao homem, objeto das mulheres). Isso também acontece entre gays e lésbicas, apesar de entender que no homossexualismo os relacionamentos podem atingir graus extremados, em tudo (Esse universo está presente em muitos dos meus contos). Provavelmente estejamos vivendo confrontos de um novo aprendizado, com volúpia, pouca harmonia e muita angústia. Como escrevi em “Contornos”, um personagem desabafa: “Acontece que de tempos em tempos me canso de ser homem. E me canso do meu rosto, dos meus olhos, cabelos, do meu corpo, do que vejo, da minha sombra. A fantasia me invade e me liberta, por pouco tempo. Ela é simbólica. Certas noites, sozinho, penso nela. Certas noites, sozinha, talvez ela pense em mim. Certas noites, se isso acontece ao mesmo tempo, nos relacionamos sem saber.” Eu mesmo estou me dizendo isso. Que coisa, não é mesmo? Por isso me esforço em buscar nesgas compreensíveis na alma feminina, para mim e para aquilo que escrevo. Mas é difícil. O que quer uma mulher? Ela existe? Ah, essas e suas inconstâncias! Pois os meus contos do “Um Quarto de Mil” estão recheados de personagens inconstantes em cenários igualmente inconstantes. As intermitências humanas. Tentei estabelecer algumas inquietações sobre o gozo feminino e algumas desqualificações impostas aos homens. Nem sei se cheguei perto disso. Tanto é que fiz uma introdução – talvez filosófica neste meu livro. Escrevi: “E se forem esqueletos as minhas palavras? Não importa, te provei que ainda sou o que sou, depois de tantos anos. Meu coração, adocicado e rebelde, é acariciado pelo perfume de jardim existencial que o acolhe. Nele, convive com as artimanhas da vida. Persistente, ele te faz companhia ao seguires o teu destino.”
4 - Tu ou você? Pergunto porque és aqui do sul e moras, atualmente, em São Paulo. Poderias compartilhar conosco um pouquinho da tua história de vida? Tudo, tudinhooo não, somente um quarto de mil (eheheheh).
Há um romance meu, inconcluso, em que o personagem se defronta exatamente com essa questão: tu ou você. Há mais de um quarto de século longe da minha terra, Porto Alegre, de repente descobri que tinha perdido um pouco, ou muito, da minha identidade sulina. Isso me fez mal. Passei então a me desdobrar em falar ‘você’ no ambiente de convivência local, mas a praticar o ‘tu’ na linguagem escrita. Ultimamente tenho estado mais assiduamente no sul e aí percebi que tenho dificuldades de falar como gaúcho. Faço esforço para resguardar minhas raízes e a reentonar característica peculiar da fala gaúcha. O sul, o meu estado e a minha cidade me fazem falta. Cansei de vagar por terras estranhas e de estar tanto tempo em São Paulo. Tomei a decisão de voltar. É no sul, na minha terra que quero viver, morrer e então seguir para o céu de Aldebarán. No chão da minha origem tudo me encanta, me comove e me induz. Lá respiro e solfejo, vejo encantamentos, belezas e prazeres. Saí da minha terra sentindo-me um proscrito. Vivi todos esses anos como renegado, excluso. Minha formação profissional e acadêmica está no jornalismo. Contabilizo que exerci o bom combate por onde andei. Vivenciei períodos e cenas históricas e a minha participação, postura e atitudes me remeteram a ser personagem citado em alguns livros e obras de jornalistas escritores amigos meus. Citado e presente em narrativas generosas desses autores, um belo dia alguém me fez a pergunta que começou a ser repetida por outros e outros: “Quando vais escrever e publicar o teu livro?” Escamoteei-me do jornalismo e parti para a ficção. É onde estou. E contando verdades, e empregando a palavra ‘tu’.
5 - No nosso primeiro encontro nos reconhecemos em função dos vários emails trocados. Paguei o café prometido (ehehehe) que, se não me engano, foi no Margs. Neste encontro falavas da saudade aqui do sul. Como é viver em São Paulo? Como vês a tua terra, assim de outro lugar?
