segunda-feira, maio 02, 2011

ENTRE A PALAVRA E O GESTO,UM ASSOVIO QUE SE FAZ PRESENÇA-Contando histórias com o grupo Válvula de Escape




1-Quero lembrar da proposta inicial, quando o grupo estava se formando...Lembro que a idéia era de formar um grupo para o texto de Clarice.Sou apaixonada pelo texto de Lispector.Tanto, que por vezes retorno aos que já li e ele sempre me é muito estranho, diferente.É o tipo de escrita que se está para o leitor, ou seja, nós é que somos outros e reconhecemos isso na leitura.Pois bem...para mim, Clarice nos traz essa possibilidade.Quando a proposta de um grupo parte de um texto, ali nomeado está o dito deste grupo.Quando o texto é de Lispector...o dito prevê o SER, ou seja, esta mudança inerente ao EU.Então: porque Clarice?

Diego Ferreira – A principio, gostaria de agradecer em nome do Grupo Válvula de Escape por esta oportunidade, obrigado! E gostaria de dizer que adorei o título: “Entre a palavra e o gesto”, bastante significativo para nós. E em seguida gostaria de esclarecer que a proposta inicial não era de formar um grupo específico para a montagem do texto de Clarice, mas sim a criação de um grupo teatral voltado a questões sobre a criação, fomento e compartilhamento das artes cênicas contemporâneas. E em apenas num ano acreditamos que conseguimos, mesmo que de maneira tímida cumprir com esta tríade acima elencada: Criação (Criação e manutenção do espetáculo “Assovio...”), fomento (fomentar e discutir a arte na cidade e tem sido uma constante do grupo na criação de vários projetos criados para fomentar e difundir o teatro) e compartilhamento ( através das oficinas desenvolvidas ao longo do ano passado e que terá prosseguimento neste ano). Até mesmo por que antes do Válvula houve a tentativa de criação de outros grupos que não deram certo devido as agendas corridas dos integrantes e muito em função das atividades destes integrantes junto a UERGS. Pois bem, quando me formei no final de 2009, a atriz Lucimaura Rodrigues também graduada na Uergs me confidenciou sua vontade de retornar aos palcos e eis que ali marcamos um encontro para definir o que faríamos dali para frente. Então em janeiro de 2010 nos reunimos e logo em seguida convidamos a Ana Denise e Martina para se unirem a nós. Ali nasceu o Válvula de Escape.
E quanto a Clarice, bom, como foi uma proposta que foi sugerida por mim, era um desejo, uma vontade de transformar esse livro tão instigante da Clarice em teatro, em ação, em cena. No início fui tomado por uma euforia e entusiasmo para levar a cena a história de Macabéa, mas depois, no meio do processo um desespero tomou conta de mim, pois percebi que a história era complexa demais para ser transformada em cena, mas era tarde demais e decidi não desistir e enfrentar a Clarice de frente, foi quando optamos em realizar o espetáculo no porão da estação, foi ali que o espetáculo ganhou força e base para ser levado a cena, mas não foi fácil dialogar com este texto que não é especifico para teatro, é um romance, aí já temos um obstáculo, mas olhando agora, após as apresentações percebo que conseguimos um resultado satisfatório e digno frente a grandiosidade e complexidade da obra de Lispector.

2-Percebo que o grupo foi se renovando, agregando novas pessoas, desde o primeiro encontro, em que eu mesma participei. Aliás...é bom as pessoas saberem que o artista faz exercícios físicos que...Não pude caminhar no dia seguinte!( eheheheh). Pois bem, conte-nos um pouquinho da trajetória, das escolhas, da confirmação deste grupo que hoje apresenta ‘“Assovio no Vento Escuro”.

Diego Ferreira – Bom, depois do encontro inicial, nos reunimos poucas vezes e precisávamos de mais pessoas para a formação do grupo. Então tive a idéia de oferecer um Workshop de três dias de duração que aconteceu no Teatro Robertão (e que você participou), para selecionar mais cinco atores para se agregar a nós, destes 5 selecionados dois ainda estão atuando conosco que são o Léo e a Tuane, mais a Adri que não atua no grupo atualmente, mas auxilia na produção e penso que retorna este ano como atriz.  Sim, o ator faz muitos exercícios físicos, o que chamamos de treinamento físico, pois a forma que um ator tem para comunicar-se com o público á através de seu corpo, da sua poética. O corpo é o nosso instrumento de trabalho, portanto temos que treinar ele todos os dias e o treinamento ocupam grande parte dos nossos ensaios. São exercícios puxados, cansativos, exaustivos, mas que são necessários para que o ator possa encontrar e trabalhar a sua presença cênica e a sua poética de trabalho. O trabalho de um ator não se resume em decorar um texto e entrar em cena, por trás desse trabalho, existe muita dedicação, estudo e criatividade. Quanto à renovação, penso que como somos um grupo novo, com uma curta trajetória, neste primeiro momento a idéia é a de tentar manter os integrantes que iniciaram e que puderam se manter, para que através das conquistas que obtivemos no ano passado possam ser intensificadas neste ano. Trabalhar em grupo exige que este coletivo se conheça, criem confiança entre si e na direção e nossa aposta é a de um trabalho contínuo focado no trabalho do ator. A renovação se dará através das oficinas oferecidas, que neste ano terá a duração de 8 meses com a montagem de um espetáculo no final, e os alunos que se destacarem poderão fazer parte do Válvula no ano que vem.
Adriana Cruz – À medida que as pessoas vão se conhecendo o grupo foi formando uma identidade, é o resultado das atividades realizadas pelo grupo, cada um contribuindo co suas experiências e se adaptando um com os outros e assim o grupo está criando a sua poética.

3-Chegamos ao título do espetáculo de vocês... Lispector e Assovio tem muitas coisas em comum.Tratando-se do texto que leva em conta estes EUS, os que surgem num discurso, na palavra, agrego isso a nossa de significante.Coisa minha.pois bem, o significante é um traço mínimo que faz diferença, que perpetua escolhas, mesmo que não saibamos.O assovio é um traço  mínimo, é um “ soar”, escorregar a voz, reconhecendo o pedido ou aviso de algo.Mas, este zumbido embora fundamental é somente fundamental.O resto é que faz canção.Pois bem: porque Assovio no vento Escuro?

Diego Ferreira – Tudo é significante. Tudo é signo. E os signos são transformados em significantes por aqueles que recebem este signo, no nosso caso, os espectadores. Essa tua leitura da palavra “Assovio” tem tudo a ver, mas não é a mesma que a minha e talvez não seja a mesma da Clarice, da Adri Cruz, enfim. Quero dizer que cada individuo “interpreta” conforme os seus referenciais, e assim acontece com a gente que faz teatro, nós como atores, “representamos” algo e o espectador “interpreta” a seu modo este algo que compartilhamos com ele. Por isso gosto de usar o termo “representação”, pois nós representamos e fica para o público fazer a “interpretação”. Sobre o título, como a nossa proposta não era a de levar a cena o livro “A hora da estrela” de modo literal, tal qual o livro, mas sim, adaptar e criar um novo olhar a partir deste mesmo texto, pensamos que não poderíamos utilizar o mesmo título do livro, senão estaríamos vendendo uma idéia que não era compatível aquela realidade da obra. Posso dizer que fomos fiéis a obra e ao mesmo tempo livres, pois nos permitimos a criar também e não somente reproduzir. Então procuramos outros títulos que viesse ao encontro da nossa proposta. Realizamos até uma votação interna e o título que venceu não foi este, decidi recorrer a Clarice, pois este livro tem 21 títulos juntamente com “A hora da estrela” e “Assovio no vento escuro” é um deles, acho que combinava mais com nosso propósito e com o nosso espaço. Mais poético e menos literal, nos permitiu a sermos livres frente a obra, entende.
Adriana Cruz – “Assovio no vento escuro”: o nome tem tudo a ver com a atmosfera que envolve a personagem, tem a ver com a poesia de Clarice, a poesia do Válvula.

4-Gostaria de saber um pouquinho da trajetória de cada um de vocês e o que causa esta escolha pelo teatro. Sendo possível que colocassem seus nomes, apresentassem suas perspectivas.

Adriana Cruz – Eu conheci o teatro já adulta quando estava fazendo o magistério no Colégio São José, passou-se muitos anos e aquilo sempre ficou, aquele gostinho de quero mais. Quando finalmente tive um tempinho para mim, onde eu pudesse fazer o que eu gostasse como todo mundo, assim como tem gente que gosta de ir à academia, resolvi então fazer oficina de teatro na Fundarte, depois disso só foi... Adoro essa coisa de a gente poder ser outras pessoas, hoje eu sou um menino, amanhã posso ser um velho, etc.
Diego Ferreira – Bom, a minha relação com o teatro se estabeleceu de uma maneira inusitada. Comecei no teatro em 1995, ou seja, há 16 anos atrás. Estudava numa escola pública de Porto Alegre e para ter algo a fazer no contra-turno da escola, fui buscar algo diferente para fazer. Ao lado da minha escola, existia uma escola “especial”, dedicada exclusivamente para alunos portadores de necessidades especiais. Até eu adentrar naquele espaço, aqueles seres eram pessoas de outro mundo, o que tinha do outro lado da cerca causava medo, ou até desprezo, mas eis que a escola especial resolveu abrir suas portas para que alunos da escola regular pudessem fazer integração com os alunos especiais, através do oferecimento de diversos cursos como: esporte, música, dança, teatro, fotografia, culinária, etc... Fui lá conhecer os cursos e optei por fazer esporte, mas como vi que meus colegas estavam escolhendo teatro quis saber o que era, chamaram a professora de teatro e esporte e a professora de teatro com sua magia conseguiu me converter ao teatro. Desde então jamais interrompi minhas atividades teatrais. Essa oportunidade marcou e mudou minha vida de diversas formas. Primeiro pelo fato de poder desmitificar aquela idéia que eu tinha daqueles seres que existiam do outro lado do muro, são pessoas competentes, capazes de te cativar e compreender sua vida, vencer barreiras e limites. Aprendi a gostar e respeitar aquelas criaturas amorosas e compreensíveis. Fiquei 4 anos lá fazendo curso de teatro e depois comecei a fazer outros cursos, oficinas e seminários sobre teatro. Conheci muita gente até chegar na Uergs onde conclui a Graduação em Teatro em 2009 na Uergs e atualmente tenho me dedicado ao Grupo Válvula de Escape, nas funções de diretor e professor de teatro, além de realizar a direção do espetáculo “Wilma e Elza” que segue em cartaz pelo interior do RGS.

5-Existe o texto e o outro texto. Digo que este outro texto invariavelmente é a poesia. Quero dizer que a construção de um personagem não deixa de ser fazer poesia. Afinal estão: o escrito, o ainda não escrito e o SER. No caso deste Assovio, existe Lispector, a adaptação (muito bem feita) do texto, o que está para ser construído e o SER. O que pensam sobre esta construção?

