Os cheiros da casa
Conheço as ruas, as praças.Sei quando dormem e da solidão dos banheiros.Sinto quando amam, quando escondem, quando temem.Se acaso pareça perversa minha ciência estranha, digo-lhes apenas: sinto o cheiro.Sou o cão da palavra que jamais cala a vida da casa.
domingo, junho 19, 2011
quarta-feira, junho 15, 2011
Mulher de um homem
Tenho uma canção que se acaso lhes pareça estranha, derramo a voz na forma humana, que me faz mulher de um.Nem por amor, mas pela verdade, um saber que me faz só, acompanhada de um homem, que mesmo longe não esquece a ternura.Cuidado que não perdoarei se o machucarem!Olhem, avistem, por cima de suas fardas, que aquele que me fez amada não obedece patrão.O homem que amo, a quem pertenço, faz revolução.
segunda-feira, junho 13, 2011
O FRIO FAZ NASCER A TERNURA DO FIO DA PARTITURA QUE AQUECE A CANÇÃO-Falando do tempo das palavras com Lau Siqueira
1-Bem...então hoje tirei a tarde para propor estas perguntas.Precisava
fazê-las numa espécie de hiância que me permitisse todo o tempo do
mundo.Não existe, sabemos...Então temos que inventar este momento
de “ todo o tempo do mundo”.Precisava para que as perguntas tivessem
esta conotação de “ poemas vermelhos”...Sim! Como perguntar ao poeta
que dá este nome às suas produções de agora.quero dizer...o nome de
uma cor, ou melhor, a que surge para cada um.Lau, Poemas Vermelhos
surgem...em que contexto?
R - Poemas vermelhos nascem de um contexto que me parece estar entre
o caos e o acaso. Ou seja: no contexto da invenção poética e artística. O
vermelho me pareceu a cor mais viva para identificar um processo que
é contínuo. Os chamados “poemas vermelhos” que publico no meu blog
são os inéditos. Muito mais que isso, são os recém criados, os criados e
postados naquele exato instante. Jogados na rede para sobreviver ou não
ao olhar mais agudo do próprio poeta e dos leitores do blog. Alguns até
sobrevivem até o próximo livro, outros se perdem ou são sumariamente
deletados. O livro Poesia Sem Pele e o anterior, Texto Sentido foram
alimentados por poemas vermelhos. Portanto os poemas vermelhos
são os inéditos e imediatos que se jogam no impulso, na “metalurgia
da palavra”, para usar uma definião que uso em um poema de um dos
meus livros anteriores. São poemas que fazem parte do meu exercício
cotidiano com a linguagem, fazem parte do meu aprendizado e colocam
a minha poética como um processo, como um movimento da linguagem
no alimento dos meus dias e das minhas intervenções no universo da
literatura.
2-Por qualquer coisa inexplicável sempre pensei que ternura é uma
construção.Quero dizer que não vejo bem como dizer o que é ternura.
Simples como qualquer outro sentimento mas...ternura, para mim, é o
depois de algo; o que refaz ou reinscreve algo da violência,da dor...uma
espécie de amor que se veste com este nome.O que é ternura, para ti?
R – Isso me lembra Mário Quintana: “como vou explicar uma nuvem?”
Ternura para mim é um elo de silêncios para a compreensão do
incompreensível e do ato mais sublime da existência que é, em verdade,
o amor enquanto atitude. Portanto, é ou não uma nuvem? Não existirá
ternura em alguém que não reconhece o amor enquanto valor supremo
de mobilização do que conhecemos e do que ainda não conhecemos em
termos de raça humana. É o reconhecimento e a compreensão da nossa
fragilidade e ao mesmo tempo a nossa maior couraça, a certeza que os
atos de ternura somente acontecem após um desnudamento mais denso
diante da barbárie das relações cotidianas. Talvez a ternura seja a nossa
única e verdadeira coragem.
3-A história de cada um não conta por si só o que nos registra censuras
ou nos autoriza transgressões. Por vezes, em algum tempo, podemos
pensar ter transgredido e, logo, depois de alguns minutos, dias ou
anos...nos perdoamos.Estas imagens permeiam ações e uma espécie
de destino..como o que construímos no dia a dia.Lau,quais tuas
transgressões?
R – As minhas transgressões se processam através da linguagem
poética, porque é lá que revelo o sacro e o profano da minha vida, do
meu pensamento, dos tencionamentos que crio com a afirmação da
linguagem enquanto forma de transbordar as minhas dúvidas diante
de tantas certezas absurdas criadas para o sufocamento dos códigos da
invenção até e, talvez principalmente, da relação do ser humano com
ele mesmo. Minhas transgressões se voltam sempre para a profanação
do meu umbigo, para os sarcófagos do meu ego. Neste sentido creio
que o meu propósito é sempre “transgredir-me”. Numa estação onde
permanentemente posso jogar meus olhares sobre os abismos que nos
cercam em termos de conhecimento e desconhecimento da causas e
defeitos dos processos vividos pela humanidade desde que a memória
do mundo existe. A poesia é a minha transgressão mais radicalizada.
Aliás, todo mundo transgride ao nascer. Respirar é, provavelmente, uma
transgressão coletiva, contida pelos abalos do homem espalhados pelo
universo.
4- Neste aspecto, seguindo nesta linha de pergunta, confesso que
não é raro pensar que a palavra tem um tempo rsrsrsr. É...algo assim
como “um eu”, o do discurso, que se autoriza, em dado momento, a
falar ou escrever algo.Este algo...são palavras, sons, significantes que,
naquele “ tempo” apresentam-se.O que pensa disso?
R- Sim, penso que cada palavra tem o seu próprio tempo porque o
significado não é, na maneira poética de expressão, alguma coisa estática.
Toda palavra tem seus próprios movimentos e nisso a invenção de
um tempo particular. O tempo das palavras na construção do poema
não é, de forma alguma, um tempo linear. Isso deve ser considerado,
especialmente, na leitura crítica de um texto. Mesmo na prosa, mesmo no
discurso técnico, as palavras tem um tempo que conduz ao movimento.
Caso contrário não haveria evolução na ciência e no conhecimento. Talvez
o papel da palavra na evolução da ciência explique melhor o seu tempo
que as teorias da literatura.
5 - Aí, lembrei também da proposta do teu blog poesiasim de escrever e
reescrever e mudar... Como é esta idéia?
R – Um poema nunca é apenas um poema. Assim como o autor não
é apenas um autor. O poema está sempre dividido entre a escrita e a
leitura. Portanto, acho que é a partir da leitura que o poema começa
a ser realmente escrito e esse é um princípio permanente e mutante
No blog, penso que meus poemas estão abertos às modificações ou
mesmo às sugestões. Mesmo poemas já publicados em livros anteriores
eu alterei para publicações no blog e acho que o poeta deve se permitir
invasões, até mesmo de leituras equivocadas dos seus poemas. Esta
leitura supostamente equivocada poderá ajudá-lo a compreender o
incompreensível que é, em suma, a razão do poema. Isso não é uma
regra porque se fosse estaria negando a sua própria natureza, mas no
blog e nos meus livros, creio, eu continuo a caminhada em busca dessa
nossa grande utopia que é a construção do poema. Isso é dinâmico.
O verso de hoje nem sempre contempla o poema de amanhã. Tudo é
passível de um destensionamento de conceitos para que o procedimento
criativo se perpetue enquanto processo e não enquanto gradeamento da
imaginação. A imaginação se veste de signos, desnuda-os. Acho qu estar
preso a conceitos estabelece as bases do preconceito estético que é, em
última análise, o inimigo maior de qualquer processo criativo. Que o diga
Glauco Mattoso, um sonetista pra lá de inventivo.
6 - Em algum momento sei que a poesia, de cada um, faz revolução.
Penso que o poetar é algo próprio ao humano e capaz de produzir
movimentos inimagináveis. O que é poesia para ti?
R – A poesia é um salto no abismo. Uma indefinição e uma inutilidade
de hálito imprescindível. Mais uma vez fico com uma frase do Mário
Quintana para fugir dessa armadilha: “a poesia se resume na procura da
poesia”. Ou seja: não sei o que é poesia e me conformo porque Mário
também não sabia. Aliás, não tenho certeza se o que eu escrevo é poesia
e, te juro, não estou nem aí. Só sei que a poesia não tem culpa alguma da
minha estupidez numa resposta como essa.
7 - O lançamento do livro “ Poesia sem Pele” em João Pessoa trouxe
uma inovação. Por incrível que pareça, em algum sentido, estava o
reconhecimento de que existe algo em comum, que recebe à todos,
digamos assim. Eu tinha um amigo que não possuía a última camada da
pele. Uma doença que o acompanhava desde o nascimento. Poderia ter
pena mas...percebi que à todos falta a última camada da pele, a que
deixamos com a placenta. Somos, sem exceção, frágeis. Para ti,Lau...o
que seria este universal que à todos recebe?
R – Lancei o livro em João Pessoa, num manicômio. O lançamento esteve
integrado na programação da Semana de Luta Antimanicomial, numa
programação que celebrou a vida, com Tom Zé, Babilak Bah e outros
artistas. E o lançamento foi dedicado aos que despiram todas as camadas
da pele para sentir o ferro em brasas da hipocrisia, do preconceito que
existe com a loucura e com a loucura que abriga cada preconceito. A arte
é a cura numa sociedade doente de tudo. É universal, portanto, pra mim,
misturar as minhas atitudes às minhas crenças na vida, no que a vida tem
de visível, de palpável, mas principalmnente no que tem de mistério,
de invisível, de estrangulamento de uma racionalidade que geralmente
somente se afirma na contradição.
8 - Como foi o lançamento aqui na Festipoa?
P – Foi maravilhoso! Um momento de grande alegria pra mim, lançar um
livro no “Hotel Majestic” que hoje é a Casa de Cultura Mário Quintana. Era
como se estivesse escutando Sapatos Floridos caminhando pelo silêncio
na noite do dia 5 de maio. Sou profundamente grato à minha editora, a
escritora talentosa, Laís Chaffe. Sou profundamente grato ao Fernando
Ramos, por ter me incluído na programação. Foi muito especial depois
de 26 anos longe dos pagos, lançar um livro na minha terra e me sentir
acariciado pelos meus irmãos gaúchos, escritores ou não. Não tem preço
uma emoção assim. É reconhecimento de que não estamos sós.
9-Por alguns momentos nos falamos rsrsrsr. Pude testemunhar uma
certa nostalgia... das ruas de Porto Alegre, talvez de poemas que ainda
estavam sendo feitos, naquele instante e, já indo embora por estarem
criados, retratavam a saudade nos olhos de água. Estou correta na
minha impressão?
R – Corretíssima. Eu ando pelas ruas de Porto Alegre como se estivesse
buscando meus antigos passos. Nunca consegui me desapegar da cidade,
dos seus monumentos, da sua arte, das suas ruas, dos seus morros e deste
estuário de águas infelizmente não muito confiáveis que é o Guayba.
Minha história é meu único bem. Porto alegre faz parte de forma intensa
dessa história que já chega aos 54 anos. É uma das fontes supremas da
minha poesia, com certeza.
10- Conseguiste um exemplar de um cara...rsrsrs como era o nome dele
mesmo? Achei encantador que fizeste a referência sobre teu amor ou
ternura por Mário Quintana. Poderia nos dizer qual a relação que tens
com a letra de Mário?
R – É verdade, cheguei na Casa de Cultura Mário quintana e encontrei
logo o livro Sapatos Floridos que, no pensamento e na minha caminhada
da casa da minha irmã, na Hilário Ribeiro, até a Andradas vinha lembrando
que havia extraviado pela vida. O livro estava lá, olhando pra mim e
pude adquiri-lo novamente. Tenho uma relação crítica com a poesia do
Mário. Não gosto de tudo que ele escreveu e não poderia ser diferente
porque Mário, talvez, tenha sido um dos poetas de maior produção e
mais publicado no seu tempo. Mas, não é diferente de outros poetas
que admiro, também. “Não gosto de tudo que gosto”, eu diria. Ou não
gosto de tudo nos escritores que admiro. Seria hipócrita negar isso. Muito
menos da minha própria produção, sobre a qual tenho espasmos às vezes.
Chego a sentir “depressão pós parto” após publicar um livro. O fato é
que Mário era uma figura extremamente poética. Seu caminhar, seu
jeito e de certa forma até mesmo seus preconceitos que eram também
bastante agudos e estavam presentes na sua poesia. Acho que ele foi, de
certa forma, pouco compreendido porque não há como analisar a obra
de qujntana sem considerar que ele fazia parte da obra. Ele era o seu
principal poema. Se me influenciou? Creio que sim, como todos os poetas
que li. Talvez ele tenha me ensinado a não ter receio de ser poeta e a
saber que poeta é ser inevitavelmente poeta.
11-Pois é... letra... Letra é traço, marcado a ferro na pele. Mesmo que
digamos que não, ali está como parte do rosto, da voz, do olhar. Como
construíste tua letra, enquanto tal?
R – A única certeza que tenho, talvez, é que não construí nada e que talvez
nunca construa. Na verdade, penso que vivo a poesia enquanto processo
e que devo manter as portas e as janelas abertas para que todos os ruídos,
todos os ventos possam me fazer entender que a poesia será sempre
uma folha caindo no alento da sala, soprada pelas possibilidades de
algum poema. Mesmo que jamais seja escrito. A minha letra talvez nem
exista... é um processo de contrastes e de permanente desconstrução.
Uma constância de atitudes que me levam aos goles da insônia e aos
firmamentos de muitos livros lidos e vividos.
12 - Pois bem... li emocionada um texto teu no blog. Falavas do
lançamento em João Pessoa e de teu envolvimento com isso que
denominam loucura. Digo “ isso que denominam” porque é certo que
alguns escolhem chamar a diferença gritante, como loucura. Fiquei
emocionada e um tanto identificada. Pois bem, poderias nos falar
um pouco sobre a compreensão que tens sobre “ os loucos”, “ as
loucuras”...”todos os nós”?
R – Talvez eu não tenha compreensão alguma, mas certamente tenho um
profundo sentimento quanto ao sofrimento de alguém que é mutilado
para uma adaptação violentamente forçada aos costumes de uma
civilização sem moral para condenar a loucura. Não creio que se possa
definir conceito de loucura num mundo absurdamente louco, onde os
valores humanos se desintegram nas páginas dos jornais e não permitem
a formação sólida de uma camada social que possa servir de suporte
para a dignidade enquanto valor humano. A doença mental é por demais
cruel porque, muitas vezes, demora muito para se tornar visível e mais
ainda para se tornar compreensível. Algumas a doença é a causa, noutras,
o efeito. Então, o que o sistema fez com os que considerava loucos?