Não estás enganada, Adriana. Foi no MARGS o café pago por ti depois da nossa conversa em tarde fria na cúpula da Casa de Cultura Mário Quintana. O cenário do Guaíba, estar no local que conheci quando Hotel Majestic, as pessoas, a cultura, a vida e as belezas daí, a civilidade gaúcha e os meus próprios sentimentos me impelem fortemente voltar ao sul o mais breve possível. O trabalho e a minha atividade profissional me fizeram abandonar o sul. Mas, saí daí sabendo que algo deixava, que alguma coisa não estava na minha bagagem para as andanças que pratiquei por tantos anos. Família, profissão, tudo se reformatou em novas paragens, não o meu sentimento. Ele ficou amortecido e ganhei idade, tempo suficiente para saber que não sou feliz longe de Porto Alegre. É nessa cidade que tenho a minha origem, a minha história alegre, onde estão as pessoas amigas e companheiros que amo. É nessa cidade que sinto a vida pulsar, presencio pequenas singelezas e delicadezas difíceis de serem encontradas em outros lugares. Não importa. Minha identidade está em Porto Alegre. Penso que São Paulo me ganhou, me usou, fiz por São Paulo, mas nada mais tenho ou levo daqui. Cosmopolita eu aqui virei eremita. Vivo num sítio no interior. A cidade onde vivo me homenageia, é pacata, quase histórica. Mas o meu coração continua no sul, não tem jeito. Comecei a fazer incursões periódicas a Porto Alegre há pouco tempo. Descobri que perdi essência existencial por estar longe dela. Já morri demais.
6 - O texto, o traço do escritor é único. Um estilo que assina sua produção. Porém, no meu entendimento, os lugares de onde escreves são diferenciados. Por exemplo, como jornalista ou como escritor de contos. O que pensas sobre isto?
Sabes de uma coisa? Eu não me considero mais jornalista. Sou outra coisa mambembe, indefinida, à procura, o que agora escreve. Estou longe dos textos jornalísticos. Não os quero. Considerar-me escritor... acho que ainda tenho percurso para trilhar. Apenas abri uma nesga de incursão. Provavelmente tenha feito o meu ‘passe’, me autorizado - com a cumplicidade de leitores experimentais - a ser escritor a partir das minhas próprias experimentações e alquimias com as palavras. Senti o peso da responsabilidade de escrever e me obriguei a conversar mais aprofundadamente com outros autores. Temos um traço comum, a seriedade do ato de escrever. Há os que valorizam a história, outros a palavra ou a linguagem. Há os que se massageiam com as suas idéias e fantasias. Eu escolho a palavra, a linguagem. É ela a que me atém, nela e por ela me apóio. Escrevo muitas vezes meio que possuído por algumas entidades fantasiosas, místicas, espirituais, sei lá. Ao chegar ao final e ao reler o que escrevi, isso às vezes me espanta e eu não acredito ter sido o autor daquilo. Vou seguindo, trabalhando e convivendo com as minhas próprias intermitências. O “Um Quarto de Mil” foi assim. Outras criações minhas poderiam estar à frente desse livro. Entretanto, abandonei tudo o que já havia escrito para dedicar-me com exclusividade aos contos ficcionais breves de 250 palavras. A obra foi oferecida a diversas editoras, mas as propostas são indecentes ao autor. Então decidi fazer o lançamento independente da obra e me submeter, apenas, ao sistema estabelecido de comercialização. Criei uma página na internet e faço mala direta. Sem pressa. Quem se interessar vai lá: http://www.carloskarnas.com.br
7 - Trocamos... quantos emails, mesmo? Lembro que um dia tu me enviaste um número (eheheh). Para além das correções que me fazias, nos meus “atos falhos” ( é assim que chamas), falavas da preocupação com uma certa leveza, uma busca pela simplicidade de certos encontros, certos momentos. No teu texto, porém, encontramos personagens que se dizem, que pesam nas suas escolhas. Qual a diferença entre escrever e viver?
Ambos pesam. Escrever e viver é existir. A existência é regida por sentimentos, desejos e imprevisibilidade. Também por atitudes. Nada é certo, nada é seguro, a não ser a morte, sem vida e sem textos. O tempo, fatos e atos nos impõem marcas indeléveis. Personalidades, histórias pessoais, vivências, experimentações, comportamentos, a genética e tantos outros ingredientes determinam nossos rumos. O inconsciente também. Vale tanto para o viver quanto para o ato de escrever. Mas, de todas as influências, o desejo talvez seja o mais relevante: o querer fazer algo que te marque e te estabeleça com dignidade. Acho que a vertente é por aí. Mas, enfim, talvez seja louvável o discernimento. Podemos impor nossos próprios pesos, mas não seria justo jogá-los, os demasiados pesados, para outras pessoas. Pelo menos de maneira inconsequente. Entretanto, há situações em que a realidade se impõe com tanta grandiosidade que não devemos ter atitudes falsas, cínicas. O ato de escrever é absolutamente solitário, único. O escritor se delicia com a prática, mas também sente a carga do ato. São os momentos, lampejos existenciais que nos impulsionam e nos determinam. Acho que isso acontece fortemente na escrita ficcional. Sempre digo que o conteúdo do meu livro é momento, instante ficcional. Parece ser, pode ser, é ou não é. Que cada um decida, que o leitor decida. A conotação é diferente para o que escreve biografia ou pratica a literatura reportagem, da história. Mas, continuo afirmando: na ficção se trabalha melhor a verdade.