Diego Ferreira – Sim concordo muito que a construção de um personagem é a construção de uma poesia. No campo de pesquisa em artes, falamos em criação de Poéticas, que representa o modo e a maneira que cada artista, cada pesquisa constrói o seu trabalho. Em nosso trabalho o texto da Clarice foi o grande norte, mas não o único. No teatro trabalhamos com DRAMATURGIA. E quando me refiro a Dramaturgia, não estou falando somente do texto, do drama, mas sim de dramaturgia(s), pois temos a dramaturgia do texto, do ator, do espaço, da música, da imagem, enfim, diversas dramaturgias que somadas formam um espetáculo. No caso do “Assovio...” o primeiro passo foi pensar na parte textual, pensada para um espaço convencional, um teatro. Era outro tratamento de texto, preocupado com questões da teatralidade, do escancarar a cena para o espectador, de uma Macabéa fantástica, repleta de signos e significantes, do onírico ao real. Quando decidimos o espaço, a configuração do espetáculo e do texto foi alterada e tudo se transformou em função do espaço. Agora teríamos que trabalhar com a possibilidade de o espectador estar junto na cena, ou melhor, imerso nela, sentindo a respiração do ator, então procuramos trabalhar com a verdade, jogar com a sinceridade, ao invés de trabalhar na caracterização dos personagens, potencializar o mínimo, para chegar ao máximo, desvelar as possibilidades que aquele espaço nos dava. Esse foi o nosso grande desafio, teatralizar um espaço que não é teatral, mas que de acordo com nossa encenação, passaria a ter uma configuração teatral, lógico que somando as dramaturgias já mencionadas aqui neste texto. Mas me referindo à adaptação literal do texto, foi um dos pontos mais difíceis e dolorosos do processo, pois eu não queria deixar nada de fora do roteiro, cortar fora as palavras de Clarice era dolorido, mas eu ia adaptando conforme as improvisações dos atores, o 1º esboço deu em média umas 50 páginas, o 2º em torno de 30 páginas, depois vieram muitos esboços até finalizar num roteiro de 11 páginas que foi ficar pronto uma semana antes da estréia, priorizamos o diálogo entre as personagens e eliminamos 90% da narração, centramos na história de Macabéa, sendo que o livro não conta somente a história dela, mas sim, o dia a dia de um escritor frente à criação (no nosso caso, o escritor foi transformado na figura de Clarice Lispector interpretada pela Lucimaura, que guia os espectadores) e sobre o processo de escrita em si. Adaptar não é somente cortar trechos e rearranjá-los, mas sim tentar encontrar um novo modo de contar aquela mesma história, eliminando e agregando novos elementos a esse novo material.
Adriana Cruz – Acho que a adaptação de um texto é a essência do texto original sob a ótica de um determinado grupo. É a “nossa” verdade.

6-Na estréia (e eu gosto das estréias porque elas mostram a potência do texto, dos personagens e dos artistas) o diferencial marcou a cidade. Não estamos mais num palco fechado, com sujeitos que assistem sentados a alguma trama. Não existiu os que assistiam. Fomos convocados a estar. O tal SER estava tanto nos personagens do texto do Assovio, quanto os que acabavam habitando nossas identificações com as palavras vindas dos artistas. Como vocês sentiram esta vibração?

Diego Ferreira – Eu também gosto das estréias, pela novidade, pela expectativa criada em relação ao espetáculo, tanto dos artistas, quanto da platéia, mas gosto de rever após algum tempo o mesmo espetáculo, para ver como o grupo solucionou questões, amadureceu o espetáculo e venceu alguns obstáculos que na estréia ainda poderiam estar desajustados. Creio que “Assovio...” marcou a cidade sim, por vários motivos, pela utilização de um espaço não convencional para apresentação de um espetáculo teatral, também marca a cidade pelo fato de oferecer uma temporada de teatro, com sucessivas apresentações, sabendo que geralmente os espetáculos aqui apresentados são apresentados apenas uma vez, no máximo três vezes, então queríamos e queremos começar a mudar a cultura da cidade em relação a isso, a formação de platéia, mas para se ter público tem que haver ações que convidem este público a estar participando do evento teatral. E este é um belo exemplo. Quanto à vibração do público na estréia e demais apresentações penso que... Ops! Surpreendemos-nos com a recepção do público, que compareceu e que participou abraçando esta idéia, este projeto. A vibração era verdadeira e os atores sentiam isso e revidavam em cena, em ação, em emoção! Foi emocionante ver o público habitando os porões da estação, dando vida aquele lugar.  
Adriana Cruz – Bem, por motivos pessoais, não pude participar da estréia, pois tive que “abandonar o personagem”, mas só o personagem, o grupo não. Porém quando fizemos o nosso primeiro ensaio aberto eu ainda estava no elenco e fazia a personagem Glória e lembro bem as emoções que tive, era de tudo um pouco, medo, ansiedade, curiosidade e empolgação, tudo misturado. Mas o medo era o mais latente, pois eu me preocupava  com as reações que as pessoas poderiam ter diante das provocações que a peça fazia e que a minha personagem propunha, e a minha personagem era abusada e gostava de chamar a atenção. Lembro bem quando provoquei um espectador através de olhares e beijinhos, e a pessoa ficou tão desconcertada, que desviou o olhar, sendo que nesta hora eu quase perdi a concentração, o ritmo, pois eu não esperava esta resposta, pois a maioria da platéia estava bem à vontade com a relação estabelecida. Essa proximidade pode ser tanto positiva quanto negativa e tive que me concentrar na personagem para não perder a concentração.

 
7-Do “ ar livre”, da “ Estação dos trens” para o subterrâneo...nenhuma condição , nenhum trânsito representaria melhor a proposta.Do amplo ao restrito.Nele uma infinidade de perspectivas, ditos, sensações.Como foi esta elaboração, esta escolha ?

Diego Ferreira – Esta escolha deu-se dentro do processo de criação do espetáculo, a princípio pensávamos num espetáculo para o palco italiano, tradicional. Como realizávamos nossos ensaios no porão da estação, chegou um momento em que aquele espaço já havia marcado nossa criação. Foi quando resolvemos assumir esta proposta de encenar uma peça num espaço não-convencional. Até então, a estrutura da peça e do texto era caótica, sem nexos, sem sentidos, apenas estávamos “tentando” criar um espetáculo de teatro convencional, mas era tudo exagerado, personagens estereotipados, propostas absurdas, mas tínhamos o desejo de fazer, de tentar, de aprender com nossos erros. Com a chegada do André, nos assessorando filosoficamente, o projeto deu uma virada de 360º, pois ele nos ajudou a pensar e explorar os personagens sob outro viés, analisando cada um e explorando eles sob outros aspectos.  Mas quando assumimos este espaço enquanto palco conseguimos visualizar possibilidades de leituras, como esta que tu fazes, potencializar signos e evidenciar a teatralidade do espaço, criar ilusão, mas ao mesmo tempo destruir a ilusão e mostrar ao espectador que aquele momento que estamos compartilhando com ele, é teatro, é mentira, mas ao mesmo tempo, é uma mentira com verdade. Desmitificamos a ilusão da caixa cênica e seu aparato de iluminação e som, criando uma cena aberta, com atores, espectadores e técnicos no mesmo plano, ora criando uma ilusão, ora destruindo essa ilusão antes proposta. E chegar ao espetáculo que o público pode conferir foi uma tarefa árdua, de escolhas de caminhos e propostas, decididas no dia a dia dos ensaios, como montar um quebra-cabeça, um painel com várias referencias, vários signos propostos e expostos, mas que sem dúvidas foi o espaço que nos deu, lógico que tivemos uma pesquisa e criação neste espaço, mas aquele espaço foi um personagem muito importante neste processo, tanto que não cogitamos a idéia de realizar a peça em outro espaço.  Inspiramos-nos no teatro desenvolvido pelo grupo Porto-alegrense “Ói nóis aqui traveis”, em sua proposta de teatro de vivência, onde o espectador é convidado a celebrar a cena, participando ativamente do espetáculo. No nosso caso, absorvemos esta idéia do espaço, de o ator e o espectador compartilhar do mesmo espaço, espaço pequeno e apertado, aproximando e colocando o espectador dentro da cena.

8-O texto traz à tona verdades como : a morte, a solidão,a esperança,a condição.O que, para vocês, ficou mais contundente no Assovio?

Diego Ferreira – É... não somente o texto, mas toda a obra de Clarice denuncia este mundo repleto de incertezas, de aparências. Para mim ela dialoga muito com o ser mulher, e com o existir, existência. Somos um na imensidão vasta do mundo. Penso que a obra de Clarice, além das verdades, traz diversas referencias cotidianas que fazem o leitor mergulhar e se identificar com a história proposta. No caso de “A hora da estrela”, a obra desvela referenciais contemporâneos como a Coca-cola, as Lojas Americanas, a rádio-relógio, o Rio de Janeiro, signos que são cruciais para uma identificação com o leitor deste universo que denuncia a pobreza tanto de espírito quanto social de Macabéa fazendo um contraponto com o capitalismo das grandes cidades, do consumo, do acesso a informação, mesmo que esta informação não seja compreendida. Fica a impressão de que somos seres fragmentados, incompletos, sempre em busca de algo que tentamos preencher vazios, lacunas e às vezes não encontramos...
Adriana Cruz – As “verdades” como a morte, a solidão, a esperança, a condição, o que para mim fica mais contundente foi à solidão e ver como uma pessoa pode ser tão solitária, sendo que Clarice foi uma pessoa muito solitária apesar de estar sempre rodeada por muitas pessoas.

9-Existe um segredo que faz com que, num grupo, todos estejam, de fato, no que fazem. Esta unidade prevê as diferenças, se estamos falando de um grupo de verdade verdadeira ( eheheh).Como vocês lidam com estas diferenças?

Diego Ferreira – Tu sabes que discutíamos sobre isso em nosso último o encontro, estávamos lendo um texto sobre o trabalho do ator, de uma entrevista do ator e diretor Cacá Carvalho, e ele fala muito sobre isso, mas ao invés de falar sobre diferenças, ele fala sobre individualidades. Somos um coletivo formado por indivíduos, onde cada um traz junto os seus referenciais, seu histórico, seu corpo e sua identidade. Queremos uma unidade, mas prevendo que está unidade seja construída pautada na liberdade e individualidade, pois não podemos apagar ou ignorar o histórico deste indivíduo, e isto me interessa muito, o que o ator tem de interessante, e que eu posso aproveitar e roubar dele e o que eu tenho de interessante para repassar a eles, essa é a base da troca. Trabalhar as individualidades, as potencialidades de cada um para tentar decodificar e instaurar um processo de grupo, onde todos estão inseridos. Partindo daí penso que conseguimos estabelecer contatos para trabalhar a diferença e fazer com que esta se transforme em potencial criativo de grupo, ou seja, se transforme em uma determinada poética coletiva, que na verdade são micro-poéticas individuais que somadas se transformam em poéticas do Válvula de Escape, entende.
Adriana Cruz – Às vezes, é difícil para mim, porque somos todos muito diferentes, com histórias e históricos diferentes, experiências de vida e de idade. Então temos que ter muita paciência, pois existem os acelerados e os devagar, os que falam de mais (como eu), e os que deveriam se impor muitas vezes não se manifestavam, mas isso foi no inicio, onde procuramos nos respeitar e ir se encaixando uns aos outros.

10-Poderiam nos contar uma coisinha engraçada, uma mania ou “esquisitice” de cada um?( eheheheheh).

Diego Ferreira – Quando falo em individualidades, lógico que temos características em cada um, não vou citar nomes, mas eles vão reconhecer aqui cada um, mas temos aqueles que falam de mais, mas não sabem escutar, aqueles que estão sempre atrasados, os negativos e pessimistas. Mas nesse tempo em que estamos trabalhando juntos muitas coisas aconteceram, por exemplo, nos ensaios e apresentações, pelo fato de trabalharmos no lado externo da estação lidamos com o imprevisível, e quase sempre temos a presença de cães que às vezes atacam aquelas figuras vestidas de preto, uma vez tínhamos aqueles pássaros, “quero-quero” e a Maura ficou assustada com a possibilidade de ser atacada em cena aberta, e também temos as crianças que hoje em dia são nossos parceiros, mas no inicio dos ensaios externos gostavam de interferir na cena, o que não era de todo ruim, pois era uma proposta que possibilitaria isso e os atores teriam que jogar com o imprevisto.

11-Na reunião de janeiro estive com vocês e esqueci a máquina e ...Pois bem, neste encontro percebi uma certa leveza, uma certa tranqüilidade.Isso é fato?

Diego Ferreira – Sim, naquela ocasião não estávamos em trabalho, estávamos apenas reunidos, era uma reunião de produção e encaminhamentos para o ano de 2011, então estávamos livres e descontraídos. Mas durante o trabalho, quando nos reunimos para ensaiar e treinar, muda um pouco, pois temos que criar um espaço de concentração, onde tudo o que possa nos atrapalhar fica do lado de fora, e dentro fica a vontade de produzir e compartilhar com o grupo, não deixando de lado o prazer de estar ali comungando com o outro a possibilidade da criação cênica. Durante os ensaios, dentro desta zona de concentração cria-se também uma tensão, que é bem vinda ao trabalho, mas às vezes essa tensão se transforma em explosão, daí sim temos que parar e conversar e tentar resolver. Mas um dos princípios do grupo é o prazer, o prazer de estar ali, presente e entregue de forma verdadeira.

