domingo, janeiro 16, 2011

Eu e Freud I

-Bom dia dr. Agradeço muito a oportunidade.Aliás nem sei ao certo se deveria ter vindo.
-hummmmhummmgsgsgsgsgs
-Não...é que dizem alguns que terias morrido.Sendo isto verdade: o que faço por aqui?
-Sim?!
-É minha angústia, uma certa questão.Tenho me esforçado para reconstruir uma imagem do homem que eu quero que esteja ao meu lado.Não por nada não...mas não sei direito.
-Uma imagem?Um ideal?
-É!Mas lá vens tu com esta história de que ideal não existe.Mas não é importante construir uma imagem?Quero dizer, uma idéia do que eu gostaria de encontrar quando chegasse em casa.Ah! Eu sei, eu sei o...
-Seio.
-O quê? Seio?De onde tiraste isso?Não falei seio, embora sempre quisesse ter uns maiores, sei lá... uns que chamassem a atenção, que me revelassem como uma Mama.Aquelas dos filmes, de preferência também gordas e calmas. Não fui amamentada, sabe.Mas eu não gostaria de encontrar um seio, chegando em casa.Não tenho aptidão para...Pensando bem, quem sabe, eu não quisesse uma mama diferenciada?Não ri mas fiquei pensando que um pênis não deixa de ser um seio diferente.É um pedaço a mais, assim...que se destaca, sei lá...
-Amais?
-Não sei...Acho que sou capaz de amar.Quero dizer são sempre outros, os seios...ou os pênis.Brinco que o primeiro era esquisito, o segundo, depois dos trinta, era moderno e agora, depois dos quarenta, são... meus seios são duvidosos.
-Um seio só é seio quando tem dúvida do que sabe.
-Pois é Freud.Não importa mais certas coisas.Mas precisam vir com palavras e gestos deste amais.Os homens precisam desejar as palavras que ainda não foram ditas!Eu seria outra, todo o dia... E é o que sou. Posso chamá-lo pelo nome?
-Pelo que mais me chamaria?
-Dr. De mim. Poderia chamá-lo de dr de mim.
-Ah! Sim! Poderia chamar-me de dr de si, com a tua voz. Por hoje... ficamos.

sábado, janeiro 15, 2011

Gente é de algodão

Algodão doce é gente que carrega nuvem em saquinhos de existir.

Dois

Expoente não é estrela cadente, mas o pedido que a faz existir.
Traço não é  risco no chão .É mais sapato,olhar,aparição.
Partitura? Infinito som em dois: ternura

sexta-feira, janeiro 14, 2011

A Peña

Não há como pulsar sem ser pedra.Coração que vai virar pó.

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Para que serve um livro?- discussão no blog de Pedro Stiehl sobre " o livro com os dias contados"

