quarta-feira, fevereiro 16, 2011

UMA VISITA ENCANTADORA NO INDECENTES PALAVRAS- Falando sobre reconstruções com Antonio Amaral

A INTERRUPÇÃO DO ROSTO

1. interrupção da boca

Onde um astro havia que queimava à distância os lábios
por causa da ignorância que de si crescia na boca
como uma pedra fria escurecida

2. interrupção dos rios

lavravam os rios as pessoas sem terra
encardiam as mãos e os pés com o mistério
dos choupos acesos pela água e deles dos rios
guardavam apenas o rumor que se lhes ouvia
ao atravessarem juntos o tronco nu da tarde

3. interrupção das palavras

a madeira chegava à cidade para
construir casas e acender lareiras
toros que vinham de longe
da luz rápida das inclinações sobre os rios
que no seu sangue deixavam a imitação
do movimento
que vinham das vésperas do gesto largo
de vidro do machado inicial
onde o olhar não penetra a bruma
são vazias as palavras
sem o sangue dos primeiros nomes
bestas que nascem mesmo assim
lembram ausências
em casas a que se perdeu a chave

4. interrupção das casas

as pessoas guardavam os cobertores e os lençóis
em arcas que arrumavam sob a luz tardia
como se preparassem os minutos para a noite
e quando chovia olhavam pela manhã da janela
a curva da rua que tomavam para o trabalho
onde a água no inverno se acumulava muito funda
e quando ao fim do dia chegavam a casa fechados nos muros dos passos
bocejavam de fome e sono o frio que traziam para as mesas
as casas são palavras com paredes
frases que chamam pelo calor de um nome habitado
aqueles que a elas regressam

5. interrupção dos cabelos

as pessoas traziam os cabelos apanhados
e na algibeira pedaços de silêncio que recolhiam
os seus avós nas aldeias debruçavam-se sobre as horas da terra
para apanhar as batatas
espreitavam por hábito ao fim do dia o avanço da vida
na porca parideira no pocilgo e antes do deitar
ouviam em pequenos rádios canções que os ponteiros
do relógio decoravam como decoravam o seu caminho
não é fácil os cabelos esquecerem a linguagem idêntica do vento
transformarem-se em arame

6. interrupção do olhar

o olhar das pessoas parava no ruído da areia pisada
e no mato dos bosques que da acidez da luz
não protegia
das casas altas do tempo não havia notícia
ou da forma como o mar recebe a curva larga das gaivotas
os peixes que a profundidade guarda
e desse mar algas havia que queimavam os olhos
e eles por isso o ignoravam como se ignora o mundo

7. interrupção do rosto

como pode o rosto ser contínuo
sem o vidro da memória
que do sono se não levanta
como se pode
com a poeira das pedras continuar o rosto

8. interrupção do silêncio

vestem camisas engomadas as pessoas
para calar os murmúrios que se escapam
da nudez dos troncos sob a luz trémula da tarde
procuram no silêncio o casaco para o frio
e o ruído dos carros que passam nas suas ruas descendentes
é abafado e perde-se no esquecimento da curva em que terminam
as cidades despem aqueles que morrem longe dos rios
de que perderam o risco sussurrante nos mapas
e bebem o mosto do seu silêncio

9. interrupção da fala

dificilmente se calçavam de manhã as botas
ocupadas que estavam pela sombra das palavras
recolhia-se o reboco do chão junto às paredes
da interrupção da fala sabemos porque
no muro precário das palavras ficou
a impressão forte de uma mão a cor de sangue
o primeiro gesto
de quem entra nessas casas de barro
à beira do deserto.


Antônio Amaral

visitem http://acasaquecaminha.blogspot.com/ de Antonio Amaral

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Eu e Freud III

-Pois é...a primeira vez que lembro de estar nestas coisas foi na, também, primeira festa que participei.Na época chamavamos de boate.Hoje " boate" é outra coisa...
-Kjdgdhdhhd
-É...tudo é uma questão de nomes...Pois é, então era a primeira vez que eu ia num negócio destes.Mas, eu não tinha sapato de festa! Sapato de festa! Olha o nome! Mas eu não tinha um diferente, algo que não fosse meu tênis ou uma bota de chuva.Eu só existia para ir à escola!Vê só!
-Sapato diz do pé?
-É....O sapato diz quem somos.Mas hoje até engano...Então arrumaram um sapato esquisito, de uma prima.Hoje usamos! Aliás, hoje não tiro do pé a tal sapatilha.Tenho problemas com os pés...são tortos por causa do balett.Tenho dificuldade de achar alguma coisa em que eu me sinta...que eu saiba caminhar ( eheheheh).
-bdjdhdurtyd
-Chão?Pois é...era uma sapatilha que na época tinha o nome de " bambucha".Era azul!E lá fui eu, para o clube da cidade , com a tal sapatilha no pé.
-Tala?
-Tala?...É.Eu estava machucada, apavorada, esquisita, sei lá...Então achei tudo diferente mas a música me salvou.Fiz par com ela de uma forma que não nos largamos mais.Adoro dançar!Lá pelas tantas, perto  de mim chegou o Luís ,que tinha o apelido de Tuti, e perguntou: é tu a cinderela? Disse: não!Acho que não!É sim, disse ele.Por causa do teu sapato...os caras tão te chamando de cinderela. Fugi! Fui para a casa!
-Obedeceste?
-Como assim?
-Sim!  A cinderela vai embora, não fica para sua própria festa.
-...pensando assim...
-E queres continuar cinderela?
-...podendo usar sapatilha sem incomodar ninguém... É que no outro dia, na escola, uma colega quis comprar meu sapato...
- eheheheheh
-É! Isso me apavorou porque ele era velho e eu nem poderia vendê-lo!...Mas gosto de sapatilhas. Posso me sentir confortável para dançar.
-E ...
-...será que vou amar de novo?
-...É...Ficamos por hoje?Até o próximo...dia.

Noite de ano novo

Conte com meu alfabeto, com o que antes não tinhas.Cantarei uma canção: és minha, és minha!

Luciano

Dia de ano novo

A partir de amanhã, nunca mais vou comer gordura.Vou dormir sempre nua e jamais esquecer o batom.Só farei amor se no dia, as palavras à mim prometidas, contarem letras que meu corpo pode abrigar.Ah! Amanhã serei diferente e mesmo que não conte a toda a gente, saberão o que se risca em mim.Só por descuido vou rir sozinha, acompanhando a luz cristalina da verdade passageira, sem fim.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Para conferir

BLOG http://manchete-de-ontem.blogspot.com/
Excelente iniciativa que faz com que a gurizada escreva, opine, seja sujeito de sua fala.Parabéns ao blog.Confiram o texto de Georgius Esswein, conterrâneo da cidade e...aqui de casa ( eheheheheh).