12-Então: diretor é..?Figurinista? ...Existe uma coordenação do grupo?Como ela é feita?

Diego Ferreira – Somos um coletivo, um grupo. A única distinção que existe é que eu atuo como diretor e os demais como atores ou músicos, mas isso não impede que um dia eu assuma o papel de ator e alguém assuma a direção, já que temos pessoas capacitadas para isso. Enquanto grupo Válvula de Escape é assim, mas é lógico que não trabalhamos sozinhos, e para produzir um espetáculo precisamos de profissionais aptos em suas determinadas áreas, como por exemplo, criação e execução de figurinos, da iluminação, do projeto gráfico, de um bilheteiro, de um produtor, divulgador, etc... Mas enquanto grupo somos assim, mas não quer dizer que também não executamos outras tarefas, por exemplo, por enquanto, nós mesmos somos nossos produtores, elaborando projetos, cuidando das finanças e divulgando nosso trabalho, mas a medida que o trabalho vai se desenvolvendo, percebemos que precisamos mais desses profissionais ao nosso redor, pois isso reflete no todo do trabalho e o que queremos é sempre poder oferecer o melhor ao público.

13-Preciso dizer que fiquei muito agradecida com o convite para assisti-lo.Fiquei também surpresa já no primeiro momento em que a atriz nos convida para o futuro.Certo! Ele a todos recebe.Várias “ sacadas” me fazem crer que o texto de Clarice pegou vocês, porque ele é virulento.Como epidemia, vocês passam adiante e por aí vai ( eheheheh).Pois bem,perguntei  à vocês no dia da estréia e pergunto agora: como vai ser?Ninguém sai impune, depois de estar tão próximo de Lispector.Quais as conseqüências sentidas por vocês em estarem personagens, lidarem com seu texto, enfim...o que isso causou em cada um?

Diego Ferreira – Sim o texto da Clarice é quem nos convida ao futuro, o texto em questão, “A hora da estrela é de 1977 e ainda ecoa como algo tão visionário e infelizmente tão atual, ao tratar da pobreza da personagem, nordestina e pobre de dinheiro e de espírito. Quanto mais avançamos parece que mais mazelas assolam o País e Clarice retrata isso muito bem em sua obra, mas de maneira ousada e poética. O texto, ou melhor, a obra dela nos pegou completamente. Eu já conhecia alguns de seus livros, e ousei em propor logo de cara para um grupo que recém estava se formando criar um espetáculo baseado em sua obra. Ousei e ousaria novamente, pois eu acho que a arte e o teatro, especificamente, é feito assim, de ousadias, de riscos, não podemos antever aonde chegaremos quando propomos algo como este projeto, poderia ser outra coisa entende, mas resultou nisso por causa de diversos fatores. Lógico que não saímos impunes, nem tampouco poderia, pois a escrita de Clarice deixa marcas, e isto é maravilhoso, ver o que um texto pode transformar a vida de uma pessoa, creio que muitos espectadores também saíram diferentes do que entraram no espetáculo, e isso é muito bom, pois assim conseguimos alcançar um dos nossos objetivos, trazendo esta obra a cena, que era o de provocar assim como fomos provocados e incitar que mais pessoas pudessem conhecer as obras dela. As conseqüências, no geral, foi ver a transformação, o percurso, o entendimento dos atores e meu durante o processo, pegar o texto, adaptar, cortar, inserir outros textos, decorar e corporificar literatura em ação, dar carne e alma aqueles personagens que são papel e entender esse processo, sofrer, ter crises, se emocionar e emocionar ao outro. Lembro de ensaios em que saia completamente frustrado e arrependido de ter feito uma escolha tão difícil quanto esta, e temer que aqueles atores não dariam conta deste mundo complexo que é Lispector, mas ao mesmo tempo tinha ensaios em que me emocionava, chorava e deslumbrava o que poderia vir a se tornar todo aquele processo turbulento. Por isso penso que participar de um processo criativo tem que estar disposto a correr riscos e disposto a conhecer novos caminhos, diferentes daqueles que eu já conheço, pois somente assim, poderemos nos revelar através dos personagens. E a nossa relação com Clarice segue adiante, pois os atores continuam lendo a sua obra, adquirindo novos livros e isso é maravilhoso, eu ganhei do meu elenco no final do ano a nova biografia de Clarice escrita pelo Benjamin Moser, e que eu adorei, pois mesmo nos dedicando a outros projetos, o contato com a obra dela continua presente em nossas vidas.

14-Notícias: voltam com o Assovio?Estão criando algum outro texto?

Diego Ferreira – Sim, o “Assovio...” fez uma nova apresentação em março dentro da programação do “Teatro para Escapar”, mostra que organizamos para comemorar o dia internacional do teatro e do nosso 1º aniversário e cumpriu nova temporada na 1ª quinzena de abril, que foi muito bacana para nós, mas agora vamos manter este espetáculo em repertório, sendo que não temos nenhuma apresentação prevista para este ano, mas quem sabe retornaremos a cartaz com ele, enfim. Mas temos outros projetos para este ano, e o 1º deles já está acontecendo, que é uma Oficina de Montagem Teatral, onde terá como resultado uma montagem de um espetáculo que será apresentado em dezembro também na Estação. Em maio faremos uma oficina de dramaturgia e que teremos que apresentar uma leitura dramática sobre um texto da Sarah Kane, provavelmente em Julho ou Agosto, e estamos em processo de montagem do nosso próximo trabalho, “O Pequeno Príncipe” dirigido a todas as idades que estreará em abril de 2012. Este trabalho foi contemplado com o Fumdesc, que é o fundo de apoio a projetos artísticos da cidade, e que ficamos muito felizes de sermos contemplados. Então trabalho não nos falta, agora e se fechar novamente em sala de trabalho e criar.

15- Gostariam de dizer mais alguma coisa?

Diego Ferreira – Agradecer pelo espaço, pela presença e por nos auxiliar a difundir a nossa “válvula” a outras pessoas através do seu blog. Agradecer o seu olhar atento acerca do nosso trabalho e te convidar para estar sempre presente conosco. Gostaria também de divulgar o nosso blog, WWW.escapeteatro.blogspot.com, lá vocês podem encontrar muitas informações sobre o nosso trabalho.

16 - Para mim foi um acréscimo ter estado com vocês. Muito do “Assovio no vento Escuro” já disse no comentário, que se encontra por aqui e no blog do grupo Válvula de Escape. Mas aqui ,falo do grupo, das pessoas e não somente da produção.Fico grata pela forma como vocês protagonizam uma diferença de postura, de condição para o artista de cada um: participante. Isso não é um texto que faz.São as pessoas!Esta marca que vocês inscrevem tão bem faz rasura sem retorno na nossa rua, na nossa vida, na nossa língua que é somente forma de falar. A cidade agradece numa postura já modificada em que subterrâneos são estações que dizem do tempo de antes de depois.

Diego Ferreira – É, percebemos também que o nosso “Assovio...” foi uma diferença mesmo no cenário cultural da cidade por vários motivos: oferecemos uma temporada contínua do mesmo espetáculo, o que não acontece na cidade; utilizamos um espaço não-convencional para apresentarmos um espetáculo; realmente é uma mudança de postura necessária e muito bem vinda, que venham novas propostas como esta, pois a cidade das artes tem que ter espaços para todas as diferentes linguagens artísticas. E o que você escreve nesta última questão é realmente poético e lindo, parabéns e obrigado. Beijos do Válvula a você também. Um grande abraço e até uma próxima.

Beijo com todas as letras
Adriana Bandeira


Diego Ferreira é ator, professor e diretor do Grupo válvula de Escape. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. escapeteatro@bol.com.br
Adriana da Cruz é atriz e colaboradora do Grupo Válvula de Escape graduada em Direito.

PRÊMIO CRIATIVIDADE

Cristina Macedo ( cris-cristinamacedo.blogspot.com),convidada do Indecentes Palavras,minha querida amiga, contista, poeta,tradutora e gente mui buena ,recebeu o Prêmio Criatividade, indicando alguns outros como " revelações blogueiras"(ehehehheh).
Sinto-me muitíssimo honrada pela indicação ao PRÊMIO CRIATIVIDADE, seguindo as regras desta bela rede de palavras:

As regras para receber o prêmio estão dispostas logo abaixo:

1. Agradecer e linkar de volta o blogueiro que lhe enviou o prêmio.

2. Dividir 7 coisas sobre você.

3. Premiar outros 5 a 15 blogueiros.

4. Entrar em contato com esses blogueiros para avisar sobre os prêmios e para que eles levem o selo da versatilidade para seu blog e distribuam a outros colegas blogueiros.
Assim sigo,destacando sete coisas que me ligam ao poetar:
1-Escuto a poesia do outro;
2-Preciso escrever poesia;
3-Prometi que ,sempre, teria algo a dizer;
4-Participo e ou organizo saraus;
5-Gosto de oficinas de poesia;
6-Invento estórias;

7-Gosto de gente e de suas verdades;


Isso foi difícil!Afinal parece que a vida nos faz ligados nas letras e escolher algumas coisas...Pois bem, agora os blogueiros que indico à premiação, não na ordem de importância mas numa ordem aleatória, de lembrança:

1-Leonardo B., poeta português ( http://abarcadosamanates.blogspot.com/);
2-Pedro Stiehl ,grande poeta da terrinha ( www.pedrostiehl.com.br);
3-Ronald Augusto( www.poesia-pau.blogspot.com);
4-Lau Siqueira, poeta gaúcho que mora na Paraíba e está lançando o livro Poesia sem pele, aqui em Porto dia 05-05 (www.lau-siqueira.blogspot.com);
5-Carmen Presotto,que lançou recentemente o livro "Postigos"  (www.vidráguas.com br);
6-Elvio Vargas, poeta que em breve estará em Alegrete, falando sobre Mário Quintana ( assisbrasil.org/joão/discurso.htm)

Aceitem com carinho este prêmio, indicando mais alguns, nesta feliz idéia de trocar palavras.


beijo com todas as letras
adriana bandeira

domingo, maio 01, 2011

Aviários

É estranho... a porta aberta, o pão cheirando forno.É estranho o café quente e a janela com quintal.Ali prometerem aos animais a primeira denúncia do sol, as botas abrindo cocheiras,fazendo chuva ou temporal.Nem existem mais.Ontem as famílias foram para o galinheiro e de lá apertam botões.O bisavô que já morreu há tempo, nem sorri .Apenas espera a notícia do fim, chegar.

Para Un vestido y un amor

Respiro nas curvas que se alinham ao recorte da pele.Um vestido sem botões, sem detalhes.Apenas  única camada que costuro com piedade.Sim!Tenho pena do corpo ao vesti-lo...são únicos os vestidos e quando se habituam só querem o mesmo amor.

Ar

Não vou pendurar a roupa...o céu anuncia chuva.Vou andar nua.Que me aqueça o trabalho do ar.

Trabalho do dia

Espalhar os grãos dos bordados que vestiam flores antes de mim.Este é o pesado trabalho que inventa minhas mãos.Todos os dias...plantar o que nem sei e  receber o que semeei.

terça-feira, abril 26, 2011

Para conferir

Lançamento do livro do poeta Lau Siqueira
No café-http://www.brooklyncoffeeshop.com.br/site/?page_id=2 

Acessem o blog de Lau Siqueira: Pele-sem-pele
 e o blog: Poesia Sim.

Sem falas

O tempo rasgou minha parede, meu papel enfeite que me abrigava do frio.Cada vez sinto mais o vento gelado do início dos invernos.Ouço pouco e quase não falo porque minha voz é de outra época, é de outras pessoas e sou aqueles que já se foram.Estou fora de um si.Cuidado para não morrer assim,hein?


Firmino Caspel, 95 anos.
OBS: o marcador vozes serve às muitas possibiliddes de fala.