Encurralou-os no confinamento, para que pudesse continuar exercendo
sua balbúrdia diante da perplexidade de alguns e da indiferença de
muitos. Loucos são os muros que construímos para cometermos atos de
lasceramento da nossa igualdade, de raça, de gosto, de álibis. Ou será que
os religiosos que promoveram a inquisição eram pessoas sadias? E os que
promoveram o holocausto, eram mesmo normais? Quem são os loucos?
Quem de nós?
13 - Iniciaste a fazer poesia ou a poesia te iniciou? Rsrsrsrs
R – A poesia é um exercício permanente de espanto e, portanto, de
humanidade. A poesia tenta me iniciar a cada dia, espero que nunca
desista de mim. Afinal, somos aprendizes dos nossos próprios erros.
Minha poesia é a soma dos meus erros, dos meus átomos e das minhas
distenções. A poesia me inicia tentando unir o que quando toma corpo,
explode em mil artículas perdidas na aridez dos dias. E a poesia vai me
indiciando, sempre... me iniciando.
14 - Teus livros, as filhas, neta, namorada... O que compõe teu universo
de escrita?
R – O que compõe o universo da minha escrita é a vida e suas linguagens,
o trabalho com a palavra na escrita ou na tentativa. Minhas filhas, meus
amigos, minha neta e minha namorada fazem parte do que se processa
nesse liquidificador de possibilidades. Não confundo as coisas. Acredito
nisso, mas também desconfio muito.
15-Falávamos sobre “revide” rsrsrs. Dizias de uma impossibilidade, na
infância, de estudar música...Acho que foi isso,né?...Então comentei:
sempre é um revide. Concordas com isso? Sempre é um revide, uma
transcrição, uma restauração?
R – Sim, acho que na verdade eu poderia ter estudado música. No
fundo acho que ainda posso, mas talvez nem queira tanto quanto penso
que quis. Naquele tempo a compreensão da minha mãe era outra. Ela
queria que eu fosse engenheiro. Na verdade ela queria que eu quizesse
ser engenheiro. Não me pergunte o porquê. Talvez pelo pai dela, meu
Vovô Marcos (o Tata) ter trabalhado como operário na construção da
Ponte Internacional Mauá, hoje tombada. Certamente por querer para
mim um futuro sólido. Por isso ela pensou o oposto do que eu sou. Ser
engenheiro era não correr tantos riscos quanto um poeta. Ser poeta foi,
talvez, um drible naquela criatura doce que era minha mãe. Quando ela
ainda era viva, fiz poemas para ela. Ela curtiu muito, também, o filho
que escolheu a arquitetura dos versos. Era uma mulher maravilhosa e
profundamente boa, como uma mãe deve ser. Me ensinou os caminhos
do amor e da paciência. Nesse caso, foi revide e restauração. E ela é que
foi a engenheira.
16 - Percebi que transitas em vários guetos, em vários grupos, em várias
palavras.rsrsrsr. É como se estivesses no mundo, de fato, existindo a
cada instante. Nisso não há mais tempo para ...bobagens? rsrsrsr.Lau, o
que existe de maior valor na tua história de vida?
R-Sem dúvidas: as minhas filhas, a minha neta, a minha família, os meus
amigos e amigas, as pessoas que conheci e que me ajudaram de certa
forma ou de todas as formas a estar aqui agora respondendo tua
entrevista, em pleno mês de junho, sem camisa, pensando no sul gelado,
mastigando as respostas das suas perguntas instigantes para que sejam
minimamente digeríveis. As pessoas que eu amo são o que mais valorizo.
A minha responsabilidade sobre o mundo é algo que não abro mão. Nem
para um trem, como se diz. Disso decorrem todas as coisas. Até mesmo a
minha poesia e outras bobagens que tento esconder, mas nunca consigo.
Ainda bem, porque do contrário eu não existiria. E eu inexisto mesmo!
17 - Certa vez perguntei: Ô Lau... porque o risinho? Respondeste: porque
sou risonho rsrsrs...Preciso confessar que...eu também. Há sempre
um chiste, há sempre o riso, há sempre o cômico. Ele é o infernal!
Rsrsrsr.Como situas o cômico na vida e na escrita?
R – Considero, como Fernando Pessoa, que ser poeta é uma vocação.
Todavia, algumas vezes acho que tenho mais vocação para palhaço que
para poeta. As pessoas que convivem comigo sempre riem muito porque
eu fico o tempo todo tirando onda, pegando no pé, gosto de fazer rir
e gosto de chorar junto, quando preciso. Vivo de transbordamentos.
Dos sentimentos baixos o que menos suporto é a covardia. Não suporto
também a hipocrisia e acho que as questões coletivas devem sempre ser
priorizadas. O cômico na minha vida não permite a diluição dos meus
princípios. Acho que a vida é bela demais para gastarmos o nosso tempo
com atrocidades, com desrespeitos, com violência. E acredito que essas
são as causas da tristeza maior no mundo. Devemos nos conceber na
alegria e na intensidade de viver cada momento. O riso deve ser sempre
uma partilha da alegria de viver e nunca um produto do sarcasmo.
18 - Não quero perguntar sobre teus trabalhos mais significativos. Mas
vou fazer isso porque chamo de trabalho também o tempo em que as
coisas vão “cozinhando”, o vinho vai envelhecendo e... Então: qual o
trabalho, que na tua vida, foi ou é mais significativo?
R – Com certeza, aquele que ainda não escrevi e que nem sei se vou
conseguir escrever algum dia. Se considerarmos que o leitor ou a leitora
são realmente os parceiros na construção de uma obra poética, deixo essa
resposta para quem tem a ousadia, a coragem de abrir meus livros que,
infeliz ou felizmente, a maioria já esgotaram suas edições e estão por aí,
espalhando inquietações pelos rincões.
19-Quem é o poeta?
R – Boa pergunta! (Péssima resposta.)
20-Gostarias de dizer mais alguma coisa?
R – Só uma perguntinha: Tu tens mesmo coragem de publicar isso no teu
blog?
(rsrsrsrsr)...Ô,Lau!...rsrsrsr
Agradeço tua indecente palavra, tua letra sem pele, sem medo do frio
que cala; tua denúncia incontida que grita todos os dias no vermelho
de dentro,nas cores que hão de vir.O verbo em resquício: nunca
partir!,numa desistência temerosa de perder a razão.Ela só existe quando
construída aos dias, no trabalho da ternura esculpida, como desenha tua
mão.Recebo-te emocionada, em parte despida,em parte encantada, pela
letra do dia que faz nascer poesia onde eu mesma queria ter inventado
existir.Volte sempre,Lau!
Beijo com todas as letras
adriana bandeira
fazê-las numa espécie de hiância que me permitisse todo o tempo do
mundo.Não existe, sabemos...Então temos que inventar este momento
de “ todo o tempo do mundo”.Precisava para que as perguntas tivessem
esta conotação de “ poemas vermelhos”...Sim! Como perguntar ao poeta
que dá este nome às suas produções de agora.quero dizer...o nome de
uma cor, ou melhor, a que surge para cada um.Lau, Poemas Vermelhos
surgem...em que contexto?
R - Poemas vermelhos nascem de um contexto que me parece estar entre
o caos e o acaso. Ou seja: no contexto da invenção poética e artística. O
vermelho me pareceu a cor mais viva para identificar um processo que
é contínuo. Os chamados “poemas vermelhos” que publico no meu blog
são os inéditos. Muito mais que isso, são os recém criados, os criados e
postados naquele exato instante. Jogados na rede para sobreviver ou não
ao olhar mais agudo do próprio poeta e dos leitores do blog. Alguns até
sobrevivem até o próximo livro, outros se perdem ou são sumariamente
deletados. O livro Poesia Sem Pele e o anterior, Texto Sentido foram
alimentados por poemas vermelhos. Portanto os poemas vermelhos
são os inéditos e imediatos que se jogam no impulso, na “metalurgia
da palavra”, para usar uma definião que uso em um poema de um dos
meus livros anteriores. São poemas que fazem parte do meu exercício
cotidiano com a linguagem, fazem parte do meu aprendizado e colocam
a minha poética como um processo, como um movimento da linguagem
no alimento dos meus dias e das minhas intervenções no universo da
literatura.
2-Por qualquer coisa inexplicável sempre pensei que ternura é uma
construção.Quero dizer que não vejo bem como dizer o que é ternura.
Simples como qualquer outro sentimento mas...ternura, para mim, é o
depois de algo; o que refaz ou reinscreve algo da violência,da dor...uma
espécie de amor que se veste com este nome.O que é ternura, para ti?
R – Isso me lembra Mário Quintana: “como vou explicar uma nuvem?”
Ternura para mim é um elo de silêncios para a compreensão do
incompreensível e do ato mais sublime da existência que é, em verdade,
o amor enquanto atitude. Portanto, é ou não uma nuvem? Não existirá
ternura em alguém que não reconhece o amor enquanto valor supremo
de mobilização do que conhecemos e do que ainda não conhecemos em
termos de raça humana. É o reconhecimento e a compreensão da nossa
fragilidade e ao mesmo tempo a nossa maior couraça, a certeza que os
atos de ternura somente acontecem após um desnudamento mais denso
diante da barbárie das relações cotidianas. Talvez a ternura seja a nossa
única e verdadeira coragem.
3-A história de cada um não conta por si só o que nos registra censuras
ou nos autoriza transgressões. Por vezes, em algum tempo, podemos
pensar ter transgredido e, logo, depois de alguns minutos, dias ou
anos...nos perdoamos.Estas imagens permeiam ações e uma espécie
de destino..como o que construímos no dia a dia.Lau,quais tuas
transgressões?
R – As minhas transgressões se processam através da linguagem
poética, porque é lá que revelo o sacro e o profano da minha vida, do
meu pensamento, dos tencionamentos que crio com a afirmação da
linguagem enquanto forma de transbordar as minhas dúvidas diante
de tantas certezas absurdas criadas para o sufocamento dos códigos da
invenção até e, talvez principalmente, da relação do ser humano com
ele mesmo. Minhas transgressões se voltam sempre para a profanação
do meu umbigo, para os sarcófagos do meu ego. Neste sentido creio
que o meu propósito é sempre “transgredir-me”. Numa estação onde
permanentemente posso jogar meus olhares sobre os abismos que nos
cercam em termos de conhecimento e desconhecimento da causas e
defeitos dos processos vividos pela humanidade desde que a memória
do mundo existe. A poesia é a minha transgressão mais radicalizada.
Aliás, todo mundo transgride ao nascer. Respirar é, provavelmente, uma
transgressão coletiva, contida pelos abalos do homem espalhados pelo
universo.
4- Neste aspecto, seguindo nesta linha de pergunta, confesso que
não é raro pensar que a palavra tem um tempo rsrsrsr. É...algo assim
como “um eu”, o do discurso, que se autoriza, em dado momento, a
falar ou escrever algo.Este algo...são palavras, sons, significantes que,
naquele “ tempo” apresentam-se.O que pensa disso?
R- Sim, penso que cada palavra tem o seu próprio tempo porque o
significado não é, na maneira poética de expressão, alguma coisa estática.
Toda palavra tem seus próprios movimentos e nisso a invenção de
um tempo particular. O tempo das palavras na construção do poema
não é, de forma alguma, um tempo linear. Isso deve ser considerado,
especialmente, na leitura crítica de um texto. Mesmo na prosa, mesmo no
discurso técnico, as palavras tem um tempo que conduz ao movimento.
Caso contrário não haveria evolução na ciência e no conhecimento. Talvez
o papel da palavra na evolução da ciência explique melhor o seu tempo
que as teorias da literatura.
5 - Aí, lembrei também da proposta do teu blog poesiasim de escrever e
reescrever e mudar... Como é esta idéia?
R – Um poema nunca é apenas um poema. Assim como o autor não
é apenas um autor. O poema está sempre dividido entre a escrita e a
leitura. Portanto, acho que é a partir da leitura que o poema começa
a ser realmente escrito e esse é um princípio permanente e mutante
No blog, penso que meus poemas estão abertos às modificações ou
mesmo às sugestões. Mesmo poemas já publicados em livros anteriores
eu alterei para publicações no blog e acho que o poeta deve se permitir
invasões, até mesmo de leituras equivocadas dos seus poemas. Esta
leitura supostamente equivocada poderá ajudá-lo a compreender o
incompreensível que é, em suma, a razão do poema. Isso não é uma
regra porque se fosse estaria negando a sua própria natureza, mas no
blog e nos meus livros, creio, eu continuo a caminhada em busca dessa
nossa grande utopia que é a construção do poema. Isso é dinâmico.
O verso de hoje nem sempre contempla o poema de amanhã. Tudo é
passível de um destensionamento de conceitos para que o procedimento
criativo se perpetue enquanto processo e não enquanto gradeamento da
imaginação. A imaginação se veste de signos, desnuda-os. Acho qu estar
preso a conceitos estabelece as bases do preconceito estético que é, em
última análise, o inimigo maior de qualquer processo criativo. Que o diga
Glauco Mattoso, um sonetista pra lá de inventivo.
6 - Em algum momento sei que a poesia, de cada um, faz revolução.
Penso que o poetar é algo próprio ao humano e capaz de produzir
movimentos inimagináveis. O que é poesia para ti?
R – A poesia é um salto no abismo. Uma indefinição e uma inutilidade
de hálito imprescindível. Mais uma vez fico com uma frase do Mário
Quintana para fugir dessa armadilha: “a poesia se resume na procura da
poesia”. Ou seja: não sei o que é poesia e me conformo porque Mário
também não sabia. Aliás, não tenho certeza se o que eu escrevo é poesia
e, te juro, não estou nem aí. Só sei que a poesia não tem culpa alguma da
minha estupidez numa resposta como essa.
7 - O lançamento do livro “ Poesia sem Pele” em João Pessoa trouxe
uma inovação. Por incrível que pareça, em algum sentido, estava o
reconhecimento de que existe algo em comum, que recebe à todos,
digamos assim. Eu tinha um amigo que não possuía a última camada da
pele. Uma doença que o acompanhava desde o nascimento. Poderia ter
pena mas...percebi que à todos falta a última camada da pele, a que
deixamos com a placenta. Somos, sem exceção, frágeis. Para ti,Lau...o
que seria este universal que à todos recebe?