domingo, fevereiro 13, 2011

Freudianas reflexões sobre " os nós" I

A VISÃO EM PARALAXE-NOVO LIVRO DE SLAVOJ ZIZECK-PEQUENA REFLEXÃO
                                                                                     ADRIANA BANDEIRA
A visão em Paralaxe, novo livro de Slavoj Zizek faz título a este comentário. Ainda não li o livro mas, surpreendeu-me a posição discursiva deste pensador de nosso tempo, o que provavelmente vai estar gravado nas entrelinhas de seu texto.
Longe de tê-lo alucinado como o melhor, simplesmente fui surpreendida por um : mãe vem ver um cara “f”  intitulando-se psicanalista teórico!Parei tudo.Diga-se de passagem, parei no meio da construção de um texto sobre “Vício”...ou “O vício de si”.Pois bem, este Slavoj Zizerk coloca-se desta forma mesmo: psicanalista teórico, abrindo uma concepção diferenciada daquela que fundou a psicanálise,uma clínica. Porém, coloca-se não tão longe desta prática, naquilo que fala sobre um social, que só pode ter sido escutado enquanto fala, enquanto sintoma. Nisso argumento que estaria em conformidade com um possível ranço sobre uma clínica individual, burocratizada e fadada ao fracasso enquanto a serviço da fala emergente, do sofrimento que nos vem hoje.Não penso assim mas...quem sabe ele não se diga clínico para não lembrar que é no um a um que ocorrem as revoluções, os movimentos de si, de cada um, porque talvez isso fale dele mesmo, naquilo que somente sua escuta produz em conformidade com sua causa.
Para além dos ranços, é de uma trajetória de escuta da história, do traço social enquanto repetição diferente que ele organiza uma possibilidade.Ele é...genial!
Justo no momento em que eu pensava nas toxicomanias, na drogadição e no olhar dos que consomem crack; justo neste contexto do tal” Vício”  Salavoj, em Roda Viva no youtube, vem me falar da opacidade do olhar daqueles que voltaram do inferno, do holocausto.
Fico pasma! Fico estática voltando há tempo para continuar a ouvi-lo na excursão pela sua fala.
Diz-me ele, ao pé do ouvido, que o holocausto inaugura uma  outra forma do pós traumático.Seria: o sujeito sem seu Ser.Descreve os sobreviventes com aquele olhar sem brilho, aquele jeito zumbi que eu mesma encontro na maioria dos que fazem uso abusivo de drogas.Fala de sua teorização dando conta que este pós traumático funciona nos países do primeiro mundo pois que nos do terceiro, não há pós traumático mas...trauma, e trauma novamente.
Traz Descartes para a discussão situando o sujeito cartesiano como este que desfez-se de seu ser.Isso não lhe pertence mais, sua consciência, sua razão já que o Ser está onde não pensa.A existência está onde não é mas pensa que é.A situação entre pensamento e consciência merece outra leva de reflexões!Deixemos, por hora!
Mais que isto, Slavoj chama Marx para a discussão dando ênfase ao conceito de proletariado marxista como sendo aquele que está alheio ao que produz; não pertence a si ,não só sua força mas também seu pensamento.
Oras...Fico imersa numa posição esquisita em que questiono a obediência ao trabalho requisitado pelo tráfico ( afinal dá dinheiro), ao valor dado ao objeto que transita valoroso como A coisa prometida.
Porém, o trauma que se perpetua, não é mais trauma... É o quê?Aponto uma geração de sujeitos que não vivenciam a violência contra um si mesmo; não estão no trauma, nem no pós trauma. Fazem do estupro um pagamento, da morte um pagamento, da vida... um pagamento no real ...a qualquer coisa que se perpetuou.E o que se efetivou?
No início do séc XVII, quando as crianças passam a ser amamentadas, cuidadas, está o corpo como possibilidade de trabalho, portanto condição de revolução. Hoje o “sopro” é descartável, sem texto que o antecipe ou anteceda, que o vingue no sentido do plantar. Este corpo fadado a ser violado nasce como para a isto se dar. Porém, nem como sacrifício, nem como linhagem  (condição dos filhos antes da revolução francesa), mas como inexistente.
Pois é...O traumático institui uma condição humana que dá conta das aprendizagens  (aprender a falar é traumático), no sentido necessário do trauma.Noutro contexto é da ordem da perversão, da morte simbólica de um sujeito ou de um povo (como foi o caso dos judeus) num espaço de tempo (minutos,horas, dias, anos).Porém, quando falamos de trauma que não há de ser visto como um depois...estamos diante da morte de fato.Então...não há nem “ vício de si”.
Pois bem...este Slavoj me deixou com algumas questões e embora não ache justo, fica esta visão um tanto pessimista.Julgo retornar a este assunto depois de ler o livro e desenvolver um pouco mais o que tenho a dizer sobre: a relação desta falta de um si mesmo  com a possibilidade de ler e escrever .
Convido-os a entrar na discussão.Vamos?
Até mais.
Adriana Bandeira

Para escutar Pedro

Ouvir é desenhar
a cor da palavra.
Falar do vazio
prenhe do nada.
...É tecer uma
verdade.

A escuta cristalina de Pedro Du Bois

OUVIR

Ouço o corpo em lembranças,
estremeço; penetro a música
e me expando em cantos: letreiros
iluminam as ruas, a dor opaca
o caminho: em mesas reunidos
homens desdenham a farsa
da novidade. O corpo alenta
o desejo; entrevejo o fogo
apagado. Danço o terminar
da hora; esqueço ao atormentar
espíritos. A ultimação
do fato transfigura
o papel em desenhos.

Pedro Du Bois

No cafezinho mil palavras que restam presentes, poemas de anunciação.Ontem com Cris Macedo,Elvio Vargas e Jorge Rein

SERPENTE

Tua língua
pérola
perfaz caminhos
de cetim
Tua lânguida
língua
percorre lenta
a carne púrpura
Tua língua
brilho em mim
libera sumos
espreita espasmos
Tua rija
língua
lambuza a trilha
cria estrelas de marfim.

Cristina Macedo




MASCARADOS

adivinha quem sou
mas não te vires
se me vires verás
eu desencanto
viro estátua de sal
de puro espanto
meu cisne volta a ser
patinho feio
sem qualqeuer guarnição
sou um prato cheio
no jantar semanal
dos sátiros anônimos

               Jorge Rein


BOLSA ROMPIDA

Depois das contrações
apareci.
Duas palmadas fortes
e uma sede ardente
me desperteram.
O seio anunciado
estava seco
nunca chorei
pelo leite não derramado.
Troquei as dores do Édipo
pelas feridas de Rômulo.
Um destino duro
sempre me guiou.
Domino pouco
a arte das palavras.
Só isto basta
para ventar
céu,infernos e mortalhas.
Guardo a sete chaves
desde os meus primeiros dias
ferramentas,utensílios e
os mais estranhos
brinquedos de Jó...

                          Elvio Vargas

sábado, fevereiro 12, 2011

Banho de mar

Todas as vezes que vou ao mar...mergulho.Oferto-me!Se ele quiser me levar...

lembrança de carnaval

A música te traz.E hoje não esqueço meu vinho, meus ancestrais. São as músicas e a máscara...são as fotos do carnaval.Venha!Sempre estaremos a sós.

Fantasia

A verdade da nudez é a fantasia.Noite ou dia é sempre uma a cada vez.

Assassinato de criança

Senti a água correndo, refazendo o corpo vermelho no chão.Hoje,meu melhor perfume e o vestido de seda, vinho e batom.Ouço minha respiração em suspiro, enquanto guardo um punhado do vento, para levar de lembrança.Volto correndo como criança, para aguardar na sala os que vem me buscar.Recebo a todos na verdade do sorriso...gratidão.Espero enfeitada! Sem ninguém saber,assassinada.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Tubarão fêmea

Te devoraria em pouco tempo,espaço instante em que tento curativos, milagres, mandingas.Para dizer que tuas são todas as minhas,mais antigas mordidas.De presente te dou toda esta falta que me faz uma , não mais, palavra a ser dita.

Brinquedo de A

Ganhei um brinquedo esquisito,
há muito tempo atrás.
Ganhei a denúncia  de tantas
morando em mim sem censura
que respiram mais do que ar.
Foi uma letra apenas
estas que marcam "A"
O resto monta e desmonta
e não passa sem parar.

Idades de fevereiro

Minha melhor bobagem... fundamental presença do detalhe: faltei-me.Era apenas uma coisa de passageira, da última das minhas idades.

Construção de mim

No gesto palavra de tantos, reconstruo minha sombra...e a de quem amo.

Amanhã

Amanhã me vestirei de festa.Para te ver, cor de risada.Chega do luto das horas em que morro e nasço a cada fala.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Ensaio sobre o amor VII

Todo o vinho, todas as palavras, todas as madrugadas...para ti.Pela rua alguns param.Outros resmungam indignados.Apenas as crianças me rodeiam desenhando uma pequena contenção.Fazem uma espécie de cortejo num reconhecimento de que algo muito sério está acontecendo.A calçada se torna pequena diante dos que se aglomeram e observam incrédulos.O melhor dos amigos tenta me dizer alguma coisa e diante de meu olhar apenas sucumbe.Falta pouco, alguns metros...e o banco da praça ainda está vazio.Onde estás?Às crianças vou contando uma história que elas adotam como verdade de amor.
Sigo sem medo, embora no início temesse o recolhimento.A polícia apareceu e diante de tamanha fila de gente, sumiu, fez-se pequena, esfarelou.Mas sei que vai voltar.
Uns assistem, outros falam.Comentam sobre minha embriaguez.Nunca estive tão lúcida!
Surgiste neste momento...sem pudor algum.Ainda vestido como quem já morreu.Uns avisaram: já morreste! Chamaram o juiz e não teve mais jeito.Algumas mulheres pediram pensão, pela falta de pudor, por desacato ou traição.Alguns homens me olharam magoados mas aos poucos, com cuidado, entregaram-se todos à música que invadiu o lugar.O silêncio do mundo estava ali.
Sentamo-nos e carregavas uma pequena chave dourada.A chave da cidade ou da mulher amada?
O dia  se indo e as estrelas aparecendo.A multidão se desfazendo, carregando as roupas de cada nudez.Uns por ali dormiram esperando o próximo acontecimento.Outros se recolheram com a melhor imagem da vida.
Ali ficamos até hoje dormindo, amando, plantando palavra no corpo ardendo...Ainda na espera da polícia que não veio, da ambulância que não me  levou louca...
Aqui estamos falando e rindo no meio de tudo.Agora sabemos o que segue no frio que desata: as únicas canções de amor...feitas na praça.