Ponto do que conto

São estas
coisinhas brilhantes
que me fazem
lembrar
como não
é possível juntar
partícula de pó,
sonho,
ser,
outra...
Há cada manhã?

sexta-feira, abril 22, 2011

Bicho esquisito

Nasceram-me uns
buracos
recortes intactos
ventre,olhos, voz.
Um bicho esquisito
gastou seu tempo
em mim
Sou o resto,
madeira esculpida,
puro cupim.

semente

Juntei as flores, num campo de estações.Mais algumas laranjas que nasceram semente e flor.Arrumei a mesa e costurei toalhas que se enfarinharam de pão.O que estranho é este tempo de nuvens, quando dizem que já nem passou.Nele não ouço o que dizes e me carrego... como quem nunca brotou.

Anel de brilhantes

Recebo o presente com gratidão.Esculpindo meu dedo, tua aragem fresca de verão.Seguro e finito o detalhe enfeitado que assegura-me quem sou: apenas uma das que poderias amar.Denuncias a busca  aflita com os olhos, o sexo,a voz. Este presente me liberta, me chama de tantas outras que, não estando tua, desejo ser.

quinta-feira, abril 21, 2011

Culpa da voz

Instaura o vazio
rasura
Eco da voz
censura
que me aponta
estanque, estática
Culpa estranha
do que
jamais fiz.

Para conferir, sarau literário Zona Sul, convite de Cristina Macedo

domingo, abril 17, 2011

Como dizer ?

Com que denúncia abres meu sexo, entrando na palavra da minha dor escrita?Com que direito não me enganas e nem promete casamento, nem reparos, nem unguentos...?Com que olhar me vês calada mudando o jeito de dizer desejo?Em que aventura me imaginas, em que roupas, em que dias num tempo em que não existe nada que não seja um pouco de... alegria?

carícias

Tua mão
meus cabelos
abriu-me o lábio
que por direito
não é meu
nem teu...
mas dos beijos.

O perigo

A verdade sobre nós é que não precisamos de muito.Apenas um lugar seguro para, depois de cem anos, ficarmos a sós.A verdade sobre nós é que, juntos, perderíamos todo este mundo que a espera nos dá.Nossa verdade é grande demais!O perigo é morrermos sem perder.Será?

verdade do sonho

Meu nome
é de todo
um espaço pequeno,
um branco.
Esquecimento,
resto enfadonho
em que inscreveu-se
uma
partícula de alguém
que nunca vai
lembrar porque.

A menina

Vez ou outra ela passa por mim, no tempo.Olhar quieto e tristonho.Vestido vermelho, sapatilhas nos pés e a pequena boneca que enrola num manto.Quando me alcança chega a sorrir, um pouco.Fica feliz por tê-la deixado viver, por encanto.

A ave de dentro

Minha ave de dentro criou asas absurdas, estranhas, que não param de crescer.Tudo antes estava certo num ciclo de vida mansa: comer, voar, viver.Esta outra, diferente, tomou-me emprestado de mim mesma sem saber.Jurei que aprenderia a voar mas não me acostumo a morrer.

Minha nudez

Sobre minha fala indecente, jamais vou dizer que  me pertence. São tuas as roupas esparramas no chão, se-mente.

sexta-feira, abril 08, 2011

Reparos

Quando reparei
me faltava
a espessa camada
que ficara
no ventre da mulher
do pai

Dia de chuva


O encanto das sombras cercou-me impunemente buscando a luz que nem habitava em mim.A luz é sempre da rua, das passagens obscuras, recantos de onde verte a palavra .Por hora ressentida e inquieta convivo com isso, este tecido escuro que me persegue.Por vezes some, adormece e é quando eu...planto terra,esparramo grãos.

Para o Escrito

Aceito tuas carícias deitando-me no chão, na cama, no céu.Recebo tua boca, teu sexo, tuas mãos.Em mim te moldo todo, criando espaços, buracos, onde nem existiam réstias.Serpente que me diz: quem eu era?Abro-me em espera que se esparrama por si.Vertentes que escrevem palavras na pele em flor, em mim.

Corpo diferente

Minhas mãos-pulmão, um médico não entenderia.Olhos fala, língua ouvida.De resto curar a cicatriz com nova ferida que não se desenha só.

Imagem

São tuas as canções de ferro-estrada?É tua a imagem alada de meu corpo quando acordas em mim.Criei asas nestes últimos dias, te visitando quando bem quero.Pensando bem...nunca mais ganhei o céu, preso no vértice-cordel de ter sido criado.

Poeira no fim

Nós
dias da casa
lençóis esculpindo
a voz amada
de longe
como suspiro de sim.
A sós
dias de rua
luas entranhas
iluminando
o desejo de ir.
E se a lua dispara
sua
a nossa canção?
Somos

de todos

poeira no fim
da enunciação.

quarta-feira, abril 06, 2011

O Inventário-II

 Estrada de ferro, olhos da construção II

As roupas lavadas com seus nomes diferentes.No rio em cestas pesadas, guardadas na grama do sol.Eram muitas na denúncia da voz.Com suas manchas de terra, de gozo de gente na solidão que rimava com o chamado do patrão.Lá na casa, a mesa dos filhos transformada em balcão.A comida em panelas sem fim, sem o gosto quente da falta de mais querer.Nas fornadas, os pães sem o tempero gostoso dos olhos de vida que a mãe, antes, tinha.Ao lado do forno, ao lado do rio, era a que nem gemia, nem falava, nem sabia que seu não engasgado retalhava sua falta de partida.Misturando palavra que vinha, farinha de osso, de sabão. Era outra, sem olhos mas com enormes mãos.
Na tarde de sempre o pai nem via.Atrás do balcão,de longe feito um quadro, moldura dos antepassados,bebia o que o corpo nunca mais plantaria.Eu mesma nem esperava a violação que me abriria em tantas.O homem de olhos esquisitos, de roupa lavada e estômago cheio calou-me o grito de medo.Pedinte, exigente de sua parte em mim.Segurou-me os braços, as pernas, a voz.Violou-me como se fosse dele o corpo que estava só.O pai tão longe, na sua sombra, cantava qualquer coisa num som embriagado de entrega, de aceitação.Achei que devia, ao homem, pelo caminho que vinha.Deixei que violasse minhas entranhas como contribuição estranha ao que jamais teria volta.A língua do sexo, a língua fendida, aberta em nova poesia.Seria da violência a falta, que faz nascer a ternura?Seria violenta a escrita da doçura que só, inventa o amor depois da estrada,do trem,depois da dor.

Estação dos Nascimentos

É a estação do tempo
que nos traz as folhas
pelas calçadas.
Ventres aquecidos
para nascer
na madrugada.

terça-feira, abril 05, 2011

O SEGREDO QUE PERPETUA A PALAVRA,É POSSÍVEL DIZER UM POEMA?- Um mergulho na letra de Cristina Macedo



 

 1-O que é escrever poesia?É possível traduzir um poema?

 O escrever poesia, para mim, é um impulso incontrolável. Este impulso     surgiu há pouco, questão de um ano atrás. Não sei te dizer bem porque, mas meus poemas, em sua grande maioria, falam de erotismo. Talvez porque, com o passar do tempo, cada vez se torna mais clara a importância do ser erótico, do expressar o desejo, do poder dizer tudo com todas as letras. O poema é traduzível, sim, embora seja, a meu ver, a tradução mais complexa que existe.

 2-Falando de tradução...Há sempre um mistério na palavra que
 circula entre o que eu desejava dizer e o dito;entre o que foi dito e
 o que foi ouvido.Numa tradução este segredo é colocado em questão,
 quero dizer, é tomado ao pé da letra, nas melhores formas, nas mais
 éticas de se fazer uma tradução.Poderia contar um pouco sobre tua
experiência?

 Experiência extremamente enriquecedora a da tradução de poesia. O tradutor tem que possuir muita
sensibilidade para tentar se aproximar ao máximo da intenção do texto de partida. Não se pode fugir
do significado nem do significante. O conteúdo e a forma devem ser preservados ao máximo.
O ritmo, a musicalidade e a respiração do poeta precisam ser passíveis de serem transportados para outra língua, a língua de chegada.

 3-Neste envolvimento com a letra do outro acabamos nos envolvendo
 com o outro. Aliás, somos estruturados enquanto...significantes.Pois
bem...Estes dias tu falavas nela ( eheheheh) naquela  com quem tu
 estivesse envolvida.Falavas na letra dela como se , de fato, a tivesse
 ouvido ao pé da palavra.Quem é ela?A autora dos textos que
 traduziste?

 Sylvia Plath, poeta norte-americana moderna, nascida em 1932, em Boston.
 Suicidou-se aos 30 anos, em Londres, quando já estava separada do poeta
 inglês Ted Hughes, e deixando um casal de filhos pequenos. Traduzi, juntamente com o poeta
paranaense Rodrigo Garcia Lopes, aquela que é considerada sua obra fundamental: "Ariel". Sylvia Plath é considerada uma das mais importantes poetas americanas contemporâneas: em 1982, recebeu,postumamente, o prêmio Pulitzer na categoria Poesia, com o livro "The Collected Poems".

 4-Deste envolvimento com a letra do outro nunca saímos impunes.
 Não dá.O que a letra desta autora fez diferença na tua vida?

 A poesia da Sylvia me tocou profundamente. Fiquei extremamente envolvida com o sofrimento dessa mulher sensível, sofrida e talentosa. E foi um exemplo para mim sua força de poder escrever, num momento especialmente doloroso de sua vida, seus melhores poemas, os do livro "Ariel": Sylvia escrevia de madrugada, quando os filhos estavam dormindo. Os 40 poemas que compõem o livro, produziu em poucos meses, sendo que 25 deles, somente em outubro de 1962, poucos meses antes de se suicidar.
E, muito importante, a técnica, o ritmo, a escolha das palavras, tudo para ela foi sempre
fundamental: os sentimentos estavam à mercê da técnica.

 5-Também comentavas sobre o “ garimpo” pelos poemas da verdade,
 que seriam de fato da autora.Ocorre que ela, a verdade, sempre
 irrompe, num momento ou noutro.Esta tua busca fez-me pensar sobre o
 que fica, o que um estilo pode fazer surgir no outro como denúncia,
 como ética, como voz.O que achas deste poder da palavra?

 Pois é, o que comentava contigo é que a 1ª versão de "Ariel" foi feita sob a orientação de Ted
Hughes, que publicou o livro na Inglaterra, em 1965, e nos Estados Unidos, um ano depois. Foi um sucesso! O que não se sabia, e que veio à tona em 2004, graças à filha dos poetas, Frieda Hughes, é que a versão de Ted para "Ariel" não era a versão que a própria Sylvia queria, e que tinha deixado pronta antes de se matar. Ted retirou 13 poemas do projeto de Sylvia, e colocou outros 13, a seu bel-prazer. Felizmente isto foi esclarecido, e publicou-se, então, "Ariel, edição restaurada" com o prefácio da filha, dando estas explicações. Este foi o "Ariel" que Rodrigo e eu traduzimos, ou seja, o "Ariel" que a Sylvia pensou.

 6-Acredito que  a poesia, a música...sejam as falas que pertencem
 as pessoas, na sua diversidade.Mesmo o poema popularmente visto como
 “ incompreensível” não tem como ser recebido assim, visto que
 ali onde não compreende faz valer uma certa...condição.Falo da
 condição do questionamento que um poema, um texto traz, quando não
 se trata de entretenimento.Bem...o que achas desta qualidade
 subversiva da escrita?

 Acho que esta condição de ser subversiva é que faz a diferença, é o que nos faz questionar,
aprofundar inquirições. Sempre prefiro o "incompreensível" nas artes em geral.

 7-Seguindo neste tom é fato que da sexualidade nunca se falou
 tanto!Focault na “ história da sexualidade, porém, já aponta a
 forma interessante com que se FALA dela: num tom confessional (
 ehehehehheeh). Concordo.Ele vai mais longe dizendo que se fala para
 não exercer uma sexualidade.Já Freud...bem, Freud nas entrelinhas
 acaba dizendo que a sexualidade não é passível de recalcamento.Ela
 vem!Fala em sublimação não como sexualidade recalcada e sim como
 pulsões encaminhadas, talvez ( digo talvez porque adoro repensar
 Freud e, quem sabe, construir sempre uma nova forma de escutar).Pois
 bem...o que a sexualidade tem em sintonia com a escrita?