R – Lancei o livro em João Pessoa, num manicômio. O lançamento esteve
integrado na programação da Semana de Luta Antimanicomial, numa
programação que celebrou a vida, com Tom Zé, Babilak Bah e outros
artistas. E o lançamento foi dedicado aos que despiram todas as camadas
da pele para sentir o ferro em brasas da hipocrisia, do preconceito que
existe com a loucura e com a loucura que abriga cada preconceito. A arte
é a cura numa sociedade doente de tudo. É universal, portanto, pra mim,
misturar as minhas atitudes às minhas crenças na vida, no que a vida tem
de visível, de palpável, mas principalmnente no que tem de mistério,
de invisível, de estrangulamento de uma racionalidade que geralmente
somente se afirma na contradição.
8 - Como foi o lançamento aqui na Festipoa?
P – Foi maravilhoso! Um momento de grande alegria pra mim, lançar um
livro no “Hotel Majestic” que hoje é a Casa de Cultura Mário Quintana. Era
como se estivesse escutando Sapatos Floridos caminhando pelo silêncio
na noite do dia 5 de maio. Sou profundamente grato à minha editora, a
escritora talentosa, Laís Chaffe. Sou profundamente grato ao Fernando
Ramos, por ter me incluído na programação. Foi muito especial depois
de 26 anos longe dos pagos, lançar um livro na minha terra e me sentir
acariciado pelos meus irmãos gaúchos, escritores ou não. Não tem preço
uma emoção assim. É reconhecimento de que não estamos sós.
9-Por alguns momentos nos falamos rsrsrsr. Pude testemunhar uma
certa nostalgia... das ruas de Porto Alegre, talvez de poemas que ainda
estavam sendo feitos, naquele instante e, já indo embora por estarem
criados, retratavam a saudade nos olhos de água. Estou correta na
minha impressão?
R – Corretíssima. Eu ando pelas ruas de Porto Alegre como se estivesse
buscando meus antigos passos. Nunca consegui me desapegar da cidade,
dos seus monumentos, da sua arte, das suas ruas, dos seus morros e deste
estuário de águas infelizmente não muito confiáveis que é o Guayba.
Minha história é meu único bem. Porto alegre faz parte de forma intensa
dessa história que já chega aos 54 anos. É uma das fontes supremas da
minha poesia, com certeza.
10- Conseguiste um exemplar de um cara...rsrsrs como era o nome dele
mesmo? Achei encantador que fizeste a referência sobre teu amor ou
ternura por Mário Quintana. Poderia nos dizer qual a relação que tens
com a letra de Mário?
R – É verdade, cheguei na Casa de Cultura Mário quintana e encontrei
logo o livro Sapatos Floridos que, no pensamento e na minha caminhada
da casa da minha irmã, na Hilário Ribeiro, até a Andradas vinha lembrando
que havia extraviado pela vida. O livro estava lá, olhando pra mim e
pude adquiri-lo novamente. Tenho uma relação crítica com a poesia do
Mário. Não gosto de tudo que ele escreveu e não poderia ser diferente
porque Mário, talvez, tenha sido um dos poetas de maior produção e
mais publicado no seu tempo. Mas, não é diferente de outros poetas
que admiro, também. “Não gosto de tudo que gosto”, eu diria. Ou não
gosto de tudo nos escritores que admiro. Seria hipócrita negar isso. Muito
menos da minha própria produção, sobre a qual tenho espasmos às vezes.
Chego a sentir “depressão pós parto” após publicar um livro. O fato é
que Mário era uma figura extremamente poética. Seu caminhar, seu
jeito e de certa forma até mesmo seus preconceitos que eram também
bastante agudos e estavam presentes na sua poesia. Acho que ele foi, de
certa forma, pouco compreendido porque não há como analisar a obra
de qujntana sem considerar que ele fazia parte da obra. Ele era o seu
principal poema. Se me influenciou? Creio que sim, como todos os poetas
que li. Talvez ele tenha me ensinado a não ter receio de ser poeta e a
saber que poeta é ser inevitavelmente poeta.
11-Pois é... letra... Letra é traço, marcado a ferro na pele. Mesmo que
digamos que não, ali está como parte do rosto, da voz, do olhar. Como
construíste tua letra, enquanto tal?
R – A única certeza que tenho, talvez, é que não construí nada e que talvez
nunca construa. Na verdade, penso que vivo a poesia enquanto processo
e que devo manter as portas e as janelas abertas para que todos os ruídos,
todos os ventos possam me fazer entender que a poesia será sempre
uma folha caindo no alento da sala, soprada pelas possibilidades de
algum poema. Mesmo que jamais seja escrito. A minha letra talvez nem
exista... é um processo de contrastes e de permanente desconstrução.
Uma constância de atitudes que me levam aos goles da insônia e aos
firmamentos de muitos livros lidos e vividos.
12 - Pois bem... li emocionada um texto teu no blog. Falavas do
lançamento em João Pessoa e de teu envolvimento com isso que
denominam loucura. Digo “ isso que denominam” porque é certo que
alguns escolhem chamar a diferença gritante, como loucura. Fiquei
emocionada e um tanto identificada. Pois bem, poderias nos falar
um pouco sobre a compreensão que tens sobre “ os loucos”, “ as
loucuras”...”todos os nós”?
R – Talvez eu não tenha compreensão alguma, mas certamente tenho um
profundo sentimento quanto ao sofrimento de alguém que é mutilado
para uma adaptação violentamente forçada aos costumes de uma
civilização sem moral para condenar a loucura. Não creio que se possa
definir conceito de loucura num mundo absurdamente louco, onde os
valores humanos se desintegram nas páginas dos jornais e não permitem
a formação sólida de uma camada social que possa servir de suporte
para a dignidade enquanto valor humano. A doença mental é por demais
cruel porque, muitas vezes, demora muito para se tornar visível e mais
ainda para se tornar compreensível. Algumas a doença é a causa, noutras,
o efeito. Então, o que o sistema fez com os que considerava loucos?
Encurralou-os no confinamento, para que pudesse continuar exercendo
sua balbúrdia diante da perplexidade de alguns e da indiferença de
muitos. Loucos são os muros que construímos para cometermos atos de
lasceramento da nossa igualdade, de raça, de gosto, de álibis. Ou será que
os religiosos que promoveram a inquisição eram pessoas sadias? E os que
promoveram o holocausto, eram mesmo normais? Quem são os loucos?
Quem de nós?
13 - Iniciaste a fazer poesia ou a poesia te iniciou? Rsrsrsrs
R – A poesia é um exercício permanente de espanto e, portanto, de
humanidade. A poesia tenta me iniciar a cada dia, espero que nunca
desista de mim. Afinal, somos aprendizes dos nossos próprios erros.
Minha poesia é a soma dos meus erros, dos meus átomos e das minhas
distenções. A poesia me inicia tentando unir o que quando toma corpo,
explode em mil artículas perdidas na aridez dos dias. E a poesia vai me
indiciando, sempre... me iniciando.
14 - Teus livros, as filhas, neta, namorada... O que compõe teu universo
de escrita?
R – O que compõe o universo da minha escrita é a vida e suas linguagens,
o trabalho com a palavra na escrita ou na tentativa. Minhas filhas, meus
amigos, minha neta e minha namorada fazem parte do que se processa
nesse liquidificador de possibilidades. Não confundo as coisas. Acredito
nisso, mas também desconfio muito.
15-Falávamos sobre “revide” rsrsrs. Dizias de uma impossibilidade, na
infância, de estudar música...Acho que foi isso,né?...Então comentei:
sempre é um revide. Concordas com isso? Sempre é um revide, uma
transcrição, uma restauração?
R – Sim, acho que na verdade eu poderia ter estudado música. No
fundo acho que ainda posso, mas talvez nem queira tanto quanto penso
que quis. Naquele tempo a compreensão da minha mãe era outra. Ela
queria que eu fosse engenheiro. Na verdade ela queria que eu quizesse
ser engenheiro. Não me pergunte o porquê. Talvez pelo pai dela, meu
Vovô Marcos (o Tata) ter trabalhado como operário na construção da
Ponte Internacional Mauá, hoje tombada. Certamente por querer para
mim um futuro sólido. Por isso ela pensou o oposto do que eu sou. Ser
engenheiro era não correr tantos riscos quanto um poeta. Ser poeta foi,
talvez, um drible naquela criatura doce que era minha mãe. Quando ela
ainda era viva, fiz poemas para ela. Ela curtiu muito, também, o filho
que escolheu a arquitetura dos versos. Era uma mulher maravilhosa e
profundamente boa, como uma mãe deve ser. Me ensinou os caminhos
do amor e da paciência. Nesse caso, foi revide e restauração. E ela é que
foi a engenheira.
16 - Percebi que transitas em vários guetos, em vários grupos, em várias
palavras.rsrsrsr. É como se estivesses no mundo, de fato, existindo a
cada instante. Nisso não há mais tempo para ...bobagens? rsrsrsr.Lau, o
que existe de maior valor na tua história de vida?
R-Sem dúvidas: as minhas filhas, a minha neta, a minha família, os meus
amigos e amigas, as pessoas que conheci e que me ajudaram de certa
forma ou de todas as formas a estar aqui agora respondendo tua
entrevista, em pleno mês de junho, sem camisa, pensando no sul gelado,
mastigando as respostas das suas perguntas instigantes para que sejam
minimamente digeríveis. As pessoas que eu amo são o que mais valorizo.
A minha responsabilidade sobre o mundo é algo que não abro mão. Nem
para um trem, como se diz. Disso decorrem todas as coisas. Até mesmo a
minha poesia e outras bobagens que tento esconder, mas nunca consigo.
Ainda bem, porque do contrário eu não existiria. E eu inexisto mesmo!
17 - Certa vez perguntei: Ô Lau... porque o risinho? Respondeste: porque
sou risonho rsrsrs...Preciso confessar que...eu também. Há sempre
um chiste, há sempre o riso, há sempre o cômico. Ele é o infernal!
Rsrsrsr.Como situas o cômico na vida e na escrita?
R – Considero, como Fernando Pessoa, que ser poeta é uma vocação.
Todavia, algumas vezes acho que tenho mais vocação para palhaço que
para poeta. As pessoas que convivem comigo sempre riem muito porque
eu fico o tempo todo tirando onda, pegando no pé, gosto de fazer rir
e gosto de chorar junto, quando preciso. Vivo de transbordamentos.
Dos sentimentos baixos o que menos suporto é a covardia. Não suporto
também a hipocrisia e acho que as questões coletivas devem sempre ser
priorizadas. O cômico na minha vida não permite a diluição dos meus
princípios. Acho que a vida é bela demais para gastarmos o nosso tempo
com atrocidades, com desrespeitos, com violência. E acredito que essas
são as causas da tristeza maior no mundo. Devemos nos conceber na
alegria e na intensidade de viver cada momento. O riso deve ser sempre
uma partilha da alegria de viver e nunca um produto do sarcasmo.
18 - Não quero perguntar sobre teus trabalhos mais significativos. Mas
vou fazer isso porque chamo de trabalho também o tempo em que as
coisas vão “cozinhando”, o vinho vai envelhecendo e... Então: qual o
trabalho, que na tua vida, foi ou é mais significativo?
R – Com certeza, aquele que ainda não escrevi e que nem sei se vou
conseguir escrever algum dia. Se considerarmos que o leitor ou a leitora
são realmente os parceiros na construção de uma obra poética, deixo essa
resposta para quem tem a ousadia, a coragem de abrir meus livros que,
infeliz ou felizmente, a maioria já esgotaram suas edições e estão por aí,
espalhando inquietações pelos rincões.
19-Quem é o poeta?
R – Boa pergunta! (Péssima resposta.)
20-Gostarias de dizer mais alguma coisa?
R – Só uma perguntinha: Tu tens mesmo coragem de publicar isso no teu
blog?
(rsrsrsrsr)...Ô,Lau!...rsrsrsr
Agradeço tua indecente palavra, tua letra sem pele, sem medo do frio
que cala; tua denúncia incontida que grita todos os dias no vermelho
de dentro,nas cores que hão de vir.O verbo em resquício: nunca
partir!,numa desistência temerosa de perder a razão.Ela só existe quando
construída aos dias, no trabalho da ternura esculpida, como desenha tua
mão.Recebo-te emocionada, em parte despida,em parte encantada, pela
letra do dia que faz nascer poesia onde eu mesma queria ter inventado
existir.Volte sempre,Lau!
Beijo com todas as letras
adriana bandeira
domingo, junho 12, 2011
Velho quintal
Braços adormecidos, meus,chegavam primeiro.Em concha carregando sementes, até o quintal da luz diferente, onde restavam meus anéis de sol.Cavando rápida, espada, arma adormecida enquanto estrada, rasgava os sulcos da coroação.Não há tempo para plantar e embora soubesse, as que pudesse, haveria de fazer valer.E foram duas, três, talvez muitas quando os braços,meus passos, quedaram sem volta!Era a hora da partida, era a hora de voltar à morte, como sopro de vida.Algumas, pequenas e fortes, geraram canções.São desejantes estas notas musicais!Outras me surgem assim de visita, depois que virei árvore escondida, da minha melhor maçã.
sexta-feira, junho 10, 2011
Um " és", para os que escutam corações
Não sei de onde as cores te invadem, numa lembrança sem rumo do que ainda, nunca aconteceu.Por sorte estamos felizes e seguras minha mão sem medo de existir.Posso rir alto com pena do tempo e sonhar com um jeito de nunca dizer adeus.O dia termina e não lembro mais de mim, antes de tornar-me em ti.
Destino
Subi a esquina, errei na rua.Desci antes do tempo...e o trem nem passa mais por aqui.Começo a construir.
De onde eu vim
Vim de onde nada existia,lá de onde vazavam os olhos, as tardes, os dias...até surgir este cordão de letra faminta.
Do pó...
Vez ou outra ouço o ranger da pedra tecida.É dela a verdade adormecida, pele recortada da cinza.
terça-feira, junho 07, 2011
O SOM DA PRIMEIRA CASA,ESQUINA,ESTRADA:O LUGAR DE EXISTIR- Conversando com Davi,Veloso,Nino,Daguia e Nilton.
DAVI- A diferença é que em casa se estuda sozinho. Não tem como te sensibilizar...te motivar.Na rua...soltinho rsrsrsrs. Está para as emoções...
NILTON- Em casa o universo é reduzido...sem possibilidade de dividir a música.Não se guarda para si mesmo.
NINO- Em casa estudamos...na rua apresentamos
NILTON- Em casa os familiares reclamam do barulhos.Tocar em casa...tocar na rua...O estudo está sendo proveitoso.O pessoal acompanha o processo de estudo.As pessoas dizem se melhoramos ou não... rsrsrsrsrrss.
VELOSO- A rua envolve uma liberdade e em casa...escolhemos.Na rua encontramos os amigos e...tocamos.Existe uma liberdade para brincar com a música.