FIM
EM BREVE OUTRO FOLHETIM...que este estava meio meloso...Mas folhetim não é assim?

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Máscara de poesia

Escolho a máscara sincera,verdade estreita esquecida.Prefiro o dia amanhecido na beira da colheita escrita.São as plantações que se rendem ao que lhes resta: existir.Desejo ser estrela que arde... até em ti se extinguir.

Visita de carnaval

A lua procurou-me, dando notícias tuas.Disse-me que no folhetim, andavas toda nua.Bobagem disse à ela mentindo, como se não temesse o pior: a terei como faz casa todo o doce caracol.
Afinal, um louco de cartola tem lá seu secreto amor.O meu é escancarado de todo prazer e dor.
Diga-me, minha querida, qual preferes afinal?Uma paciência sem fim ou esta audácia sensual...de te fazer minha estrela , meu par no carnaval.

Estarei mascarado de poesia.
Luciano P

Vício em palavra

Vício é esta denúncia
que se abre em botão.
É quente e terno sussurro
palavra rompida, contradição.
Vício é ainda voltar
por si à igual letra,
canção.
Fazer-me outra sempre
só para ouvir a mesma
voz sem repetição.

Incestuosa

Pão feito em casa é cheiro de palavra que se tenta roubar.Como!?Não dá para ocupar a cama dos pais.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Ensaio sobre o amor VI

Já li Cervantes...e todo o riso do mundo me invadiu.A risada é universal, o cômico é  carnaval.Não sei.
Lembrei-me das tuas invenções.Tantas só para estarmos juntos.Mentias e eu sabia disso tão bem.Não há na verdade nenhum mistério, por conta disso se inventa critérios: textos, canções, ideais, soluções.
Na primeira vez consenti e nunca dormi.Na segunda vez fui tomada, de assalto pela minha embriaguez.Na terceira vez eu sabia, era a despedida.Não mais te queria às pressas, tudo tem seu fim.
Pena que não foi assim.Se tivesse sido hoje eu contaria a história mais linda, com um final.Detesto histórias sem finais.Seria a cena com começo,meio e fim.A apresentação!
É estranho quando somos atravessados pelo que não se desata.Abre a melhor e pior estrada.Então transgredimos...e para o amor não há lei, como continuar a se ver, mesmo depois de morrer.
O vento é forte demais e talvez eu sinta frio.Tiro meu vestido e percebo que estou diferente de quando o coloquei.Oras!Claro!Para estas coisas, estes vestidos, estas palavras...o tempo nem sabe de si.Nem eu.
Tenho a pele clara e preta.Sou filha de lavadeira, daquela que cuidou de mim enquanto ensinava sobre as roupas sem fim.Nasço todos os dias negra.
Minha roupa mais íntima, por fim, vai deixar meu nome a mostra.Sou uma...Não demora.
Quero te encontrar com todo o vinho, meu sexo e minha transgressão.Que isso seja um vento impossível de conter, que isso seja a próxima vez.E detesto o que não tem fim mas...como já disse, sou filha de lavadeira e minha pele é negra, a única que vai sobreviver ao sol de amanhã.
Tiro o soutien e a calcinha.Ainda minha, a tua falta de ontem.Agora não há como voltar.Estou nua de fato, desde que aprendi a falar.
O quinto cálice de vinho.E ainda danço Piazzola, como um louco de cartola que sabe destas coisas em mim.Salto, giro e...não há encontro mais feliz!

Cegos de nascença

O meu vestido preferido era de bolinhas, depois de alcinha.Mais tarde era negro, branco, vermelho.Agora de listrinhas...arco-íris...As palavras tem a cor do outro que nos vê.Habita-nos uma cegueira sem porquê.

A traça

Renda diferente, mostrando que o tempo faz reza, fenda, enfeite.Pele tecida entre uma e outra.Átomo que une sem deixar o vazio da hora.São buracos ou são demoras?Apenas a rasura perfeita da verdade, arrumando o vestido para a próxima idade.

Sumiço

E eu sumi ontem.Só voltei depois.Disseram que fui, disseram que não.Agora lembro de uma eu apaixonada.O que se deve aprender?Sumi mesmo! E eles não querem saber.

Sérias intenções

Envio fotos e alguns jornais.Quero que sintas o ar daqui, minhas palavras, meus ancestrais.Vovó, meu tio,minha irmã...o vinhedo.A garrafa de vinho, minha falta de respeito.

domingo, fevereiro 06, 2011

Queimadura dágua

Minha queimadura...Ah!Apenas arde no tempo que nem tem pressa de esquecer.E fala sobre a pele da água que se renova palavra-toda, a cada novo dizer.

Encontros vocálicos

O vazio fundou meu braço,
entre tantos o que seguro.
Esta nudez verdade
riscando escada e muro.
Contorno sem pertencimento,
senão palavra.Tão tarde!
Não durmo sem ser amada.
Tão cedo! Flutuo
nestes encontros de vogais e gestos.
Entre: é só mar aberto.

Poesia " Tipo Importação" do blog http://cris-cristinamacedo.blogspot.com/

ADOÇÃO

Não sei se te contei
mas há algum tempo sou minha
me adquiri num mercado
onde o escambo era da posse pela liberdade
me obtive numa dessas voltas da morte
me acolhi num desses retornos do inferno.
Dei banho, abrigo, roupas, amor enfim.
Adotei o meu mim
como quem se demarca e crava em si o mastro da terra à vista
a cheiro, a tato, a trato, a paladar e ouvido.
Não sei se te contei
me recebi à porta da minha casa
abracei, mandei sentar
Abracei eu mesma, destranquei a porta
que é preu sempre poder voltar.
Dei apenas o céu à sua legítima gaivota
Somos a sociedade
e ao mesmo tempo a cota
Visita e anfitriã
moram agora num mesmo elemento
juntas se ancoram
na viagem das eras
No novelo do umbigo
No embrião do centro
No colo do tempo. 


Elisa Lucinda no livro " O semelhante"

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

"Incensurável",Suspiro longo em resposta

Ainda recolho do teu rosto,
minha lágrima inquieta
sombra vísivel de qualquer espera.
Traço, marca cenário da tua ruga inteira
delícia que se abre rasteira,
estende um manto, coberto na relva...
São braços da calmaria que se abrem em palavras...
Rias! Enquanto me fazias várias,
tantas quanto são as que desejas.
Rebento, acaso...
Amo a decência, a ternura, distância infinita
que faz com que te desenhe todos os dias,
na palma da minha mão
na falta do meu destino
não há solidão

Censurável ,achado de Jorge Rein

minha mão é um ancinho
sulcando a terra escura em que penteio
o crespo crepitar dos teus cabelos
se os teus lábios me afloram
minhas unhas te afaunam
e o botão do desejo
germina primavera entre meus dedos
pulsando as melodias que sugerem
um canto de sereias
no porão do teu sexo


Jorge Rein

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Em www.vidráguas.com.br Versos que ConVersam em Poemas EnRedados

Na home page Vidráguas: Versos que ConVersam em Poemas enRedados.Poesia feita a várias mãos, vozes,intenção.Projeto Vidráguas trazendo esta experiência encantadora de ouvir a poesia que continua falando depois de escrita.
Parabéns à Carmen Presotto e Ricardo Hegenbart
beijo grande

Palavra nos olhos, delicadezas de Elvio Vargas

                                            AVOANTES

As cidades são circos iluminados
onde as almas brincam de ciranda
os palhaços trepidam em bicicletas
de uma roda só...
Os pipoqueiros pipocam nuvens brancas
nas suas máquinas de pipocar.
As pandorgas que criamos
não voltam mais
viram pássaros.
Teu desejo de ficar
a renitente lágrima
a cálida mirada
para retocar o carmim borrado no lábio.
A palavra que gagueja
e morre lentamente
no cemitério vivo
daquilo que não falamos
mas remoemos...até que esfarelem
as lembranças...
nada mais é do que a VIDA!!!
Desde que nascemos
estamos partindo.
Desde que a vida brotou
em nossas horas
estamos morrendo.
Partir é a última atração
dos olhos infantes diante dos mágicos
pois um dos coelhos sai da cartola
mas é o avoante que alça voo...