 A sexualidade, ou o impulso sexual, o erotismo, o desejo, a paixão, são a própria literatura. Não consigo escrever sem estes impulsos. Minha criação traz, nos contos, o impulso de matar ou morrer; nos poemas, a sexualidade à flor da pele. Mas creio que tu poderias analisar muito melhor do que eu estes impulsos.

 8-No teu blog encontramos pérolas , como uma que acabei roubando
 para o Indecentes Palavras ( eheheheheh). Nele encontro sintonia com
 algumas falas do feminino, de autores mulheres e me pergunto se
 nós...as “ elas” estamos mais falantes sobre nossos
 sonhos.Explico: geralmente é atribuído à mulher um papel de
 queixosa.Por certo talvez tenhamos encarnado o papel de quem fala das
 necessidades.Porém, neste momento,  escuto uma coisa
 diferenciada.Não se trata mais de necessidades mas de...sonhos.Falar
 dos sonhos num domínio público, como um blog.O que achas?

 Acho que é válido, mas sonhos submetidos a técnicas, a se expressar em boa literatura, para que não sejam apenas "diários". Coloco, em meu blog,
muito da voz feminina em suas mais diversas acepções, assim como a voz masculina também, mas sempre privilegiando o talento no manejar a palavra.

 9-Sim!Pois que as mulheres sempre falaram mais, apontaram mais as
 coisas mas numa perspectiva de conjunto, de família, de todos.O que
 é individualizar-se?

 Creio que seja a expressão da mulher enquanto mulher indivíduo, com seus conflitos internos, com sua maneira de ver e pensar o mundo, com seus prazeres e dores, enfim, a mulher enquanto um ser por inteiro, posicionada e dona de si. Aquela mulher que pode ficar sozinha consigo mesma e sentir-se preenchida, acolhida por si.

 10-E a Cristina é...mãe!( eheheheheh).Acho que aí as coisas
 flutuam e nem são barcos(eheheheheh).O que é isso, Cris?

 Ser mãe? É maravilhoso demais! É a completude do ser, é a preservação da vida, um continuar que te renova e te dá forças. Faltaria muito em minha vida, se eu não tivesse sido mãe. Adoro meus filhos, adoro ser mãe, adoro a renovação que os filhos constantemente trazem.

 11-No livro A Arca Profana tens contos que nos capturam pela
 delícia mas, principalmente, pelo inusitado.Na maioria,histórias de
mulheres que poderiam ser qualquer uma de nós.Tu falas de impulsos,
 desde matar uma garotinha que tosse até dominar o homem e
 matá-lo.Porém, sei pelas falas de um bom café( eheheheh) que
 também escreves poesias ( inclusive  a Estação da Cultura desta
 terrinha foi presenteada com uma poesia sobre carnaval).Mas, nas más
 línguas deste mesmo café falavas da crueza da poesia, ou melhor,de
 certa forma, da riqueza dela.Pois bem...dos contos à poesia.Então?

 Os contos fazem parte de minha vida, há muito tempo. E, estranhamente, sempre tendem ao inusitado,realmente. As personagens, quase sempre são mulheres com um sentimento de desconforto, deinadequação ao mundo que as cerca. É como se a mulher, em meus contos, não tivesse outra saída, que não matar ou morrer. (Não acredito nisto na vida real, hahaha). E a poesia! Estou apaixonada por ela, por escrever poemas de amor, de amor erótico, de amor romântico, de amor, enfim. Há um ano só escrevo poemas. Espero que, um dia, rendam um livro.

 12-E os homens Cristina?Achei engraçado que eu saindo de uma
 separação, tu relembrando a tua e me perguntas, Por que ficamos mais
 tempo quando nem dá mais?...É, né?Tu também é assim? Acho que
 sim! ( eheheheheheheheheh).Pois é Cristina, no teu ponto de vista
 como está o amor, no sentido das relações entre os pares?

 Difícil!!! Amo amar, estar apaixonada. No entanto, conversávamos sobre o tempo que se demora para
sairmos de uma relação, quando ela deixa de te oferecer crescimento, amor, quando a rotina te torna menos viva, muito acomodada. Claro que não é fácil. O fim de um relacionamento  causa muita dor,sempre é uma perda. Mas, acho que temos que buscar o mais satisfatório, não desistir do sonho jamais. (Como vês, sou "um pouquinho" romântica...).

 13-Poderia nos falar um pouco da tua experiência como professora?

 Pois é, dou aulas de inglês há séculos. Gosto de trabalhar individualmente com os alunos, ou em grupos bem pequenos, para que o trabalho tenha mais qualidade.

 14-Cristina...qual a diferença entre mestre e professor?Qual a
 diferença entre estes lugares subjetivos de passar um conhecimento
 enquanto busca ou de apenas passar um conhecimento?

 Que pergunta difícil, Adriana! Mas, acho que minha opção por ser professora, passa por uma
necessidade de troca com o ser humano, especialmente por meu trabalho ser bem personalizado, isto é,chego muito perto de meu aluno. Além de transmitir a ele meu conhecimento da língua inglesa, transmito experiências de vida e recebo isso em troca.

 15-Poderias nos contar uma experiência, em segredo ( eheheheh),
 inusitada, engraçada, na tua vida de escritora, esposa, mãe,
 namorada?

 O que pensei, neste momento, foi minha hesitação em mostrar a meus filhos, principalmente ao filho
homem, minha produção erótica. Já falei meus poemas em vários saraus, inclusive nos meus (SARAU
LITERÁRIO ZONA SUL), e eles estavam assistindo. Para minha filha, já tinha lido em casa.
Meu filho ouviu os poemas sendo ditos em público. Mas pensei: afinal de contas, todos somos seres eróticos, ou não? Acho até que foi muito positivo eles vivenciarem este lado da mãe deles. E gostaram muito!

 16-Quais os trabalhos que podes destacar como os que são do
 coração?

 Meus? Todos! Contos na coletânea "Pontos de Partilha", contos de "Arca de Impurezas" e "Arca
Profana", que mencionaste, e os poemas que tenho criado. Todos são meus filhos muito queridos também.

 17-Amigos...Cristina, o que são amigos?

 Com o passar do tempo, percebemos o papel fundamental que os amigos têm em nossa vida. Precisamos deles para vivermos melhor, para compartilharmos experiências, para chorarmos e rirmos juntos. Quero ser tua amiga, viu?

 18-Soubemos que recebeste um prêmio em reconhecimento ao teu
 trabalho. Podes nos contar um pouco sobre isso?

 Foi maravilhoso! Recebi, com várias outras mulheres, o diploma de "Mulheres de Destaque 2011",oferecido pela Sociedade Partenon Literário. A ideia partiu do escritor Benedito Saldanha, grande incentivador da cultura aqui em Porto Alegre. O evento aconteceu na Câmara de Vereadores e me senti muito prestigiada, motivada a continuar com meu trabalho em prol da cultura.Preciso emoldurar o diploma, para lembrar sempre deste estímulo.

19-Estes dias falávamos sobre o mar.Também dizíamos desta
 necessidade de estar escrevendo.Tu anunciavas: vou para a praia e lá
 desligo.Então?

 O mar...coisa maravilhosa, não? Me sinto melhor perto do mar! Mergulho naquelas águas e me sinto muito viva. É um momento, para mim, de muita reflexão sobre o que fiz e estou fazendo de minha vida.Desligo dos compromissos e me ligo em projetos e na criação literária. Várias vezes, durante o ano,tenho necessidade de sentir o mar.

 20-Gostaria de deixar aqui no Indecentes Palavras algo “ a
 mais”?

 Quem sabe um poema?

 SEXO

 Desejo
 assim benfazejo
 que bem faz o amor
 sem decifrar o código
 Desejo
 que injeta a seiva
 na veia úmida
 na boca do gozo
 Desejo
 que revela minha fome
 no ósculo
 e, tosco, desvela o promíscuo.

 E, Adriana, te agradecer por esta entrevista e por tua inteligência.
 Grande beijo,
 Cris

 Nunca saímos impunes de um mergulho. Sempre somos outros na
 descoberta do que nos habita.A tradução em pouso, a denúncia
 escrita de que ainda há voz quando se tem um estilo faz da tua obra
 outra, a ser descoberta pelo leitor.Traduzir-se na crueza da rua, na
 velha casa que sempre perpetua, no final, o que há de verdade.É
 nisso que penso quando te ouço falar do teu trabalho, dos teus poemas
 e dos teus contos.Porém, quando leio penso...sabe- se lá..., senão
 que o registro de uma fala é só o que vale a pena.Sinto-me
 agradecida e honrada em compartilhar contido Indecentes Palavras.
 Esteja, sempre!

 Beijo com todas as letras.

 Adriana Bandeira


Cristina Macedo: cris-cristinamacedo.blogspot.com

domingo, abril 03, 2011

Reconstrução

Faz tempo que não te escrevo.Precisava te reconstruir.Mas...com que verdade me tomaste assim?

tráfico

Sonego o valor primeiro, minha temperança, meus seios... pelo que não hei de pagar.Jamais caberia na receita o remédio, paixão,doença que me faz respirar.Talvez a melhor verdade ainda esteja na delícia, lida em segredo, do que nunca quis escrever.Faço tráfico de letra sem medo de morrer.Não há vida sem o roubo deste tempo, é matar para nascer.

Há mais

Tenho pouca memória
sendo sem lugar
nada que não
seja minha lembrança
teu olhar.
Não possuo frase
que venha como
do tempo,de repente
de anos atrás.

esta vontade solta
de uma voz,de uma vez
ser-me outra
que um dia fui
em ti
Amais?

sábado, abril 02, 2011

Sobre as idéias de Márcio

Sim Márcio.Tenho pensado que leitor e " escrevedor" são lugares subjetivos diferenciados.Contudo, talvez o lugar de leitor seja o mais próximo da representação primeira.Quando escrevemos apenas registramos  um texto inscrito com nossa própria voz.Quando escrevemos...transcrevemos uma leitura que já nem é a mesma mas é uma leitura.O sujeito leitor é o outro da escrita.Pois bem...um colega, Fernando Hartmann fala disso muito bem na sua tese de doutorado.O que tenho pensado diz respeito a esta relação do ser com seu texto.Isso desenha o humano.Carmen, no comentário ao texto de Lau também colocou sobre as várias outras formas de escrita: as artes.Seguimos?

Márcio Almeida Nicolau na discussão sobre leitura e escrita : Lau,adriana,Márcio...

Autor e leitor são papéis que se confundem. Leio em parte o que está no papel e uma outra parte sou eu mesmo. Quando escrevo, me reparto e é como um parto mesmo. Mas o texto parido é um sujeito, um ser que por mais que eu denomine e adjetive, assume novos predicados, conjugando outras ações. 

A arte literária não imita vida literalmente.