8 - No nosso café, contou-me sobre a troupe dos Karnas ( ehehehe). Estes filhos artistas! Poderia compartilhar conosco esta história?
Pois é, o estilo familiar acho que fomentou e definiu a trajetória dos filhos. Uma única filha parece seguir a vida normal, ao ser comerciante. Todos os demais enveredaram pela seara das artes e espetáculos. Um filho é ator, formado na EAD-SP, diretor teatral, também dançarino, faz preparação corporal de atores, faz cinema, é músico, compositor e tem a banda “Crika y Os de Solares”. Outro é ator de teatro e cinema. Os dois já se apresentaram em países da Europa e nos Estados Unidos. Uma filha perseguiu a mesma trajetória no teatro e cinema e hoje é professora de yoga. Por fim, o caçula, é artista dedicado à técnica do grafitti. Liberalidade, estilo e vivência familiar talvez tenham determinado o rumo de cada um. Tanto é que um deles, o adotivo – por querer ser adotado pela família –, chegou até nós pelo apoio e sustentação que dávamos aos demais filhos que se iniciavam na prática do teatro. Nossa casa sempre ficou de portas abertas ao meio artístico e cultural, do Brasil e do exterior. Significativos momentos culturais já aconteceram dentro da nossa casa.
9 - Manaus... Pescando peixe com uma antena?
Eheheh! Trata-se de uma charge feita por queridíssimo amigo meu. Engraçadíssima. Ao sair de Porto Alegre fui desenvolver um trabalho de reestruturação de uma rede de TV no Amazonas. Lá fiquei um ano. Esse meu amigo, para gozar da minha cara e das dificuldades que eu enfrentava, criou e me mandou uma charge. Eu era caracterizado como um ribeirinho manauara, vivendo numa palafita com antena parabólica e, sentado em atitude desconsolada, pescando peixe num rio, que poderia ser igarapé. Hilária a charge. Conservo-a até hoje. Sobre isso, refresquei a memória dele na última Feira do Livro de Porto Alegre. Não nos víamos há mais de 30 anos. Rimos felizes.
10 - Estivesse na feira do livro lançando “Um quarto de mil”. Como foste acolhido por estas bandas daqui?
Então, participar da Feira do Livro de Porto Alegre me foi emocionante. Há 30 anos, acho, que não palmilhava a feira. Fui assíduo visitante dela, como garimpeiro e comprador de livros. Este ano, com o lançamento do “Um Quarto de Mil”, alimentei a idéia de participar dela como autor. Pensei nisso até como ato de respeito, de oferta à minha cidade para nela lançar o meu livro num evento tão importante e magnífico. Pela metade do ano fiz contatos e comecei a trocar ideias com amigos escritores e jornalistas. Com a ajuda deles peregrinei todos os passos até a Câmara Rio-grandense do Livro aceitar a minha participação e agendar sessão de autógrafo. Na verdade foi esta a minha primeira experiência de autografar numa feira como a de Porto Alegre. Surpreendi-me, na noite de autógrafo, com a quantidade de amigos, companheiros e pessoas que compareceram para me prestigiar e me abraçar. Foi também um valioso e grandioso momento de matar a saudades de pessoas que não via há décadas. Muitas delas tive dificuldades de lembrar-me dos nomes. Defrontei-me com fisionomias que mudaram. Ao meu redor estabeleceu-se uma pequena confraria de jornalistas, escritores, intelectuais, políticos, parentes e desconhecidos que me propiciaram alegrias e bem-estar. Vivenciei uma tontice emocionada. A mídia me deu atenção inusitada e me ajudou muito na divulgação. Tudo me compensou e me deixou pensativo. Aquele momento alimentou ainda mais a minha vontade de voltar às minhas origens. É aí que eu vivo, sou alegre e feliz, aí na minha Passárgada cheia de energia, beleza, prazer e emoção.
11 - Entre vários emails um não me sai da cabeça ( eheheheh). A receita de sopa de capeletti e aquele molho com tomates secos para o pãozinho torrado... Ah! Também aquela estória da maçã em fatias com nata, que eu duvidei que era bom, provei e... ( eheheheh). Desde lá passei a respeitar a mesa e me interessei a fazer coisas diferentes para reunir as pessoas. Pergunto: o que tem em comum uma boa mesa e um bom texto?
O manjar, minha querida, o manjar. O deleite para o espírito. Por viver só, num sítio, afastado da cidade e no meio da roça, desenvolvi gostos e prazeres particulares. Permito-me e proporciono-me manjares solitários, algumas vezes frugais, mas requintados. Um bom texto não proporciona justamente isso? Um alimento? Uma iguaria apetitosa e que enleve o espírito? Ah, o prazer! A linguagem! (Bah! Não sabia que as minhas receitinhas fizeram sucesso contigo! Uau!)
12 - Também a idéia sobre um saber... Lembro que decifraste algumas coisinhas como, por exemplo, minha paixão pela dança. “Adios Nonino”... Piazzola. Podes falar um pouco sobre tua relação com a música?
Música me é vital e talvez ela possa ser mais completa que a própria literatura, ao amalgamar palavras e melodias transformando-as em linguagem harmônica universal. Ouço música, escrevo ouvindo música. Aprecio a dança, bailados, pares dançando. Adoro o insinuante. Sou frustrado por não saber dançar e por não ter tido, ainda, a iniciativa de aprender. Mas é o tango com os bandoneóns, tocado e dançado, que me emociona mais. Para mim não existe aquela preferência por gênero musical. A música me é um afago sentimental e emocional. Se ela me arrepiar, fizer palpitar o meu coração e lacrimejar os olhos estará eleita. E ao elegê-la, desfruto-a como amante, com todas as práticas permitidas e não permitidas, pelo menos no pensamento e no imaginário. Por vezes os meus textos nascem a partir da música, desse lampejo fulgoroso para percorrer trilhas inimagináveis. Consciente e inconscientemente.
13 - No almoço de novembro combinamos: comida leve e conversa mais leve ainda. Saladinha, tempo sem fim... Algumas coisas do Carlos eu desconhecia. Neste dia falavas sobre a ineficiência do direito: Adriana, para o amor não há lei. Há normas para separação de bens, casamento, união estável... Para o amor enquanto sentimento não há. Ficamos pensativos sobre: será que o amor é fora da lei? ( ehehehheeh). Pois é meu amigo... o que achas disto?
Putz! Será que cheguei mesmo a falar tanto assim? Pois é, a palavra ‘amor’ está tão batida que pode estar ficando banalizada para cair no desprezo ou desinteresse. Ando pensando em criar outra palavra, um novo termo com novo significado para a que usualmente está estabelecida. Sabemos tudo do amor? O que é o amor? O que é amar? Como se ama? E será que o ato de amar precisa da palavra? Pensando bem, o amor é fora da lei, porque o amor se estabelece entre dois ou mais seres onde prevalecem cumplicidades. As cumplicidades são particularidades de interesses comuns e cada ser é o seu próprio universo que não dita regras necessárias. Diz-se das formas de amar, maneiras de amar, atitudes amorosas, demandas de amor. Há regras nisso? Entretanto, os desfazimentos, mesmo os do amor, acabam condicionando deveres e obrigações, especialmente perante a lei e mesmo nos acordos particulares. É mais difícil e doloroso romper. Não há temores para se amar, pois o que virá sempre será bom. Romper, terminar, acabar sempre dão medo, mesmo quando necessários. O momento seguinte é o do desconhecido. Por isso ditam-se regras e lei. O assunto é infindável e sempre permitirá o idílio e o desprezo, o doce e o amargo, a leveza e o peso da nossa existência. Tudo para ser aproveitado e discorrido nas linguagens todas, pela palavra na literatura.
14 - Descrevias uma cena em que a mulher dançava de meia calça e pés no chão. Falavas disto tão intimamente que era como se descrevesse uma noite comum. Teu texto passa exatamente isto, uma procura pela cumplicidade ou, em alguns momentos, demarcas a falta disto. É uma escrita que mapeia um tempo. Talvez pelo instante das 250 palavras, talvez porque deixe claro a ficção restaurando as vivências de um homem de sua época. Vais me corrigir (eheheheh)?
Laconicamente: não te corrijo. A leitura é tua.
15 - Diz-me seguidamente: sozinho, em casa, eu danço bem! Falas também do quanto achas bonito o tango, naquilo que expressa de cumplicidade. Viste bem qual o título desta entrevista, hein? E o tango? Queres explicar?
Aqui, sim, devo te corrigir: eu não danço bem, pelo contrário, muito mal. Ouso dançar. Sozinho. Faço isso, ocasionalmente. Na verdade, sou parceiro e dançarino com as minhas emoções, sentimentos e fantasias. Pratico, eventualmente, a dança dessa forma e, por incrível que pareça, deslizo, rodopio e persigo ritmos. Aí mesmo, em Porto Alegre, uma amiga me convidou e insistiu para irmos a uma casa de dança. Suei frio. Era noite de tango. Encolhi-me, ela voltou a insistir. Fomos. Dançamos outros ritmos. Envergonhei-me. Ela foi uma dama, de fineza indescritível. Conduziu-me, pacientemente, meus passos e corpo ao ritmo. Depois ela me fez um comentário: a dança sempre deve ser praticada com parceiro ou parceira. O que se acostuma a dançar só perderá a desenvoltura ao dançar acompanhado. Cheguei a falar isso para ti? Não lembro. Sei que te falei em tango. O tango aparece nos meus textos como elemento existencial, apaixonante, deslumbrante, aliciador, pecaminoso, amante, envolvente, forte, de aceitação e submissão, cúmplice, parceiro e sexual. – Em “Submissos”: “Imaginou qualquer similaridade ao tango e à paixão portenha. Então alguém surgiu como companhia experimental e ela pôs em pratica aqueles caprichos mais alucinados: os que constrangidos senhores de meia idade já não conseguiriam aprimorar por iniciativa própria. Por isso ela naufragou no seu instinto e liberou o licencioso que dela precisava ebulir.” Em “Cela”: “Ele já estava miserável, depois de presentear as suas riquezas amorosas e destinar um patrimônio para aquela mulher que o seduziu numa casa noturna em que os dois dançavam tangos e milongas.” Em “Despedida”: “Exalou seus odores generosos como se estivesse no cio. Excitada fez o convite para dançar ao som de uma musica derradeira. Um tango. Nessa arte, dor e paixão complementam o amor. Os corpos dos bailarinos se desnudam e realçam loucos desejos em passos decididos e elegantes. Na parada brusca a mulher afrouxa o sexo.”. Há também o conto “Restos”. Gosto muito deste –. Enfim, tango para mim é um universo. Há um filme, se não me engano de Almodóvar, intitulado Tango. Lindíssimo, uma ópera completa. Eu recomendo a todos para o assistirem. Comentei isso contigo, não é verdade? Caminhávamos pela Rua da Praia. Aproximava a nossa despedida. Passamos diante de uma porta e lá estava a placa: Aulas de Tango. Apontei para aquela placa e chamei a tua atenção. Sorriste. Percebi o leve balançar do teu vestido verde, o teu frescor. Então me disseste e propuseste-me: “Vou me matricular em aulas de tango. E iremos dançar tango uma noite em Buenos Aires”. Preciso ir mais adiante?
16 - No retorno de nosso almoço falavas de leveza. O que é leveza para ti?
É o que temos aqui. Felicidade.
17 - Gostaria de dizer mais alguma coisa?
Aqui no teu Indecentes Palavras, as palavras indecentes ainda não apareceram. A leveza, a arte, a magia das palavras, o sentimento, a emoção e o respeito determinam a vertigem. Há linguagem e arte estabelecidas. É poesia a que comanda. Tentei me conter nesse viés e nesse tecido. Às vezes ouso ser obsceno, não consigo. Conhecemo-nos este ano por iniciativa tua, ao me enviares e-mail a partir da leitura que fizeste do meu livro “Um Quarto de Mil”. Construímos uma correspondência particular e não desprezamos as oportunidades de nos encontrarmos. A palavra, a literatura e algumas confidências nos mantém. Apreciamos-nos e navegamos nesse córrego nem sempre manso. Há trechos turbulentos. Já experimentamos alguns exercícios juntos, como o de tentarmos escrever o “Contos do Mar Sem Fim” - algo que surgiu assim do nada, das nossas palavras trocadas, como um repente. Ele está suspenso, inerte depois de um corte. Sei do ar que precisas para respirar, para viver, para amar. Sei de algumas batalhas tuas, do teu permanente esforço de seguir, de ir, alcançar... o quê mesmo? Dou-te força, te desejo sucesso, te quero bem. Aprecio o que escreves, o poético e singelo que há em ti, na tua literatura, na tua linguagem. Instigas. Aprendo contigo. E penso em Aldebarán. E será que o teu leitor, o que está lendo agora sabe, conhece Aldebarán? Aldebarán poderá ser a nossa próxima e derradeira estação.
Carlos... sinto-me honrada por estares aqui. Sou grata pelo nosso encontro na vida, na rua (o blogue é estar na rua), nesta busca em comum pela leveza das coisas boas, esta brisa pequena que nos leva a pensar em Aldebarán, a pensar em seguir pelo MAR SEM FIM.
Beijo com todas as letras
Adriana Bandeira
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