INDECENTES PALAVRAS- Isso diz respeito ao público e ao privado, ao íntimo espaço do si mesmo e ao que constitui o si mesmo: a língua falada por todos, e todos...é a rua! rsrsrsrsrs.Neste aspecto, falando de música, a linguagem da música antecede o músico, já está ali antes...e determina algumas coisas.O que, para vocês, determinou a escolha por um instrumento?
DAVI- O meu é machista!rsrsrsrs É o instrumento que te escolhe! A música me escolheu... Todo ser humano nasceu cantando, ele veio falar depois...Imitava os passarinhos, os sons da natureza...Todo ser humano é...músico.É...eu só não escolho a música quando me pagam.Com a bateria foi assim.Meu primeiro instrumento foi o sax...a bateria estava lá...E aí...É um casamento! Se escolhesse outro instrumento...pareceria traição.Sempre penso como transmitir à ela.Tudo é percussão: o barulho das pessoas, o som das coisas...A música é uma matemática.A música em si é a matemática.Não tem fim!
NILTON- A sonoridade do sax, um instrumento romântico, músicas tocadas com bom gosto...É difícil escutar um saxofonista tocando ruim.A sonoridade reproduz a voz humana.O sax ...canta! rsrsrsrsrsrr
DAVI- Então dá prá dizer que todo instrumento quer reproduzir a voz humana.O instrumento explica os sentimentos da alma.Romântico..pq é calmo,relaxante...não é fofoca íntima? rsrsrsr”Lupicínio Rodrigues” rsrsrsrsrsrs...Para nós, na brincadeira, música romântica seria isso..rsrsrsrsrs.
VELOSO- O sax faz ...solo.Uma só voz, fala...Só dá para fazer uma nota por vez.
DAVI- É um instrumento de melodia.O instrumento do ...jazz.
VELOSO- Concordo com o Davi...Até os 13 anos eu não dava bola para a música...Nesta época existiam os bailes de formatura.No baile de formatura da minha irmã, pela primeira vez ouvi um grupo, ao vivo.Aquele solo de guitarra...Me pegou! Tanto pedi que minha mãe me colocou numa aula de violão...Não aprendi!Não conseguia...Depois de algum tempo, encontrei-me sozinho com a guitarra e ...ela me escolheu!Sou de Uruguaiana e comecei a participar de programas de rádio ao vivo....comecei a colocar na prática o autodidatismo...Meu percurso de aprendizagem foi ...estudar em casa e tocar nas casas de mulheres, casas noturnas,cabarés,como chamavam.Os músicos tops....estavam lá! rsrsrsrrsrs Os músicos ficavam lá...uma semana, duas...
INDECENTES PALAVRAS- Era uma...pensão ?rsrsrsrsr
VELOSO- Transformava-se! rsrsrsrs
DAVI- O beco das garrafas era assim...no Rio de Janeiro.
NINO- Como eu gostava de cantar...precisava de um instrumento de acompanhamento.
NINO- Na década de 60 tocávamos nas calçadas...e alguém sempre sabia tocar.Aquele era o cara!Naquela época os bolinhos nas calçadas eram permitidos.Hoje acho que não!Nunca estudei música.Aprendi a tocar assim.Comecei a tocar...uma amiga me dava as notas principais....fez os desenhos e eu reproduzia.Eu assistia os conjuntos e observava.É pura abstração!
INDECENTES PALAVRAS- Tocar um instrumento ...a sonoridade tem um alcance privilegiado.Falo do alcance subjetivo, do “ tocar” no outro de forma única que não está determinada pelo som ou nota mas ...pelo recebimento de melodia.Para alguns um som pode ser harmonioso e belo, para outros...Vocês sentem-se tocados pela música?Quais?De que forma?
DAVI- Sentimos! Muito.
NILTON- a sonoridade dos instrumentos...alguém já imaginou um filme sem trilha sonora?Todas as ações, emoções são representadas por um tipo de som!Um momento de pavor...uma outra emoção...alegrias...Sou levado pelo instrumento.
DA GUIA- Comecei aprender tocar violino há pouco tempo.Venho para a rua e me sinto como se estivesse na escola aprendendo português, pela primeira vez.
INDECENTES PALAVRAS- Uma alfabetização?
DA GUIA- Sim...é como se eu estivesse me alfabetizando num outro sentido.Penso que estou aprendendo a escrever ou a falar, matemática...
DAVI-Tu te deixa ir...tipo um orgasmo...rsrsrsr. A emoção é tanta que rola sentimentos...Onde estive...é isso que me pergunto!
VELOSO- Quando tu estás com o instrumento...tu estás buscando o conhecimento daquilo!
DA GUIA- Comecei a tentar entender a teoria...depois comecei a tocar...
INDECENTES PALAVRAS- Estaria tomado pelo aprendizado, neste momento?
NINO- É...para te entregar para a música...tem que estar com ela dentro de ti.
VELOSO- Eu sou um aprendiz em violoncelo! Dá uma ansiedade louca!Eu quero ter o mesmo rendimento que com a guitarra!
INDECENTES PALAVRAS- Por que...a rua?
NILTON- Do ponto de vista aprendiz...vou usar uma frase do Da Guia: desinibição.É um complemento às aulas...um “extra classe importante”rsrsrrs .
DAVI- A rua foi para o artista o lugar de subsistência, do dia de hoje.A rua não precisa de repertório, as pessoas passam e algumas músicas são bem aceita.O rolar o chapéu, as moedinhas...Dá a subsistência do dia de hoje.Como no Brasil não temos esta cultura, o artista brasileiro acha que indo para rua é...pedir esmola.o pessoal que passa...acha que botar cinqüenta centavos...é pouco.Acha que não vale a pena.O serviço de rua é para que ele seja reconhecido, o artista, pelas pessoas comuns,como qualquer um.O artista de rua não pede para ninguém.Ele só é reconhecido pelo povo.O trabalho de rua é feito das seis às sete da noite.As pessoas saem do trabalho e ficam ...mais calma.
INDECENTES PALAVRAS- Poderiam contar um pouco da história deste espaço aqui?Falo deste agrupamento no café da cidade, rsrsrsrs Num café só para homens?
NILTON- Quem que disse?Não tem placa!rsrsrrs
DA GUIA- o café é que é o culpado! rsrsrsrrs O café sempre foi um ambiente dos homens.Na época as mulheres não saíam...esta liberdade é um tanto assustadora, hoje.Antigamente eu mandava nelas...agora eu tenho medo delas.Ela nos intimidam na sua liberdade.Tudo isso vai passar depois que “ela se regularizar”...
INDECENTES PALAVRAS- Quem regulariza a mulher? rsrsr
(risada geral)
INDECENTES PALAVRAS- Cá entre nós...Isso é uma coisa um tanto Machista,não? Rsrsrsr
VELOSO- Eu entendo mais do meu instrumento do que da mulher rsrsrs
DAVI- O ponto é...masculino.A esquina democrática, a boca maldita...a florida...Aqui é livre...mas, é um ponto masculino!
INDECENTES PALAVRAS- Ah! rsrsrsr.O ponto é masculino! A vírgula..?
(muito riso e som de instrumentos.Os rapazes já começam a se impacientar e a tocar alguma coisa ,intercalando as respostas com o sons)
DAVI- diz que na Bíblia as coisas estão mudando srsrsrsrs
DA GUIA- O motivo da minha existência! Sem ela eu não estaria vivo.
VELOSO- Prá mim é a razão principal da minha existência...Sem mulher é como mineral sem gás..
(risadas)
NINO- É o outro lado da mesma moeda.
NILTON- A rosa que floresce meu jardim...rsrsrsr.É o elo de união...sentimentos.
INDECENTES PALAVRAS -Pois é...nossa cidade carece de espaços assim, embora daqui saiam músicos e artista brilhantes.Qual seria a causa disso?
DAVI- Esta falta é geral.Não é só Montenegro.A imagem está no lugar do espetáculo humano.E o artista sumiu.Então...facilitou o instrumento,professores...mas não a vida do artista; lugar do artista.
INDECENTES PALAVRAS-Quais os projetos?
NilTON- Nada é programado.É espontâneo.Aleatório...Penso: vou levar o instrumento ...vou brincar.
DA GUIA- Aula de desinibição...para enfrentar os professores lá na Fundarte!rsrrsrs
VELOSO- Acho que isso de se reunirem,vai acontecer naturalmente.Este prazer tendem a se repetir...
INDECENTES PALAVRAS- Qual a diferença entre a música e a mulher?
VELOSO- Nenhuma!
DAVI- Todo músico sonha em ter uma mulher...
DA GUiA- Se eu soubesse isso...
NILTON- As duas coisas desafinam...sai do tom...tem que afinar!
INDECENTES PALAVRAS- mas que coisa! ( rsrsrsrs)..Isso é coisa que se diga,Nilton! Homem não desafina!
Estes dias eu e Lucimaura encontramo-nos por acaso e sentamos para assistir alguns tocando em frente ao café.Era verão e pedimos uma cervejinha rsrsrsrs .Ouvimos das mulheres que passavam ...e não dos homens, algo assim: “que horror!” rsrs
(risos e música!)...se quer coisa melhor?
Quero agradecer por esta ternura, esta forma de amor especial que faz com que tenhamos a música na calçada; esta voz diferente de cada um dos seus instrumentos, enquanto sonham com a mulher, a cidade e as letras que ainda não conhecem. Só me escapa um pouco uma reflexão pequena de que se a música no café dos homens se espalha, os pontos também são falas e recebem à todos nós.
Agradecida pelo acolhimento, pelo café, pela delícia de estar entre vocês.
Beijo com todas as letras
adriana bandeira
domingo, junho 05, 2011
DIA DA CAÇA: Jorge Rein entrevista Adriana Bandeira em Indecentes Palavras – um flagrante de invasão domiciliar
Jorge Rein entrevista Adriana Bandeira em Indecentes Palavras – um
flagrante de invasão domiciliar
1.- Na troca de papéis que combinamos para esta entrevista percebo, com um
certo pavor, que a poesia é a resposta. Mas qual é a pergunta?
rsrsrsrsr...Tinha a ideia de que em toda pergunta, implícita estava a resposta.
Fiz dez, nota máxima, numa prova de neurofisiologia, na faculdade... a pior
das provas e eu não tinha estudado nada! A ideia de estar entrevistada em
Indecentes Palavras surgiu numa conversa com Antonio Amaral Tavares. Ele
me disse que, de certa forma, eu saberia desviar das perguntas. Isso me pegou
de jeito já que Indecentes Palavras é toda a palavra que dizemos. Estamos
sempre nus, diante da própria fala. Precisava passar pelas perguntas, como a
afirmar que ninguém está fora, isento de, sempre, desmanchar-se, reconstruir-
se,... na primeira frase. Mas, de qualquer forma, a pergunta é a poesia. Ela é
que nos interroga. A tua poesia me interroga... Nisso é que a pergunta talvez
seja... o que lhe vier rsrsrsrsrrs
2.- Há poemas que se entregam quase que descaradamente escancarados
à visitação pública. Existem outros que, ainda que herméticos na aparência,
procuram a abertura de um contato em outra dimensão, dispensando as
ferramentas habituais da compreensão ou do entendimento. Vejo na tua
poesia, ou em grande parte dela, uma terceira via, a da ostra com uma flor
desenhada na face externa da sua concha. É possível apenas se deixar
encantar com a beleza plena de sonoridades da sua superfície, mas é preciso
rasgar ou perfurar a crosta, profanar aquilo que é só belo, para atingir o
âmago, o lençol subterrâneo dos sentidos onde hiberna o milagre capaz de
transformar um grão de areia em pérola. Das trabalho ao leitor, também das
recompensa. Finalmente, a pergunta: essa forma de escrita é natural em ti, é
de caso pensado ou, ainda, é uma espécie de deformação profissional em que
pretendes reconstruir o processo da análise às avessas?
Putz! Acho que esta deformação, esta análise às avessas... talvez seja o
natural naquilo que lês. Nunca tinha pensando isso sobre o que escrevo.
Até porque escrevo pouco... talvez não tanto quanto gostaria ou precisaria;
também esta ostra e flor são, em parte, construção do leitor que habita por aí
rsrsrsrsr Falo isso porque a maioria das pessoas não se interessa muito pela
pérola, sua própria pérola; nem pela ostra com seu desenho. Sem falar que faz
apenas um ano e meio que... me autorizo a dizer que escrevo... poesia. Faço
poesia... isso é verdade. Mas escrever poesia, faz pouco tempo. O processo
de análise é algo interminável. Mesmo que por algum tempo não se vá mais ao
analista, ainda o trabalho continua, até reencontrá-lo... se nos proporcionamos
um tempo grande ao trabalho de analisarmo-nos. E para que possamos fazer
a direção do tratamento de outros, é importante um longo tempo de análise
própria. Pois bem... a deformação é a formação, neste sentido. Não há algo
pré-estabelecido além dos três pilares que sustentam esta escolha pela
psicanálise: análise, supervisão e estudo. Mais especificamente, minha escrita
nasce neste processo, num reconhecimento de que são as palavras que me
escolhem e dizem algo. Há, neste aspecto, um apagamento, um estancamento
da minha subjetividade que se abre para escutar o que vem... de mim mesma.
Não há censura, neste momento da escrita. Ela pode vir depois... corrigindo,
cobrindo, arrematando... Mas no momento da criação... não há. Tentando
responder mais tua pergunta... Minha pérola, depois de descoberta, volta a
ser areia fina que escorre e desenha uma flor, que precisa de uma ostra para
existir. Não há superfície que não seja profunda em si.
3.- O reconhecimento de que são as palavras que te escolhem, assim como
essa ausência de censura no ato da criação, parecem sugerir um parentesco
com a escrita automática, o dadaísmo de Breton ou de Tzara. Mas eu não vejo
essa porralouquice (com perdão da palavra) nos teus textos. Pessoalmente,
acredito que existem mecanismos de censura de tal forma introjetados que
funcionam quase como músculos involuntários, resistindo até mesmo à ação
das drogas. Mas é claro que eu não sou um especialista nesse assunto. A
poesia seria, então, uma espécie de exercício de íntima ventriloquia em que
o poeta é, ao mesmo tempo, roteirista, boneco e manipulador? Poesia, do
teu ponto de vista, é uma modalidade de onanismo ou te preocupa também o
prazer do leitor?
rsrsrsr é que às vezes as porralouquices são impregnadas de censura. Na
verdade não há como saber o que realmente é impedimento. Posso apenas
dizer que toda a escrita é, sim, racional. Nada que passe por alguma
representação é algo puro, vindo de sei lá onde. Acontece que a escrita,
sendo uma censura, neste aspecto, em si mesma, afrouxa na medida em que
diz o que deseja dizer. Neste aspecto... deixo vir, neste aspecto não existe
censura. Por exemplo: não deveria falar tanto em "denúncia"... uma palavra
que uso muito como tu mesmo apontaste dia destes rsrsrsrrs. Então eu deveria
me cuidar e não usá-la tanto... Mas, quando ela surge, dou a ela, porque
registra um momento da minha vida que ela aparece vez ou outra... e que um
dia vai deixar de ser , dando lugar a... sei lá qual; também os "ãos", resquícios
infantis, rsrsrrs (lembro de minhas primeiras rimas!) Mas faço questÂO, porque
eles me vêm como docinhos, como pequenos algodÕES que colho de forma
divertida. Aliás... gosto de brincar com as palavras! Isso... sim! Não é raro
escrever algo "errado" gramaticalmente e ter muita pena de "arrumar".