“Em essência a atividade criadora repete, inconscientemente, a incessante recriação do milagre da vida no organismo; (...) Ela não repete ou copia a natureza; mas obedece às mesmas leis que esta: transpõe-nas para o plano da criação consciente, isto é, humana.” (PEDROSA, Mário, 1947) 

Este é meu acréscimo a discussão.
Marcio Almeida Nicolau
http://intertexual.blogspot.comq acompanhem o blog de Márcio

quinta-feira, março 31, 2011

Texto e invenção: conversas com Lau Siqueira

Sim...Mas, repara que a tal sedução natural transmitida pela possibildiade de invenção,de letra,de fala estabelece-se de forma diferenciada nos dais de hoje.Isso há algumas décadas.A tal transmissão torna-se incapaz de gerar um outro, elevando a condição humana de ser na linguagem em...alguma outra coisa.Minhas hipóteses vão por aí, inclusive acerca de nosso mal estar apresentado pela drogadição.
Nota que a sedução das oficinas de leitura e escrita muitas vezes não passa da mesma oferecida pelo anúncio de cigarro; nota que entre uma oferta ( pela coisa) e um encontro ( de algo que invente porque falta) surge o encontro sem falta, sem fala.Nisso os textos têm esta função importante mas...para além disso tenho pensado que o autor, a pessoa, aquele que inventa, enquanto presença no que nem é seu ( afinal um texto veio do mundo e à ele retorna) é de importância vital.Nem digo do autor enquanto aquele que dança, canta, declama ( possibildiade igual a dos auditórios transmitidos via tv) mas do texto enquanto história: da sua vida, da sua escrita, de seu processo.Viabilizar um certo reconhecimento entre autor e o resto das pessoas faz um furo, uma hiãncia capaz de, pelo menos, impossibilitar o óbvio.
Para além disso te asseguro que as crianças não estão sendo alfabetizadas.Pior que isso, a forma como são apresentadas à escrita impedem sua natural apreensão desta possibilidade.O texto, antes de tudo, é inconsciente, fundante de sujeito.Isso posto não há influência capaz de distanciá-lo de uma existência.Porém, quando algo aí ocorre...Quero dizer que escolher fazer uso de alguma droga é...da natureza humana.O que não é diz respeito a esta contravenção obediente em que não é um sujeito que  escolhe isso ou aquilo...
Seguimos?
 

adriana bandeira

Lau Siqueira em Indecentes Palavras

LEITURA E SEDUÇÃO NAS OFICINAS

As oficinas de leitura devem provocar, sobretudo, algum tipo de sedução partilhada. Ler um poema ou um bom texto literário é atender a necessidade sempre urgente de recriá-lo. A boa literatura nunca se revela por inteiro. A criação literária enquanto processo aberto substitui o dito pelo sugerido.
O ato criativo deverá estar em aberto, a espera de um outro olhar que virá para reinventá-lo e complementá-lo. A leitura deve,portanto, estimular o pensamento crítico e não estimular um mito e promover um distanciamento estéril entre autor e leitor. Toda obra de arte é aberta: um elo interativo entre autor e "leitor". Ou então, não será literatura, não será poesia, não será arte...
Por isso, ensinar a paixão pela leitura é, sobretudo, despertar para a capacidade humana de criar criticamente e de reinventar-se permanentemente diante do que está posto. Talvez por isso Antônio Cândido tenha afirmado que a literatura é um dos direitos humanos.
Portanto, para despertar a paixão pela leitura e, especialmente, pela literatura, as escolhas são determinantes.
(LS)

--
Lau Siqueira
(083) 8831.6849
POESIA SIM - www.poesia-sim-poesia.blogspot.com
PELE SEM PELE - www.lau-siqueira.blogspot.com
“Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz”.
(Roland Barthes)

Te ouvindo

A voz é a alma descoberta.

O Inventáro

ESTRADA DE FERRO- OLHOS DA CONSTRUÇÃO I

Antes das réstias no chão das tábuas, a mãe moía o trigo, pão, fornalha.O pai tinha aquele alarido de mãos grossas, tanta fala.Abria a terra e plantando, sonhava com o que viesse colher.Foram os olhos da mãe, o pão.E o braço do pai toda a água do mundo.Por isso naquele dia havia de ser coisa muito séria.Aquela voz entre dentes propondo morada em pensão.Homens de fala enrrolada, macacão azul de abrir estrada.O pai pensou,repensou.Os olhos do homem eram de um azul de céu que, sabíamos, não existe.O Artigas falava de novo, em castanho olho redondo, reinventando o que a fala ardia: eles querem pouso e roupa lavada.Comida.Pagam pelo mês até seguirem para a outra vila.São trinta...Não há jeito...o trem vem para cá!Iam querer mulher...se tiver lugar.
A mãe...sem olhar.O pai sem os braços, sem o traço que o fez até ali.Não voltaram mais daquele dia que me fundava.Sou a que faltou, a palavra.

Sonho andarilho

Sonha a poeira  ser capturada?Sonha a luz ser apagada?Sonhas? Estrada.

Ar

Pergunto: suspiro.Respondes: inspiração.

Inconsciência

Voa leve
 a prece
 estranha
 que nos alcança
 sem saber
 se foi.

Meus escritos de prostituta

Aberta em tantas,
pousada.
Prostituta amada
dos escritos
que jamais serão
meus ditos
mais de uma vez.

Solidão de morte

Desprovida de graça, ela figurava entre a calçada e a notícia.Ali , sem existência, anunciava a hora da entrada, o tempo da partida.Tão sem razão,desprotegida, a morte cumpria,ia embora e ninguém via.

quarta-feira, março 30, 2011

O DIA DE HELENA - CONTOS



                                          
                       
                                                       
Bastava um dia! Que nele as horas tivessem gosto e tarde fosse o anoitecer. Umas de prazer, delícia do sei lá o quê. Pelo encanto, que fosse para sempre este instante, mesmo que durasse um dia. Espanto.
         O táxi ainda parado, resmungos, Êta, homenzinho difícil. Olha pelo retrovisor, Espera pelo quê? Respiração. Dá partida num ronco de sono. Ainda bem!
         Carro sofrendo de mil pecados, estofamentos sem cheiro de solidão. A limpeza é solitária, nos finais dos dias, nas ruas paradas. Quando o táxi é sujo sempre penso assim: homem sozinho não faz verão. Pois este com tristeza,  embaraço, desaposento. Ah, o carro com esta falta de preparativos, sempre gostei disto! Clientela sem lugar. Reforço o olhar pelo espelhinho. E então? Arranca devagar.
         Olhos de paciência, negros de lente de sol. Tateiam meu vestido, coberto de verão. Enxergo a segunda visão, a que me espia enquanto ele segura o volante. Na tentativa de estar em dois lugares ao mesmo tempo, silêncio de televisão. Acalmo meus braços que limpam a janela de trás. É que a cidade me encarnou. Porto Alegre sempre foi de meus sonhos. Caberia no meu dia, se viesse a ter.
         Volto a balançar pelas ruas num encontro qualquer. Queria retornar nesta cidade, nascer novamente na avenida principal. Seria meu dia de festa, estar em meu nascimento. Tristeza, hoje não posso nascer. Nunca pude antes de escurecer. O cansaço, levantar cedo, restrições.
         As visitas são nos finais de semana.O pai hospitalizado, diminuindo em cima da cama. Levo maçãs e bolachas. Gostaria de voltar sem que fosse assim, tão doente minha urgência. Sou paciente.           
Mas não é isto que incomoda. Não! O que me parte em duas é o retrovisor com sua miragem em cores novas. O homenzinho abaixa o escuro, dói o temporal. Mira, sem respeito, alguns meus pensamentos. Assédio, pela invasão de meus sonhos.
         Ele desconfia, tenho certeza. Ele sabe que espero um dia. Respeito. Exijo mais isto além da corrida em bandeira dois. Tão caro, não? Pergunto pálida, sem saber sobre o depois. Ele responde, não responde. Uma voz grave faz rasgão na música: tão domingo, não? Quieta. Já fiz minha partezinha. Posso pensar no meu dia! O dia de Helena! Mas o pai não deixa. Na última visita ficou chorando sem lágrima. Mal de Alkzheimer. Petro! Petro! Ele gritava, segurando minha mão. Consegui dizer algumas coisas, sem coração. Assim não, pai! Assim não! Ensinava a pequena criatura a não limpar o nariz com as mãos.
         Para falar é preciso não ter dó, nem piedade. Não ter início nem conformidades. A palavra sempre é dura, mesmo no mais delicado tom. Compondo lugares, crueza da discrição. Quem seria Petro?
         Nariz de Pinóquio, no hospital. Digo que quero, que volto logo. Não obedeço, sobre não mentir. Do pai, as mãos me seguravam lá nas ondas do mar. Barco que nunca virou, verdades sobre me afogar. O ar da rua entra em golfadas, naquilo que as avenidas disparam, oração das calçadas. Aquele mal estar crescente, cheiro de impaciência. O moço me olha sem vergonha, peito aberto no calor dos quarenta. Graus e anos a colher tostões. Ainda penso no dia do sofá, da folhagem ou da esquina. No dia destes pensamentos soltos, das horas vazias. Por aqui, riachos. Guaíba notícias e buracos de antes. Braços em pêlos sobre a direção da via.
         Há uma confissão importante a fazer, isto de matar ou morrer. E sempre se morre, aos dias, e sempre se mata na insensatez. Morrer é não e ,embora eu sim, sim, sim,... ainda me espera o final.
 Antes acreditava que eu para sempre, sim! Que pelo menos uma viveria no nunca mais. Hoje, reparos.
         O cinzeiro vazio, as luzes do domingo cristão. Os olhos na estrada seguem sem pudor algum. Andam e andam, sem velocidade perceptível.
         Sou. Transição.
         Quero a que me parte em duas. A verdade nunca foi meu ato bom. Pai, deixe-me ir, nunca mais voltar! Também vou morrer, em algum tempo e lugar.
         O táxi segue. Ainda a música canta minha cega condição. Quero um certo respeito que não tem mais nenhum chão. Julgo as aparências e os olhos do espelho acham meus tons. O estranho é que são de pedido, muito mais do que de pretensão. Para falar, para dançar, para intrometer-se naquilo que não divido com ninguém, meu dia principal.
         Digo solta: que rua é esta? Ele responde em amor de gesto. Desliga o rádio, pede socorro inquieto. Vejo que segura palavras, como se pudesse ferir. O silêncio dá voltas e percebo que nada lhe disse sobre o destino. Respondo sozinha sobre minhas riquezas, rotinas. Para onde vamos? Neste hoje, seguir estradas. A chuva molha a rua, despreparada.
 Sou passageira, mais nada.

 adriana bandeira

Dia de árvore

Na tarde,
sono de luz
cansaço
que toda árvore tem.
Toma-me o verde
de antes
a vida
de antes
o que não
cessa
não
vem.
Em parte morta
a réstia de terra
esconde minha
a fala inquieta.
É o tempo
moldando meu ventre.
O dia tem
mãos
de ferro

segunda-feira, março 28, 2011

Para ele

Nossas diferenças

Sempre tuas mãos
serão estranhas,
tua forma recebida
na denúncia
que  penetra onde
nada existia
além do pulso:
dor de entranha,
partitura.
Assim ainda
mesmo  sendo
violento o espaço
em que me fundas

neste sentido tua
quando me dou
em ti,
nua.

São tuas as minha mãos, as palavras entre nós - Texto de Leonardo B. para Indecentes Palavras

De Improviso
Para a Adriana Bandeira,


O momento,
do momento que se traz cá dentro
como um lume que não se apagou,
como o retrato repentino
da gente que nos ficou no peito,
gaiola em desajeito
de folha e arame improvisado,
como horizonte de mar que se acontece preso ao céu.
E sem preparo
invento, do instante
o tanto ou quanto só,
cheio do que a memória guardou
no rio de dentro,
na margem do forte tambor aluvião.
E de súbito, o momento
do momento que em forma de gente restou
antes ou depois,
do mínimo espaço
do tempo,
do vento vago que se arruma cá dentro,
resto de momento que em mim trago
como brasa dum lume que não se apagou.
Dum gesto, um momento
um passo que trago do levante,
que fica,
dentro do tudo o que me basta, agora
e do instante,
agora, do pouco eu
que invento
ou improviso,
de todo meu passo
futuro e passado,
a gasta pedra onde
em sangue,
também sou letra, momento meu
onde me teimo ficar inscrito,
como mínimo espaço do tempo que me divide,
resgate urgente
do pouco,
pouco do mundo, de repente.
E quem diria que
aqui, ali, mais adiante
no peito, no rio breve, na palavra,
dentro do lume que não se apaga
cá dentro, afinal
também há gente?

Leonardo B- abarcadosamantes.blogspot.com

Março 2011, 27
[breve aparte: o original deste “improviso” surge assim, tão de repente, na caixa de
comentários num post da Adriana Bandeira, numa versão menos elaborada, e aqui
ligeiramente alterada, mas orientada pelo mesmo principio… apenas em passo, caminho
um pouco diferente, porque o principio e fim continuam inalterados: estas poucas
palavras meio desalinhadas (ou alinhadas, conforme a perspectiva), pertencem à
Adriana Bandeira, ainda que saídas de minha mão.]
|imagem: reprodução de Francine Van Hove|

domingo, março 27, 2011

Rapto de poema - Pedro du Bois ...em detalhe

CHUVAS

Na chuva
encharco
ensopo
destaco o guarda-chuva
ao cinza: empoço
               o canto do pássaro
               escondido
               em vão
               em vãos de telhados
               eiras e beiras
               ressurgem ninhos
               de pássaros
               cantando o final
               da chuva: na hora
                                seco
                           resseco
destaco o guarda-chuva
em que me apoio.

(Pedro Du Bois, inédito)
http://www.pedrodubois.blogspot.com/

PÉROLAS DE ANITA

A tristeza não se vê porque ela está no olho.O coração se mu(n)do... você faz parte de tudo.O tigrão, eu brinco com ele...e ele me faz feliz.O coelhinho e o Tigrão me fazem sentir a mais feliz do mundo!

Anita Cardoso Rosa


Ps: as crianças fazem poesia.Anita tem 5 anos.
adriana bandeira

CARTA À LEONARDO B., O BARQUEIRO DESTE CAIS...SE O VENTO LEVAR-ME DAQUI ATÉ ELE, ENQUANTO LETRA DE MAR

Acontecer é registro de letra. Antes do corpo, na pele de seda.Que nem existe sem esta camada dura, inscrição da perda.

sábado, março 26, 2011

Quando

Quando me faltarem
as coisas que se desprendem
do tempo: as mãos,olhos
esquecimento
Ainda me faltando
o andar, forma de vôo
de dança
de escrita
de vento
Que eu me falte
como sempre
na verdade que se rompe
de si
Ainda restando
no que sempre
fui nada
só de mim

Luta de mulher

Nas floreiras planto o que o tatu bola não come.Não sou boa das mãos.Nem amei, nem foi em vão.Só não sabia destas coisas de prazer.Achei que ser mulher era vencer.

Luiza





PS:Vozes é um marcador que possibilita as falas de vários outros.

adriana bandeira

estrada marcada

Fui marcando por onde não voltar.Por fim as estradas estavam cheias de letras e desisti de não lembrar mais.

A água de sempre

Chuva benta desenha estrofes, escrita entre dentes.Continua a história, rio serpente, de heroínas que amaram homens valentes.E a coragem, desde antes, nasce no ventre.É da voz que canta as mesmas flores, de forma diferente.

Desaparecimento

Dobrei o lençol e a toalha.Guardei meu corpo no armário da sala.

Hoje

Nos dias de chuva
descanso talheres.
Sirvo-me da desigualdade
do tempo
tão rápido,tão lento

quinta-feira, março 24, 2011

Para conferir

Página do poeta e " cantador " cubano Silvio Rodriguez: http://www.lapalavradesilviorodriguez.blogspot.com/
Vale a pena conferir.

Por não ser outra, meu nome na letra dele: brincadeira em poema de Paulo Cezar Alvez Custódio

por onde andadriana,
por ruas
           avenidas
                  estradas?
por onde navegadriana,
em mares nunca Dantes navegados,
ou ares nunca tantos pássaros?

por onde sonhadriana?
em telas teias multidões.

paco cac

Esperando visita

As janelas fazem o ar.Respiro alinhando a colcha branca, cama de anos atrás.Já reparei, não se troca o lugar.Apenas um espaço entre as palavras de dentro, dando este ar de graça, de enfeite pelo que vem.Perfumada,o chão aquecido nas mãos do ainda nada.O assado no forno e o vinho para abrir depois.Aguardo tua chegada como fazem os anos da casa, que nasceram antes de mim.

quarta-feira, março 23, 2011

CONVERSAS ANTES DE DORMIR ...COM ANTÔNIO AMARAL TAVARES


ENTRE COBERTORES E FALAS

Adriana- A tua poesia faz-me não pensar. É como se a razão sumisse estilhaçada.Todas as que leio, ultimamente.Acho que alguns textos estabelecem este tipo de relação com seu leitor.É a cada vez.Por exemplo, amo o texto " O cavaleiro Inexistente" de Ítalo Calvino.Mas não amo todos os textos de Calvino.Isso vai contra o que se diz sobre o estilo, ou seja, seria mais provável encantar-se com uma forma de escrita do que com o texto a cada vez.São os amanhãs, é o mais um, neste sentido como únicos e estabelecidos num tempo, o da escrita do poeta e o da leitura do leitor...o que achas,Antônio?

Antônio- Parece-me natural que o poeta vá procurando novos processos de escrita e de pensamento. Os meus poemas, em tempos, mudavam muito sob o ponto de vista estrutural e estético, conforme o tema. Isso tem tendência para acabar em mim, julgo eu, mas conheço casos de poetas com nome firme na praça que mantêm essa tendência, como sendo um cunho seu. No caso particular de Calvino não te sei dizer, apenas conheço “As Cidades Invisíveis”, que é mais uma leitura minha, de entre algumas muito desorganizadas que vou mantendo, de forma que não o li todo, ainda. No entanto considero-o um livro de poesia e confesso que o tema da cidade me atrai muito. Acho muito natural, que haja casos em que só ocasionalmente, o tempo do leitor se cruze com o do escritor ou poeta. Eu próprio, como leitor, conheço um exemplo ou outro assim.
Seguindo o teu pensamento, o amanhã do leitor também existe, isso não merece qualquer dúvida, e se um poeta procura comunicar e dessa forma ir ao encontro do leitor, é natural que quando o poema sai para a rua o leitor já lá não esteja. O poema também procura o leitor, tal como o leitor, o poema.
Lembremos Garcia Lorca, que tomou o caminho do surrealismo, também porque todos à sua volta o faziam, e ele, se o não fizesse ficava para trás.
Falas que, na minha poesia, é como se a razão estivesse estilhaçada. É verdade que me sirvo da poesia, em muitos casos, para procurar a razão ou a realidade onde o meu corpo caiba, Em quase todos os poemas que faço, mesmo não sendo esse o tema, há-de existir sempre uma frase, um verso que espelha essa procura. É uma forma de eu a procurar, evitando queixar-me e de falar o menos possível de mim. Sou eu a reconstruir o rosto interrompido, a procurar o mistério das coisas e as coisas de mistério que perdi pelo caminho. É um exercício interessante, esse de procurar as coisas e as cenas que trazem com elas mistério profundo. É algo em que podemos pensar mesmo sem escrever. Temos que procurar nas cenas do dia a dia ou nas nossas memórias mais profundas. Para mim é uma teima, isso de fazer do poema um lugar de mistério, é como se tentasse recuperar tempo perdido. Mas só os grandes poetas são capazes disso, eu apenas ocasionalmente o consigo. Dava um bom tema de conversa, se conseguíssemos falar dele sem ser através da poesia.
Beijos, Adriana.


Adriana- Hummm... O tempo perdido...'No Caminho de Swann"...Mas qual o tempo que não é enquanto perdido?Talvez exista um que na sua repetição consagre o indizível como zona neutra.Gosto de uma expressão minha que é " que não passa sem parar" ou  "Não para sem passar".Sei que isso diz respeito a experiência com a psicanálise e este tal inconsciente atemporal.Penso a poesia como algo que não traz nenhuma palavra nova.Apenas uma forma diferente de dizer algo do Universal.Realmente tua poesia tem esta marca de ser outra a cada vez.Como na série sobre Nova Iorque...Ali é outro a dizer algo.
A cidade é universal e é imaginária,de cada um.Deste lugar viemos...Como descreverias este tempo em que ainda não poetavas?Quero dizer...cresceste onde?De onde vem teu tempo?(eheheheheh)...

Antônio- Sim, tens razão, todo o tempo é perdido, mas eu acredito que de tempos a tempos os ciclos de vida, naturais ou provocados, nos farão com que nos reencontremos, como um rio sobre o qual voltamos a passar. É essa ideia que procuro explicar no meu poema “Aveiro Revisitada” que poderás ler na etiqueta “cidade”, no meu blog. Há realmente coisas que não passam sem parar. E uma simples visita a Aveiro, na qual passei bons momentos na infância, com os meus avós, fez-me apanhar-me a mim próprio de uma forma que não conseguiria sem visitar essa cidade. Há um poema de António Gregório, português, que também poderás ler no meu blog, em que ele fala que o Universo se está a expandir, mas mais tarde recebe a notícia que, tal como se expande, um dia há-de contrair-se. Penso que este poema também fala disso.
A universalidade, em poesia, é uma coisa relativa. Por vezes, sendo universal, ela apenas representa um pequeno período da nossa vida e se lhe podemos chamar universal é porque procura uma verdade, em se tratando de boa poesia. Aliás, não sei se a poesia não é um grande engano, tal como a realidade que, existindo, é a de cada um.
A série sobre Nova Iorque é especial. Foram leituras que fiz de fotografias dos arquivos do MoMA e consegui uma economia de palavras que não repetirei, não querendo dizer com isto que nada tirarei dessa experiência, antes pelo contrário, aprendi bastante. É novamente o interesse pelo tema da cidade.
É como dizes, a cidade é também imaginária, podendo ser longínqua e desconhecida, como foi o caso de Nova Iorque, ou podendo ser um lugar pertencente ao nosso crescimento e, é claro, ao imaginário e aos sonhos e desilusões que nela vivemos. Não querendo exceder-me em exemplos da minha poesia, se leres o “Poema da Cidade Distante”, lá encontrarás quatro cidades: duas reais e duas imaginárias, descritas sobre os lugares de Lisboa e Coimbra.
Eu tenho algumas dificuldades em falar do meu crescimento, principalmente da adolescência, peço que me desculpes sobre isso. A primeira publicação que fiz de poemas meus, no caso dois textos, foi aos vinte e um anos num anuário de poesia de autores não publicados que a editora Assírio & Alvim lançava por esses anos. Mas cedo passei a não gostar desses dois poemas e de qualquer coisa que escrevesse. De forma que deitei tudo fora, não se perdeu nada de bom, e parei de escrever. Só voltei a escrever em 2003, penso eu, gostando do que escrevia o bastante para o guardar. A razão para isso é um lugar de dor para o qual não estou preparado para falar, mas que se estiveres atenta, aos poucos vou deixando pistas como que deixa cair migalhas do pão que come
Abraços para ti.

Adri- Sim...recebo tuas migalhas e percebo...tu recebes as minhas( eheheheheh).Sobre o que já falamos e mesmo que não seja igual...são nossas migalhas.É o que somos,não?Somos o que restamos.Mas, de fato, penso na poesia como instância da verdade.Nem tanto pelo que relata mas pelos significantes que assombram o leitor, propondo que este faça algo com o que lê.E digo, com todas as letras,o leitor também é o que escreve.Afinal, lemos algo que nos vem, colocando isso num papel ou tela...numa palavra, para ser mais precisa.A verdade, neste sentido, não tem tempo algum, por ser este assombro, estalo, este gosto que escapa a cada vez.O gosto que se perdeu e " revisitamos".Tenho pavor de ler meu texto,depois que pensei estar pronto.Não gosto de revisitar o que não é um novo gosto, ou seja, outra criação.Neste sentido, achas que lidamos com uma espécie de morte?Digo, a palavra seria uma forma de inscrição de morte?


Antônio- A palavra é uma forma de morte. Eucanaã Ferraz diz que é defeito, Eugénio de Andrade dizia que é o real. Eu digo que é um erro. Caminha do sonho para a morte e por isso tresanda a morte. É um engano que nos faz muita falta. T.S. Eliot dizia que todo o poema é um epitáfio. Provavelmente amamos o real porque ele nos engana.
Há de facto na poesia um caminho para a verdade, senão um encontro com ela. Já falámos disto: se a verdade não é universal, ela tem pelo menos um rosto, uma máscara, que todos já vestimos ou sonhamos no passado, ou até que quisemos que fosse a nossa vida.
O Leitor também é o que escreve, pois é. Correndo o risco de citar demasiados autores nesta questão, o que só prova a minha ignorância, lembro ainda Joaquim Manuel Magalhães ao dizer que “o que o poeta desconhece o poema sabe”. Quem descobre essa sabedoria adicional é o leitor e há leitores que nunca escreveram um verso que são mais poetas do que muitos que já os publicaram.
Entendo que falas também na verdade como algo que nos escapa de um dia para o outro, a nós que escrevemos. Isso é apenas uma condição ou um desprazer de quem escreve. Perde-se um pouco com a prática, mas já li dos maiores poetas que lhes acontece isso frequentemente, que o que deitam fora é mais do que o que conservam. Pessoa escreveu poemas sobre isso. É um risco que se corre, escrever um poema num dia e no seguinte ou dois dias depois estar a mostrá-lo, de qualquer forma. O tempo faz muito bem aos poemas, amadurece-os ou rejeita-os como maus textos. Mas, não sei se podemos falar de morte neste caso. Simplesmente enganamo-nos a nós próprios ou somos palavras que se enganam e enganam o que somos amanhã. Penso que cada um tem os seus truques para evitar ao máximo cair neste engano. Eu por exemplo, evito ouvir música enquanto escrevo.
Não sei bem se fui ao encontro das tuas questões.
Beijos
António


Adri- Hummm...pois é.Pergunto-me seguidamente se portamos as palavras ou se elas nos carregam.Já li que sofremos de uma invasão de palavras que por serem significantes nos consolidam como estruturas psíquicas.Seria o mesmo que dizer que a escrita é consequência de uma doença!(eheheheheheeh) Quem sabe?Se pensarmos na nomeclatura pathos que significa sofrimento,paixão e, também, doença...estamos no caminho ( eheheheh).
Quando falas de engano surge-me o enorme engano que é o amor.Sim!O amor pelo outro é o do por si mesmo...Salvo aquilo que possamos detalhar.Amar uma voz, um olhar, uma forma de vestir...então a verdade sobre o amor estaria no mesmo tempo que a verdade do poema: no que vem a falar depois.Pensei nisto porque amar é restar...sobre o que falávamos das migalhas.´..deixar para além de si.Algo assim...Não sei o que pensas disso?

Antônio- Observas bem. Penso que as palavras nos carregam e que é um engano pensar que as carregamos e manipulamos. Ouvi de alguém, há dias, que as pessoas são textos, tal como as salas ou as mesas, etc. Sendo um reflexo da nossa realidade, as palavras compõem-nos. Assim poderíamos muito bem ser representados pelo desenho de letras, que compusessem sílabas, que por sua vez compusessem palavras, ou que não compusessem coisa nenhuma, fossem apenas sons.
Ronald Augusto diz que a poesia é linguagem em crise. Isso tanto mais é verdadeiro quanto é a descrição exacta de certas doenças mentais, marcadas por um desfasamento da realidade e como tal, da linguagem, e marcadas, pela mesma razão, por um desmoronamento das palavras enquanto suportes de nós próprios, da nossa história de vida, do nosso dia a dia. As palavras são a nossa casa. Quando, ao fim do dia de trabalho, pensamos “vou para casa”, esse pensamento aquece-nos. Mas numa linguagem em crise, essa frase pode muito bem ter perdido as paredes e deixará de ter qualquer significado para nós, embora lá fique o seu espaço vazio. Sim, as palavras carregam-nos espiritualmente e desconfio, também fisicamente. O sexo, por exemplo, tem a ver com tudo, com todos os parâmetros da nossa vida. E ele está na nossa mente e também se estrutura em palavras e no forte significado que têm para nós. A beleza chega a doer e logo tentamos atribuir-lhe palavras. Sobre tudo isto, tu saberás mais do que eu.
Não é fácil falar do amor. Mas, já pensaste que, muitas vezes, o amor atinge-nos não com a verdade do presente, a atracção por alguém que nos responda às ansiedades do presente e da nossa idade, mas surge-nos como uma vingança sobre o passado, uma vontade de preencher lacunas do passado. Assim sim, o amor pelo outro é muito mais um amor por nós próprios. Isto sem falar dos casos em que escolhemos o parceiro ou parceira mais bonita, não porque gostamos profundamente dela, mas porque é a mais vistosa no grupo de amigos ou na sociedade. Também no amor as palavras nos carregam, ama-se porque se chega ao amor. Ou, no caso que descrevi, ama-se porque somos admirados, e então as palavras não são bem nossas, é tudo uma grande trapalhada e a palavra deixa de ter qualquer valor, lembrando esse velho conceito de cultura geral, muito usado nos meios sociais, mas que mais não é que a cultura dos outros. Não tem relação alguma com o nosso corpo cultural.
Não sei se amar é restar ou estar. Mas, se damos muito de nós, é provável que nos tornemos em algo mais do que aquilo que vemos no espelho. Talvez deixemos, nesses casos, uma cauda de cometa para trás, que os outros seguem ou simplesmente lêem. Essas coisas não são invisíveis. E se a relação se desfaz é natural que algo em nós se sedimente e fique para trás como se largássemos migalhas.
Tem sido bom, o Carnaval? Beijos para ti.

António

Adriana- Pois é...ainda as mulheres e os homens são de alguém ou de algo.Mas o amor, de fato, constrói mais do que um si mesmo...Talvez aquela verdade de que nos encantamos por um resquício, por uma voz ou olhar.E sempre há de ser de antes, muito antes.Por faltar ou por lembrar.Aliás: qual a diferença entre falta e lembrança?
Fiquei pensando sobre o que tu dizias de não escrever ouvindo música.Também não gosto...
O carnaval...sobre a reunião que te relatei estava maravilhosa!Agradeço tua colaboração com a poesia além mar.Para mim o carnaval é um manifesto, uma ruptura, uma possibilidade de dizer algo do si mesmo.Muitas vezes, ficamos encantados com a obra sem saber do autor.Isso dá a falsa idéia de que as coisas caem do céu, que não há um eu ou vários eus que puseram-se a trabalhar, a falar coisas, a manifestarem-se.Assim é que gosto do carnaval...como possibilidade do Manifesto, com letra maiúscula.Esta correspondência além mar não deixa de ser uma expressão, um certo retorno.Já reparaste que me chamo Adriana Bandeira, não?São os barcos voltando...O que achas disso?O que achas da poesia que vem do Brasil?

Antônio- Um poeta escreveu que “O amor costuma responder por acordes simples”. Não sei se será sempre assim, mas talvez não devêssemos deixarmo-nos enlevar por esses acordes.
Os dias de hoje, no Brasil, estão muito enriquecidos por uma novíssima fornada de autores de grande qualidade. Já ouvi dizer que são grandes as dificuldades em que os críticos e os seleccionadores da boa poesia se têm visto. No entanto já chegaram às minhas mãos duas colectâneas de novos autores e ainda alguns livros de autores, que sendo contemporâneos e ainda relativamente novos, já gozam de grande reconhecimento. Quanto aos novíssimos autores, faço o reparo de que produzem uma poesia bastante cerrada e que não é à primeira leitura que conseguimos extrair algo dela. Parecem ter riscado da sua escrita, e fizeram muito bem, grande parte das metáforas e palavras do passado. Tenho alguns favoritos, mas não vou adiantar nenhum porque concerteza deixaria, injustamente, alguns para trás, apesar de que o que eu disser relativamente a escolhas não adiantará nada ao cenário existente, estou longe de possuir essa influência, mesmo no quadro da blogosfera.
Beijos e abraços
António

Adriana- Boa noite, Antônio.Até  amanhã ...que o dia aqui já amanhece e as luzes se dissipam fingindo estarem impunes.
Beijo com todas as letras


Antônio Amaral Tavares, poeta português: http://acasaquecaminha.blogspot.com/
Adriana Bandeira, Brasil: http://indecentespalavras.blogspot.com/

terça-feira, março 22, 2011

Olhos de alegria

Desfiz-me dos traços: boca,sexo,ouvidos, nariz.Sem respiração,sem dormir.Ergui em gesto uma voz interna, arrebatada e descontente.Saída de mim, evaporada, toda a casa morada que um dia habitei.Restou uma neblina, uma confusa tendência, de obediência somente ao cio.Virei pedra,serpente.Virei este "rio".

sábado, março 19, 2011

Tinta vermelha

Ferida que arde
a dor não estanca
É ela que sangra
palavra
filho
som.

O piano

O piano escuro adormecia na chave da caixa.O som morto que dele vinha assombrava meu sono, o quarto pequeno do abandono, que se perguntava por existir.Nunca mais dormi.Ficaram estes ruídos que escrevem em " si".

sexta-feira, março 18, 2011

Os órfãos

Deixo órfãos meus armários embutidos,o muro do vizinho e a árvore que cresceu.Abandono no canto do pátio o horizonte do lábio e um olhar que perdeu: a vista, a fome, a palavra.Deixo órfãos os beijos meus.

quinta-feira, março 17, 2011

O INVENTÁRIO

                                                              INTRODUÇÃO

                                   ESTRADA DE FERRO, OLHOS DA CONSTRUÇÃO


Vieram os homens com a língua ferida, olhos pedindo comida. O pai enterrou as ferramentas, abriu negócio, " bodeguita".Água de ardência e, atrás do balcão, perdia o sonho de plantação.Feito riacho, o ferro partia o campo em linha,costurava o chão.Suadas as dores da perda, mulheres invadidas pela fala alheia.Riscavam serpentes, lá para os lados da vila, anunciando a estrada nova, gritaria.
Ainda a luz na janela, casamento com a estrada de ferro.Nunca daria parada, guarida.Sangrando sem estancar, iam-se os dias de colheita de frutas, no pé dos dias.Aberta a terra incontida, propriedade da Estrada da língua.
E quando era dia, o dia.!,de longe as barrigas avistavam tamanho apito.O ferro batido,o calor dos ungidos,batizados pelo santo cristo.O trem vinha como nunca havia sido.Era grande demais, era tarde demais, era incompreensível.Esperavam  na plataforma que ele, o deus de antes e de agora, parasse recolhendo os restos de sonhos, de gente.Passou, sem juntar seus resquícios...não era Estação as sobras da construção.

quarta-feira, março 16, 2011

Para o amor das partituras

Sou tua
as duas.
Se me quiseres,
a cada vez,
fazendo uma.

Feminina letra

Insisto em te dizer
que tudo que sou
vela  o que a letra vem  dizer
A do teu nome,suspiro;
do teu delírio, alívio;
a que calas sem saber.
Por ser segredo da letra
descanso aguardando
tua designação.
Sou tua, desde então.

Teia do fim-suspiro grande

O encanto da noite feito teia, assombra o rosto num desenho próprio.Descansa minha voz que escuta, enquanto cega tua visão estrela.É por entre teus navios,cabelos rasos, que esvazio teu peito no meu arfado, extravio que se aquece nas mãos.É esta distância que te faz no sempre,ausente, lembrança em pequenos botões.Fio intacto, semente por onde retorno a cada manhã.De longe te escuto, inquieto murmúrio e riso na velocidade da luz.Aos poucos morro, nas vezes que sinto tua composição de ser.Digo, Nasço!, quando ainda te encontro, na luz dos dias entre um vir a dizer ...dos teus medos, dos teus desejos destas coisas que de longe me fazem despedida.Amanhã...não lembrarei que parti. Depois, nem mais distante em teia de mim.

domingo, março 13, 2011

Apresentação

Meu apelido é... Companheira.Chame-me pelo nome, a vida inteira.

sábado, março 12, 2011

 

Vestígios de vinho

O vinho da casa é
chão das tábuas,
barco das águas,
lençol do amor.

Antônio Amaral Tavares falando do tempo destas coisas

OS CROCODILOS DO RIO
Os crocodilos do rio esperam famintos
a flor branca dos primeiros corpos que se
afundam na água dos próprios olhos
ao queimar do pano da tarde quando
nos corações já rarear a erva verde. A morte

ama estas casas de gesso construídas
sobre a febre o alvoroço do movimento das patas
os registos de viagens remotas
estes gestos de barro tão velhos de
quem sempre atravessou este rio. A morte

insurrecta espalha pétalas muito brancas
sobre as suas águas como outro sinal de si
mas é negra a noite que descansa sobre o rio.
Ah outras sombras que se inclinam
como uma asa e ali se perdem. A morte

ama estas casas turvas de lodo. Os gestos
de barro são da idade do rio
só ela é mais velha ela tem a idade
das primeiras poeiras a morte.

Insaciável desde então.




sexta-feira, março 11, 2011

Meu partido de esquerda

Minha esquerda nasce no não dito.Perpetua em fala a verdade do grito.Incha o peito e o sexo pela denúncia em sigilo, dando leite ao seio pela verdade do filho.Sem volta, criou o verbo no infinitivo.