Elvio Vargas

Eu e Freud II

-Pois é...Então é possível que já tenhas morrido? Fico pensando sobre esta coisa de se ver e ouvir aqueles que não existem mais...Sendo de alguma vida a curiosidade sobre a minha...um "et" olhando riria de mim.Posso eu mesma já ter-me ido...tantas vezes!
-kjuhmcndhd
-Como?É ...quando me enganei.Mas me enganei mesmo, sabe?Eu não sabia que eu estava me enganando(ehehehehehe).
-Ah!Sim!
-Ontem mesmo, fiz isso.E rio de mim quando percebo.Tu já sentiste um vento forte?Quero dizer...mesmo depois do...mesmo depois de...morto?
-Como sentir sem ter morrido?
-Ah?!Como assim?Ah!...Entendi, entendi...quer dizer que somente depois de ter aprendido a falar é que sabemos do que falamos?
-E quando aprendeste a falar?
-Quando morri, pela primeira vez.Quando nunca mais fui a mesma, quando nunca mais fui o que quiseram que eu fosse...quando vivi qualquer coisa como "sair de casa".
-dftsghssyusjsusnst
-Gostaria de voltar!
-Para onde?
-...Ah!
- E dá?
-...Acho que não.
-Por hoje...ficamos?!
-Mas afinal...Morreste ou não?
-Eheheheheheh.Acho que sim, não?

Para Luciano

Lúcida brisa que se abre em larvas.Vulcão esquecido que habita minha jangada.Lúcio, teus olhos de azuis de águas...somente elas mornas, frias, sagradas, abrem rios e mares, palavras.Amadas! Tuas mãos nos cabelos de abril.Estarei vestida de estrela , quando me encontrares.És todo o ceú que faz este secreto brilho verter de mim.Como parto, como morte, como vida enquanto, anos luz, existir teu sim.

Inverno

O silêncio que brota me diz que estás de férias.Quero hoje, rua, festa!Mesmo longe, te enfeitar o cabelo,aquecer tua cama por que aqui é inverno... e te espero... na primeira manhã de abril.

Lúcio

Taquicardia

Quando ouvi sua voz, me encantei.Esperei que parasse a qualquer momento.Eram segundos, tempo em marcha ré.Alguém já ouviu o coração no pé?

Nós tantas

Nunca mais me deixem...dizia à elas tantas que apareciam no meu espelho.

Pensando na vida

E hoje precisei fazer força para não viver.Precisava pensar um pouco.

Sabes demais

Encontrando-me na rua, não me reconheça.Não sou a mesma de instantes atrás.Nasci há tão pouco tempo que tenho medo dos que sabem demais.

Bolinha de sabão

E foi cescendo, virando a melhor coisa que há.Não respirava sem ele, eu para ele o ar.Ploc!Bolinha de sabão.

Mulher de cortador de mato

Se hoje se alivia amanhã nem mais respira!Esta vertente esquisita que seca quando nem é verão.Nem dá prá bater e nem enxaguar...a roupa que arde e se derrama por terra.Nem sabia que era...que nem água havia de limpar toda esta quietude, este céu , este ar...que eu nem queria prá mim.Se vai na vida vestindo a roupa que o sabão devolve.E faz bolha, rosca, silêncio...que nem o vento desculpa o que fiz à mim.Nem era destas paradas, nem era um ai daqui.Queria doer lá na feira, gritando prá vender aipim.Queria ter meu dinheiro, meu cheiro que não fosse o dele.Mas...a barriga se repara quando não sangra mais todo o mês.E que venha alguém do bem.Não feito eu...que não me perdôo, que não me perdôo, que não me perdôo...por me fazer tão sem fim.

Mulher do mato

Marcado pelo que me desenha, cada traço que escrevo fala mais que a dor.Tenho mão de mulher...de mato "cortadô".

Palavra tatuada

Pés descansos na terra...chão ligeiro no ar.
Um salto, uma quebra, a denúncia de quem sabe voar.
Braço estendido, pedido; que se ande, se alce, se trame sempre como da primeira vez.
Palavra tatuada...De onde vieste? Respondo: amei.
Jamais se retorna de lá.
Sonhei.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Casa de caracol-gente

Misturo cimento e areia.Água.Um a um tijolo feito mão.Cavando fundante, o desejo que suspende a frase e a paixão.
São as casas bem construídas sem risco de quebra, de desabamento.São as falhas bem arejadas, rasgando janelas e estradas.
A melhor casa é a que surge diferente.A melhor é de caracol-gente, carregados pela palavra, verdade de sempre.

sábado, janeiro 29, 2011

Fazendo as malas

Um vestido, uma palavra e o rio em cheia.Barco e areia.A última mirada ...casas acendendo como estrelas.
Alguns vestígios e cheiros.
Toda a madrugada, toda a rua calçada e a de chão de antes de mim.
Levo o estaleiro, meu varal inteiro e a noite sem fim.
O silêncio dos que não viram os fantasmas, o grito dos que abriram estradas.
Acabei de fazer as malas.
Não volto sem passar.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Meu tempo

...ou fiz de tudo para não ver-me.Passei longe dos espelhos, das águas, das falhas; ou  nada. Deixei que o tempo fizesse por mim.Vez ou outra volto, me recolho, as tantas, as poucas que se espalham ainda nos mesmos lugares.Outras vezes começo a olhar, sem fugir, sem matar e reparo que algo permanece, algo não me esquece.Esta sou.
Não sem pressa...o tempo foi longe demais.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Atadura

da poeira,
o rosto
rasgão-palavra
hemorragia atada.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Que saudade do Miguel

-Que bom que te achei!
-Eheheheh, guria!
-O que foi isso, hein?Porque não avisou?
-Não deu tempo ( hihihihihihihi).Morri,guria!Morri!
-Pois é cara...Tá difícil passar ali na frente.Lembro do cafezinho e de fumar por tabela.
-Ora, começa a fumar ( eheheheheheh).
-Tu tá te divertindo, né?
-Tô.Mas hoje podemos falar.
-Até cafezinho coloquei lá no consultório.Então mato as saudades.
-Vou aparecer.
-Ah!Não! Isso não! ( eheheheh)...Estou escutando aquele cd que me deste de presente...com aquelas músicas gravadas.Adoro aquela que primeiro , em inglês , ele a convida para dançar...com a voz bem baixinha.Algo assim: ..to dance...
-Hihihihih...Tu sempre com estas coisas de romantismo.É o que vale, Adriana!É o que vale!
-Quero saber o que fazer com o livro vermelho.
-Que livro?
-Aquele que me deste para guardar...Há uns 32 anos atrás."Os protoclos dos sábios de Sião".
-Psiu!Não fala, hein?
-Pois é..pois é...Preciso te confessar que na época não entendi nada!Mas disse que sim.Continuo guardando?
-É.Eu sabia!Mas ( hihihihih) ..nem tem mais comunista por aí, tem?(eheheheh).Tudo perdido, Adriana!Tudo perdido!
-Eu tô por aqui.Mas acho que Os protocolos...este livro não é mais proibido...Olha só...tu viu este negócio de blog?
-Heheheheheh...vi sim!
-Porque tu me contratou repórter quando eu tinha treze anos?Olha no que deu?
-Eu disse, eu disse...Guria, vai firme, vai firme.O importante é fazer coisas que te dêem felicidade...felicidade(eheheheh).Hoje tô romântico!Ando gravando uns outros cds.
-...Porque tu não me chamou?
-...Porque eu precisava ir...e agora continuamos.Sempre fomos...clandestinos, não?
-Sim!Clandestinos, Vozes secretas...Sabe que todo mundo em casa me achava meio maluquinha?Tu que me reconheceste como curiosa.E, melhor, não sendo isto algo ruim!Tenho saudades.
-Eu também; " Pega a máquina e fotografa o que achares interessante.Depois escreve..." Lembra?
-Sim.Só não sei mais...fotografar.Talvez esta coisa de olhar fosse tua...
-Hihihihihihihi.Acho que sim.
-Vamos?
-Vamos: ..." to dance..."

Adriana Bandeira

Olhando estrelas

Convidado é sempre convidado!E invadem Indecentes Palavras deixando o cartão de visitas.Vamos até lá?

Élvio Vargas..............site: http://assisbrasil.org/joao/elvio.htm

Daniel Gehlen............. site: http://musicasdamusica.blogspot.com/ 
E ele também é poeta:"olhando estrelas... da janela de um trem vou para um lugar onde não sei bem, mas levo o violão para me acompanhar, pois não há nada melhor que o amor, a viagem e uma sereia do mar"

segunda-feira, janeiro 24, 2011

SEREIA DE ÁGUA DOCE FAZ A MELHOR CANÇÃO-No rio Ibirapuitã, com Elvio Vargas


SEREIA DE ÁGUA DOCE FAZ A MELHOR CANÇÃO- No rio Ibirapuitã, com Elvio Vargas.
1-      Água doce em pedra dura tanto bate até que escreve!(eheheheh). Fiz uma analogia, uma reflexão.Penso que somos nossa cidade, nossas imagens, as que criaram palavras em nós.Isso acontece comigo, quando retorno ao cais, ao estaleiro só para ver se encontro um sentimento  de anos atrás.Esta falta é que faz escrever...Tu vens de Alegrete, cidade cantada em verso e cor.O que, desta tua aldeia, faz verso na tua voz?

-Existem poetas que criaram-se nas vizinhanças de água salgada,doce, planície e montanha. Cada um carrega sua orfandade  e força nos signos de sua linguagem...e para tanto, colecionam os ícones que irão de uma forma ou outra moldar sua poesia.Borges, quando falava de sua distante Palermo, cidade que fica perto de Buenos Aires, emocionava-se. Ao falar do Alegrete,ao falares de tua Montenegro,e assim por diante...o que fica gravado para o resto de nossas vidas são aromas e  lembranças  dos meninos que fomos.Escrevo para velar a criança solitária que fui...o moço que em mim morou, e agora sigo, escrevendo ,para me defender da solidão dos dias maduros.Perdoem-me os muito alegres e felizes com suas escrituras...minha poesia é catarse. Alegrete é a minha Ítaca, a gente sempre  pensa que saiu de sua cidade, briga com ela, erode-se em ira e desafeto, mas  lá no fundo...jamais a deixamos. As almas não trocam seu domicílios, que os cambia com facilidade são os corpos e as sensações.Quando grandes amigos meus me perguntam, pois na minha geração, este ano, estaremos completando 60 anos: Élvio!!!!!!!!....qual é o motivo que recebemos tua visita poucas vezes ao ano. Respondo-lhes: terei toda a eternidade para vizinhar com vocês..............

2-      Na tua home Page, sabemos muito do Elvio. Suas premiações ( muitas), o reconhecimento, as amizades...Enfim! Soube , por ali, da tua pizzaria, da proposta que se aventurava na reunião de pessoas em torno do comer e do texto.Poderias falar um pouco desta experiência?

-Sem medo de errar e amparado por uma rara felicidade, lhes confesso: Foi um dos mais belos momentos que VIVI, enquanto empreendedor,PAI, esposo, empregador, amigo e POETA...A DA VINCI virou uma lenda (ao menos para mim e para a gurizada de então), todas as noites eram uma festa.Nas minhas mesas muitas gerações passaram, riram, fizeram seus aniversários e viveram com qualidade ímpar seus momentos de plenitude...Não era raro ver meus filhos ,e o de outros, dormirem em cadeiras que ajeitadas viravam pequenos berços...
Vou lhes contar uma história de miséria  e ternura que ali fui protagonista, e o que representou para mim a grandeza do coadjuvante.Nosso movimento começava às  19 hs e findava as 23hs.Seguidamente um homem maltrapilho rondava o portão da pizzaria ,até que uma noite ,eu pedi ao meu amigo e garçon  Éder( que não reside mais entre nós) que fosse saber o que ele queria. Voltou com a resposta: Ele quer um pedaço de pizza, pois está com fome. Disse-lhe que pegasse na cozinha e lhe desse.Tal doação virou dízimo...mas não me importunava. Um bela noite , ele entrou no portão, e foi até a janela onde eu ficava, e me disse: Senhor,por não ter nada para lhe presentear e por morar na beira do rio Ibirapuitã, procurei por uma pedra bonita e achei...gostaria que o Senhor aceitasse.Diamantes são lágrimas mineralizadas pelo clarão do luar...


3-      De Alegrete, boas colheitas... Porém, fico pensando cá com alguns botões (ehehehe...lembrei que pediste para que eu ficasse com os meus bens fechados) como foi esta descoberta das palavra-poesia vinda de ti.Explico: terra de boas colheitas, de plantio, de gado forte e de homens que perpetuaram um imaginário ligado a isso.Quanto à lida com a palavra, talvez o touro mais bravo que exista,há um caminho percorrido.Do campo à letra, à construção disso no papel.Como foi para ti, esta trajetória?

-A pobreza, ócio e excesso de tempo ,é um trinômio perfeito para equalizar o despertar da verdadeira vocação da arte.É só leres a biografia dos poetas, pintores e outros.Claro que depois vêm a técnica, o conhecimento e a disciplina.O bucolismo hediondo das nossas longas noites de hibernia ou os sois abrasivos dos verões da fronteira, geram solfejos que mexem com os espíritos e estes nos elegem no seu carteado  de lúdicos silêncios...As palavras escolhem os POETAS...mas lhe cobram e o ágio representa uma vida inteira.
Toda a metade sul gerou, gera e para sempre vai gerar, bons, ótimos e imortais poetas. Justamente pelo trinômio acima citado.



4-      Percebo teu encanto por sereias(eheheheh). Inclusive  falavas da tua amizade com algumas.Descreveste uma cena impressionante que me vem à memória.Tu falavas sobre a delícia de fazer amor no rio Ibirapuitã. Descrevia a sensação de volta, quase uterina, numa lua que se entregava em pequenas imagens(palavras minhas).Pediria que pudesse transcrever esta pequena parte de teu texto. Poderia falar um pouco disso?

-Amar envolto em água doce é como voltar para a placenta...talvez aí esteja a minha metáfora onde envolve as sereias...tento exorcizar o Édipo que hospedou-se em mim...mas agora é tarde demais ....ele também envelheceu...Iemanjá nos perdoa!!!....



5-      Viagens, viagens... Tenho medo de avião, lembra?Não viajo e meus planos de ir à Cuba ( e tem que ser logo antes que os vestígios da revolução morram com os novos tempos) está enroscado nisso.Disseste que não viajas muito, também.Porém...falas numa viagem interior.A viagem de cada um, no seu próprio texto.Seria a viagem de Ulisses...ou a viagem de Fausto?

-Se eu conseguisse viajar no tempo, e marcar um encontro com Homero e Goethe, pediria-lhes a licença poética, para fundir estes dois grandes personagens num único ente ,que eu batizaria pelo nome de ULIFAUS...Do Ulisses eu roubaria sua coragem, planejamento, fidelidade aos seus marujos e a sua incansável jornada de volta para casa, mesmo abandonando as luxúrias e a sede sexual de CIRCE.Do Fausto eu ficaria com o conhecimento, a lucidez , sua alquimia, sua astúcia para atrair Mefístófoles,mas não pactuaria com ele.



6-      Tenho pensado que a essência humana é fazer poesia. Penso que vez ou outra todo mundo faz.Por exemplo, lembro de algo que chamo “ texto sem palavra”, quando um sujeito pronunciou ‘ A mulher ficou lá” e mostrou as mãos.Não precisou dizer mais nada.Ele tinha as mãos marcadas, era um descascador de mato...e sabemos o que acontece com as mulheres que ficam sozinhas , dependendo dos outros homens, numa situação destas.Nisso sustento que a poesia é humana, de todos.Como tu vês este reconhecimento ou não, de algo poético num texto discursivo ou escrito de qualquer pessoa?

-A poesia é o desdobramento do logus divino.""""O Verbo está entre nós""""""""", não é preciso haver palavras para que triunfe a poesia.Nada é mais poético que o último olhar, um adeus, o beijo, a carícia, saudade...o sexo parece...mas não é.Tudo aquilo que está no mapa do instinto não é poesia, é reflexo, é sensação recodificada pelos novos padrões da exigência. Erotismo já é poesia( ao menos para mim) pois ele no seu construto lírico ,está a serviço das vozes íntimas do corpo,e estas, movem a grande ópera dos amantes.


7-      O que te causa?O que causa teu texto?

-Meu texto é desolação, pungência e desejo...emito um sopro sinestésico em tudo aquilo que não tem vida, e nem nomeação, e os revivo através da lírica...


8-      Falavas em homens que faziam as catedrais... ( eheheheheheh). Poderia nos dizer como percebes esta relação?
-Uma das mais  belas catedrais da natureza humana é o POEMA...pois ele com sua vogais e consoantes ,vai alicerçando góticos templos ,que em qualquer idioma, devidamente traduzido, cintila nas retinas e corações dos leitores, viagens para o mágico mundo das sensações.

9-      Quando nos conhecemos por email, falavas nas amizades com as sereias. Em seguida enviaste uma poesia maravilhosa para Indecentes Palavras: “ Alexandria”.Logo pensei na poesia como sendo uma cidade, uma mulher.Lembrei até mesmo, de uma música de Caetano  “ Doces Bárbaros” em que ele  fala de uma invasão.Poesia, Cidade,Mulher...o que estas palavras te dizem?

-O Poema Alexandria é mitologia temperado com erotismo.



10-   Qual a forma de criação de que tu mais te serve? Quero dizer...como acabas criando um texto?

-Preciso ficar numa vigília com aquilo que escrevo...como diria o Mário Quintana:...um poema antes de ser escrito, tem que ser sonhado.



11-   Começar, recomeçar... Pelas más línguas, sei que minha escrita causa uma certa ruptura.Uns adoram...outros detestam.É o retorno que acolho com carinho porque os leitores não me pertencem!Eles são de um tempo alhures de minha pobre existência. Eles são tão maiores porque lêem o meu pequeno rabisco com o seu próprio e, para mim, isso é que importa.Como te vês neste reconhecimento de teu texto?

-Digo e muitas vezes causo estranheza: Escrevo para a ETERNIDADE...pois assim, terceirizo esta preocupação, se estou sendo aceito ou não!!!???..mas intimamente sei quando acerto...



12-   Então ... sair de onde estamos dói. Isso dizias de minha intenção de morar em Porto Alegre e da tua experiência em  sair de Alegrete. As mudanças de cidade, de país...dependem da mudança de mundo (eheheheheeh). Bem... mudar subjetivamente dói muito porque é deixar um lugar fixo subjetivo criado na família, na cidade; lugar editado e reeditado por nós mesmos no afã de não sair de casa.Quando é que se sai de casa?

-Nunca saímos do mesmo lugar...a saudades que sentimos ao pensarmos que estamos longe ,é de nós mesmos...das sensações...dos amigos mortos...dos pais que já se foram.
A medida que vamos vivendo ,e o tempo vai passando, nossa trajetória em memória e lembranças é regressiva.Bom seria se tivéssemos a vida de Benjamim Button...nasceríamos com oitenta anos e morreríamos  no colo da MÃE...É o tempo que comanda as lembranças, e não as lembranças que comandam o tempo.


13-   Sei de teus trabalhos pela tua home Page.Entre os tantos já publicados, entre os vários prêmios recebidos, as homenagens...qual a vivência que tocou tua catedral?(ehhehehe). Quero dizer... qual a que te fez sentir-se reconhecido como o Elvio, nu como dizes que estás?

-Nos últimos anos eu decifrei meu enigma: Vim para ser POETA...e tudo aquilo que recebo,  em nome deste patrimônio humanístico,  tenho a responsabilidade de deixar para todos antes de partir, para que leiam...ou não leiam, é meu  LEGADO.A opção final é dos leitores.


14-Elvio, ...para ti as palavras nos habitam ou somos nós que habitamos as palavras?

-As palavras nos habitam...guiam...e sabem a hora certa para a germinação em nossas páginas.


15-Já te disse que a escrita e as formas de arte, para mim, humanizam.Também já comentei que não acho isso um UAU!, simplesmente porque não acredito que sejamos a melhor das espécies só porque infestamos o planeta de gente ( ehehehehe). Porém, a arte é o que temos de melhor, para que não haja tanto espaço para o que temos de pior: nossa agressividade e violência. A literatura humaniza. Neste sentido, o que são para ti, espaços de humanização?
 Quando bem trabalhada a arte humaniza.Naturalmente que a literatura está inserida nela!!!...


16-Quais os trabalhos que te deram gosto ( estalo na língua) em participar?
 Eu só escrevo quando o tema me interessa...mesmo se  for encomendado.Tenho que ser atraído...seduzido...senão é tragédia pura...

17-Gostaria de dizer mais alguma coisa?
Foi um prazer conhecê-la e te agradeço pelo espaço e pela paciência, até chegarmos as
partituras certas deste allegro, com o melódico vagar dos adágios. Como dizes: Beijo grande e fraterno- Élvio Vargas

Não sei quais os ventos que fizeram este encontro.Talvez um  que se pôs a dizer versos sobre sereias e marujos, sobre águas salgadas e doces, sobre esta pele que nos enlaça; água morna feita de lua...que faz flutuar uma doce canção na carne dura.Ouça, Elvio...estão nos chamando e somos a voz em  ninar neste rio de antes.Da mesma falta, somos amantes.
Beijo com todas as letras

domingo, janeiro 23, 2011

Segredinho

Aqui na Itália tem umas cores, um perfume, uns nomes...acho que vieste sem saber.

Os eus

Faça-me tua imagem inexistente.Fugi de ti para sempre.Ficou esta coisa estranha que chamam de eu.

Minha mentira

Vesti com cuidado cada palavra: camisa,calça, paletó, gravata.Dá para criar um mundo com a mentira amada.

Fantasma de verdade

Minhas roupas mudaram com o tempo.Ficaram velhas e desbotadas...até sumirem de vez.Só não sei porque nem minha voz escutam quando falo o que sei.
adriana bandeira
24-01-2011

Censura

Quem sou ainda suspirando
restando insone
embalando
os bebês meus, os que já foram
filhos pequenos,
há tantos anos
Sou apenas a voz
de uma censura
rasgão em forma de ternura
que me diz:
os filhos não terás
jamais
Todos eles são
do pai
da palavra
do querer
de um vós
que amais

adriana bandeira
24-01-2011

Manhã de outono

Que olhar pecaminoso desnuda o verso,
que se alça  por si descoberto
para outro longínquo telhado.
Que mãos escandalosas tocam as partes
feito prosa do corpo,
da voz,
do outono encantado
pela primeira letra do dia.

adriana bandeira
24-01-2011

sábado, janeiro 22, 2011

Costurando antes de mim

A máquina de costura faz um barulho estranho.As crianças cresceram e os tecidos tantos.Ontem sangrei demais e fiz palavra diferente com o sobrenome que ficou.Coisas de veia e vapor.
As crianças correm na rua, arrumando galinhas e colhendo o bordado da chuva.Tudo com ponto e nó.À mão da verdade refaço-me inteira, o perfume dos dias que não voltam mais.São os farelos da mesa, a aranha que tece sem teia, um a um o que vira pó.
Na estrada surgiu de repente, a carta na mão de gente, e gritei sem fazer flor.Vinha depois de todo o tempo, do mundo, do vento, a resposta que não chegou.Não abri, fiquei espiando.Porque viria matar-me assim?Não abri, pelo cuidado,pela outra que habitou em mim.Não poderia dizer-lhe que tinha que partir.Não suportaria ver-me eu e ela-eu-mesma, depedindo-se das panelas, das cobertas, dos sapatos, das janelas...
É a máquina de cotura que não pára.Faz tanto frio quando não e sim,... vamos embora.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Música da boca para fora

Sou nascida a cada rua distinta
a cada pequeno vagar.
Sou parida pelo simples suspiro,respiro,
jeito de olhar.
Nem Netuno sabe das coisas, sobre a dança das ondas
do mar.
Nem minha boca segura o beijo todo
que desejas eu sim
ganhar.
De resto fica a pegada
na areia que sempre se vai
cantando incerta sereia
àquele que a
faz sonhar

Vestido de boneca

Já estava nua desde menina.Cortava as roupas para fazer vestido de boneca.Elas sim, nunca estariam.

Langerie de broderi

Langerie de babadinhos, branca, de broderi.Todo o cuidado é pouco. É esta adolescência! Tecido que volta por si.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

O fantasma do caso de amor

...E se me encontrares daqui há pouco não te assustes.Vez ou outra sobrevôo a lembrança entre nós.

Vinho na tarde

Não sei se é primavera mas teu sorriso encanta nascimentos.Traz a calma e a graça, que se perde com o tempo.Repara que sem a risada o amor é quase nada!
O vinho  cortando a tarde me diz que sou tua aprendiz.

Quando aprendi a falar

...E o mar era tanto e sem fim... que nunca mais voltei para casa.

Despedida

Não levarei os móveis,
nem os castiçais.
Levarei somente a mordida
que o tempo há de me dar.

não sei o que fazer
com esta luz: vem dos lençóis!
Talvez te leve comigo,
escondido!
na falta da tua voz

Rua sem pai

A escrita é corpo da terra, para onde todo mundo vai.É este pai sem cidade, é esta rua sem pai.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Tua vinda

Segura meu braço, não solta e ...Vem!
Escuto teu traço, rabisco, cansaço e...Vou! Não há encontro sem dor.

Infância de menina

Se eu não voltar, recolha minha bicicleta, a boneca e as sapatilhas.Guarde-as na palavra de qualquer outra menina.

Não se pontua a rua dos outros!

minha cidade nunca vou conhecer dela todo o resto que de mim não sei é bela pelo que o outro diz etérea pelo que me faz morrer vivo se carrego suas ruas morro se elas me levam tão bem

Fantasma letrado

O poema que te ofereço nunca estará pronto.Ele resta na próxima letra, abandono atroz.Silêncio!Teu fantasma está entre nós.

A conquista da cidade Indecentes Palavras com um presente de Elvio Vargas


 ALEXANDRIA

O cálice do desejo
transborda, viscoso
arrebatado, anunciando
um filete branco que aos poucos
vira córrego pela enseada
serena de tuas pernas.
Umbigo e abdômen enfrentam
o arremesso da flecha.
A luz do punhal
ilumina com um clarão de lua
o arco que circunda o pátio.
Tules derramam-se nas
cortinas do quarto.
A cama navega
esculpida em marfim
peroba e alabastro.
Os lençois de linho
ungem com óleo e alfaia
as reluzentes páginas da pele.
Teu útero- um abismo-
que não meço pela profundidade
esquadrinho pelos labirintos.
Sodoma, Alexandria, Persépolis, Babilônia
ali sepultaram suas ruínas e triunfos.
Esperma por mim
até que floresçam
figos, seios e maçãs...



                                                                              ÉLVIO VARGAS
                                                                         


segunda-feira, janeiro 17, 2011

Noite

E hoje nem mais será para sempre.

FALANDO SÉRIO COM DIEGO KA.- Reprise porque sumiu do blog de forma indecente.Apertei o botão para letras maiúsculas e...não sei para onde foi.


1-Qual a tua primeira lembrança  deste interesse pelas artes visuais?
5 ou 6 anos, no "jardim de infância". Em uma semana, fiz o mesmo desenho todos os dias: uma casa e um pássaro com uma flor no bico. O primeiro desenho começava com o pássaro à esquerda da página. Nos desenhos seguintes, ele foi "voando pela folha" até chegar à direita. Acredito ter sido minha primeira noção de animação.

 2-Comentava contigo a respeito de autoria. Percebe-se que tu és um homem “ mordido” pelo teu trabalho.Quero dizer que o que fazes está estranhado em ti, que o que produzes tem autoria, tem a tua marca.Pois bem...Concordas comigo?Como percebes a tua autoria naquilo que compõe um trabalho?
Sim. O que eu faço geralmente envereda pelo fantasioso, pelo lúdico. Talvez seja um protesto à sermos "só isso que somos". Ou vestígios da pureza da infância que resistem ao tempo. Ainda não cheguei a uma conclusão se os trabalhos que faço são prisão ou liberdade. Prisão porque sem os trabalhos não sei se teria um "eu". Existe um Diego que não está associado ao eu trabalho? Consigo acordar amanhã e dizer: "Hoje vou largar tudo e virar agricultor"? Liberdade porque cada trabalho novo vem com uma pergunta que desfaz as respostas prontas até então.

3-Por que Diego Ka?
Na condição de homem mordido, mordi meu sobrenome =D

4-A primeira vez que tive contato com tuas idéias foi na criação da capa do Chá das Cinco.Percebi que me perguntaste sobre algumas coisas, sobre algo do texto, algumas palavras chaves e, de pronto, compuseste a belíssima capa do livro.Pois é...o que move teu trabalho de criação?As cores, as palavras, percepções?
Penso que todo trabalho criativo verdadeiro é espontâneo. Até tenho dúvidas se o artista é realmente dono do seu trabalho, visto que sua imaginação entrega o caminho pronto. Michelângelo exemplificou bem: "A figura já está na pedra, trata-se de arrancá-la para fora". Procuro manter a imaginação bem nutrida: ao invés de olhar reto e objetivo pras coisas, me perco nas percepções periféricas. Depois, as perguntas e palavras-chaves  apontam a direção, e a imaginação dá a resposta. Nesse cenário, sou apenas a ferramenta.



5-Quais as coisas mais importantes para ti?
Não vivi o suficiente pra definir o que é realmente importante, ou descobrir, ou me conformar. A importância das coisas é volátil e efêmera. Um grande amor pode tornar-se uma pálida lembrança. Uma profissão pode resultar na confissão de que não faz mais sentido. De todas as coisas, perguntar e ter dúvidas parece a mais importante no momento. Verdades e caminhos prontos hermeticamente fechados em palavras e entidades absolutas aborrecem e emburrecem. Atualmente considero importante a transformação, valorizo e prezo a transformação. E quando encontro respostas pras coisas, me pergunto se não estou ficando ignorante.
 6-Quais as principais dificuldades de Diego Ka?
Algumas vezes, carecer da técnica necessária para realizar determinado trabalho que foi imaginado.  Ter o domínio da técnica para concretizar a imaginação com esmero é um ato de respeito a si mesmo.
7-Num texto teu que eu li, escreves sobre as diferenças. Fala em cores, em pensamentos, neste abismo que é próprio ao ser humano: o que sinto,vejo ou falo não determina como o outro vê, escuta ou fala.Pois é...percebe-se uma certa ética a respeito do cuidado com o outro. Como lidas com isto já que trabalhas com imagens e criação e sempre estas coisas estarão alheias ao que, de fato, imaginamos?
Não faço coisas pensando no que os outros irão pensar, porque não sou "os outros". Não tenho a carga de memórias e emoções deles pra ficar delimitando "isso é bom"  e "isso não é bom". Tenho apenas a minha carga de memórias e emoções. Embora o trabalho de criação seja egoísta, a percepção é coletiva. O que procuro é respeitar e atender ou superar a expectativa coletiva no tocante satisfação, geralmente com temáticas benignas, emotivas, belas. O meu norte vem de símbolos universais (um sorriso é um sorriso e uma coisa boa em qualquer lugar do planeta) e percepções de massa (você pode realmente odiar rap e amar Beethoven, embora outras pessoas adorem rap; mas um rapper pode dizer com sinceridade "Beethoven é a pior coisa que já escutei, isso fere meus ouvidos"?)

8-Quais os trabalhos teus ou em parceria que poderias citar ?
Sempre gostei muito dos trabalhos de computação gráfica, como as aberturas de programas produzidas para a TV Cultura de Montenegro desde sua inauguração, e a TV Mais de Novo Hamburgo. Algumas ilustrações renderam um espacinho na memória, como uma campanha pra Gasoline (marca de roupa) e outra pra Souza Cruz, com pinturas a óleo de animais. Na produção de vídeo, um que teve um resultado bem satisfatório foi o 2º Caderno Pedagógico, para a Fundarte. Algumas capas de livro também foram divertidas de fazer, como a tua (Chá das 5), do Carlos Leser (In Extremis) e do Pedro Stiehl (Rapsódia em Berlin). Nem sei se eu posso falar isso, mas a mão que aparece na capa do livro do Stiehl é do Mister, que freqüentava o Café Comercial.  Eu falei pro Ângelo (Daudt, fotógrafo): "Cara, preciso duma mão, LITERALMENTE" heheh e ele me veio com essa.
9-Quer deixar registrada alguma coisa mais?
Virou Cartório agora pra ficar registrando coisas? hehehe
Agradeço muitíssimo tua entrevista. É de fato um prazer teres aceito ser meu convidado. Andiamo,Diego.Andiamo!
Beijo com todas as letras

Amor de morte

Reconheço o amor de longe!Quando menina ouvia o trem que passava no quintal, atravessando minha casa inventada.

Meus nomes

Se me disserem árvore, eu sou.Pássaro, canção, eu vou.Ainda chamando-me de erva, mato intruso que nasce onde não...Sim! Recebo a nomeaçção no corpo de pó.Morrer é não ter palavra para se inventar.Morrer é ficar só.

Para Luciano P

Pelas palavras que não virão, deixo algumas em recato: dança, chão,retrato,lua.Conchinha,fogão!Estamos de mãos dadas no avião!

O Elfos - poesia a ser publicada no livro Indecentes Palavras

Ah! Os elfos!Quem disse que os ogros não são elfos?Quem disse que as bruxas não são princesas?Quem disse que o pato não é ganso e a idéia não é dela?Quem disse que se ama o que não se mataria...acabaria contigo num piscar de tela, acabaria com a única janela, porque as portas não falam, as portas não calam, sempre estão por abrir!Mataria os peixes, as aves, os sonhos, se me desse a arma secreta, o veneno eficaz.Eu não possuo arma, fui inacabada, fui violada pelo oco dos quadris.Acabaria com a primeira e única voz que amo!Não sei porque não faço de mim todo este resto; nem sei se amo ou se quero.É algo diferente disso, da casa disso, da rua disso.É só o vento que não me larga e não me fala.É só um vento que já está passando, indo embora, já foi...É só o desejo de sempre dançando, movimento; arrumando o ventre para outro nascimento.

Inventação

Eu queria mesmo saber o que anda de mim em você.Só para inventar uma história diferente da que te contei...na última vez que nem nos vimos e conversei baixinho com meus dedos desajeitados.Eu queria mesmo saber, como sou sem te querer.

Disco voador

Se me avisarem antes, faço sinal da cruz.Se nada me disserem só aceno para a tal luz.

Rabisco

Pedi licença e sai.Não dava mais para ficar noite e dia.Descolei da foto...grafia.

Uma

Amo um verbo,
infinitivo.
Tornar
se
Sou uma
mulher.

UM MOÇO QUE SABE O QUE EU SEI - A voz-olhar de Daniel Gehlen


1-Bem...intitulei esta entrevista como Um moço que “ sabe o que eu sei”.Na verdade faço referência a música de Lupicínio Rodrigues “Estes Moços”.Já explico...A primeira vez que te vi, estavas sentado num dos bancos da Estação da Cultura.De repente, te vi.Tive a nítida impressão que esperava o trem, mas nós sabemos que não há mais trens por ali (ehehehehe).Quero dizer que tive a certeza de que tu irias embora e que cantavas com uma voz de muitos anos atrás.E veja bem...estavas mudo, só olhando, esperando...Tinha o violão descansado na parede, só.É como se soubesse o mesmo que Lupi. Pois bem...Concordas comigo?
Sim, lembro que era durante um intervalo entre o primeiro e o segundo bloco da apresentação que fiz no café da estação de Montenegro nesse encontro.


2-Para além da voz, que é belíssima, carregas um traço na enunciação que registra uma vivência, uma história com a música.Lembras de quando começou  teu envolvimento com esta mulher ( eheheheh), a música?
Comecei a ter aula de violão clássico aos dez anos de idade na Fundarte. Lá aprendi muito sobre violão com meu grande mestre e amigo Daltro Kenan Junior.  Mas antes de iniciar meus estudos na Fundarte, convivia com o ambiente musical em casa, pois meu pai que é músico me influenciou desde quando eu era criança.


3-A nota musical não é passível de ser apreendida. Neste aspecto tem a mesma estrutura da letra: sem a próxima não se diz, não se revela.Porém, na música, a nota tem uma propriedade que é o tempo da nota, sem pensar no tempo que faz a melodia.Este tempo da nota é uma enunciação sem significado, sem ter como nomear.Este intervalo, este vazio , consegues sentir?Como expressa isto nas tuas interpretações?
Acho que cada nota traz em si o que a música por inteira quer expressar no momento oportuno. Sinto o som no corpo, na mente e na natureza. As melodias são diferentes de uma cultura para outra, assim como, de um tempo para outro, pois expressam os nossos sentimentos e nossas vivências em diferentes circunstâncias. É assim que expresso a nota,a melodia, o tempo e o ritmo. Não sei se é bem assim que me perguntastes...(hehehe)  


4-É comum pensarmos no intérprete como aquele que deve dançar,  movimentar-se, para atrair os olhares, a atenção. Percebo, nas tuas interpretações , que fazes isto num movimento de voz e olhar...respiração,mesmo!É que o olhar faz casa, chega e não vai mais embora!Comparo teu jeito com o do Caetano e Chico Buarque, em que sentados, em pé, parados, atraem a atenção simplesmente pelo encanto do encontro. O que pensas destas exigências a respeito de atrair a atenção do público?
Acho que estas falando de desempenho no palco? Realmente, eu fico mais na minha. Mas já pensei um pouco sobre isso e acho que vai de cada interprete mesmo. Ora me sinto mais a vontade para me movimentar com a música que estou interpretando, ora me concentro mais na respiração e no desempenho ao violão.


5-Não são raras as vezes que o artista é contratado para entreter muito mais do que fazer valer a música, voz de cada um. Esta diferenciação entre entretenimento e encontro...o que achas disto?
Isso depende do tipo trabalho como aniversário, evento de final de ano, jantar,  formatura, casamento . Acho que o músico pode tentar entreter as pessoas sem que isso interfira no seu jeito natural de agir. Eu tento agradar as pessoas, mas sem que isso interfira no meu gosto e na minha criatividade.  Contudo, é uma questão a ser trabalhada pelo artista, pois envolve algumas habilidades como saber jogar e negociar com o público. Tem artistas que não se interessam em agradar e interagir com o público, outros fazem disso parte fundamental de seus shows.


6-Então...O Daniel estava na Estação, pegou o trem e...?
Parei em Porto Alegre para fazer faculdade de música e conhecer mais sobre o universo musical.


7-Todo artista passa pelo inferno ( eheheheheh). Quero dizer sobre aquele momento em que parece fora do mundo, que está fazendo nada, que é uma bobagem seguir esta estrada esquisita(ehehehe)...Foi assim?Poderia contar um pouco da tua trajetória?
Algumas vezes pensei nisso. Quando me sento um pouco sem graça abro uma revista de música e leio histórias de outros músicos que passaram por momentos de estranheza com o mundo. Tento me inspirar de alguma forma nos grandes músicos do passado. Daí vejo que o caminho musical é de persistência e de coragem mesmo. Por isso que muitos desistem no meio do caminho sem pegar aquele trem (hehehe).


8-Quais os trabalhos que te deram e dão maior vontade de fazer?Quais os que te impulsionaram a seguir?
Quando estava estudando na Fundarte, participava da orquestra jovem regida pela professora Adriana Bozzeto. Esse tipo de trabalho me chama muito a atenção, pois penso em ter um grupo com violinos, piano, flautas que possam estar tocando músicas minhas. Gosto muito de pensar nos arranjos das músicas e criar música, por isso acho que esse tipo de trabalho me impulsiona a seguir estudando para desenvolver mais as habilidades no âmbito da composição e de arranjo musical.  Contudo, sigo sempre com meu trabalho solo que é outra fonte de inspiração que me impulsiona a continuar atuando como violonista e cantor.


9-O que é ser artista da música para ti?
É procurar sempre pela música. Esteja onde estiver, a relação do músico com a música está sempre no plano do possível, do real e do irreal. É procurar sempre conhecer mais sobre música, descobrir mais e se entregar totalmente a ela. Mas sem dúvida, tentar ter uma relação saudável pela música.


10-Todo mundo tem seus amigos, ídolos, pessoas ou aspectos que dão referência. Com quem ou com o que gostaria de contar sempre neste caminho que inicias?
Acho que com meu pai, meus professores de música e amigos que me ajudam a entender mais sobre essa arte.


11-Nestas vivências como “ encantador” é comum um certo “ despertar de paixões”, geralmente nas mulheres.Como lidas com isto?Tens algo interessante para compartilhar conosco?Quero dizer...indecentes palavras ?
Eu tento agradar as pessoas com a minha música, mas tenho um tanto de timidez. Mas confesso que fico contente em saber que sentes esse encanto de que falas. Não sei bem como lidar com isso, espero aprender mais sobre isso (hehehe).


12-Quais as coisas mais importantes para ti neste momento?
As pessoas queridas e amigas que fazem parte da minha história, a minha família de um modo geral e claro a música.


13-Porto alegre é...?Montenegro é...?
Porto Alegre é demais. Montenegro é minha querida cidade natal das artes.


14-Querias registrar mais alguma coisa?
Adriana, gostaria agradecer pelo convite para registrar um pouco da minha história nessa entrevista! Vou ensaiando “Estes Moços” para um momento oportuno te apresentar. Beijos!


Agradeço muitíssimo ter sido meu convidado. Agradeço e abuso, pedindo que no nosso próximo encontro possas tocar “Estes Moços” de Lupicínio ( eheheheh).Promete?...E mais uma lista de canções na tua voz, que é toda olhar que despe.
Beijo com todas as letras.
Adriana Bandeira

Para ti

Vim aqui só para te ouvir, talvez contar uma história e depois dormir.É tudo teu o que me faz existir.

domingo, janeiro 16, 2011

Gueixa

Quero teus cristais empoeirados de antes,
do tempo.
E te dou no banho a mímica segredo
da tua ereção.
Suave lembrança de medos,
não por ter-me, nem receios,
tuas palavras na minha mão.
Riscando um curso ardente,
abrindo estrada, vertente...
sou ao ver-te roubando meu sim
de todo o não.

Último instante

Ninguém viu que eu estava morrendo.A enfermeira só aplicou a medicação.O filho olhava pela janela já cansado da espera.Ninguém percebeu ...para se despedir.Também não avisei.Não desejavam me seguir.E isso era o melhor de mim.

Quero sempre a outra

Minha palavra somente adoece...não morre por ti.
Esta outra que vem atravessando o mar
Sou o ar

Nome do Pai

Nascendo da  mãe ,o vestido misturou-se com as luas.Nem era a mãe, carne crua.Nem era dentro,os nomes: ruas!Nelas, todos os segredos-pai.

Resumo de assassinato

Faca afiada sangrando a calçada
abrindo em concha um grito sem som
Resumo de assassinato, palavra  já sem dor.
É esta denúncia esquisita de que não estás aqui.
Aqui,aqui,aqui...eco em flor.