Estes dias escrevia para um amigo nosso... que poeta é aquele que não faz
mais apelos. SIm! O poeta não pede mais nada! É então que digo que não
escrevo para ninguém e escrevo para todos. Algumas palavras, algumas
imagens são universais. Percebo que trabalho muito com isso. Palavras como:
chão, olhar, terra, casa... palavras que todos sabem do que se fala. As frases
na construção do texto são amplas, abertas a todo e qualquer tipo de
compreensão. Não é raro causar uma certa angústia porque o leitor é
convidado a... existir. É desta forma que nem sei se " onanismo" existe de fato,
em se tratando de escrita. A ação é solitária mas... em um momento apenas.
Isso tem sido uma pergunta que me faço e a fiz a Leonardo B... Isso me
interroga, de fato! O espaço solitário é breve, me parece..., pequeno que nem
sei decifrar, porque logo, em si, estamos no mínimo a dois: conosco e com
nossos tantos eus. O que seria natural? Oras, Jorge... a natureza humana é
algo diferente da natureza como a entendemos. A natureza humana é cultural.
Por isso que num discurso existem, sempre, no mínimo dois, mesmo que seja
uma escrita solitária. O prazer do leitor não nos pertence.... Como a apreensão
do tempo, nos foge! Existem textos que são lidos depois de... cem anos?
Existem leitores que se descobrem leitores de algum texto, muito depois de...
Repara... para existir o leitor, precisa haver um texto; para que se tenha um
texto é necessário o leitor, no mínimo, leitor de si mesmo!
Também questiono sobre a possibilidade de prazer que uma poesia possa
causar. Falo que na maioria das vezes a poesia traz desacomodação,
angústia, questionamentos... Como diria Freud..."para além do princípio do
prazer" rsrsrrs... a poesia está para além do prazer, propriamente dito.
A poesia para mim é só o momento que fez algum buraco.
4.- Se a poesia não proporciona prazer, qual é o mistério da sua permanência,
qual é o segredo da sua persistência em sociedades preponderantemente
hedonistas? O
dualismo
pulsional
freudiano
desvenda
totalmente
essa necessidade que o ser humano sente da desacomodação, dos
questionamentos e da própria angústia (para usar tuas palavras)? E o
preenchimento dessa necessidade, através da poesia ou de qualquer outro
artifício, se traz satisfação, se traz algum conforto, em que se diferencia do
prazer? E não vai me chamar de masoquista.
É... o que se quer é o prazer. Mas, o que é o prazer? Se pudéssemos
terminar com nossas angústia, o frio, a fome... se pudéssemos terminar com o
desassossego... estaríamos em paz... eterna! rsrsrsrsrsr Então existe a busca,
o caminho, o andar da carroça... Isso está longe de ser o prazer imaginado.
É somente o que se pode ter aos poucos, aos goles, a cada vez. Isso está
distante do que se idealiza como... o melhor. Neste aspecto, a angústia, a
tensão acaba por terminar num reconhecimento de gosto... de prazer. Sim!
Passageiro, que não para de não acontecer, para que, por algum momento,
possa estancar parcialmente, como se fosse, como que achado o caminho
que... logo vem a desencaminhar novamente. Quase um recorte, uma imagem
que se autoriza a vir, como leite morno, como colo quente, como aconchego
necessário para que possamos partir. É neste sentido que está para além do
que se desejaria como capaz de fazer parar a procura. É evanescente.
A poesia lida pode ser isso... Mas escrever poesia não me parece leite morno
rsrsrsrsrrs. Esta necessidade nunca é preenchida. Para isso sabemos que é
a partir do "perdido" que se constrói o objeto imaginário. É pelo que jamais
teremos o que se procura. O dualismo pulsional freudiano é uma grande
sacada. Muito mais pelo que tem de didático na explicação de que, na
verdade, todo desejo é insatisfeito. O que desejamos, de fato, é... voltar para
a mãe, ou seja... morrer! Isso não é masoquismo. É... trágico! rsrsrsr Mas, no
caminho disso, plantamos algumas coisas, deixamos algumas rasuras, umas
palavrinhas e... pelo que este prazer de momento proporciona... seguimos
vivendo em busca do que nos representaria. Talvez o segredo da permanência
da poesia seja justamente este. A busca por algo que represente o desejo...
de morte. Por isso a poesia é uma ação humana, uma fala humana... uma
necessidade.
5.- A poesia é um risco: no papel, no bordado, na vida. Gostaria de dizer que te
vi nascer como poeta, mas provavelmente isso não é verdade. Aposto que já
eras poeta há muito tempo e não sabias. Te percebo dona de um estilo muito
particular, que incorpora influências mas não se prende a elas. Quais são as
tuas principais referências na literatura?
Ah! Acho que é verdade sim... Nunca vou esquecer das tuas palavras
escritas..."para mim acabaste de nascer" rsrsrsr Não lembra, né? Pois é...
acho que eu fazia poesia mas não escrevia. Não lembro de nada neste
sentido, antes de te conhecer. Aliás... antes de ler teu livro &. Vim de lá...
daquela leitura! Vez ou outra volto e... não volto igual! rsrsrsrs. Antes, lembro
de uma leitura censurada, imprópria, não permitida, quando ainda muito
menina. Por exemplo, de quando já sabia ler e mentia que não. Na verdade eu
entrei na escola, na primeira série, como se não soubesse ler. Na época sofria
de dores de cabeça terríveis. Eu tinha uns 5 ou seis anos. Ninguém sabia o
que era ... Minha mãe conta que sempre teve medo de que eu não me
alfabetizasse rsrsrrssr E ela tinha razão! Ainda não fui alfabetizada em muitas
coisas! rsrsrsr Pois é... mas lembro de ler o aviso próximo aos trilhos do trem.
Aquela placa enorme que tinha escrito: parar, olhar, escutar. Lia isso quando
voltava da padaria com a empregada... e eu ainda não estava na escola
rsrsrsrsrrs. Bem, estas três palavras são importantes para mim e, de certa
forma, num tanto, norteiam o que hoje faço. E o trem... Nem se fala! Também!
rsrsrsrrsrs
Fui uma rata de biblioteca na meninice. Lembro de livros antigos que li porque
estavam na estante lá de casa. Li alguns para agradar a mãe... por exemplo
alguns do escritor Cronin... Acho que um chamava-se "noites de vigília" (e
aquilo não tinha fim! rsrsrsrs). E tinha a coleção dos clássicos como "Jane
Eyre"... Depois li muita coisa que não entendia! Por exemplo alguns de Herman
Hesse. Na época não entendia e não me importava em não entender. Apenas
gostava de algo que, hoje, identifico como o ritmo da escrita. Josué
Guimarães, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos,... Nossa, Jorge!
lembrei das minhas andanças solitárias! A adolescência é uma crise, não é?
Aproveitei o máximo. Pois é... acabava de parar com as aulas de balett e hoje
identifico esta busca pelo ritmo dos escritores como uma substituição, um
encaminhamento em relação à falta da dança. Outro: Cervantes, Proust, Ligia
Fagundes, Schopenhauer... tantos, tantos... de diferentes estilos. E quando me
apaixonava por um... lia vários do mesmo estilo até extinguir qualquer
entendimento. Lembro de um, acho que do Josué Guimarães que decidi: não
leio mais nada dele! Briguei! Nunca mais fiz as pazes! Era um texto tão triste,
tão solitário que... ali não tinha dança a dois! rsrsrsrsr... Ah! O James Joyce...
Mas vê bem que é como se fosse música! rsrsrsrsrsrsrsrsr Pois é... aí eu
conheci Lispector. Então comecei a escrever. Aí, as coisas mudaram em
relação ao que escolho para ler. Perdi a busca somente pelo ritmo. Agora,
depois dela, quero também a letra. Aí... nunca mais dormi! rsrsrsrrsrsrrsrsr... E
comecei a minha psicanálise e os textos de Lacan, para mim... trazem muita
coisa que me faz escrever!
6.- Mais uma para o rol das coincidências. Na casa da minha infância, ao
lado do imponente telefone preto que eu chamava de “cuervo” –porque
sua campainha para mim sempre soava a mau agouro–, havia um bloco de
anotações. Em cada uma das páginas, a impressão reiterada da mesmíssima
mensagem: “Não fale, escreva”. Acredito que tenha sido uma das minhas
primeiras leituras. Obedeço até hoje. Mas, mudando de assunto: tenho a
impressão de que no Brasil existem mais poetas que leitores de poesia.
Talvez isso reflita o fato de que ser poeta é condição inata de (quase) todo ser
humano, exercida pelo menos em algum momento da vida. Já ler poesia é um
hábito, é preciso adquiri-lo. Pertenço ao MSB (Movimento dos Sem Blog), mas
sem radicalismos. A cada tanto peço pouso na casa de algum poeta amigo
(Indecentes Palavras é um dos meus endereços preferidos). Enfim, qual é a tua
opinião sobre a proliferação desenfreada de blogs de poesia?
Pois é... vejo os blogs e algumas redes sociais, como nossas praças de hoje.
Nelas falamos, brigamos e expomos o que temos de melhor ou pior. Neste
sentido gosto muitíssimo e vejo neles, nos blogs, uma função social importante,
com outro rosto. Por aí, talvez, por ter que ser esta " praça" lida,... talvez
faça nascer mais leitores de poesia. É um pensamento que surge agora. Não
consigo ver algo ruim, nisso. Os estilos são escutados, com esta voz de dentro,
do leitor. Os estilos são compartilhados e... isso que dizes sobre o "poetar"
ser condição humana, nunca foi tão comprovado. Porém... publicar num blog
não é publicar num livro; colocar no blog, no meu entendimento é fazer valer o
processo, em andamento, na carne e sangue que nasce o poema; com seus
possíveis problemas, sua falta de coberta macia... sua frágil moradia que é o
possível leitor. Porém... o aumento desse tipo de publicação, o aumento deste
tipo de relação só nos faz pensar na solidão, cada vez maior, do poeta. Solidão
não somente na escrita mas... na pessoa do escritor. Não somente para quem
escreve. As redes sociais e os blogs medem a febre, avaliam o sintoma desta
solidão humana que se transforma em aconchego virtual. Errado? Não! Mas...
há uma mudança muito significativa e escutar isso é importante para revermos
padrões estáticos de normalidade ou loucura. Estes dias mesmo... falávamos
nisso, na produção do escritor e sua loucura... Pois é... os blogs são uma forma
de fazer poesia.
7.- Nada tenho contra as novas mídias, mas confesso que sofro de uma
espécie de fetichismo com relação ao livro como objeto de desejo. O livro tem
cheiro, textura, enfeita belamente as prateleiras e não traz junto, de brinde, as
onipresentes ferramentas de invasão da privacidade, como o GPS ou o celular.
Notes, tablets, pods e pads têm a vantagem de ter luz própria para burlar
as trevas, mas o livro tem outro jeito de iluminar. O Chá das Cinco já está
esfriando nas xícaras, quando teremos mais Adriana Bandeira em livro?
Pois é... o sujeito que lê o texto no livro é diferente do sujeito que lê na tela.
São lugares subjetivos diferenciados e prometem experiências novas em
relação a isso. Também gosto do cheiro, da cor... aliás isso tem tudo em
comum com a letra que tem dentro. Mesmo que seja o "capista" o outro
artista, no conjunto, a nuance, o traço... é também leitura. Hoje autorizo-me
a não gostar ou gostar... destes segredinhos que nos tomam como: cheiro,
cor, sabor, textura, etc... O livro "Indecentes Palavras" está pronto. Com
apresentação de Jorge Rein e Sidnei Schneider, com algumas palavrinhas de
Fernando Hartmann, psicanalista... Mas, faltou grana. Rsrrsrsr Tive algumas
mudanças sérias nos últimos seis meses, na vida mesmo, e tive que protelar
um pouco a publicação. Aí nasceu o blog Indecentes Palavras, que do livro tem
apenas dois ou três textos. Mas o blog nasceu desta falta que me fez adiar o
lançamento do livro. Acho que... setembro, outubro...Vamos ver!
8.- O vaivém dos e-mails na construção desta entrevista, que mais parece um
diálogo, me fez lembrar de um projeto em comum que deixamos um pouco
abandonado. Será que aquele dueto que ensaiamos foi uma tentativa de
amenizar a solidão do escritor da qual falamos, porque éramos leitores de nós
mesmos, próximos e imediatos, e o desafio mútuo nos tornava mais hábeis
neste ofício da palavra (também mais desvairados). Eu sinto falta disso. Como
foi para ti essa experiência?
Como foi? Não pensei que tivesse terminado rsrsrrsrsr. Sei que a próxima carta
é a minha e, talvez esta troca esteja realmente mexendo com meus neurônios
rsrsrrsrs pois acordei hoje, pensando na respostas, depois de todo este
tempo! Esta experiência tem sido maravilhosa! Primeiro porque... respeitamos
o tempo um do outro. Sei que podemos retornar sempre; segundo... porque
me faz experimentar uma coisa que nunca pensei: pensar, escrever, ser...
um homem! Não foram raras as vezes que eu pensei em te pedir para
trocarmos... eu adoraria fazer o meu papel mesmo rsrsrsr Mas não acredito
que acontece para amenizar alguma coisa, não! Pelo contrário! Acho que... há
um encontro, aqui. Talvez de semelhanças, de danças, de escolha. Acho que
nos escolhemos e isso é algo maravilhoso! Nossa troca de correspondência...
acho muito legal. A ideia foi nova e espero, um dia publicar. Não em
indecentespalavras, mas em textura, cor e papel. Logo vai a carta... Aproveito-
me desta habilidade masculina de me atrasar, de não entender direito o que as
mulheres querem rsrsr Escrever como Thomas é algo encantador! Isso me faz
respeitar e amar cada vez mais a condição masculina.
∞. – Então é isso, Adriana. Acho que não me resta por quebrar mais nenhuma
das regras de conduta sugeridas pelo Manual de Procedimentos do Bom
Entrevistador (edição corrigida e revisada). O que eu gosto mesmo é de estar
contigo, sem grandes protocolos. Poderia estender esta conversa por uma
eternidade. Nem chegamos a falar da presença obsessiva da figura do Pai,
Montenegro como pano de fundo, rios e trilhos, trens e navios fantasmas,
estações e estaleiros... Mas estamos tirando espaço e tempo da poesia, o que
é imperdoável. Não vou pedir nem mesmo para dares um recado final, porque
esta é a tua casa, mas aceito um poema. Eu te devolvo a chave e agradeço o
convite para ser, neste breve intervalo, o hospedeiro. Mas antes de partir, te
roubo um...
beijo com todas as letras!
Existe aquele de mim que faz nascer poesia. E ele compartilha da solidão da
letra e da palavra companhia. Ele não vai embora e não vem como se quer.Apenas nunca se desfaz. Não sei o que rasga em mim restar poema, mas nada, antes, foi tão para sempre assim, farol de estrela. (adriana bandeira)
beijo com uma das tuas letras, Jorge.
flagrante de invasão domiciliar
1.- Na troca de papéis que combinamos para esta entrevista percebo, com um
certo pavor, que a poesia é a resposta. Mas qual é a pergunta?
rsrsrsrsr...Tinha a ideia de que em toda pergunta, implícita estava a resposta.
Fiz dez, nota máxima, numa prova de neurofisiologia, na faculdade... a pior
das provas e eu não tinha estudado nada! A ideia de estar entrevistada em
Indecentes Palavras surgiu numa conversa com Antonio Amaral Tavares. Ele
me disse que, de certa forma, eu saberia desviar das perguntas. Isso me pegou
de jeito já que Indecentes Palavras é toda a palavra que dizemos. Estamos
sempre nus, diante da própria fala. Precisava passar pelas perguntas, como a
afirmar que ninguém está fora, isento de, sempre, desmanchar-se, reconstruir-
se,... na primeira frase. Mas, de qualquer forma, a pergunta é a poesia. Ela é
que nos interroga. A tua poesia me interroga... Nisso é que a pergunta talvez
seja... o que lhe vier rsrsrsrsrrs
2.- Há poemas que se entregam quase que descaradamente escancarados
à visitação pública. Existem outros que, ainda que herméticos na aparência,
procuram a abertura de um contato em outra dimensão, dispensando as
ferramentas habituais da compreensão ou do entendimento. Vejo na tua
poesia, ou em grande parte dela, uma terceira via, a da ostra com uma flor
desenhada na face externa da sua concha. É possível apenas se deixar
encantar com a beleza plena de sonoridades da sua superfície, mas é preciso
rasgar ou perfurar a crosta, profanar aquilo que é só belo, para atingir o
âmago, o lençol subterrâneo dos sentidos onde hiberna o milagre capaz de
transformar um grão de areia em pérola. Das trabalho ao leitor, também das
recompensa. Finalmente, a pergunta: essa forma de escrita é natural em ti, é
de caso pensado ou, ainda, é uma espécie de deformação profissional em que
pretendes reconstruir o processo da análise às avessas?
Putz! Acho que esta deformação, esta análise às avessas... talvez seja o
natural naquilo que lês. Nunca tinha pensando isso sobre o que escrevo.
Até porque escrevo pouco... talvez não tanto quanto gostaria ou precisaria;
também esta ostra e flor são, em parte, construção do leitor que habita por aí
rsrsrsrsr Falo isso porque a maioria das pessoas não se interessa muito pela
pérola, sua própria pérola; nem pela ostra com seu desenho. Sem falar que faz
apenas um ano e meio que... me autorizo a dizer que escrevo... poesia. Faço
poesia... isso é verdade. Mas escrever poesia, faz pouco tempo. O processo
de análise é algo interminável. Mesmo que por algum tempo não se vá mais ao
analista, ainda o trabalho continua, até reencontrá-lo... se nos proporcionamos
um tempo grande ao trabalho de analisarmo-nos. E para que possamos fazer
a direção do tratamento de outros, é importante um longo tempo de análise
própria. Pois bem... a deformação é a formação, neste sentido. Não há algo
pré-estabelecido além dos três pilares que sustentam esta escolha pela
psicanálise: análise, supervisão e estudo. Mais especificamente, minha escrita
nasce neste processo, num reconhecimento de que são as palavras que me
escolhem e dizem algo. Há, neste aspecto, um apagamento, um estancamento
da minha subjetividade que se abre para escutar o que vem... de mim mesma.
Não há censura, neste momento da escrita. Ela pode vir depois... corrigindo,
cobrindo, arrematando... Mas no momento da criação... não há. Tentando
responder mais tua pergunta... Minha pérola, depois de descoberta, volta a
ser areia fina que escorre e desenha uma flor, que precisa de uma ostra para
existir. Não há superfície que não seja profunda em si.
3.- O reconhecimento de que são as palavras que te escolhem, assim como
essa ausência de censura no ato da criação, parecem sugerir um parentesco
com a escrita automática, o dadaísmo de Breton ou de Tzara. Mas eu não vejo
essa porralouquice (com perdão da palavra) nos teus textos. Pessoalmente,
acredito que existem mecanismos de censura de tal forma introjetados que
funcionam quase como músculos involuntários, resistindo até mesmo à ação
das drogas. Mas é claro que eu não sou um especialista nesse assunto. A
poesia seria, então, uma espécie de exercício de íntima ventriloquia em que
o poeta é, ao mesmo tempo, roteirista, boneco e manipulador? Poesia, do
teu ponto de vista, é uma modalidade de onanismo ou te preocupa também o
prazer do leitor?
rsrsrsr é que às vezes as porralouquices são impregnadas de censura. Na
verdade não há como saber o que realmente é impedimento. Posso apenas
dizer que toda a escrita é, sim, racional. Nada que passe por alguma
representação é algo puro, vindo de sei lá onde. Acontece que a escrita,
sendo uma censura, neste aspecto, em si mesma, afrouxa na medida em que
diz o que deseja dizer. Neste aspecto... deixo vir, neste aspecto não existe
censura. Por exemplo: não deveria falar tanto em "denúncia"... uma palavra
que uso muito como tu mesmo apontaste dia destes rsrsrsrrs. Então eu deveria
me cuidar e não usá-la tanto... Mas, quando ela surge, dou a ela, porque
registra um momento da minha vida que ela aparece vez ou outra... e que um
dia vai deixar de ser , dando lugar a... sei lá qual; também os "ãos", resquícios
infantis, rsrsrrs (lembro de minhas primeiras rimas!) Mas faço questÂO, porque
eles me vêm como docinhos, como pequenos algodÕES que colho de forma
divertida. Aliás... gosto de brincar com as palavras! Isso... sim! Não é raro
escrever algo "errado" gramaticalmente e ter muita pena de "arrumar".
Estes dias escrevia para um amigo nosso... que poeta é aquele que não faz
mais apelos. SIm! O poeta não pede mais nada! É então que digo que não
escrevo para ninguém e escrevo para todos. Algumas palavras, algumas
imagens são universais. Percebo que trabalho muito com isso. Palavras como:
chão, olhar, terra, casa... palavras que todos sabem do que se fala. As frases
na construção do texto são amplas, abertas a todo e qualquer tipo de
compreensão. Não é raro causar uma certa angústia porque o leitor é
convidado a... existir. É desta forma que nem sei se " onanismo" existe de fato,
em se tratando de escrita. A ação é solitária mas... em um momento apenas.
Isso tem sido uma pergunta que me faço e a fiz a Leonardo B... Isso me
interroga, de fato! O espaço solitário é breve, me parece..., pequeno que nem
sei decifrar, porque logo, em si, estamos no mínimo a dois: conosco e com
nossos tantos eus. O que seria natural? Oras, Jorge... a natureza humana é
algo diferente da natureza como a entendemos. A natureza humana é cultural.
Por isso que num discurso existem, sempre, no mínimo dois, mesmo que seja
uma escrita solitária. O prazer do leitor não nos pertence.... Como a apreensão
do tempo, nos foge! Existem textos que são lidos depois de... cem anos?
Existem leitores que se descobrem leitores de algum texto, muito depois de...
Repara... para existir o leitor, precisa haver um texto; para que se tenha um
texto é necessário o leitor, no mínimo, leitor de si mesmo!
Também questiono sobre a possibilidade de prazer que uma poesia possa
causar. Falo que na maioria das vezes a poesia traz desacomodação,
angústia, questionamentos... Como diria Freud..."para além do princípio do
prazer" rsrsrrs... a poesia está para além do prazer, propriamente dito.
A poesia para mim é só o momento que fez algum buraco.
4.- Se a poesia não proporciona prazer, qual é o mistério da sua permanência,
qual é o segredo da sua persistência em sociedades preponderantemente
hedonistas? O
dualismo
pulsional
freudiano
desvenda
totalmente
essa necessidade que o ser humano sente da desacomodação, dos
questionamentos e da própria angústia (para usar tuas palavras)? E o
preenchimento dessa necessidade, através da poesia ou de qualquer outro
artifício, se traz satisfação, se traz algum conforto, em que se diferencia do
prazer? E não vai me chamar de masoquista.
É... o que se quer é o prazer. Mas, o que é o prazer? Se pudéssemos
terminar com nossas angústia, o frio, a fome... se pudéssemos terminar com o
desassossego... estaríamos em paz... eterna! rsrsrsrsrsr Então existe a busca,
o caminho, o andar da carroça... Isso está longe de ser o prazer imaginado.
É somente o que se pode ter aos poucos, aos goles, a cada vez. Isso está
distante do que se idealiza como... o melhor. Neste aspecto, a angústia, a
tensão acaba por terminar num reconhecimento de gosto... de prazer. Sim!
Passageiro, que não para de não acontecer, para que, por algum momento,
possa estancar parcialmente, como se fosse, como que achado o caminho
que... logo vem a desencaminhar novamente. Quase um recorte, uma imagem
que se autoriza a vir, como leite morno, como colo quente, como aconchego
necessário para que possamos partir. É neste sentido que está para além do
que se desejaria como capaz de fazer parar a procura. É evanescente.
A poesia lida pode ser isso... Mas escrever poesia não me parece leite morno
rsrsrsrsrrs. Esta necessidade nunca é preenchida. Para isso sabemos que é
a partir do "perdido" que se constrói o objeto imaginário. É pelo que jamais
teremos o que se procura. O dualismo pulsional freudiano é uma grande
sacada. Muito mais pelo que tem de didático na explicação de que, na
verdade, todo desejo é insatisfeito. O que desejamos, de fato, é... voltar para
a mãe, ou seja... morrer! Isso não é masoquismo. É... trágico! rsrsrsr Mas, no
caminho disso, plantamos algumas coisas, deixamos algumas rasuras, umas
palavrinhas e... pelo que este prazer de momento proporciona... seguimos
vivendo em busca do que nos representaria. Talvez o segredo da permanência
da poesia seja justamente este. A busca por algo que represente o desejo...
de morte. Por isso a poesia é uma ação humana, uma fala humana... uma
necessidade.
5.- A poesia é um risco: no papel, no bordado, na vida. Gostaria de dizer que te
vi nascer como poeta, mas provavelmente isso não é verdade. Aposto que já
eras poeta há muito tempo e não sabias. Te percebo dona de um estilo muito
particular, que incorpora influências mas não se prende a elas. Quais são as
tuas principais referências na literatura?
Ah! Acho que é verdade sim... Nunca vou esquecer das tuas palavras
escritas..."para mim acabaste de nascer" rsrsrsr Não lembra, né? Pois é...
acho que eu fazia poesia mas não escrevia. Não lembro de nada neste
sentido, antes de te conhecer. Aliás... antes de ler teu livro &. Vim de lá...
daquela leitura! Vez ou outra volto e... não volto igual! rsrsrsrs. Antes, lembro
de uma leitura censurada, imprópria, não permitida, quando ainda muito
menina. Por exemplo, de quando já sabia ler e mentia que não. Na verdade eu
entrei na escola, na primeira série, como se não soubesse ler. Na época sofria
de dores de cabeça terríveis. Eu tinha uns 5 ou seis anos. Ninguém sabia o
que era ... Minha mãe conta que sempre teve medo de que eu não me
alfabetizasse rsrsrrssr E ela tinha razão! Ainda não fui alfabetizada em muitas
coisas! rsrsrsr Pois é... mas lembro de ler o aviso próximo aos trilhos do trem.
Aquela placa enorme que tinha escrito: parar, olhar, escutar. Lia isso quando
voltava da padaria com a empregada... e eu ainda não estava na escola
rsrsrsrsrrs. Bem, estas três palavras são importantes para mim e, de certa
forma, num tanto, norteiam o que hoje faço. E o trem... Nem se fala! Também!
rsrsrsrrsrs
Fui uma rata de biblioteca na meninice. Lembro de livros antigos que li porque
estavam na estante lá de casa. Li alguns para agradar a mãe... por exemplo
alguns do escritor Cronin... Acho que um chamava-se "noites de vigília" (e
aquilo não tinha fim! rsrsrsrs). E tinha a coleção dos clássicos como "Jane
Eyre"... Depois li muita coisa que não entendia! Por exemplo alguns de Herman
Hesse. Na época não entendia e não me importava em não entender. Apenas
gostava de algo que, hoje, identifico como o ritmo da escrita. Josué
Guimarães, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos,... Nossa, Jorge!
lembrei das minhas andanças solitárias! A adolescência é uma crise, não é?
Aproveitei o máximo. Pois é... acabava de parar com as aulas de balett e hoje
identifico esta busca pelo ritmo dos escritores como uma substituição, um
encaminhamento em relação à falta da dança. Outro: Cervantes, Proust, Ligia
Fagundes, Schopenhauer... tantos, tantos... de diferentes estilos. E quando me
apaixonava por um... lia vários do mesmo estilo até extinguir qualquer
entendimento. Lembro de um, acho que do Josué Guimarães que decidi: não
leio mais nada dele! Briguei! Nunca mais fiz as pazes! Era um texto tão triste,
tão solitário que... ali não tinha dança a dois! rsrsrsrsr... Ah! O James Joyce...
Mas vê bem que é como se fosse música! rsrsrsrsrsrsrsrsr Pois é... aí eu
conheci Lispector. Então comecei a escrever. Aí, as coisas mudaram em
relação ao que escolho para ler. Perdi a busca somente pelo ritmo. Agora,
depois dela, quero também a letra. Aí... nunca mais dormi! rsrsrsrrsrsrrsrsr... E
comecei a minha psicanálise e os textos de Lacan, para mim... trazem muita
coisa que me faz escrever!
6.- Mais uma para o rol das coincidências. Na casa da minha infância, ao
lado do imponente telefone preto que eu chamava de “cuervo” –porque
sua campainha para mim sempre soava a mau agouro–, havia um bloco de
anotações. Em cada uma das páginas, a impressão reiterada da mesmíssima
mensagem: “Não fale, escreva”. Acredito que tenha sido uma das minhas
primeiras leituras. Obedeço até hoje. Mas, mudando de assunto: tenho a
impressão de que no Brasil existem mais poetas que leitores de poesia.
Talvez isso reflita o fato de que ser poeta é condição inata de (quase) todo ser
humano, exercida pelo menos em algum momento da vida. Já ler poesia é um
hábito, é preciso adquiri-lo. Pertenço ao MSB (Movimento dos Sem Blog), mas
sem radicalismos. A cada tanto peço pouso na casa de algum poeta amigo
(Indecentes Palavras é um dos meus endereços preferidos). Enfim, qual é a tua
opinião sobre a proliferação desenfreada de blogs de poesia?
Pois é... vejo os blogs e algumas redes sociais, como nossas praças de hoje.
Nelas falamos, brigamos e expomos o que temos de melhor ou pior. Neste
sentido gosto muitíssimo e vejo neles, nos blogs, uma função social importante,
com outro rosto. Por aí, talvez, por ter que ser esta " praça" lida,... talvez
faça nascer mais leitores de poesia. É um pensamento que surge agora. Não
consigo ver algo ruim, nisso. Os estilos são escutados, com esta voz de dentro,
do leitor. Os estilos são compartilhados e... isso que dizes sobre o "poetar"
ser condição humana, nunca foi tão comprovado. Porém... publicar num blog
não é publicar num livro; colocar no blog, no meu entendimento é fazer valer o
processo, em andamento, na carne e sangue que nasce o poema; com seus
possíveis problemas, sua falta de coberta macia... sua frágil moradia que é o
possível leitor. Porém... o aumento desse tipo de publicação, o aumento deste
tipo de relação só nos faz pensar na solidão, cada vez maior, do poeta. Solidão
não somente na escrita mas... na pessoa do escritor. Não somente para quem
escreve. As redes sociais e os blogs medem a febre, avaliam o sintoma desta
solidão humana que se transforma em aconchego virtual. Errado? Não! Mas...
há uma mudança muito significativa e escutar isso é importante para revermos
padrões estáticos de normalidade ou loucura. Estes dias mesmo... falávamos
nisso, na produção do escritor e sua loucura... Pois é... os blogs são uma forma
de fazer poesia.
7.- Nada tenho contra as novas mídias, mas confesso que sofro de uma
espécie de fetichismo com relação ao livro como objeto de desejo. O livro tem
cheiro, textura, enfeita belamente as prateleiras e não traz junto, de brinde, as
onipresentes ferramentas de invasão da privacidade, como o GPS ou o celular.
Notes, tablets, pods e pads têm a vantagem de ter luz própria para burlar
as trevas, mas o livro tem outro jeito de iluminar. O Chá das Cinco já está
esfriando nas xícaras, quando teremos mais Adriana Bandeira em livro?
Pois é... o sujeito que lê o texto no livro é diferente do sujeito que lê na tela.
São lugares subjetivos diferenciados e prometem experiências novas em
relação a isso. Também gosto do cheiro, da cor... aliás isso tem tudo em
comum com a letra que tem dentro. Mesmo que seja o "capista" o outro
artista, no conjunto, a nuance, o traço... é também leitura. Hoje autorizo-me
a não gostar ou gostar... destes segredinhos que nos tomam como: cheiro,
cor, sabor, textura, etc... O livro "Indecentes Palavras" está pronto. Com
apresentação de Jorge Rein e Sidnei Schneider, com algumas palavrinhas de
Fernando Hartmann, psicanalista... Mas, faltou grana. Rsrrsrsr Tive algumas
mudanças sérias nos últimos seis meses, na vida mesmo, e tive que protelar
um pouco a publicação. Aí nasceu o blog Indecentes Palavras, que do livro tem
apenas dois ou três textos. Mas o blog nasceu desta falta que me fez adiar o
lançamento do livro. Acho que... setembro, outubro...Vamos ver!
8.- O vaivém dos e-mails na construção desta entrevista, que mais parece um
diálogo, me fez lembrar de um projeto em comum que deixamos um pouco
abandonado. Será que aquele dueto que ensaiamos foi uma tentativa de
amenizar a solidão do escritor da qual falamos, porque éramos leitores de nós
mesmos, próximos e imediatos, e o desafio mútuo nos tornava mais hábeis
neste ofício da palavra (também mais desvairados). Eu sinto falta disso. Como
foi para ti essa experiência?
Como foi? Não pensei que tivesse terminado rsrsrrsrsr. Sei que a próxima carta
é a minha e, talvez esta troca esteja realmente mexendo com meus neurônios
rsrsrrsrs pois acordei hoje, pensando na respostas, depois de todo este
tempo! Esta experiência tem sido maravilhosa! Primeiro porque... respeitamos
o tempo um do outro. Sei que podemos retornar sempre; segundo... porque
me faz experimentar uma coisa que nunca pensei: pensar, escrever, ser...
um homem! Não foram raras as vezes que eu pensei em te pedir para
trocarmos... eu adoraria fazer o meu papel mesmo rsrsrsr Mas não acredito
que acontece para amenizar alguma coisa, não! Pelo contrário! Acho que... há
um encontro, aqui. Talvez de semelhanças, de danças, de escolha. Acho que
nos escolhemos e isso é algo maravilhoso! Nossa troca de correspondência...
acho muito legal. A ideia foi nova e espero, um dia publicar. Não em
indecentespalavras, mas em textura, cor e papel. Logo vai a carta... Aproveito-
me desta habilidade masculina de me atrasar, de não entender direito o que as
mulheres querem rsrsr Escrever como Thomas é algo encantador! Isso me faz
respeitar e amar cada vez mais a condição masculina.
∞. – Então é isso, Adriana. Acho que não me resta por quebrar mais nenhuma
das regras de conduta sugeridas pelo Manual de Procedimentos do Bom
Entrevistador (edição corrigida e revisada). O que eu gosto mesmo é de estar
contigo, sem grandes protocolos. Poderia estender esta conversa por uma
eternidade. Nem chegamos a falar da presença obsessiva da figura do Pai,
Montenegro como pano de fundo, rios e trilhos, trens e navios fantasmas,
estações e estaleiros... Mas estamos tirando espaço e tempo da poesia, o que
é imperdoável. Não vou pedir nem mesmo para dares um recado final, porque
esta é a tua casa, mas aceito um poema. Eu te devolvo a chave e agradeço o
convite para ser, neste breve intervalo, o hospedeiro. Mas antes de partir, te
roubo um...
beijo com todas as letras!
Existe aquele de mim que faz nascer poesia. E ele compartilha da solidão da
letra e da palavra companhia. Ele não vai embora e não vem como se quer.Apenas nunca se desfaz. Não sei o que rasga em mim restar poema, mas nada, antes, foi tão para sempre assim, farol de estrela. (adriana bandeira)
beijo com uma das tuas letras, Jorge.
Poemas de Rua...A cidade em mim
Chafariz
Qual a letra de chafariz?Aquela do lugar que tem pato e praça de brincar...e tem el estragado.Qual?Respondi: a letra é " se".
Riso
Na esquina
escondido
mora o sorriso
No antes
do tempo
ou no agora contido
Na rua
corre
o rio
sumido
Qual a letra de chafariz?Aquela do lugar que tem pato e praça de brincar...e tem el estragado.Qual?Respondi: a letra é " se".
Riso
Na esquina
escondido
mora o sorriso
No antes
do tempo
ou no agora contido
Na rua
corre
o rio
sumido
sexta-feira, junho 03, 2011
Para Ele
até o rio...tem uma censura, uma textura que me incomoda.
até o rio...chega a vontade de morrer no cais, nas tuas mãos: desejo.
até o rio...chega a vontade de morrer no cais, nas tuas mãos: desejo.
Poemas de Rua...a cidade em mim
Cimento Fresco
O outono traz
a folha que embarca
num tempo de rua,
chuva do vão.
Vai mundo sem dia
traçando armadilha
no meio do nada,
abandonado verão...
o sapato, o proibido
que restou na palavra
desenhada calçada
depois de não mais sumir
O outono traz
a folha que embarca
num tempo de rua,
chuva do vão.
Vai mundo sem dia
traçando armadilha
no meio do nada,
abandonado verão...
o sapato, o proibido
que restou na palavra
desenhada calçada
depois de não mais sumir
quinta-feira, junho 02, 2011
Restinhos
É Estar como chama o amanhã que dá nome à dor do sonho;É ser como chama o dia sem abandono
segunda-feira, maio 30, 2011
Para o poeta assumido
Todo risco é palavra desenhada diferente, é resto de sombra em luz crescente que se transforma em sonho ou dor.Parte a carne e fere os olhos enquanto aquece o fogo, para outra nova canção.Risco é vôo sem asas que se desprende de casa e não volta nunca mais.
ASSUMIDO
PARA TIM MAIA
o poeta não foi
ao evento para o qual você
o convidou, o puto
não quis te assistir
quando você mais precisava
de público, ele
sumiu. dizem que
não vem quando está
escrevendo (ainda mais
se proseia ou ensaia) e
o texto começou a andar
ou desandar (dá
no mesmo), ou se
não está escrevendo
nada, grávido de
poesia, ou seja, em
crise, desgostoso com
o mundo da palavra.
se o poeta compareceu,
anote bem, foi porque
calhou, não que goste
especialmente de tudo
o que hay, ainda que se
esforce para rever
amigos e desconhecidos
que gosta de ler ou
assistir: marca na
agenda e sente dor
quando cumpre a regra
de não ir (ou porque
trabalha para comer
e dar de comer -
e sabe bem o que é
não ter nem isso -
ou porque além de todas
as dores que guarda
ainda tem a das costas
de tanto digitar,
ou a de cabeça
à cabral, que o
desatam sem carinho,
catapultando
a dificuldade
para dormir regularmente
dentro da vida
irregular que leva,
mais as complicações
todas da sempiterna
entropia diária).
o poeta, como se vê,
é um mau sujeito,
um tim maia,
que se rejunta
pelo menos para não
deixar de ir
ao que protagoniza,
se bem que
nem isso pode
garantir 100%,
pois mesmo garantindo
cai em fossas
feito esgoto
sem explicação.
visto que lê muitos
textos bem organizados
e interessantes,
não tem muita paciência
com abobrinhas
mal digeridas,
nem com as dos outros,
nem com as suas,
gosta de ler,
não de repastos que
fazem mal como um
filme ruim
(arte ruim entristece,
conduz ao suicídio,
mata mais que guerra).
o poeta quando vem
é alegre e quer
estar de bem com você,
gozar a inteligência
da sua fala,
da sua família
de amigos, mas
não esqueça nunca,
ninguém esqueça,
o poeta é um sumido
assumido.
SIDNEI SCHNEIDER-2011
sexta-feira, maio 27, 2011
Poemas de rua...a cidade em mim
Sons daqui
Te vejo nascente na rua esculpida, pele semente, palavra antiga.Entrego teu rio na mão inquieta, sem brilho,sem som,apenas réstia.Ainda o silêncio da mulher estrada, quando teceu o caminho, mais nada.
Te vejo nascente na rua esculpida, pele semente, palavra antiga.Entrego teu rio na mão inquieta, sem brilho,sem som,apenas réstia.Ainda o silêncio da mulher estrada, quando teceu o caminho, mais nada.
quinta-feira, maio 26, 2011
Bordado
A aranha só
sabe bordar
todas as noites
a canção que há.
Num traço que,
na madrugada fria,
se desfaz.
Ela é
sempre
o que
ainda não
está.
sabe bordar
todas as noites
a canção que há.
Num traço que,
na madrugada fria,
se desfaz.
Ela é
sempre
o que
ainda não
está.
Poemas de Rua...a cidade do outro,por Carmen Presotto
Sarandi
chove em vidros
vidraguo minha janela
lavando um porto
cicatrizo
e fendo florcidade
Bailarino letras
sangro veias de mãos em mão
Chove
olhos escoam pessoas
que passam
Sarandi
versos indíginas da flor primeira
mundo
saudade da última perda
Voz de vidros
que molham
carmens de Bizet a mim
da ópera
gotejo vermelha
uma música
que me planta jardim
Sarandi
tua água perfumada
me orvalha néctar
teu sol me desdobra foz
arco-íris
e para ti amore mio
me chovo em idades…
Poema de Carmen Silvia Presotto
chove em vidros
vidraguo minha janela
lavando um porto
cicatrizo
e fendo florcidade
Bailarino letras
sangro veias de mãos em mão
Chove
olhos escoam pessoas
que passam
Sarandi
versos indíginas da flor primeira
mundo
saudade da última perda
Voz de vidros
que molham
carmens de Bizet a mim
da ópera
gotejo vermelha
uma música
que me planta jardim
Sarandi
tua água perfumada
me orvalha néctar
teu sol me desdobra foz
arco-íris
e para ti amore mio
me chovo em idades…
Poema de Carmen Silvia Presotto
segunda-feira, maio 23, 2011
Olhar na web
Quero te ver
em presença
não tela,
esmagadora
essência.
Já basta a minha
mirada,
estanque e
passageira.
Quero sentir
em verso,
denso
e eco,
tua voz
em mim.
Querer é
mais do que apenas
tv.
em presença
não tela,
esmagadora
essência.
Já basta a minha
mirada,
estanque e
passageira.
Quero sentir
em verso,
denso
e eco,
tua voz
em mim.
Querer é
mais do que apenas
tv.
sábado, maio 21, 2011
Para Wagner dos Ais-blog Poemas da Minha Alma
E finda tanto como estouro no cais, a boiada do campo, a voz do mar.É o estampido da mutilação que mais em sombra é só verdade.Distância, perenidade... da palavra que rasgou a razão.
beijo grande.
adriana bandeira
beijo grande.
adriana bandeira
sexta-feira, maio 20, 2011
PARA LAU SIQUEIRA..."PQ LANCEI MEU LIVRO NUM MANICÔMIO"(BLOG PELE SEM PELE)
Sem devolver nenhum dos pedaços, como espelho que se desloca em traço...no corpo,na palavra,na terra.Sempre parte da lembrança, escrita sincera.
adriana bandeira
Não sei se por ironia ou por desacato é sempre da palavra a transgressão.Quem fica, só tem esta marca e dela não abdica...senão para quê viver?Por algum motivo simples, conheço algo disto,da casa disto, da rua disto...e sei da necessidade que resiste às vaidades, às aparências, como quarto seguro e pequeno em que nos vemos sempre.
Lembro de mim, há algum tempo, com um resto de poesia na bolsa...quando o pai declamou para mim.Um resto pq ele não lembrava mais.
Uns dizem não com a voz...outros não falam mais.
Pois bem,para ti, daquele bilhete que o pai me deu:..." e à um anjo feito tu quando se brinda, têm-se a missão cumprida e a festa finda: quebra-se a taça,não se bebe mais"...E a taça é quebrada a cada vez...pelo que se quer para sempre.
Beijo grande,Lau.
adriana bandeira
Não sei se por ironia ou por desacato é sempre da palavra a transgressão.Quem fica, só tem esta marca e dela não abdica...senão para quê viver?Por algum motivo simples, conheço algo disto,da casa disto, da rua disto...e sei da necessidade que resiste às vaidades, às aparências, como quarto seguro e pequeno em que nos vemos sempre.
Lembro de mim, há algum tempo, com um resto de poesia na bolsa...quando o pai declamou para mim.Um resto pq ele não lembrava mais.
Uns dizem não com a voz...outros não falam mais.
Pois bem,para ti, daquele bilhete que o pai me deu:..." e à um anjo feito tu quando se brinda, têm-se a missão cumprida e a festa finda: quebra-se a taça,não se bebe mais"...E a taça é quebrada a cada vez...pelo que se quer para sempre.
Beijo grande,Lau.
quarta-feira, maio 18, 2011
POEMAS DE RUA...A CIDADE EM MIM VII
Anos de chumbo
Quando o vazio
entrou na casa
esquecidas primeiras
foram as falas,
o nome das coisas,
dos sons.
Branco de tinta,
uniforme cinza
sangue marrom.
Quando o vazio
entrou na casa
esquecidas primeiras
foram as falas,
o nome das coisas,
dos sons.
Branco de tinta,
uniforme cinza
sangue marrom.
POEMAS DE RUA...A CIDADE DOS OUTROS I
A cidade que herdei
tem rebanhos de pedra
semoventes de sombras
e um cavalo de troia.
Negrinhos, salamandras e pastoreios
perseguidos por um rio
atiçados de vertentes
na misteriosa profecia
de suas águas.
Ilhargas, hortos e casarios
quinchados de sois poentes.
Cartuns ,Cartago
musicas que jamais acabam
enfeitiçando o mágico festim
dos meus brinquedos.
Igrejas de torres afiadas
num ceu azulado de sonho
vigiado à distância
por uma minúscula
lua de marfim.
Batizei de Alegrete
os reinos silenciosos
da cidade que inventei...
Pg 4 do " Livro: Cidades Gaúchas
Organizador: Luiz Coronel.
CÓDIGO DE (IM)POSTURAS PARA UMA CIDADE IMAGINÁRIA - I
crepúsculos
sepulcros só
aos olhos dos suicidas
condôminos do ocaso
pássaros provisórios
dos terraços
lusco-fusca a cidade
nos velórios
do concreto
cansaço
Jorge Rein
POEMAS D ERUA...A CIDADE EM MIM VI
Asa delta
Todo vôo é rasante.Corta o espaço e a cidade: agora e antes.
Todo vôo é rasante.Corta o espaço e a cidade: agora e antes.
terça-feira, maio 17, 2011
Para conferir...Palestra de Elvio Vargas em Alegrete: falando sobre Mário Quintana.
O poeta e escritor Elvio Vargas estará falando sobre Mário Quintana, numa palestra que se realiza hoje, no campus Universitário de Alegrete, na Universidade da Campanha.
" A memória Existencial e Poética de Quintana" acontece às 19:30 no Salão de Atos General Alcy Cheuiche,no Campus, em Alegrete.
Esperamos Élvio, em indecentes palavras, para quem sabe nos brindar com algum bom momento deste encontro.
" A memória Existencial e Poética de Quintana" acontece às 19:30 no Salão de Atos General Alcy Cheuiche,no Campus, em Alegrete.
Esperamos Élvio, em indecentes palavras, para quem sabe nos brindar com algum bom momento deste encontro.
domingo, maio 15, 2011
POEMAS DE RUA...A CIDADE EM MIM V
Crisóis
Quando as luzes acesas derramam estrelas pela procissão, escorrem as cores numa madrugada fria que se enche em festa de cristão.São estranhas vozes seguindo deus, numa domesticação: Ibiá não se canta, só assunto de reza, que o morro dos outros não se dá mais nos crisóis.O Morro de dentro é assassinato na rua, é Caigangue chamado de ladrão.São João do Montenegro, nunca pediu perdão.
Quando as luzes acesas derramam estrelas pela procissão, escorrem as cores numa madrugada fria que se enche em festa de cristão.São estranhas vozes seguindo deus, numa domesticação: Ibiá não se canta, só assunto de reza, que o morro dos outros não se dá mais nos crisóis.O Morro de dentro é assassinato na rua, é Caigangue chamado de ladrão.São João do Montenegro, nunca pediu perdão.
POEMAS DE RUA...A CIDADE EM MIM IV
A casa morta
E depois de atingida, ainda viva, aguardava inerte.Braços e pernas dilacerados, com o olhar no trilho inexistente, esperança que traz o tempo de volta.Jazia imóvel e relutante de escapar dali, carregando só as ruínas, sem a própria alma.Por algum tempo respirou, contrariando as leis das demolições.Braços, pernas e sexo, violados pela colonização que se repete nas ruas e praças, matando o que restou de palavra-paixão.
Com a mão já morta acenava incrédula: lá vinha ele com o chapéu para trás.Sentou-se, com o cigarro que carregava na orelha, de onde a fumaça escuta o apito do trem.Eu que nem fumo, nem canto, fumei e cantei uma música que nem conhecia, só para pedir desculpas por ter chegado tão tarde!
"Volgmut"enrolou fumo e tecido, panelas e palavras num mesmo grande saco: viagem.Olhou-me em dizeres de perda, embarcou no trem que nem existe mais.Antes, a casa dando-lhe a mão, morreu com sua alma, em paz.
Quando a nova construção surgiu tão rápida, invadindo a praça e a delícia, nunca mais pude morrer.Virei fantasma do desejo de ser.
E depois de atingida, ainda viva, aguardava inerte.Braços e pernas dilacerados, com o olhar no trilho inexistente, esperança que traz o tempo de volta.Jazia imóvel e relutante de escapar dali, carregando só as ruínas, sem a própria alma.Por algum tempo respirou, contrariando as leis das demolições.Braços, pernas e sexo, violados pela colonização que se repete nas ruas e praças, matando o que restou de palavra-paixão.
Com a mão já morta acenava incrédula: lá vinha ele com o chapéu para trás.Sentou-se, com o cigarro que carregava na orelha, de onde a fumaça escuta o apito do trem.Eu que nem fumo, nem canto, fumei e cantei uma música que nem conhecia, só para pedir desculpas por ter chegado tão tarde!
"Volgmut"enrolou fumo e tecido, panelas e palavras num mesmo grande saco: viagem.Olhou-me em dizeres de perda, embarcou no trem que nem existe mais.Antes, a casa dando-lhe a mão, morreu com sua alma, em paz.
Quando a nova construção surgiu tão rápida, invadindo a praça e a delícia, nunca mais pude morrer.Virei fantasma do desejo de ser.
sábado, maio 14, 2011
Poemas de Rua...a cidade em mim III
Caminho
É vertente de terra,o caminho aberto pelas passagens.Altas,espertas metades, entalhadas num mar de capim.Ainda verde, em chamas de ar, colhendo toda marcela que há...para o remédio dos dias da mãe.Mas era o sol ardente que fazia riscado na pele , tecendo o suor em oração.De longe ele veio, no mesmo caminho,roçando os olhos na branca minha visão.Não recuei do destino: as marcelas, o caminho de chão e os móveis de núpcias.Por certo, dizia a mãe, que não voltasse no passo...para colher chá de mulher.Só não sei o que fazer com estas marcelas que reúno há anos, como remédio por engano, para reencontrá-lo lá.
É vertente de terra,o caminho aberto pelas passagens.Altas,espertas metades, entalhadas num mar de capim.Ainda verde, em chamas de ar, colhendo toda marcela que há...para o remédio dos dias da mãe.Mas era o sol ardente que fazia riscado na pele , tecendo o suor em oração.De longe ele veio, no mesmo caminho,roçando os olhos na branca minha visão.Não recuei do destino: as marcelas, o caminho de chão e os móveis de núpcias.Por certo, dizia a mãe, que não voltasse no passo...para colher chá de mulher.Só não sei o que fazer com estas marcelas que reúno há anos, como remédio por engano, para reencontrá-lo lá.
Poesia sem Pele-Lau Siqueira
Poesia Sem Pele será lançado dia 18 de maio, em João Pessoa
A editora gaúcha Casa Verde estará apresentando ao público pessoense, no próximo dia 18 de maio, às 20h, no pátio do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, o quinto livro de poemas do poeta gaúcho radicado na Paraíba, Lau Siqueira. Poesia Sem Pele faz parte da coleção Cidade Poema (http://www.cidadepoema.com/), projeto coordenado pela escritora Laís Chaffe e que vem espalhando poemas pela cidade de Porto Alegre em out-doors, bus-doors, bolachas de chopp, adesivos, imã de geladeira e outros suportes.
O evento faz parte de uma ampla programação da Semana de Luta Antimanicomial que além dos debates, palestras e manifestações públicas, contará com oficinas e shows, envolvendo nomes importantes do cenário artístico local e nacional. Entre eles, Babilak Bah e Tom Zé.
Para Lau Siqueira o lançamento realizado dentro do Complexo Juliano Moreira ocorrerá dentro de um contexto muito especial. “Logicamente que não podemos atribuir à poesia um poder de transformação de realidades tão complexas como a dos sistemas pisiquiátricos. No entanto enquanto escritor e militante entendo que precisamos agregar forças, com nossa arte, com nossas energias, para caminharmos para uma sociedade onde o fator humano seja preponderante. Como disse Antônio Cândido, ‘a literatura deveria ser considerada um dos direitos humanos’ ”, afirma o autor de Poesia Sem Pele.
Para a prefaciadora da obra, Susannah Busato, professora de Poesia Brasileira na Universidade Estadual Paulista – UNESP, campus de São José do Rio Preto, “As imagens da natureza na poesia de Lau Siqueira assumem uma dimensão cósmica, como um signo que condensa no átomo do poema um elétron pulsante, construíndo pela pulsão entre olhar e objeto uma relação magnética e anterior ao tempo. Quero com isso afirmar que sua poesia penetra os objetos extraiondo deles a dimensão de um mundo ainda não visto.”
Além do lançamento, na noite do dia 18, no pátio da Juliano Moreira estará acontecendo um sarau poético e uma apresentação do Círculo dos Tambores, criado e coordenado pelo professor do departamento de música da UFPB, o percussionista, Chiquinho Mino. A apresentação da obra será feita pelo poeta paraibano Jairo Cezar, ex-diretor do Memorial Augusto dos Anjos e autor de Escritos no Ônibus. Antes de João Pessoa, o livro foi lançado no dia 5 de maio, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, na programação no FestiPoa Literária e no dia 10 de maio, no Brooklyn Café, em Curitiba, numa promoção do jornal Memai, de cultura japonesa.
.....................
O quê? Lançamento do livro Poesia Sem Pele (72páginas), de Lau Siqueira
Quando? No próximo dia 18 de maio, às 20 horas
Onde? No Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, em João Pessoa
Preço de capa: R$ 10,00
A editora gaúcha Casa Verde estará apresentando ao público pessoense, no próximo dia 18 de maio, às 20h, no pátio do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, o quinto livro de poemas do poeta gaúcho radicado na Paraíba, Lau Siqueira. Poesia Sem Pele faz parte da coleção Cidade Poema (http://www.cidadepoema.com/), projeto coordenado pela escritora Laís Chaffe e que vem espalhando poemas pela cidade de Porto Alegre em out-doors, bus-doors, bolachas de chopp, adesivos, imã de geladeira e outros suportes.
O evento faz parte de uma ampla programação da Semana de Luta Antimanicomial que além dos debates, palestras e manifestações públicas, contará com oficinas e shows, envolvendo nomes importantes do cenário artístico local e nacional. Entre eles, Babilak Bah e Tom Zé.
Para Lau Siqueira o lançamento realizado dentro do Complexo Juliano Moreira ocorrerá dentro de um contexto muito especial. “Logicamente que não podemos atribuir à poesia um poder de transformação de realidades tão complexas como a dos sistemas pisiquiátricos. No entanto enquanto escritor e militante entendo que precisamos agregar forças, com nossa arte, com nossas energias, para caminharmos para uma sociedade onde o fator humano seja preponderante. Como disse Antônio Cândido, ‘a literatura deveria ser considerada um dos direitos humanos’ ”, afirma o autor de Poesia Sem Pele.
Para a prefaciadora da obra, Susannah Busato, professora de Poesia Brasileira na Universidade Estadual Paulista – UNESP, campus de São José do Rio Preto, “As imagens da natureza na poesia de Lau Siqueira assumem uma dimensão cósmica, como um signo que condensa no átomo do poema um elétron pulsante, construíndo pela pulsão entre olhar e objeto uma relação magnética e anterior ao tempo. Quero com isso afirmar que sua poesia penetra os objetos extraiondo deles a dimensão de um mundo ainda não visto.”
Além do lançamento, na noite do dia 18, no pátio da Juliano Moreira estará acontecendo um sarau poético e uma apresentação do Círculo dos Tambores, criado e coordenado pelo professor do departamento de música da UFPB, o percussionista, Chiquinho Mino. A apresentação da obra será feita pelo poeta paraibano Jairo Cezar, ex-diretor do Memorial Augusto dos Anjos e autor de Escritos no Ônibus. Antes de João Pessoa, o livro foi lançado no dia 5 de maio, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, na programação no FestiPoa Literária e no dia 10 de maio, no Brooklyn Café, em Curitiba, numa promoção do jornal Memai, de cultura japonesa.
.....................
O quê? Lançamento do livro Poesia Sem Pele (72páginas), de Lau Siqueira
Quando? No próximo dia 18 de maio, às 20 horas
Onde? No Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, em João Pessoa
Preço de capa: R$ 10,00
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