  
É a pergunta que me faço diante de crianças que não sabem a diferença entre o ficcional e a realidade; é a denúncia que vem veloz numa dúvida: estaríamos diante de alguma mutação psíquica? Diante de alguma diferença mais do que significativa que transforma gente em algo que ainda não tem nome?
Para longe de diagnósticos, reparto esta consciência de que há uma fala nisso, levando em conta o número de crianças, e mesmo adultos, que percebem o mundo assim; uma fala do social que aponta esta forma diferenciada de conceber a existência.
São destas vivências que me sirvo para dizer que nem mal nem bem, as coisas estão mudando. Há muito tempo! Desde que o tempo é tempo, desde que...
 Digo nem mal nem bem porque não é admissível que ainda estejamos grudados na fórmula já erguida quando somos invadidos dia a dia pela voz do Outro que anuncia uma diferença. Mas qual? Esta é a questão!
Noutro dia me perguntaram: para que serve ler? Não me surpreendi, não era o lugar para isto. Escutei. A cada vez ainda retorna: para quê mesmo?
Nesta reflexão me fiz valer da cegueira de Homero, da invenção do alfabeto, da retenção dos saberes escritos pela religião e, digo-lhes... nada respondeu a tal perguntinha. Porém, de todas estas pequenas viagens trouxe na mala uma lembrança, uma reminiscência farta de particularidades: lembro-me dos trens que atravessavam nossa cidade e do quanto ler a tal placa “parar, olhar, escutar” servia-me de norte sobre o que eu não elaborava muito bem. É que o tal trem sempre é visto num traço único de velocidade que logo termina, assim como veio. Isso é difícil! O som...Ah!O som é para sempre.
Ocorre que um registro escrito está morto. Parar, olhar, escutar estava sem vida. A leitora é que fazia a placa falar!É o que dizem muitos escritores sobre seus textos enviados para as editoras: “prá mim morreu”! Um registro passa a ter vida somente quando lido, articulado, enunciado num tom próprio, pela necessidade humana de receber a palavra do outro, a nomeação de si e das coisas do mundo. É a invenção do ficcional, do espelho: onde me vejo não estou; na leitura há sempre dois: o eu e a voz de si.
 Neste sentido a transmissão é sempre oral, a verdade de Homero. Ah, sim!A transmissão é oral mas a palavra primeira é  registro latente, como os rabiscos feitos nas cavernas, como o texto inconsciente que passa a ser tecido desde o nascimento e é único. A verdade da linguagem é que ela existe enquanto potência de escrita.
 Contudo, a dificuldade desta inscrição aparece nesta impossibilidade de fazer viver um texto outro porque há uma dificuldade de fazer viver o próprio. Ali, não há reconhecimento da necessidade de receber a nomeação. Indo mais fundo... não há um si mesmo. A leitura deixa de ter função e, antes de ser somente um índice de analfabetismo ( que até vem diminuindo), precisamos perguntar: o que é SER alfabetizado?
Quando vislumbramos uma obra de arte, a assinatura não se encontra no nome somente, mas no estilo. A autoria está na marca do pincel, se estamos falando em artes plásticas; ou no traço (mesmo eletrônico) do personagem; nas pausas, no ritmo de escrita, se estamos falando em literatura... Enfim! É quando argumento que o traço é mais do que um registro gráfico, como a sílaba tônica nem sempre é acentuada. Traço, que me perdoem alguns, é o que se transmite para que continue, a falta que convida o outro a ler e reescrever, a acrescentar, como o desejo de que viva para além de hoje.Talvez saber ler e escrever tenha esta peculiaridade.
Os livros digitais se encaixam perfeitamente numa espécie de novo brinquedo para aumentar tamanho de letra, fazer mexer uns bonequinhos, responder coisinhas óbvias (como se isto fosse interagir!). O excesso de imagem subtrai a palavra e tampona a que surgiria como invenção, criação. É o entretenimento e suas vicissitudes que se encarrega de deixar “atrapado” um certo saber de si. Aqui o livro serviria para...?
Porém, a mudança fatal não diz respeito a esta nova maneira de mostrar um texto mas, antes disto, na representação psíquica deste registro; nesta variação com o objeto ESCRITURA, ou melhor, com a escrita. As formas variadas de mostrar a literatura são valorosas modificações que apresentam escolhas e, no meu ponto de vista, quantas mais se fizerem... melhor!
O livro não sendo mais do seu jeitinho, deixa de transmitir esta forma de amor pelo outro? Não creio. Porém, deixar de amar é estar impossibilitado de receber a transmissão de humanidade, é não poder ler com sua própria voz, é também não receber estas formas diferentes de registro de textos, é uma certa obediência vigente que exige morrer para si mesmo e para os outros. Pois é, pois é... Acho que a questão é este “embotamento” na transmissão de um dom. Mas, afinal: o que é transmitir o dom, a falta?
Adriana Bandeira
Dezembro de 2010

Assovio

Com o tempo se aprende a guardar o corpo na alma.Mais um pouco e se sabe que não existe dentro ou fora.Por fim restamos em som, como um assovio que repete noutro tempo e lugar.

Minha aula

...não entendi, não entendi, não entendi...

A Aula

Meu amor, não entendi.

Existência cartesiana

Enlouquecer a razão idéía,
plantando nela
a ilusão de um existir

Ensaio sobre o amor V

Vem, meu amor, dizer-me que encantos tem as estações.São os invernos ou os verões que fazem nascer as sementes?Palavras como " sincero","beijo", "saudade" trazem a idade do tempo que nos fez crescer.Repara que são tantos os arrepios e calores e desejos de antes ou do que vem.Hoje, estação do trem.
Antes que a noite termine quero que leves esta lembrança, o que todos constroem em algum tempo: infância.Leva minha caixa de antes, uns brinquedos que guardei: boneca, livro, panelas...são tudo o que sei. Leva também os seios de agora, carrega na tua sacola, travesseiro de dormir.Inventa que são meus pertences quando já nem a mim servem sem ti.
Peço que esta noite inteira , nunca esqueças em alguma fala.Guarda como perdidos de malas, aquelas coisas que se acha dentro, muito depois.Vou te contar um segredo, não serei a mesma depois.Lembra-me sempre quem hoje estou.
Escrevo somente agora porque o tempo, estação de fora, abre-se somente com este frio.Recebe esta carta com cuidado e lê para mim na praça, daqui há pouco.
Começo a tirar a meia calça de seda...branca!Minha pele é quase estrada e percebo a delícia do tecido que cobre a razão.Nem é pele, nem é chão.Sempre...estações.
Bebo o cálice inteiro e continuo a leitura de Ulisses.Várias línguas numa só.
Acho que dormíamos em meias de seda e nem sabíamos.

Mãe de rua

Digo não com minha cara de índia, com meu corpo de índia, meu filho que aprende a viver.E mais...digo não com meu sexo de mulher.A sombra do prédio, minha árvore amiga.Fico aqui onde podes me ver.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

A Função Política da Psicanálise - por Anamaria Brasil de Miranda


Numa tentativa de fazer uma hipótese acerca deste caldeirão contemporâneo, seus sujeitos e a psicanálise, penso ser fundamental retornar à Freud, ressaltando os efeitos de ruptura provocados a parir da criação de sua teoria. Este texto reflete a defesa de uma psicanálise política, politizada, subversiva, revolucionária.
Desde sua criação no século XIX, A psicanálise vem transmitindo sua mensagem conflitante através dos tempos. A formulação freudiana da teoria do inconsciente chega desacomodando saberes e verdades lançando não só uma nova concepção de sujeito, mas a proposição de uma ética. Na medida em que propõe uma nova visão de sujeito, fora de um regimento moral e normativo, estremece os interesses das instituições de domínio vigentes balançando os poderes coercitivos da medicina, ciência e religião – para citar apenas alguns.
Longe de ser uma prática “burguesa”, como muito já foi, e ainda é criticada, a psicanálise (e os locais onde ela se produz) tem conquistado corações revolucionários. Delineando, sem fortes contornos, uma ferramenta de função política, a psicanálise reverbera através de uma ética do sujeito.
Freud, através de uma definição revolucionária de uma sexualidade desde a infância, coloca por terra a concepção consensual vigente da existência de uma “normalidade sexual” definida pela sexualidade genital do adulto, limitada à consumação do ato sexual, com fins de reprodução.
Freud ouviu os sintomas de seus pacientes apontando que esses eram desejos sexuais intoleráveis para a consciência moral daquelas pessoas, e que, portanto, se manifestavam transformados em sintomas. O desejo continuava presente, mas irreconhecível enquanto tal, aparecendo na forma de paralisias, compulsões, fobias, etc.
A grande “sacada” de Freud foi que os sintomas estudados por ele - as neuroses: obsessiva e histérica, sobretudo esta última – eram uma denúncia do que não ia bem naquela lógica social, identificando o que chamou de mal estar na civilização. O sintoma era, então, o êxito do inconsciente em enunciar um fracasso - o da tentativa de disciplinarização dos corpos e mentes.
Entre outras consequências revolucionárias da formulação da teoria psicanalítica está o fato de que Freud não apenas deu ouvidos, mas deu voz às mulheres quando descobriu a outra cena da histeria, denunciando que o lugar proposto (ou imposto) àquelas mulheres, não correspondia ao seu desejo e que elas respondiam com o adoecimento conversivo do corpo.
Na sequência dos fatos históricos, em 1969, exatos 30 anos após a morte de Freud – pouquíssimo tempo comparado a uma noção de história – estouram a Revolução Feminista liderada por Betty Friedeman e a Revolução Sexual da juventude. Um ano antes, a revolução estudantil e o Maio de 68.
Seria Freud um precursor destas Revoluções?
Pode não ter sido de “caso pensado”, mas justamente, o lançamento em uma ética da utopia é não saber onde se vai chegar. Freud pode ter sido, em relação às mulheres, um homem do seu tempo: machista, conservador, familiocêntrico, mas a fidelidade a sua pesquisa o levou para um lado não previsto – o de colaborar com as revoluções juvenis da s gerações seguintes.
A revolução que a noção do sujeito dotado de inconsciente provoca é digna de um “furor apocalíptico” não só na área das ciências humanas, mas também no laço social. Através da proposição de uma ética do não saber, a psicanálise instaura um caráter subversivo de denúncia do aprisionamento do sujeito às instâncias disciplinadoras de sua época.
Mas a o conflito não para por aí. Nos próprios movimentos de esquerda surge a crítica à psicanálise como uma teoria despolitizada e, inclusive, de coadunar com a proposta de direita – moralizante, famíliocêntrica, adaptacionista![1] Pergunto-me se estes pensadores não compreenderam o caráter sorrateiro de seus efeitos. Mas também considero importante salientar que, muito do que a psicanálise é hoje, partiu das críticas direcionadas a ela. É na diversidade que a proposta da psicanálise se estende e potencializa. A proposição de uma nova visão de sujeito e de uma ética da psicanálise vai além da proposição de ação direta política dos movimentos esquerdistas e a atravessa.
O caráter político da psicanálise – em detrimento de uma noção de “neutralidade política” suposta na mesma – foi questionado não somente pelos seus críticos, mas também pelos próprios psicanalistas. Vale lembrar que a neutralidade do analista que Freud propõe (de uma escuta amoral na clínica) se refere ao seu próprio desejo – considerando também que o analista é sujeito e, portanto, dotado de inconsciente – e não ao seu lugar social.
Poucas décadas após a morte de Freud, revoluções – lideradas, sobretudo, por jovens – de cunho anti-autoritário, questionadores da ordem tomavam as ruas das cidades. Dentre elas, o Maio de 68, a Revolução Sexual da juventude e a Revolução Feminista.
A era dos totalitarismos evidentes fracassa e dá passagem a outro momento que Foucault (1986) nomeia de passagem da Sociedade Disciplinar à Sociedade de Controle: o sistema capitalista toma força e muda sua estratégia: ao invés da coerção aberta, da disciplina impositiva, repressora e proibicionista, a lógica agora é de uma ditadura velada em que o capital é o comandante e onde as instâncias de poder são feitas através de uma sedução ao sujeito. O totalitarismo ocupa o espaço da utopia. O pensamento único cede lugar à aspiração pela diversidade.
A cultura ocidental contemporânea fora dominada e passa a ser regida pela lógica do capital. