domingo, junho 12, 2011

Velho quintal

Braços adormecidos, meus,chegavam primeiro.Em concha carregando sementes, até o quintal da luz diferente, onde restavam meus anéis de sol.Cavando rápida, espada, arma adormecida enquanto estrada, rasgava os sulcos da coroação.Não há tempo para plantar e embora soubesse, as que pudesse, haveria de fazer valer.E foram duas, três, talvez muitas quando os braços,meus passos, quedaram sem volta!Era a hora da partida, era a hora de  voltar à morte, como sopro de vida.Algumas, pequenas e fortes, geraram canções.São desejantes estas notas musicais!Outras me surgem assim de visita, depois que virei árvore escondida, da minha melhor maçã.

sexta-feira, junho 10, 2011

Um " és", para os que escutam corações

Não sei de onde as cores te invadem, numa lembrança sem rumo do que ainda, nunca aconteceu.Por sorte estamos felizes e seguras minha mão sem medo de existir.Posso rir alto com pena do tempo e sonhar com um jeito de nunca dizer adeus.O dia termina  e não lembro mais de mim, antes de tornar-me em ti.

Destino

Subi a esquina, errei na rua.Desci antes do tempo...e o trem nem passa mais por aqui.Começo a construir.

De onde eu vim

Vim de onde nada existia,lá de onde vazavam os olhos, as tardes, os dias...até surgir este cordão de letra faminta.

Do pó...

Vez ou outra ouço o ranger da pedra tecida.É dela a verdade adormecida, pele recortada da cinza.

terça-feira, junho 07, 2011

O SOM DA PRIMEIRA CASA,ESQUINA,ESTRADA:O LUGAR DE EXISTIR- Conversando com Davi,Veloso,Nino,Daguia e Nilton.




INDECENTES PALAVRAS- Primeiro pensei em fazer algumas perguntas, deixá-las prontas e...depois achei melhor que elas surgissem na rua também...porém, aqui estão, algumas feitas e casa e outras...nesta possibilidade de surgirem.Para vocês, qual a diferença entre a casa e a rua?

DAVI- A diferença é que em casa se estuda sozinho. Não tem como te sensibilizar...te motivar.Na rua...soltinho rsrsrsrs. Está para as emoções...
NILTON- Em casa o universo é reduzido...sem possibilidade de dividir a música.Não se guarda para si mesmo.
NINO- Em casa estudamos...na rua apresentamos
NILTON- Em casa os familiares reclamam do barulhos.Tocar em casa...tocar na rua...O estudo está sendo proveitoso.O pessoal acompanha o processo de estudo.As pessoas dizem se melhoramos ou não... rsrsrsrsrrss.
VELOSO- A rua envolve uma liberdade e em casa...escolhemos.Na rua encontramos os amigos e...tocamos.Existe uma liberdade para brincar com a música.

INDECENTES PALAVRAS- Isso diz respeito ao público e ao privado, ao íntimo espaço do si mesmo e ao que constitui o si mesmo: a língua falada por todos, e todos...é a rua! rsrsrsrsrs.Neste aspecto, falando de música, a linguagem da música antecede o músico, já está ali antes...e determina algumas coisas.O que, para vocês, determinou a escolha por um instrumento?

DAVI- O meu é machista!rsrsrsrs É o instrumento que te escolhe! A música me escolheu... Todo ser humano nasceu cantando, ele veio falar depois...Imitava os passarinhos, os sons da natureza...Todo ser humano é...músico.É...eu só não escolho a música quando me pagam.Com a bateria foi assim.Meu primeiro instrumento foi o sax...a bateria estava lá...E aí...É um casamento! Se escolhesse outro instrumento...pareceria traição.Sempre penso como transmitir à ela.Tudo é percussão: o barulho das pessoas, o som das coisas...A música é uma matemática.A música em si é a matemática.Não tem fim!
NILTON- A sonoridade do sax, um instrumento romântico, músicas tocadas com bom gosto...É difícil escutar um saxofonista tocando ruim.A sonoridade reproduz a voz humana.O sax ...canta! rsrsrsrsrsrr
DAVI- Então dá prá dizer que todo instrumento quer reproduzir a voz humana.O instrumento explica os sentimentos da alma.Romântico..pq é calmo,relaxante...não é fofoca íntima? rsrsrsr”Lupicínio Rodrigues” rsrsrsrsrsrs...Para nós, na brincadeira, música romântica seria isso..rsrsrsrsrs.
VELOSO- O sax faz ...solo.Uma só voz, fala...Só dá para fazer uma nota por vez.
DAVI- É um instrumento de melodia.O instrumento do ...jazz.
VELOSO- Concordo com o Davi...Até os 13 anos eu não dava bola para a música...Nesta época existiam os bailes de formatura.No baile de formatura da minha irmã, pela primeira vez ouvi um grupo, ao vivo.Aquele solo de guitarra...Me pegou! Tanto pedi que minha mãe  me colocou numa aula de violão...Não aprendi!Não conseguia...Depois de algum tempo, encontrei-me sozinho com a guitarra e ...ela me escolheu!Sou de Uruguaiana e comecei a participar de programas de rádio ao vivo....comecei a colocar na prática o autodidatismo...Meu percurso de aprendizagem foi ...estudar em casa e tocar nas casas de mulheres, casas noturnas,cabarés,como chamavam.Os músicos tops....estavam lá! rsrsrsrrsrs Os músicos ficavam lá...uma semana, duas...

INDECENTES PALAVRAS- Era uma...pensão ?rsrsrsrsr

VELOSO- Transformava-se! rsrsrsrs
DAVI-  O beco das garrafas era assim...no Rio de Janeiro.
NINO- Como eu gostava de cantar...precisava de um instrumento de acompanhamento.

INDECENTES PALAVRAS- O sax é sozinho...o violão...acompanhado.rsrsrrsrs

NINO- Na década de 60 tocávamos nas calçadas...e alguém sempre sabia tocar.Aquele era o cara!Naquela época os bolinhos nas calçadas eram permitidos.Hoje acho que não!Nunca estudei música.Aprendi a tocar assim.Comecei a tocar...uma amiga me dava as notas principais....fez os desenhos e eu reproduzia.Eu assistia os conjuntos e  observava.É pura abstração!


INDECENTES PALAVRAS- Tocar um instrumento ...a sonoridade tem um alcance privilegiado.Falo do alcance subjetivo, do “ tocar” no outro de forma única que não está determinada pelo som ou nota mas ...pelo recebimento de melodia.Para alguns um som pode ser harmonioso e belo, para outros...Vocês sentem-se tocados pela música?Quais?De que forma?

DAVI- Sentimos! Muito.
NILTON- a sonoridade dos instrumentos...alguém já imaginou um filme sem trilha sonora?Todas as ações, emoções são representadas por um tipo de som!Um momento de pavor...uma outra emoção...alegrias...Sou levado pelo instrumento.
DA GUIA- Comecei aprender tocar violino há pouco tempo.Venho para a rua e me sinto como se estivesse na escola aprendendo português, pela primeira vez.

INDECENTES PALAVRAS- Uma alfabetização?

DA GUIA- Sim...é como se eu estivesse me alfabetizando num outro sentido.Penso que estou aprendendo a escrever ou a falar, matemática...
DAVI-Tu te deixa ir...tipo um orgasmo...rsrsrsr. A emoção é tanta que rola sentimentos...Onde estive...é isso que me pergunto!
VELOSO- Quando tu estás com o instrumento...tu estás buscando o conhecimento daquilo!

DA GUIA- Comecei a tentar entender a teoria...depois comecei a tocar...

INDECENTES PALAVRAS- Estaria tomado pelo aprendizado, neste momento?

NINO- É...para te entregar para a música...tem que estar com ela dentro de ti.
VELOSO- Eu sou um aprendiz em violoncelo! Dá uma ansiedade louca!Eu quero ter o mesmo rendimento que com a guitarra!

INDECENTES PALAVRAS- Por que...a rua?

NILTON- Do ponto  de vista aprendiz...vou usar uma frase do Da Guia: desinibição.É um complemento às aulas...um “extra classe importante”rsrsrrs .
DAVI- A rua foi para o artista o lugar de subsistência, do dia  de hoje.A rua não precisa de repertório, as pessoas passam e algumas músicas são bem aceita.O rolar o chapéu, as moedinhas...Dá a subsistência do dia de hoje.Como no Brasil não temos esta cultura, o artista brasileiro acha que indo para rua é...pedir esmola.o pessoal que passa...acha que botar cinqüenta centavos...é pouco.Acha que não vale a pena.O serviço de rua é para que ele seja reconhecido, o artista, pelas pessoas comuns,como qualquer um.O artista de rua não pede para ninguém.Ele  só é reconhecido pelo povo.O trabalho de rua é feito das seis às sete da noite.As pessoas saem do trabalho e ficam ...mais calma.

INDECENTES PALAVRAS- Poderiam contar um pouco da história  deste espaço aqui?Falo deste agrupamento no café da cidade, rsrsrsrs Num café só para homens?
NILTON-  Quem que disse?Não tem placa!rsrsrrs
DA GUIA- o café é que é o culpado! rsrsrsrrs O café sempre foi um ambiente dos homens.Na época as mulheres não saíam...esta liberdade é um tanto assustadora, hoje.Antigamente eu mandava nelas...agora eu tenho medo delas.Ela nos intimidam na  sua liberdade.Tudo isso vai passar depois que “ela se regularizar”...

INDECENTES PALAVRAS- Quem regulariza a mulher? rsrsr
(risada geral)
INDECENTES PALAVRAS- Cá entre nós...Isso é uma coisa um tanto Machista,não? Rsrsrsr

VELOSO- Eu entendo mais do meu instrumento do que da mulher rsrsrs
DAVI- O ponto é...masculino.A esquina democrática, a boca maldita...a florida...Aqui é livre...mas, é um ponto masculino!

INDECENTES PALAVRAS- Ah! rsrsrsr.O ponto é masculino! A vírgula..?
(muito riso e som de instrumentos.Os rapazes já começam a se impacientar e a tocar alguma coisa ,intercalando as respostas com o sons)


INDECENTES PALAVRAS- O que é  a ....mulher?



DAVI- diz que na Bíblia as coisas estão mudando srsrsrsrs
DA GUIA- O  motivo da minha existência! Sem ela eu não estaria vivo.
VELOSO- Prá mim é a razão principal da minha existência...Sem mulher é como mineral sem gás..
(risadas)
NINO- É o outro lado da mesma moeda.
NILTON- A rosa que floresce meu jardim...rsrsrsr.É o elo de união...sentimentos.

INDECENTES PALAVRAS -Pois é...nossa cidade carece de espaços assim, embora daqui saiam músicos e artista brilhantes.Qual seria a causa disso?

DAVI- Esta falta é geral.Não é só Montenegro.A imagem está no lugar do espetáculo humano.E o artista sumiu.Então...facilitou o instrumento,professores...mas não  a vida do artista; lugar do artista.

INDECENTES PALAVRAS-Quais os projetos?
NilTON- Nada é programado.É espontâneo.Aleatório...Penso: vou levar o instrumento ...vou brincar.
DA GUIA- Aula de desinibição...para enfrentar os professores lá na Fundarte!rsrrsrs
VELOSO- Acho que isso  de se reunirem,vai acontecer naturalmente.Este prazer tendem a se repetir...

INDECENTES PALAVRAS- Qual a diferença entre a música e a mulher?

VELOSO- Nenhuma!
DAVI- Todo músico sonha em ter uma mulher...
DA GUiA- Se eu soubesse isso...
NILTON- As duas coisas desafinam...sai do tom...tem que afinar!

INDECENTES PALAVRAS- mas que coisa! ( rsrsrsrs)..Isso é coisa que se diga,Nilton! Homem não desafina!
Estes dias eu e Lucimaura encontramo-nos por acaso e sentamos para assistir alguns tocando em frente ao café.Era verão e pedimos uma cervejinha rsrsrsrs .Ouvimos das mulheres que passavam ...e não dos homens, algo assim:  “que horror!” rsrs
(risos e música!)...se quer coisa melhor?
Quero agradecer por esta ternura, esta forma de amor especial que faz com que tenhamos a música na calçada; esta voz diferente de cada um dos seus instrumentos, enquanto sonham com a mulher, a cidade e as letras que ainda não conhecem. Só me escapa um pouco uma reflexão pequena de que se a música no café dos homens se espalha, os pontos também são falas e recebem à todos nós.
Agradecida pelo acolhimento, pelo café, pela delícia de estar entre vocês.
Beijo com todas as letras
adriana bandeira

domingo, junho 05, 2011

DIA DA CAÇA: Jorge Rein entrevista Adriana Bandeira em Indecentes Palavras – um flagrante de invasão domiciliar

Jorge Rein entrevista Adriana Bandeira em Indecentes Palavras – um
flagrante de invasão domiciliar

1.- Na troca de papéis que combinamos para esta entrevista percebo, com um
certo pavor, que a poesia é a resposta. Mas qual é a pergunta?

rsrsrsrsr...Tinha a ideia de que em toda pergunta, implícita estava a resposta.
Fiz dez, nota máxima, numa prova de neurofisiologia, na faculdade... a pior
das provas e eu não tinha estudado nada! A ideia de estar entrevistada em
Indecentes Palavras surgiu numa conversa com Antonio Amaral Tavares. Ele
me disse que, de certa forma, eu saberia desviar das perguntas. Isso me pegou
de jeito já que Indecentes Palavras é toda a palavra que dizemos. Estamos
sempre nus, diante da própria fala. Precisava passar pelas perguntas, como a
afirmar que ninguém está fora, isento de, sempre, desmanchar-se, reconstruir-
se,... na primeira frase. Mas, de qualquer forma, a pergunta é a poesia. Ela é
que nos interroga. A tua poesia me interroga... Nisso é que a pergunta talvez
seja... o que lhe vier rsrsrsrsrrs

2.- Há poemas que se entregam quase que descaradamente escancarados
à visitação pública. Existem outros que, ainda que herméticos na aparência,
procuram a abertura de um contato em outra dimensão, dispensando as
ferramentas habituais da compreensão ou do entendimento. Vejo na tua
poesia, ou em grande parte dela, uma terceira via, a da ostra com uma flor
desenhada na face externa da sua concha. É possível apenas se deixar
encantar com a beleza plena de sonoridades da sua superfície, mas é preciso
rasgar ou perfurar a crosta, profanar aquilo que é só belo, para atingir o
âmago, o lençol subterrâneo dos sentidos onde hiberna o milagre capaz de
transformar um grão de areia em pérola. Das trabalho ao leitor, também das
recompensa. Finalmente, a pergunta: essa forma de escrita é natural em ti, é
de caso pensado ou, ainda, é uma espécie de deformação profissional em que
pretendes reconstruir o processo da análise às avessas?

Putz! Acho que esta deformação, esta análise às avessas... talvez seja o
natural naquilo que lês. Nunca tinha pensando isso sobre o que escrevo.
Até porque escrevo pouco... talvez não tanto quanto gostaria ou precisaria;
também esta ostra e flor são, em parte, construção do leitor que habita por aí
rsrsrsrsr Falo isso porque a maioria das pessoas não se interessa muito pela
pérola, sua própria pérola; nem pela ostra com seu desenho. Sem falar que faz
apenas um ano e meio que... me autorizo a dizer que escrevo... poesia. Faço
poesia... isso é verdade. Mas escrever poesia, faz pouco tempo. O processo
de análise é algo interminável. Mesmo que por algum tempo não se vá mais ao
analista, ainda o trabalho continua, até reencontrá-lo... se nos proporcionamos
um tempo grande ao trabalho de analisarmo-nos. E para que possamos fazer
a direção do tratamento de outros, é importante um longo tempo de análise

própria. Pois bem... a deformação é a formação, neste sentido. Não há algo
pré-estabelecido além dos três pilares que sustentam esta escolha pela
psicanálise: análise, supervisão e estudo. Mais especificamente, minha escrita
nasce neste processo, num reconhecimento de que são as palavras que me
escolhem e dizem algo. Há, neste aspecto, um apagamento, um estancamento
da minha subjetividade que se abre para escutar o que vem... de mim mesma.
Não há censura, neste momento da escrita. Ela pode vir depois... corrigindo,
cobrindo, arrematando... Mas no momento da criação... não há. Tentando
responder mais tua pergunta... Minha pérola, depois de descoberta, volta a
ser areia fina que escorre e desenha uma flor, que precisa de uma ostra para
existir. Não há superfície que não seja profunda em si.

3.- O reconhecimento de que são as palavras que te escolhem, assim como
essa ausência de censura no ato da criação, parecem sugerir um parentesco
com a escrita automática, o dadaísmo de Breton ou de Tzara. Mas eu não vejo
essa porralouquice (com perdão da palavra) nos teus textos. Pessoalmente,
acredito que existem mecanismos de censura de tal forma introjetados que
funcionam quase como músculos involuntários, resistindo até mesmo à ação
das drogas. Mas é claro que eu não sou um especialista nesse assunto. A
poesia seria, então, uma espécie de exercício de íntima ventriloquia em que
o poeta é, ao mesmo tempo, roteirista, boneco e manipulador? Poesia, do
teu ponto de vista, é uma modalidade de onanismo ou te preocupa também o
prazer do leitor?

rsrsrsr é que às vezes as porralouquices são impregnadas de censura. Na
verdade não há como saber o que realmente é impedimento. Posso apenas
dizer que toda a escrita é, sim, racional. Nada que passe por alguma
representação é algo puro, vindo de sei lá onde. Acontece que a escrita,
sendo uma censura, neste aspecto, em si mesma, afrouxa na medida em que
diz o que deseja dizer. Neste aspecto... deixo vir, neste aspecto não existe
censura. Por exemplo: não deveria falar tanto em "denúncia"... uma palavra
que uso muito como tu mesmo apontaste dia destes rsrsrsrrs. Então eu deveria
me cuidar e não usá-la tanto... Mas, quando ela surge, dou a ela, porque
registra um momento da minha vida que ela aparece vez ou outra... e que um
dia vai deixar de ser , dando lugar a... sei lá qual; também os "ãos", resquícios
infantis, rsrsrrs (lembro de minhas primeiras rimas!) Mas faço questÂO, porque
eles me vêm como docinhos, como pequenos algodÕES que colho de forma
divertida. Aliás... gosto de brincar com as palavras! Isso... sim! Não é raro
escrever algo "errado" gramaticalmente e ter muita pena de "arrumar".
Estes dias escrevia para um amigo nosso... que poeta é aquele que não faz
mais apelos. SIm! O poeta não pede mais nada! É então que digo que não
escrevo para ninguém e escrevo para todos. Algumas palavras, algumas
imagens são universais. Percebo que trabalho muito com isso. Palavras como:
chão, olhar, terra, casa... palavras que todos sabem do que se fala. As frases
na construção do texto são amplas, abertas a todo e qualquer tipo de
compreensão. Não é raro causar uma certa angústia porque o leitor é
convidado a... existir. É desta forma que nem sei se " onanismo" existe de fato,
em se tratando de escrita. A ação é solitária mas... em um momento apenas.

Isso tem sido uma pergunta que me faço e a fiz a Leonardo B... Isso me
interroga, de fato! O espaço solitário é breve, me parece..., pequeno que nem
sei decifrar, porque logo, em si, estamos no mínimo a dois: conosco e com
nossos tantos eus. O que seria natural? Oras, Jorge... a natureza humana é
algo diferente da natureza como a entendemos. A natureza humana é cultural.
Por isso que num discurso existem, sempre, no mínimo dois, mesmo que seja
uma escrita solitária. O prazer do leitor não nos pertence.... Como a apreensão
do tempo, nos foge! Existem textos que são lidos depois de... cem anos?
Existem leitores que se descobrem leitores de algum texto, muito depois de...
Repara... para existir o leitor, precisa haver um texto; para que se tenha um
texto é necessário o leitor, no mínimo, leitor de si mesmo!
Também questiono sobre a possibilidade de prazer que uma poesia possa
causar. Falo que na maioria das vezes a poesia traz desacomodação,
angústia, questionamentos... Como diria Freud..."para além do princípio do
prazer" rsrsrrs... a poesia está para além do prazer, propriamente dito.
A poesia para mim é só o momento que fez algum buraco.

4.- Se a poesia não proporciona prazer, qual é o mistério da sua permanência,
qual é o segredo da sua persistência em sociedades preponderantemente
hedonistas? O
dualismo
pulsional
freudiano
desvenda
totalmente
essa necessidade que o ser humano sente da desacomodação, dos
questionamentos e da própria angústia (para usar tuas palavras)? E o
preenchimento dessa necessidade, através da poesia ou de qualquer outro
artifício, se traz satisfação, se traz algum conforto, em que se diferencia do
prazer? E não vai me chamar de masoquista.

É... o que se quer é o prazer. Mas, o que é o prazer? Se pudéssemos
terminar com nossas angústia, o frio, a fome... se pudéssemos terminar com o
desassossego... estaríamos em paz... eterna! rsrsrsrsrsr Então existe a busca,
o caminho, o andar da carroça... Isso está longe de ser o prazer imaginado.
É somente o que se pode ter aos poucos, aos goles, a cada vez. Isso está
distante do que se idealiza como... o melhor. Neste aspecto, a angústia, a
tensão acaba por terminar num reconhecimento de gosto... de prazer. Sim!
Passageiro, que não para de não acontecer, para que, por algum momento,
possa estancar parcialmente, como se fosse, como que achado o caminho
que... logo vem a desencaminhar novamente. Quase um recorte, uma imagem
que se autoriza a vir, como leite morno, como colo quente, como aconchego
necessário para que possamos partir. É neste sentido que está para além do
que se desejaria como capaz de fazer parar a procura. É evanescente.
A poesia lida pode ser isso... Mas escrever poesia não me parece leite morno
rsrsrsrsrrs. Esta necessidade nunca é preenchida. Para isso sabemos que é
a partir do "perdido" que se constrói o objeto imaginário. É pelo que jamais
teremos o que se procura. O dualismo pulsional freudiano é uma grande
sacada. Muito mais pelo que tem de didático na explicação de que, na
verdade, todo desejo é insatisfeito. O que desejamos, de fato, é... voltar para
a mãe, ou seja... morrer! Isso não é masoquismo. É... trágico! rsrsrsr Mas, no
caminho disso, plantamos algumas coisas, deixamos algumas rasuras, umas

palavrinhas e... pelo que este prazer de momento proporciona... seguimos
vivendo em busca do que nos representaria. Talvez o segredo da permanência
da poesia seja justamente este. A busca por algo que represente o desejo...
de morte. Por isso a poesia é uma ação humana, uma fala humana... uma
necessidade.

5.- A poesia é um risco: no papel, no bordado, na vida. Gostaria de dizer que te
vi nascer como poeta, mas provavelmente isso não é verdade. Aposto que já
eras poeta há muito tempo e não sabias. Te percebo dona de um estilo muito
particular, que incorpora influências mas não se prende a elas. Quais são as
tuas principais referências na literatura?

Ah! Acho que é verdade sim... Nunca vou esquecer das tuas palavras
escritas..."para mim acabaste de nascer" rsrsrsr Não lembra, né? Pois é...
acho que eu fazia poesia mas não escrevia. Não lembro de nada neste
sentido, antes de te conhecer. Aliás... antes de ler teu livro &. Vim de lá...
daquela leitura! Vez ou outra volto e... não volto igual! rsrsrsrs. Antes, lembro
de uma leitura censurada, imprópria, não permitida, quando ainda muito
menina. Por exemplo, de quando já sabia ler e mentia que não. Na verdade eu
entrei na escola, na primeira série, como se não soubesse ler. Na época sofria
de dores de cabeça terríveis. Eu tinha uns 5 ou seis anos. Ninguém sabia o
que era ... Minha mãe conta que sempre teve medo de que eu não me
alfabetizasse rsrsrrssr E ela tinha razão! Ainda não fui alfabetizada em muitas
coisas! rsrsrsr Pois é... mas lembro de ler o aviso próximo aos trilhos do trem.
Aquela placa enorme que tinha escrito: parar, olhar, escutar. Lia isso quando
voltava da padaria com a empregada... e eu ainda não estava na escola
rsrsrsrsrrs. Bem, estas três palavras são importantes para mim e, de certa
forma, num tanto, norteiam o que hoje faço. E o trem... Nem se fala! Também!
rsrsrsrrsrs
Fui uma rata de biblioteca na meninice. Lembro de livros antigos que li porque
estavam na estante lá de casa. Li alguns para agradar a mãe... por exemplo
alguns do escritor Cronin... Acho que um chamava-se "noites de vigília" (e
aquilo não tinha fim! rsrsrsrs). E tinha a coleção dos clássicos como "Jane
Eyre"... Depois li muita coisa que não entendia! Por exemplo alguns de Herman
Hesse. Na época não entendia e não me importava em não entender. Apenas
gostava de algo que, hoje, identifico como o ritmo da escrita. Josué
Guimarães, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos,... Nossa, Jorge!
lembrei das minhas andanças solitárias! A adolescência é uma crise, não é?
Aproveitei o máximo. Pois é... acabava de parar com as aulas de balett e hoje
identifico esta busca pelo ritmo dos escritores como uma substituição, um
encaminhamento em relação à falta da dança. Outro: Cervantes, Proust, Ligia
Fagundes, Schopenhauer... tantos, tantos... de diferentes estilos. E quando me
apaixonava por um... lia vários do mesmo estilo até extinguir qualquer
entendimento. Lembro de um, acho que do Josué Guimarães que decidi: não
leio mais nada dele! Briguei! Nunca mais fiz as pazes! Era um texto tão triste,
tão solitário que... ali não tinha dança a dois! rsrsrsrsr... Ah! O James Joyce...
Mas vê bem que é como se fosse música! rsrsrsrsrsrsrsrsr Pois é... aí eu
conheci Lispector. Então comecei a escrever. Aí, as coisas mudaram em
relação ao que escolho para ler. Perdi a busca somente pelo ritmo. Agora,
depois dela, quero também a letra. Aí... nunca mais dormi! rsrsrsrrsrsrrsrsr... E
comecei a minha psicanálise e os textos de Lacan, para mim... trazem muita

coisa que me faz escrever!

6.- Mais uma para o rol das coincidências. Na casa da minha infância, ao
lado do imponente telefone preto que eu chamava de “cuervo” –porque
sua campainha para mim sempre soava a mau agouro–, havia um bloco de
anotações. Em cada uma das páginas, a impressão reiterada da mesmíssima
mensagem: “Não fale, escreva”. Acredito que tenha sido uma das minhas
primeiras leituras. Obedeço até hoje. Mas, mudando de assunto: tenho a
impressão de que no Brasil existem mais poetas que leitores de poesia.
Talvez isso reflita o fato de que ser poeta é condição inata de (quase) todo ser
humano, exercida pelo menos em algum momento da vida. Já ler poesia é um
hábito, é preciso adquiri-lo. Pertenço ao MSB (Movimento dos Sem Blog), mas
sem radicalismos. A cada tanto peço pouso na casa de algum poeta amigo
(Indecentes Palavras é um dos meus endereços preferidos). Enfim, qual é a tua
opinião sobre a proliferação desenfreada de blogs de poesia?

Pois é... vejo os blogs e algumas redes sociais, como nossas praças de hoje.
Nelas falamos, brigamos e expomos o que temos de melhor ou pior. Neste
sentido gosto muitíssimo e vejo neles, nos blogs, uma função social importante,
com outro rosto. Por aí, talvez, por ter que ser esta " praça" lida,... talvez
faça nascer mais leitores de poesia. É um pensamento que surge agora. Não
consigo ver algo ruim, nisso. Os estilos são escutados, com esta voz de dentro,
do leitor. Os estilos são compartilhados e... isso que dizes sobre o "poetar"
ser condição humana, nunca foi tão comprovado. Porém... publicar num blog
não é publicar num livro; colocar no blog, no meu entendimento é fazer valer o
processo, em andamento, na carne e sangue que nasce o poema; com seus
possíveis problemas, sua falta de coberta macia... sua frágil moradia que é o
possível leitor. Porém... o aumento desse tipo de publicação, o aumento deste
tipo de relação só nos faz pensar na solidão, cada vez maior, do poeta. Solidão
não somente na escrita mas... na pessoa do escritor. Não somente para quem
escreve. As redes sociais e os blogs medem a febre, avaliam o sintoma desta
solidão humana que se transforma em aconchego virtual. Errado? Não! Mas...
há uma mudança muito significativa e escutar isso é importante para revermos
padrões estáticos de normalidade ou loucura. Estes dias mesmo... falávamos
nisso, na produção do escritor e sua loucura... Pois é... os blogs são uma forma
de fazer poesia.

7.- Nada tenho contra as novas mídias, mas confesso que sofro de uma
espécie de fetichismo com relação ao livro como objeto de desejo. O livro tem
cheiro, textura, enfeita belamente as prateleiras e não traz junto, de brinde, as
onipresentes ferramentas de invasão da privacidade, como o GPS ou o celular.
Notes, tablets, pods e pads têm a vantagem de ter luz própria para burlar
as trevas, mas o livro tem outro jeito de iluminar. O Chá das Cinco já está
esfriando nas xícaras, quando teremos mais Adriana Bandeira em livro?

Pois é... o sujeito que lê o texto no livro é diferente do sujeito que lê na tela.
São lugares subjetivos diferenciados e prometem experiências novas em
relação a isso. Também gosto do cheiro, da cor... aliás isso tem tudo em
comum com a letra que tem dentro. Mesmo que seja o "capista" o outro
artista, no conjunto, a nuance, o traço... é também leitura. Hoje autorizo-me
a não gostar ou gostar... destes segredinhos que nos tomam como: cheiro,

cor, sabor, textura, etc... O livro "Indecentes Palavras" está pronto. Com
apresentação de Jorge Rein e Sidnei Schneider, com algumas palavrinhas de
Fernando Hartmann, psicanalista... Mas, faltou grana. Rsrrsrsr Tive algumas
mudanças sérias nos últimos seis meses, na vida mesmo, e tive que protelar
um pouco a publicação. Aí nasceu o blog Indecentes Palavras, que do livro tem
apenas dois ou três textos. Mas o blog nasceu desta falta que me fez adiar o
lançamento do livro. Acho que... setembro, outubro...Vamos ver!

8.- O vaivém dos e-mails na construção desta entrevista, que mais parece um
diálogo, me fez lembrar de um projeto em comum que deixamos um pouco
abandonado. Será que aquele dueto que ensaiamos foi uma tentativa de
amenizar a solidão do escritor da qual falamos, porque éramos leitores de nós
mesmos, próximos e imediatos, e o desafio mútuo nos tornava mais hábeis
neste ofício da palavra (também mais desvairados). Eu sinto falta disso. Como
foi para ti essa experiência?

Como foi? Não pensei que tivesse terminado rsrsrrsrsr. Sei que a próxima carta
é a minha e, talvez esta troca esteja realmente mexendo com meus neurônios
rsrsrrsrs pois acordei hoje, pensando na respostas, depois de todo este
tempo! Esta experiência tem sido maravilhosa! Primeiro porque... respeitamos
o tempo um do outro. Sei que podemos retornar sempre; segundo... porque
me faz experimentar uma coisa que nunca pensei: pensar, escrever, ser...
um homem! Não foram raras as vezes que eu pensei em te pedir para
trocarmos... eu adoraria fazer o meu papel mesmo rsrsrsr Mas não acredito
que acontece para amenizar alguma coisa, não! Pelo contrário! Acho que... há
um encontro, aqui. Talvez de semelhanças, de danças, de escolha. Acho que
nos escolhemos e isso é algo maravilhoso! Nossa troca de correspondência...
acho muito legal. A ideia foi nova e espero, um dia publicar. Não em
indecentespalavras, mas em textura, cor e papel. Logo vai a carta... Aproveito-
me desta habilidade masculina de me atrasar, de não entender direito o que as
mulheres querem rsrsr Escrever como Thomas é algo encantador! Isso me faz
respeitar e amar cada vez mais a condição masculina.

∞. – Então é isso, Adriana. Acho que não me resta por quebrar mais nenhuma

das regras de conduta sugeridas pelo Manual de Procedimentos do Bom
Entrevistador (edição corrigida e revisada). O que eu gosto mesmo é de estar
contigo, sem grandes protocolos. Poderia estender esta conversa por uma
eternidade. Nem chegamos a falar da presença obsessiva da figura do Pai,
Montenegro como pano de fundo, rios e trilhos, trens e navios fantasmas,
estações e estaleiros... Mas estamos tirando espaço e tempo da poesia, o que
é imperdoável. Não vou pedir nem mesmo para dares um recado final, porque
esta é a tua casa, mas aceito um poema. Eu te devolvo a chave e agradeço o
convite para ser, neste breve intervalo, o hospedeiro. Mas antes de partir, te
roubo um...

beijo com todas as letras!

Existe aquele de mim que faz nascer poesia. E ele compartilha da solidão da
letra e da palavra companhia. Ele não vai embora e não vem como se quer.Apenas nunca se desfaz. Não sei o que rasga em mim restar poema, mas nada, antes, foi tão para sempre assim, farol de estrela. (adriana bandeira)

beijo com uma das tuas letras, Jorge.

Poemas de Rua...A cidade em mim

Chafariz

Qual a letra de chafariz?Aquela do lugar que tem pato e praça de brincar...e tem el estragado.Qual?Respondi: a letra é " se".




Riso

Na esquina
escondido
mora o sorriso
No antes
do tempo
ou no agora contido
Na rua
corre
o rio
sumido

sexta-feira, junho 03, 2011

Para Ele

até o rio...tem uma censura, uma textura que me incomoda.
até o rio...chega a vontade de morrer no cais, nas tuas mãos: desejo.

Poemas de Rua...a cidade em mim

Cimento Fresco

O outono traz
a folha que embarca
num tempo de rua,
chuva do vão.
Vai mundo sem dia
traçando armadilha
no meio do nada,
abandonado verão...
o sapato, o proibido
que restou na palavra
desenhada calçada
depois de não mais sumir

quinta-feira, junho 02, 2011

Restinhos

É Estar como chama o amanhã que dá nome à dor do sonho;É ser como chama o dia sem abandono

segunda-feira, maio 30, 2011

Para o poeta assumido

Todo risco é palavra desenhada diferente, é resto de sombra em luz crescente que se transforma em sonho ou dor.Parte a carne e fere os olhos enquanto aquece o fogo, para outra nova canção.Risco é vôo sem asas que se desprende de casa e não volta nunca mais.

ASSUMIDO

PARA TIM MAIA


o poeta não foi
ao evento para o qual você
o convidou, o puto

não quis te assistir
quando você mais precisava
de público, ele

sumiu. dizem que
não vem quando está
escrevendo (ainda mais

se proseia ou ensaia) e
o texto começou a andar
ou desandar (dá

no mesmo), ou se
não está escrevendo
nada, grávido de

poesia, ou seja, em
crise, desgostoso com
o mundo da palavra.

se o poeta compareceu,
anote bem, foi porque
calhou, não que goste

especialmente de tudo
o que hay, ainda que se
esforce para rever

amigos e desconhecidos
que gosta de ler ou
assistir: marca na

agenda e sente dor
quando cumpre a regra
de não ir (ou porque

trabalha para comer
e dar de comer -
e sabe bem o que é

não ter nem isso -
ou porque além de todas
as dores que guarda

ainda tem a das costas
de tanto digitar,
ou a de cabeça

à cabral, que o
desatam sem carinho,
catapultando

a dificuldade
para dormir regularmente
dentro da vida

irregular que leva,
mais as complicações
todas da sempiterna

entropia diária).
o poeta, como se vê,
é um mau sujeito,

um tim maia,
que se rejunta
pelo menos para não

deixar de ir
ao que protagoniza,
se bem que

nem isso pode
garantir 100%,
pois mesmo garantindo

cai em fossas
feito esgoto
sem explicação.

visto que lê muitos
textos bem organizados
e interessantes,

não tem muita paciência
com abobrinhas
mal digeridas,

nem com as dos outros,
nem com as suas,
gosta de ler,

não de repastos que
fazem mal como um
filme ruim

(arte ruim entristece,
conduz ao suicídio,
mata mais que guerra).

o poeta quando vem
é alegre e quer
estar de bem com você,

gozar a inteligência
da sua fala,
da sua família

de amigos, mas
não esqueça nunca,
ninguém esqueça,

o poeta é um sumido
assumido.


SIDNEI SCHNEIDER-2011

sexta-feira, maio 27, 2011

Poemas de rua...a cidade em mim

 Sons daqui

Te vejo nascente na rua esculpida, pele semente, palavra antiga.Entrego teu rio na mão inquieta, sem brilho,sem som,apenas réstia.Ainda o silêncio da mulher estrada, quando teceu o caminho, mais nada.

quinta-feira, maio 26, 2011

Bordado

A aranha só
sabe bordar
todas as noites
a canção que há.
Num traço que,
na madrugada fria,
se desfaz.
Ela é
sempre
o que
ainda não
está.

Poemas de Rua...a cidade do outro,por Carmen Presotto

Sarandi

chove em vidros
vidraguo minha janela
lavando um porto
cicatrizo
e fendo florcidade

Bailarino letras
sangro veias de mãos em mão

Chove
olhos escoam pessoas
que passam

Sarandi
versos indíginas da flor primeira
mundo
saudade da última perda

Voz de vidros
que molham
carmens de Bizet a mim

da ópera
gotejo vermelha
uma música
que me planta jardim

Sarandi
tua água perfumada
me orvalha néctar
teu sol me desdobra foz
arco-íris
e para ti amore mio
me chovo em idades…

Poema de Carmen Silvia Presotto

segunda-feira, maio 23, 2011

Olhar na web

Quero te ver
em presença
não tela,
esmagadora
essência.
Já basta a minha
mirada,
estanque e
passageira.
Quero sentir
em verso,
denso
e eco,
tua voz
em mim.
Querer é
mais do que apenas
tv.

sábado, maio 21, 2011

Para Wagner dos Ais-blog Poemas da Minha Alma

E finda tanto como estouro no cais, a boiada do campo, a voz do mar.É o estampido da mutilação que mais em sombra é só verdade.Distância, perenidade... da palavra que rasgou a razão.
beijo grande.
adriana bandeira

sexta-feira, maio 20, 2011

PARA LAU SIQUEIRA..."PQ LANCEI MEU LIVRO NUM MANICÔMIO"(BLOG PELE SEM PELE)

Sem devolver nenhum dos pedaços, como espelho que se desloca em traço...no corpo,na palavra,na terra.Sempre parte da lembrança, escrita sincera.
adriana bandeira

Não sei se por ironia ou por desacato é sempre da palavra a transgressão.Quem fica, só tem esta marca e dela não abdica...senão para quê viver?Por algum motivo simples, conheço algo disto,da casa disto, da rua disto...e sei da necessidade que resiste às vaidades, às aparências, como quarto seguro e pequeno em que nos vemos sempre.
Lembro de mim, há algum tempo, com um resto de poesia na bolsa...quando o pai declamou para mim.Um resto pq ele não lembrava mais.
Uns dizem não com a voz...outros não falam mais.
Pois bem,para ti, daquele bilhete que o pai me deu:..." e à um anjo feito tu quando se brinda, têm-se a missão cumprida e a festa finda: quebra-se a taça,não se bebe mais"...E a taça é quebrada a cada vez...pelo que se quer para sempre.
Beijo grande,Lau.

quarta-feira, maio 18, 2011

POEMAS DE RUA...A CIDADE EM MIM VII

 Anos de chumbo

Quando o vazio
entrou na casa
esquecidas primeiras
foram as falas,
o nome das coisas,
dos sons.
Branco de tinta,
uniforme cinza
sangue marrom.

POEMAS DE RUA...A CIDADE DOS OUTROS I

                                                 ALEGRETE
A cidade que herdei
tem rebanhos de pedra
semoventes de sombras
e um cavalo de troia.
Negrinhos, salamandras e pastoreios
perseguidos por um rio
atiçados de vertentes
na misteriosa profecia
de suas águas.
Ilhargas, hortos e casarios
quinchados de sois poentes.
Cartuns ,Cartago
musicas que jamais acabam
enfeitiçando o mágico festim
dos meus brinquedos.
Igrejas de torres afiadas
num ceu azulado de sonho
vigiado à distância
por uma minúscula
lua de marfim.
Batizei de Alegrete
os reinos silenciosos
da cidade que inventei...
                                                                       Élvio Vargas
Pg 4 do  " Livro: Cidades Gaúchas
            Organizador: Luiz Coronel.







CÓDIGO DE (IM)POSTURAS PARA UMA CIDADE IMAGINÁRIA  - I

crepúsculos
sepulcros só
aos olhos dos suicidas
condôminos do ocaso
pássaros provisórios
dos terraços
lusco-fusca a cidade
nos velórios
do concreto
cansaço

          Jorge Rein

POEMAS D ERUA...A CIDADE EM MIM VI

  Asa delta

Todo vôo é rasante.Corta o espaço e a cidade: agora e antes.

terça-feira, maio 17, 2011

Para conferir...Palestra de Elvio Vargas em Alegrete: falando sobre Mário Quintana.

O poeta e escritor Elvio Vargas estará falando sobre Mário Quintana, numa palestra que se realiza hoje, no campus Universitário de Alegrete, na Universidade da Campanha.
" A memória Existencial e Poética de Quintana" acontece às 19:30 no Salão de Atos General Alcy Cheuiche,no Campus, em Alegrete.
Esperamos Élvio, em indecentes palavras, para quem sabe nos brindar com algum bom momento deste encontro.

domingo, maio 15, 2011

POEMAS DE RUA...A CIDADE EM MIM V

 Crisóis

Quando as luzes acesas derramam estrelas pela procissão, escorrem as cores numa madrugada fria que se enche em festa de cristão.São estranhas vozes seguindo deus, numa domesticação: Ibiá não se canta, só assunto de reza, que o morro dos outros não se dá mais nos crisóis.O Morro de dentro é assassinato na rua, é Caigangue chamado de ladrão.São João do Montenegro, nunca pediu perdão.

POEMAS DE RUA...A CIDADE EM MIM IV

 A casa morta


E depois de atingida, ainda viva, aguardava inerte.Braços e pernas dilacerados, com o olhar no trilho inexistente, esperança que traz o tempo de volta.Jazia imóvel e relutante de escapar dali, carregando só as ruínas, sem a própria alma.Por algum tempo respirou, contrariando as leis das demolições.Braços, pernas e sexo, violados pela colonização que se repete nas ruas e praças, matando o que restou  de palavra-paixão.
Com a mão já morta acenava incrédula: lá vinha ele com o chapéu para trás.Sentou-se, com o cigarro que carregava na orelha, de onde a fumaça escuta o apito do trem.Eu que nem fumo, nem canto, fumei e cantei uma música que nem conhecia, só para pedir desculpas por ter chegado tão tarde!
"Volgmut"enrolou fumo e tecido, panelas e palavras num mesmo grande saco: viagem.Olhou-me em dizeres de perda, embarcou no trem que nem existe mais.Antes, a casa dando-lhe a mão, morreu com sua alma, em paz.
Quando a nova construção surgiu tão rápida, invadindo a praça e a delícia, nunca mais pude morrer.Virei fantasma do desejo de ser.

sábado, maio 14, 2011

Poemas de Rua...a cidade em mim III

 Caminho

É vertente de terra,o caminho aberto pelas passagens.Altas,espertas metades, entalhadas num mar de capim.Ainda verde, em chamas de ar, colhendo toda marcela que há...para o remédio dos dias da mãe.Mas era o sol ardente que fazia riscado na pele , tecendo o suor em oração.De longe ele veio, no mesmo caminho,roçando os olhos na branca minha visão.Não recuei do destino: as marcelas, o caminho de chão e os móveis de núpcias.Por certo, dizia a mãe, que não voltasse no passo...para colher chá de mulher.Só não sei o que fazer com estas marcelas que reúno há anos, como remédio por engano, para reencontrá-lo lá.

Poesia sem Pele-Lau Siqueira

Poesia Sem Pele será lançado dia 18 de maio, em João Pessoa

A editora gaúcha Casa Verde estará apresentando ao público pessoense, no próximo dia 18 de maio, às 20h, no pátio do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, o quinto livro de poemas do poeta gaúcho radicado na Paraíba, Lau Siqueira. Poesia Sem Pele faz parte da coleção Cidade Poema (http://www.cidadepoema.com/), projeto coordenado pela escritora Laís Chaffe e que vem espalhando poemas pela cidade de Porto Alegre em out-doors, bus-doors, bolachas de chopp, adesivos, imã de geladeira e outros suportes.
O evento faz parte de uma ampla programação da Semana de Luta Antimanicomial que além dos debates, palestras e manifestações públicas,  contará com oficinas e shows, envolvendo nomes importantes do cenário artístico local e nacional. Entre eles, Babilak Bah e Tom Zé.
Para Lau Siqueira o lançamento realizado dentro do Complexo Juliano Moreira ocorrerá dentro de um contexto muito especial. “Logicamente que não podemos atribuir à poesia um poder de transformação de realidades tão complexas como a dos sistemas pisiquiátricos. No entanto enquanto escritor e militante entendo que precisamos agregar forças, com nossa arte, com nossas energias, para caminharmos para uma sociedade onde o fator humano seja preponderante. Como disse Antônio Cândido, ‘a literatura deveria ser considerada um dos direitos humanos’ ”, afirma o autor de Poesia Sem Pele.
Para a prefaciadora da obra, Susannah Busato, professora de Poesia Brasileira na Universidade Estadual Paulista – UNESP, campus de São José do Rio Preto, “As imagens da natureza na poesia de Lau Siqueira assumem uma dimensão cósmica, como um signo que condensa no átomo do poema um elétron pulsante, construíndo pela pulsão entre olhar e objeto uma relação magnética  e anterior ao tempo. Quero com isso afirmar que sua poesia penetra os objetos extraiondo deles a dimensão de um mundo ainda não visto.”
Além do lançamento, na noite do dia 18, no pátio da Juliano Moreira estará acontecendo um sarau poético e uma apresentação do Círculo dos Tambores, criado e coordenado pelo professor do departamento de música da UFPB, o percussionista, Chiquinho Mino. A apresentação da obra será feita pelo poeta paraibano Jairo Cezar, ex-diretor do Memorial Augusto dos Anjos e autor de Escritos no Ônibus. Antes de João Pessoa, o livro foi lançado no dia 5 de maio, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, na programação no FestiPoa Literária e no dia 10 de maio, no Brooklyn Café, em Curitiba, numa promoção do jornal Memai, de cultura japonesa.
.....................
O quê? Lançamento do livro Poesia Sem Pele (72páginas), de Lau Siqueira
Quando? No próximo dia 18 de maio, às 20 horas
Onde? No Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, em João Pessoa
Preço de capa: R$ 10,00

terça-feira, maio 10, 2011

POEMAS DE RUA...a cidade em mim II

 Margem do seio, rua do rio

Meus primeiros
seios
na espera do rio
que sempre chega
cedo
Muitas vezes
em maio
outras receio...
O saber cresce
em idades
como água
nas paragens
que desenha
outra e outra...
margem

POEMAS DE RUA...a cidade em mim

Inicio uma série de textos, feitos na hora, que se apresentam em indecentes palavras.Eles falam da cidade, da rua, das coisas que me habitam, numa espécie de reconhecimento deste lugar onde moro.Talvez venham da necessidade de escrever algo sobre a existência das palavras que, antes de mim falaram, nas casas que foram demolidas, no cais entreaberto, no estaleiro adormecido que não pára de não arrumar barcos.
Pois bem...inicio esta censura no que passeia livre nas imagens de mim; censura suposta e amiga que faz nascer palavra num sem fim; dique do rio que cria o barulho das águas e das estações.
Convido as pessoas a utilizarem este espaço como denúncia de fala, como poesia armada, como toda pronúncia não deixa de ser: arma de humanidade.

Na esquina
tua voz ainda fala
de Getúlio, tão Vargas!
...que passeia como
se fosse abril.
Recolhidas as mulheres
sorriem: é festa do pai
que reconhece os homens,
numa servidão sem mês.

domingo, maio 08, 2011

EnRedados em Indecentes Palavras: homenagem à Cora Coralina em Vidráguas

https://mail.google.com/mail/?ui=2&ik=824c6d5fa2&view=att&th=12fd1c8bbb272727&attid=0.1&disp=inline&realattid=f_gngkh3nr0&zw
www.vidráguas.com.br

Eu de ti

Nunca fui do lado de lá, no cio das águas.Nunca atravessei o verbo rio de mim, de onde calas.

Último olhar

Ensaiei uma frase, a que eu diria se fosse sábado.Outra no domingo...e os dias da semana passaram anunciados de fim.Por resto, não repeti nada quando me despedi do único olhar que findava.Só parti.

sexta-feira, maio 06, 2011

Melhor tempo

Quando a melhor poesia desenha a rua,casa,esquina...é hora de assistir as luzes que se acendem como páginas, todos os dias.

Flerte

Teu olhar
de homem
por um
instante
pousou-me "in" certo.
Minha pupila
dilatada
recebeu-te
fértil.

terça-feira, maio 03, 2011

A pele da palavra é o barco que segue no tempo...falando das portos com Leonardo B.



1-Leonardo...é comum lermos um poema, um texto, uma frase e, de certa forma
imaginarmos o autor como aquele que sempre soube o que ia dizer. Neste aspecto é
imaginário indigesto consumirmos a palavra como já pronta, plantada no seu autor,
desde antes. Poderia nos falar um pouco de teu processo dentro disto? Porque escolheste
escrever?

Seria dramático se assim fosse, Adriana, a “palavra pré-confeccionada”, o objecto de
arte já impresso, pré-fabricado em cada um de nós, como uma fatalidade, um destino
ao qual não nos podemos furtar, pelo menos àqueles que ainda gostam de encontrar
o mesmo rosto todos os dias ao espelho, pela manhã, com mais ruga, menos ruga.
Prefiro pensar, refazer diariamente a minha relação com a palavra, e pretende-la
como uma união de facto, como um “casamento secreto”, em que cada um sabe das
suas obrigações e deveres, dentro de portas, mas entre si e diante do mundo, entrega-
se incondicionalmente, sem fronteiras ou regras bem delimitadas, e naturalmente,
sem julgamentos desnecessários, nem ambições frustradas por antecipação… eu e a
palavra, damo-nos bem, mantemos a relação saudável e sem máscaras, sem contrato
assinado no cartório, sem a necessidade de manter a “fachada”, o cadastro limpo e
imaculado, ainda que de quando em vez haja lugar para uns pequenos delitos, umas
pequenas traições, nada de mais… Por outro lado, seria indigesto, e pego na tua
expressão, se a palavra já estivesse “cá dentro”, devassando o meu espaço, como dona
e senhora da minha vontade e vice-versa; a palavra tem mais que fazer, para obedecer
a um estereótipo, que ainda que seja muito confortável, não funciona, é redutor; em
determinados momentos, abrem-se excepções na nossa relação, mas sempre com o
cuidado dos amantes… deixo-a ir e voltar, quando deseja e bem entende, e penso que
me exige, mais ou menos o mesmo, por muito que nos custem algumas separações
forçadas…

Porque escolheste escrever?


                                 Leonardo ainda menino,no primário

Ora aí está “a pergunta”: Adriana, terão as coisas mais simples uma resposta
convincente, imaculadamente decente? Porque é que as nossas paixões são
comparáveis, por baixo, aos tornados que arrasam tudo à passagem, montanhas e
monumentos milenares, incluídos? Porquê, ao idiota que se aventura no mar para ir
descobrir um mundo qualquer, que nem nos mapas existe, disposto aos caprichos das
tempestades, e nem sabendo muito bem o que vai fazer às Índias, às Américas ou ao
Japão? Porquê ao homem que insiste em pisar o solo lunar, sem que faça a menor ideia
que aqui no quintal ainda existem milhões de perguntas por responder e questionar,
uma família que o reclama para o jantar que arrefece, mas não... o tipo teima ir mais
além, na escuridão da sua ignorância, sem se aperceber que nem há uma questão a
responder… nada de nada. Não faço a menor ideia porque escrevo, nem sei bem onde
arranjei este “contrato” com a escrita. Sei que foi há muito tempo, já tivemos bons e
maus momentos, e nem sei se foi a escrita que me escolheu ou contrário… nem faz
diferença. O mesmo já me aconteceu com as tintas, com a pintura, um caso furtivo,
diria, em que “as coisas não funcionaram” e tivemos a coragem de concordar
mutuamente que cada um ia à sua vida, sem causar mais danos ao mundo… o que não
quer dizer que não nos encontremos de novo, eu e a pintura e voltemos a ter um caso,
não… acredito que está sempre tudo em aberto e com os anos fui aprendendo a

entender que uma das expressões mais abjectas que utilizamos todos os dias é
um “nunca mais”. Da mesma forma, que a minha relação com a escrita é desapegada,
e como tal, senão mais frutífera, pelo menos mais sincera, com a pintura acontece o
mesmo… talvez um dia nos encontremos por aí de novo, e nunca se sabe… Enquanto
houver incondicionalidade e sinceridade à “flor da pele”, tudo fica em aberto e vai
ficar, até porque é aí que tudo começa e acaba, na sinceridade ou na falta dela.

2-Não é raro que tua poesia inspire uma denúncia sobre a morte. Quando chego a
isso costumo apontar a verdade pontuada a cada parada, no ritmo da escrita mesmo;
costumo dizer que o poema nasceu em carne viva. Concordas comigo? O que achas
desta analogia?

Não é fácil concordar ou discordar, porque é algo que nos escapa, enquanto pessoas
simples que estão a dar forma a algo, na constante procura do resíduo, do que sobeja
da vida, para o enformar e dar-lhe vida, animar. E aí há uma tentação enorme de nos
comparamos a “criadores”, mas nada disso, essa perspectiva é muito presunçosa,
ainda que haja quem a tome em forma de remédio, às colheradas, todos os dias, mas
isso não é o que mais me importa… isso é água-benta que cada um toma a que quer.
Na minha perspectiva, o escritor, o artista enquanto ser que vai embirrando com o
mundo, inconformado, esgravata, quando muito, um pormenor, um acidente feliz no seu
dia, uma palavra que alguém se esqueceu de semear e vai por aí, sem rumo, mas com
a teimosia indispensável de quem se pensa poder “alterar” o inalterável… e por vezes
os sintomas muito semelhantes ao “acto da vida”, ao acto dum parto: uma luta intensa
num lapso de tempo, um resgate para a vida do que se sabe ser um combate desigual,
medem-se as forças entre o que temos por vida e morte, a ansiedade extenuante do
combate e no final… aí estamos: prostrados, exangues, como se se tratasse do nosso
último momento, a última parte dum ritual, o fim, e afinal não, ainda “estamos vivos”,
o poema está são e salvo, pela nossa parte. O que lhe acontecerá depois, já nos
ultrapassa…

Tenho muitas vezes presente, e de forma bastante vivida, o dia em que assisti ao parto
do meu primeiro filho e que inevitavelmente revolveu-me, mexeu na minha estrutura
interior, na forma como se condensa a minha relação com o mundo… tudo naquele,
nesse momento é tão frágil, tão breve, tão desigual e ao mesmo tempo tão claro, tão
evidente, que só nos pode apequenar, a nós homens que “assistimos” a essa luta com
a convicção que estamos dentro e com a mesma tenacidade, com a mesma audácia
que a mulher que “entrega à vida o que lhe pertence”… mas não; estamos, ainda
que de corpo e alma, e o pouco que nos compete é estar ali, a observar, a ajudar nas
coisas práticas do parto… mas, da sala, enquanto homem num mundo estranho que é a
maternidade, trouxe, para além das muitas emoções que não cabem na nossa conversa,
nem as saberia materializar, o que soube reter, o que me foi permitido reter da grande
metáfora da vida, do nascimento duma criança, filho meu, e que desfaço e refaço
muitas vezes, enquanto escrevo, enquanto me entrego de novo ao mundo, enquanto ser
frágil que fui e que sou, em constante dor, que não é nem de parto, nem de chegada…
é outra coisa qualquer, uma outra forma de analogia e semelhança de vida, uma
constante busca duma outra dimensão da vida; aí concordo, salvas as distâncias, que
sinto o poema carne viva, ou melhor, um pequeno sopro que não sabe muito bem da sua
dimensão, mas que existe e está lá, a ganhar nos lapsos do tempo, a força, a coragem, o
despojo que nos falta no quotidiano, banal e comum. E é consolador, muito consolador,
o sentimento de que algo que em nós morre, e que vai morrer necessariamente, poderá

ressuscitar “no outro”, ganhar uma nova forma, uma outra dimensão, uma essência
independente, algo que nos escapa, mas consola, apesar de tudo. Talvez que daí, o meu
quase desapego ao poema, para me entregar incondicionalmente à palavra, e neste
particular, à poesia… mas daí a “ser poeta”, vai uma grande distância.

3-A barca dos amantes...ali tem um título curioso que preciso saber: o que é “ A criança
inacabada”?

Nada de enigmático, nada de mais… para o caso de ser relevante, Adriana, comecei
a rascunhar aquilo que vulgarmente chamamos poemas, bastante cedo… talvez com
treze, catorze anos, coisas pequenas, que hoje poderia facilmente negar, mas na altura
deram um jeito terrível para manter uma “certa aura”, que em plena juventude, o
maior e mais imediato proveito que trazem são umas quantas conquistas femininas e
um “causar impressão” nos professores de Português e consequentemente, uma ou
outra nota um pouco melhorada, e até aí, tudo bem… e o depois? O depois é o pior:
quando chega o inevitável sentimento de que somos o novo Pessoa, ou algo que o
valha, é que vem o Inferno.

Escrevi regularmente até aos meus vinte e cinco anos, mais coisa, menos coisa, até
que, e mais uma vez de mútuo acordo, eu e a poesia separamo-nos durante um período
suficiente, ainda que longo, mas proveitoso para ambos. A esse período anterior, esse
meu primeiro contacto com a poesia, em que assinei como Ricardo S., fui guardando
por anos e anos, aos tombos, nas gavetas improvisadas, o que sobrava do papel que
não foi rasgado ou esquecido nas mudanças de casa. Do que consegui reunir desse
período, nasceu o blog A Última Estação, que está provisoriamente encerrado, por
diversos motivos: ainda salvei cerca de trezentos textos, que ainda espero compilar
decentemente, retirar do formato digital o melhor possível, e reunir uns quantos de
forma a encerrar em definitivo esse capítulo: a haver livro, chamar-se-á “A Criança
Inacabada”, o que já esteve muito perto da edição, mas não considerei oportuna, e nos
moldes que me foi sugerida, não seria proveitosa para ninguém… então, lá estão, ainda
por se verterem em tinta no papel, quando assim o entender por melhor momento.
Pelo menos desapareceram as pastas arquivadoras e os originais, que fiz questão de
destruir à medida que ia colocando cada texto no Última Estação… menos bagagem
por transportar!

4-Ao ler teus poemas algo rasura, marca que eles apenas são um resto. Explico: é
como se apenas uma parte ali estivesse. Assim também parecem ser tuas frases quando
comentas no Indecentes Palavras. Seria um poema, sempre, inacabado?

Pode parecer uma analogia ridícula, mas vejo-me e não raramente, como uma espécie
de médico legista, de palavras e sentimentos, de resíduos emocionais, de detritos pouco
interessantes, e não raras vezes levo-os para dentro da escrita, autopsio-os com a
minúcia possível, mas perco-me muitas vezes no detalhe insólito e desinteressante,
com o que está por dentro… não tenho urgência do diagnóstico e isso faz de mim um
péssimo sobrevivente, no mundo. Ainda assim, tenho muitas vezes presente os versos de
Poe, “all that we see or seem, is but a dream within a dream”, que para o bem ou para
o mal, trago-os para a minha percepção que tenho da palavra, da palavra que sobra da
palavra e se refaz numa outra… numa incompletude, numa imperfeição da percepção
da palavra, que pode ser constantemente alterada, de todas as vezes que ainda não a
sentimos esgotada, aprisionada nos dicionários, e assim “ela” o permita.

O poema, como território de exploração emocional, existe enquanto persistir essa
noção de efémero, de frágil, de incompleto dentro de si… e raramente, senão nunca,
como objecto final, obra finalizada, matéria de facto para ser estudada: a ser assim,
vejo-o como mau sinal… já nos fizeram o funeral há muito tempo e as medalhinhas
comemorativas já foram distribuídas com profusão. É essa a sina da poesia, que
haveremos de fazer?... (risos)



                                          


5-O que são, como lugares subjetivos, os espaços de escrita e de leitura? O sujeito que
lê seria o mesmo que escreve?

Frequentemente coincidem, assim creio, Adriana, ainda que haja um fosso a separar
ambos, um fosso enorme que podemos apelidar de “exposição”, o suporte papel, por
norma, a ponte inevitável entre um e outro, entre ambas as margens.

A dificuldade de comunicar, de esvaziar esse espaço subjectivo, tem sido atenuada com
a descoberta, com “democratização” da escrita e da leitura nos meios digitais, o que
naturalmente é visto como um perigo, um alarmante caos nos pretensos meios eruditos,
mas isso não é questão onde me detenha por muito tempo, até porque as regras do
jogo mudaram e vão continuar a mudar a um ritmo vertiginoso… preocupa-me mais
a questão do “até quando?”. E o mais é óbvio, “desse lugar”: onde se ganha espaço
de relação entre escritor/leitor, no mais das vezes perde-se o poder, o que de mágico
tem própria escrita, o do seu amadurecimento enquanto relação no espaço e no tempo
do indivíduo, o poder de crescimento no horizonte do individuo… e nos meios digitais,
tudo é tão breve e fugaz: “coleccionam-se” amigos, pretensos admiradores, luta-
se arduamente pelo número de comentários em cada post, com ligeireza “aceitamos
compromissos”, não se criam “tempos” para ponderar o essencial nessa relação,
tão frágil que são os espaços partilhados da escrita, entre quem lê e quem escreve…
mas no fundo da questão, é tudo uma questão de reciclagem: o mesmo passa-se no
meio quotidiano da edição, e da “promoção” da imagem do escritor e mais raramente
do livro, e no mais das vezes de modo bem mais deprimente… a diferença está na
remuneração ou na falta dela, na exposição mediática que tanto se odeia da mesma
forma que se procura com uma devoção quase irracional… e ele há tantas formas de se
querer fazer passar por vitima dos paparazzi… (risos)

6-Li uma entrevista que deste há algum tempo atrás. Ali descreves o momento
em que passaste dias escrevendo...e que acabaste por herdar uma grande dor nas
costas(eheheehheheh). Pois bem...ser tomado pela letra, ser invadido pelo desejo de
marcar, de registrar...escrever. Como descreves isso?

O Fernando Pessoa chamaria êxtase místico, eu prefiro chamar “necessidade a quanto
obrigas.”(risos)

O texto que então escrevi, ainda está intacto, sem revisão, com setecentas páginas por
acontecerem livro, talvez um dia, ou talvez não… é, penso eu, um rascunho de romance
histórico que “tinha que acontecer”, naquele momento, naquele período. A grande
herança que trouxe, de então, dos quatros meses de reclusão voluntária, essa grande
dor de costas, é algo que ainda a esta distância dói, não nas costas, na região lombar
propriamente dita, mas no acto de então “ter tido que me esconder” para escrever, a
coberto de alguns cúmplices, o que é tão abjecto e quase surreal, que entendo que devo
assumir… triste, mas verdadeiro. Num meio onde o individuo que pretende escrever

é visto como um parasita e com a agravante de que se não há rendimentos palpáveis,
então a “doença é grave”, está feita uma parte do quadro: “escondi-me”, “adoeci
subitamente”, refugiei-me dos olhares penetrantes de quem encara “estas coisas da
escrita” como uma perda de tempo, própria para vadios . E se calhar até têm razão,
os meus queridos detentores de todas as verdades, até porque o mundo é pequeno
demais para que eu o consiga entender e quando se chega à parte onde se encontra o
umbigo, o do outro, nunca o nosso, é uma complicação… e então, houve a necessidade,
a “urgência da escrita”, para finalizar o mais rapidamente possível o que tinha entre
mãos. Claro que preferia ter redigido noutras condições, com outra disponibilidade
e envolvimento com o pequeno mundo que me rodeia, mas não se pode ter tudo… tive
um apoio inesgotável por parte do meu filho e da minha esposa, que abdicaram de mim
durante demasiado tempo e me ajudaram incondicionalmente no processo, os únicos a
quem devo um gratidão eterna e inominável pela compreensão que me dedicaram, e foi
o que sobrou… o resto, seria “dourar a pílula”, que talvez por tão amarga, ainda não
a tenha conseguido retomar original do texto para o rever e dar um rumo … mas tudo,
tem um tempo e cada um deles não mais curto que o outro, mas antes do mesmo espaço,
da mesma dimensão.

7-Um psicanalista francês, Jacques Lacan, diz que o estilo é o homem. Também aponta
que “ o estilo é aquele a quem me dirijo” ou seja, sempre minha fala, meu registro diz
respeito a um endereçamento. Sem endereço...não teremos fala, escritura, gesto, texto.
O que pensas disto?

Antes de mais e com o devido respeito, o tipo tem um sentido de humor que invejo,
por certo… e ainda bem que assim é: são poucas as pessoas mais deprimentes que as
pessoas ligadas à “área do ser humano” e artes, que as que se isentam do sentido de
humor… são um estorvo bem intencionado, mas não deixam de ser um estorvo.

E efectivamente, mesmo não conhecendo Lacan (mea culpa, mas não chegamos a todo
lado), conheço-me um pouco mais que nada e algo do mundo que me rodeia para tirar
partido dessa reflexão, tão acutilante: parto, sim, parto do principio que o individuo é
barro moldado pelo ambiente que lhe rodeia, quer o oprima enquanto ser humano, quer
o liberte pela comunhão de interesses, objectivos, afectos… e no entanto, por muito
que se queira evitar a ideia perigosa de que o homem não têm fronteiras geográficas
a delimitar, enquanto artista, a ideia subjacente, está lá: enquanto “poeta”, eu
não sou de lado nenhum, de ninguém, mas isto enquanto poeta ou pintor… assim
que “baixo à terra”, como ser humano não me consigo escapar a essa teia invisível
que é a circunstância, o território emocional a que estou circunscrito… e se por
questão de comodidade, se por uma questão de conveniência, se por uma questão de
sobrevivência, o endereço, o laço que nos entende e solta é o mesmo que nos prende, e
habituamo-nos facilmente a essa “ordem das coisas”, tão contestada quanto imutável
no tempo.

Encontramos essa evidência em qualquer parte, bem delimitada… até na poesia,
Adriana... até com o Sá Carneiro, quando pensava, escrevia e deixou ao mundo
que “Eu não sou eu nem sou outro/ sou qualquer coisa de intermédio”, que passe a
heresia aos puristas, tem tantas leituras quantas um grande verso pode ter. Não sei
quantas polaridades tem o artista, mas apostaria que ultrapassam as duas possíveis; ao
artista que se diz livre, pleno de voo, pleno e sem amarras, é já “outra coisa”, mas não
a mão humana; Ao artista que procura no mais além, no outro, no outro lugar o seu

ponto de referência e orientação, é já “outra coisa”, também, mas não ele próprio…
então, o ser ambíguo pode nem ser uma fatalidade, mas pelo menos dá uma grande
ajuda, e isso nem é motivo de preocupação, até porque não falamos de outra coisa
desde que o homem aprendeu a comunicar… o nosso lugar no mundo é uma fixação,
um interrogação a full-time que se digere muito bem, até porque a resposta anda por
aí, mas ninguém a viu, não há tempo… temos mais que fazer. (risos)

Contudo, claro que preferia andar por aí no mundo a espalhar os versos de Jorge
de Sena, “Nenhum mundo é meu. Todos estão em mim desde que existo.”, mas isto é
poesia, é a esfera do possível enquanto poesia, mas tão somente poesia… o poeta tem
uma tremenda habilitação para fazer revelações, mas tem pouca queda para revoluções
na explicação do ser humano… bem que tenta a aproximação, mas é sempre terreno
minado.
Quanto ao Lacan, vou colocar nas minhas leituras obrigatórias, disso não duvido…
(risos)

8-A pontuação é sempre...do leitor. Digo isso porque embora existam os pontos
(exclamação, interrogação, vírgulas e etc) de quem escreve, o sujeito que lê o faz
naquilo que pode associar suas próprias pausas. A poesia facilita o reconhecimento do
texto que vai ser outro sempre, a cada vez que lido vai depender da respiração do leitor.
Tens esta percepção ou achas que quem fala é somente o escritor?

A pontuação, como qualquer outra convenção, reparte os seus méritos entre o capricho
e a necessidade… a que sobra é a parte que nos faz falta. (risos)

Ainda no inicio, nos meus primeiros tempos na poesia, levei um “sermão” dum tipo
mal-humorado, acerca da pontuação dum texto que tinha enviado para a redacção do
DNJovem, que então era um suplemento dum jornal de grande distribuição, e que por
mais voltas que eu desse, não encontrava justificação para tamanha reprimenda: ainda
pensei em argumentar, ponto por ponto, que não, que tinha respeitado as regras todas
da casa, ou então alegar em minha defesa que o José Saramago, muito antes do Nobel,
também tinha uma relação difícil e incontornável com a pontuação, mas não… não
enviei mais nenhum trabalho e com isso, nem eles, nem tão pouco eu, ficámos a perder
grande coisa.

Na poesia, a pontuação é um luxo que não vemos assim tão abundantemente espalhada
noutras áreas da escrita; creio que há um respeito muito grande pela fluência da
palavra, pela sua dimensão enquanto um todo chamado verso, pelo intenso jogo
de “tentativa e erro” e consequente correcção, que não vejo em muito géneros. Por
vezes faz-se muita batota, mas essa só está ao alcance dos que andam há muito pelas
ruas da cidade, da cidade da poesia… quem mora nos “subúrbios” tem que ter muito
mais cuidado, andar com as contas da pontuação bem alinhadas e em dia, até porque
a concorrência é feroz e não perde uma oportunidade para fechar a “casa do poeta”
assim que lhe apanhe uma falta.

Quanto ao leitor? Ao leitor cabe sempre a última palavra, o último acento, mesmo que
não faça o menor sentido, mesmo que o “rosto” do poema fique desfigurado, por falta
duma figura de estilo que nem os prontuários se haviam lembrado, por uma falta de
fôlego que por vezes se confunde mais com falta de ar, por uma virgula tão absurda
quanto desnecessária… mas fazem parte do jogo, essas regras e não há como esquivar;

pena é que a “cadeira” do leitor seja diferente da do escritor e não é em vão que a
nossa percepção depende sempre muito do lugar que nos encontramos no mundo

Mas enquanto poeta ou escritor, ou algo que me valha, espero sempre um pouco de
paciência, até porque o Prontuário Ortográfico não é um objecto assim tão divertido
quanto isso… e se ainda viesse bem ilustrado e elucidativo como alguns livros que
todos bem conhecemos, do género do Kama Sutra, ainda vá que não vá… (risos)

9-Poderias apontar tuas grandes referências para escrever?

Adriana… agora, sim… sou apanhado de surpresa, e tenho duas hipóteses: a primeira
e a segunda! A primeira faz-me inclinar para “confessar” a minha admiração por
Milosz, por Rimbaud ou Maiakóvski, por Pessoa ou por Whitman, por Malcolm Lowry
ou Emily Dickinson, e a lista podia ir até ao céu. A segunda é que conhecendo um
pouco de alguns excelentes poetas, bons escritores, extraordinários músicos e pintores,
não me sinto especialmente inclinado para apontar um nome, uma “escola”, uma
influência. Recolho, como penso que muitos de nós, com uma agradável sensação
qualquer poesia que me faça sentir tolo, declama-la só por declamar, na minha
privacidade, mas nenhuma referência forte, nenhuma herança em particular pretendo
tomar dos que tenho por meus mestres: escuto-os, trago-os e sigo o meu caminho,
aquele que procuro, aquele a que Emerson se referia como o Caminho em Si, nada
mais…

Por outro lado, é quase inevitável a música, a omnipresente música… aquela com que
escrevo, aquela com que leio, aquela que tem que estar sempre por perto, isso sim,
confesso… e mesmo assim, não tenho uma referência, um género que me faça sentir
perto da minha zona de conforto… apontar nomes é difícil, mas “estou em casa”
quando escuto algo da Virgínia Astley, dos Durutti Column, do Jan Garbarek ou do
Gismonti, sinto-me bem com a Björk quando não necessito de tanta concentração,
trago da estante os poucos Chet Baker que tenho quando estou de bem com o mundo…
e ficava dias inteiros aqui, a discorrer sobre cada um deles.

Mas se há dois ou três nomes que me colocam em sentido… é aí que pretendes chegar?
Certo! Na poesia, o Ramos Rosa e o Al Berto, na literatura contemporânea o Murakami
e o Rushdie e o grande livro da minha vida, não hesito, é “O que Diz Molero”, do Dinis
Machado… e há mais alguns por perto, mas não digo….

10-O que te faz ...escrever?

Com as devidas distâncias e diferenças, acredito que é o mesmo que move o Cristão,
o Muçulmano, o Judeu, o Hindu a recorrer às suas Igrejas, aos seus Credos; uns
chamam-lhe Fé, outros podem-lhe chamar insondável magnetismo, mas basicamente, o
que nos move e nos une são as semelhanças: as idênticas buscas, as idênticas dúvidas,
a idênticas recompensas que em principio nunca virão ou não chegarão a tempo, mas
confortam-nos, preenchem-nos, dão sentido a um caminho, apontam perspectivas,
alinham horizontes… todos vagos, frágeis ou meras ilusões, mas movem-nos, fazem do
nosso corpo inútil algo de válido para o mundo, ainda que de forma efémera, sempre
efémera… e tudo isso raramente tem uma explicação racional, não é verdade?

11-Amante ... a palavra amante diz respeito a estar em busca do amor. Para além de ser
objeto amado, o amante está ciente que sua busca é constante. Para quem lida com as
palavras isso é mais do que uma verdade...é o ponto de partida. Não findam as faltas e
nem as palavras. Pensaste nisso ao escolher o nome do blog?

Quando iniciei o blog, a Barca, não tinha a menor ideia do que poderia decorrer, nem
me “assaltaram” os dilemas do nome a dar, essas coisas pequenas; Intuía apenas que
queria regressar à escrita, ao texto poético, ainda que as bússolas não fossem muito
claras no sentido a tomar. Então, em sinal de homenagem a uma canção que nem será
necessária a explicação da importância que tem em mim, ficou e foi ficando como A
Barca dos Amantes e até hoje ainda não tive problemas com o titulo que nem sei se
está registado, e que a posteriori descobri que se tratava também dum romance de
António Barreto, do qual não fazia a menor ideia… mas regressando ao titulo, o lado
mais simbólico, ao escolher o nome do blog, esteve sempre relacionado com a própria
definição de poesia, que encontrei sempre, desde o primeiro instante, nos versos da
canção do Milton Nascimento e do Sérgio Godinho. Foi um pouco por intuição e sem
pensar que o blog pudesse ser associado “a mais um blog de poemas de amor”… já
aconteceu, mas paciência. O curioso é a própria Barca dos Amantes, não ter até hoje
tido uma alusão que fosse à expressão, à palavra “amor”, um pequeno poema que
fosse… e não é por preconceito ou defeito, mas deixo os poemas de amor a quem os
sabe fazer, e rendo-me perante um “bom poema” de amor… mas esse não é o meu
caminho: acredito que uns nasceram para cantar o amor, outros para vivê-lo, outros
para o tornarem possível, outros para o arquitectarem, mas por agora, nem um poema
de amor, até hoje… mas quando acontecer, haverá festa!

Contudo, essa busca constante, esse amor incondicional, esse lado mais vivido do
que temos por amor, “cantar o amor”, é um terreno que pode estar minado pelo
preconceito, por uma linguagem emocional muito defeituosa que por norma é a que
nos cabe, pelo que não conseguimos trazer do melhor que temos, do espelho que vemos
pela manhã; não é fácil fazer um “poema de amor” e se o fazemos, a interpretação que
se lhe dá está muito próximo do “confrangedor” e cheia de futilidades, lugares comuns
e outras barbaridades, e então… prefiro experimentar a minha incondicionalidade à
palavra, ao mundo, escreve-la como “carta de amor”. Mas adianto, que a haver um
primeiro livro, retirado da Barca dos Amantes, um enxerto sereno que possa vir, terá
um nome completamente diferente, que já anda há muito cá dentro e já deixei sinais,
meros sinais…

12-Ficaríamos honrados se nos contasses um pouco do teu dia a dia, do que te inspira a
escrever, das coisas que gostas de fazer...

Não é uma pergunta fácil sobretudo quando estamos numa fase de transição, num
desejo de passar a outra fase da vida, em que é imperativo tomar opções, marcar
roturas, solidificar o que muitas das vezes nem nos apercebemos no quotidiano.

E ao contrário do que sentia Octávio Paz, que para ele “a poesia e o pensamento são
um sistema de vaso comunicantes. A fonte de ambos é a minha vida: escrevo acerca
do que vivi e vivo.”, a minha forma de estar no mundo e na vida, pouco ou nada se
reflectem na poesia que escrevo, nas pequenas coisas da vida que me fascinam. A
minha forma de estar na escrita, gostaria de argumentar, vive mais do “reflexo”,
contemplação e desejo, que propriamente do quotidiano, que o mais das vezes é

enfadonho e banal, e ainda mais para uma pessoa vulgar, como é o meu caso, fútil, o
mais das vezes.

A grande parte da “experiência” que trago em mim, que ainda sobrevive no tempo, é
o que resta do tempo em que vivi no Algarve, perto do mar, demasiado perto dum mar
contemplativo e sereno, como é o Mediterrâneo, completamente diferente daquele em
que “quase nasci” dentro, o Atlântico, selvagem e triste, perto de Lisboa. Aí, boa parte
do que trago e exploro ainda hoje, nasceu por completo, aí , durante o período que
morei no Algarve, onde as memórias não se conservam como “vastas feridas”, citando
Chico Buarque, mas apenas memórias, tão somente, e ainda as vou reescrevendo, como
se o sereno Mediterrâneo estivesse por perto, esse aí…



                                            mar de Algrave, mar de dentro

Actualmente vivo numa pequena aldeia, no interior do país, onde tudo aparenta ter um
prazo definido, um pequeno paraíso em ruínas quase. É no pequeno quintal, por detrás
da minha casa, que quase todos os poemas da Barca nascem, ainda que não utilize
a expressão “inspiração”, ou pelo menos duma forma directa: o horizonte que me
rodeia é calmo, mas duma calma tensa, os caminhos parecem abandonados, a sensação
de “pertença”, a serena pertença de quem ama e dá o peito pelo lugar onde deveria
pertencer, desvanece-se dia após dia e costumo dizer e já não é em tom de brincadeira,
que um dia o carteiro vai deixar de passar por aqui… é a sensação que tenho do país
que habito..

Então, é ausência de fronteiras, mapas ou bandeiras, que se materializam lentamente
e sem pressas, na terra da escrita, na poesia, nesse fértil terreno das letras, esse o meu
próprio país, ao qual me entrego por não me reclamar tudo, o todo de mim… dou o que
posso, o que sei, o que sinto, e se mais não posso, não posso…


13-Publicações...?Como é a política de publicação de literatura ou poesia, aí em
Portugal?

Nessa questão hesito um pouco, até porque as opiniões não são consensuais quanto ao
assunto e fala-se muito em torno desse “problema” mas diz-se muito pouco ou quase
nada; é fácil ter uma opinião acerca de tudo e mais alguma coisa, mas como não me
seduz a “tudologia”, prefiro manter alguma distância ao opinar sobre o assunto.

As queixas são frequentes, aqui como em qualquer país… e não deve ser muito
diferente em Portugal ou no Brasil, como na Nova Zelândia ou no Canadá: todos
reclamam e ninguém tem razão, como na casa onde não há pão.

Eu, pessoalmente, como não tenho contacto com o mundo da edição, também não tenho
por onde reclamar, e muito antes pelo contrário: o suporte virtual tem-me ajudado
imenso a percorrer o caminho mais longo, aquele que semeia e contempla, o deserto
inevitável do escritor… a proximidade, a empatia e arrisco, a amizade que encontro
no mundo dos blogs não tem paralelo, quero acreditar, no mundo da edição, em que os

critérios são relativos e um pouco “nebulosos”… mas só entra nesse mundo quem quer,
não é verdade?

Neste momento, não penso na edição seja do que for, e o “momento económico e
social” não acredito como propicio, e as pessoas, aqui e em geral, têm mais em que
pensar que em livros de poesia: os tempos são difíceis para editar, porque também
estão difíceis para o leitor que gostaria de comprar um livro, e então, há que parar
um pouco e pensar… mas, todavia, não implica o encerrar portas, de forma nenhuma:
não perco de vista um sonho antigo, renovado todos os dias, o de ter a minha própria
pequena editora e trazer desse lado do Atlântico e naturalmente deste lado também,
pessoas, poetas incríveis, trabalhos de alguns que me estão muito próximos, duma
forma ou de outra, com uma qualidade tão absolutamente desperdiçada que, passe a
expressão, dá dó de tanto desperdício… e daí ter adiado e adiado a hipótese de editar o
pouco que tenho reunido, do trabalho que tenho desenvolvido, porque quem sabe, se o
desejo se concretizar, não dê trabalho, também, ao Leonardo… (risos)

14-A solidão...Gosto de dizer que nunca estamos sós. Estamos, sempre em dois, no
mínimo: eu e eu mesma ( ehehe).Porém, reparo que quando se trata da escrita há o
mínimo do mínimo...como se, de fato, em algum momento fosse Um. Isso é complicado
e quase impossível já que o traço único é letra e sendo escrita, pensada ou falada já é
duas ou mais. Mas, repara que existe sim, uma solidão no ato de escrever. Concordas?
Como descreverias isso?

Pode não ser consensual, mas pela minha própria experiência, e pela forma como
encaro o “acto de escrita”, existe um momento em que a solidão na escrita é um
imperativo: a escrita, em si, é um acto solitário, a palavra “exige-nos” muito para
nos devolver tanto ou um pouco mais… mas não rejeito, de forma nenhuma, uma
outra forma de “acontecer a palavra”… essa é a minha forma, mas não a considero
universal e linear. Desconfio da forma rígida e metódica de escrever, do indivíduo
que convoca a assembleia da palavra para uma reunião das tantas às tantas, e fica
o problema resolvido; procuro um mínimo de ordem, mas de uma ordem equilibrada
entre a exigência e o caos. Tenho uma relação com a palavra, e nessa relação não
posso ser o único a ditar as regras da casa… “a inspiração” não tem horário ou
calendário, e a percepção que tenho do “meu tempo com a palavra” é semelhante
ao de qualquer outra relação… por vezes não estou disponível, inteiro, e noutras é a
palavra que “me nega”, não vem, mas tudo isso faz parte do equilíbrio da relação…
nem sempre há uma disponibilidade de parte a parte…

Mas voltando ao essencial da questão, à dicotomia escrita/solidão, não creio que haja
consensualidade, até porque estamos a falar de significados em constante mutação,
assim como os seus intérpretes, nós mesmos, que nos encontramo em permanente
tentação de interpretar conforme o “conforto” que as interpretações, nossas ou
alheias, nos trazem: dou um exemplo, Adriana… durante quanto tempo fez e ainda faz
parte do imaginário social que o poeta é um tipo que escreve com a caneta na mão e
com uma arma na outra, pronta a disparar? Não é aí que começa o “mito do poeta”, o
suicida em potência, o grande estereótipo do Grande Poeta? Não é aí que começa, no
fatalismo, na autodestruição, o mito do Grande Músico? Não será essa nossa relação
com os estereótipos, com a solidão do acto de escrita, com o poeta suicida, com o
pintor que corta orelhas, um tanto ou quanto precipitada, embora cómoda? Não será

pedir demais, ao artista, que se atire para debaixo do comboio em andamento, como
se fosse condição essencial para validar aquilo que exprime enquanto ser vivo, não
como mais uma “natureza morta”? Não será pedir demais aos que para serem apenas
artistas, simples artistas, poetas, pintores, músicos, que não é condição para “entrar
no céu”, a obrigatoriedade de ser grande, a urgência de ser bom, excelente, o maior
e por aí a fora?... Não será doentia essa necessidade de ser o melhor, ter um talento
desmesurado para ser validado o ser que é tão-somente e apenas… humano? Não é
suficiente o dom, o dom da partilha, o dom da entrega, o dom de receber o próprio dom
sem que se vá a correr ao editor mais próximo a pensar que vamos vender milhões, ser
o próximo Pessoa, ser famoso? E para sê-lo, a que preço?

A solidão como acto saudável e quando utilizado na proporção certa é, creio, o ponto
de equilíbrio entre o eu e o outro, o próprio ponto de contacto… como o silêncio, esse
grande maestro da grande orquestra da palavra, em toda a sua extensão. A solidão,
vejo-a como um “acto de tempo” necessário, um quase dever para com a escrita,
mas nunca uma obsessão doentia, uma obrigatoriedade que devora e limita. Mais
preocupante é, isso sim, a “solidão imposta” pela ausência dos que pensamos que nos
rodeiam e contudo… estamos sós, como tão bem imprimia Drummond no seu A Bruxa,
que “Nesta cidade do Rio/de dois milhões de habitantes/ estou sozinho no quarto/estou
sozinho na América./Estarei mesmo sozinho?”… essa solidão é terrível e para o bem
ou para o mal, vai sendo compensada com as redes sociais, com o mundo virtual que
se vai tornando a única família do solitário… e isso sim, é preocupante: o solitário
raramente quer estar só… o solitário, o mais das vezes foi abandonado pela presença,
ainda que seja “brutalmente” reclamado pelos que o rodeiam, mas o valor da relação
é cada vez mais residual, pois que exige apenas “o corpo presente”… e o ser humano
não foi programado para ser “solitário”, não acredito… basta olhar de perto para
o “solitário” que passa horas e horas, em frente ao computador, a comunicar… “a
comunicar”, e esse é o alimento do ser humano…

15- Barco e porto...Ser o que carrega e estar onde recebe. Há algo nisso que faz pensar
no encontro como possibilidade. Estando no mar, avistamos, sonhamos com a terra.
Estando na terra, a imensidão do mar. No trajeto portamos algo, uma esperança que
nos faz. Também o desejo para além do que alguma espécie de destino já diz o que é.
Pensei nas grande navegações, naquilo que não sabiam e que lhes causava desejo de
saber. Arrumar o barco, todos os dias, para percorrer um caminho, uma palavra, um
destino. Incerto como todos são. Os destinos...são dos portos ou dos barcos?

Essa resposta gostaria de descobrir, ou melhor, sendo uma dupla questão até se
responde por si, se não nos tentarem os lugares–comuns: há uma ideia generalizada
que o Português é um refém da saudade, dos “bons velhos tempos”, do “antigamente
é que era”… não é em vão essa conotação, embora seja redutora, porque não há um
Português, mas dez milhões de Portugueses, todos diferentes e por vezes… todos iguais.
Por outro lado, é denominador comum a vontade, o à vontade com que esse mesmo
Português lida com as tecnologias, como a ideia do “lá à frente”, estar sempre “à
frente”, com a obsessão da novidade, do “progresso pelo progresso”… o que “é novo
é que é bom”. O António Variações cantava muito bem esse estado de espírito que “nos
move”, no Estou Além, “Sempre esta sensação/Que estou a perder/Tenho pressa
de sair/ Quero sentir ao chegar/Vontade de partir/P'ra outro lugar/Vou continuar a
procurar/ o meu mundo, o meu lugar/ Porque até aqui eu só/ Estou bem/ Aonde não
estou/ Porque eu só estou bem/ Aonde eu não vou.”… e esta ambiguidade, esta forma
de estar condiciona-nos e faz de nós grandes poetas de naturezas mortas e artistas em

constante busca. E então do tempo, nem se fala… temos um livro e não temos “tempo”
para o ler, mas já estamos a planear comprar mais um ou dois; temos um computador e
já estamos de volta das novidades nos catálogos, dum novo, de nova geração, com mais
memória e uma montanha de aplicações que nunca se irão utilizar, mas são “boas”;
temos um filme para ver, mas estamos já a pensar nuns quantos que são novidade… e
podíamos ir por aí fora, nessa quase devoção à novidade, à nova tecnologia, ao novo
amigo no facebook, ao novo, novo, novo, tão extenuante que não deixa tempo para
apreciar o que vamos adquirindo, as experiências que “vamos vivendo” mas raramente
pensando, os amigos que “vamos fazendo” mas raramente lhes dedicamos o “nosso
tempo”, aos livros que “vamos comprando” e o mais das vezes “estão lá na estante”…
e assim vamos ficando reféns do passado, com “saudades do futuro”, sem poiso
certo mas confiantes no destino, no fado, esse jogo de sorte e de azar… são lugares-
comuns, e são os que temos, que aceitamos resignadamente, confiando que alguém faça
o “nosso trabalho”… andamos há oitocentos anos nisto e não é agora que vai mudar,
assim, sem mais nem menos, tão abruptamente.

Fomos educados a olhar com demasiada frequência, para o “outro”, para o “outro
lado”, para o “impossível”, a procurar no “vizinho” os nossos próprios defeitos,
e daí a propensão para nos tornamos peritos em assuntos menores e mesquinhos,
sem utilidade aparente… mas para além desse gene que herdei, que herdámos como
Portugueses comuns, ainda acredito que somos porto e barco, mar e ilha, um território
imenso onde nos podemos encontrar, partilhando o que se encontra, procurando;
acredito numa geração que vislumbro e que saberá como desfrutar o que faz, o que lê,
o que pinta, o que sente, uma geração que procure em si a primeira questão e resposta,
que procure em si o valor sentido, o peso da sua própria linguagem emocional
projectada para o mundo, mas passando por si própria, antes de tudo… é motivante
apreender no horizonte esse “corte”, essa ruptura com a “ausência necessária”, essa
não inscrição por questões de sobrevivência, e nesse particular, o escritor, o artista
poderá ter uma palavra a “inscrever” se não se remeter ao papel de bibelot, mero
adorno estético e desnecessário… não é fácil, mas quem disse que o poderia ser?

16-Gostarias de deixar registrada mais alguma coisa?

Naturalmente, que gostaria… ficaríamos aqui dias a olhar para esse mar, falando,
trocando de emoções, trocando de palavras, trocando, dando e recebendo. Mas já o sol
se põe, e a maré está de mudança e interpretemos isso como um sinal…

Recupero, umas palavras que ficaram noutras marés e tão bem aqui cabem: “Todo o
furacão de emoções que me tem avassalado nos últimos tempos, e um reconhecimento
que “desconfiaria” noutras circunstâncias, ainda que soubesse como caminhar sobre
as águas sem me molhar, tem sido uma das provas mais gratificantes da minha vida,
mas com a ressalva que não “quero ser engolido” por sombras ou ilusões; sei que os
dons devem ser partilhados e os méritos só podem ser reconhecidos por outrém, mas da
mesma forma que tudo o que partilho por prazer, da mesma forma posso partir, quando
essa força, esse prazer, esse “dom”e me faltar… escritor é para escrever, como ao
artista de teatro pertence o palco.” E assim sendo, ao trabalho, A Lavoro!

E deixo, agora, sempre, um Abraço que faça corar de vergonha os tamanhos desse mar
que nos separa, Adriana, um Abracimenso!

Leonardo,sinto-me emocionada por ter estado contigo nesta pequena entrevista.Sinto-
me assim por senti-lo tão próximo, embora estejamos longe de doer; pela tua palavra
que me traz todas as águas, como concha que compartilhas connosco. Neste eco me
fazes escrever mais, numa confusão de espaços em que quero ser porto e barco, para te
receber ou te portar. São para sempre bem vindas tuas indecentes palavras, pela verdade
dos amantes além mar.

Beijo com todas as letras

Adriana bandeira

Leonardo B., poeta português-http://abarcadosamantes.blogspot.com/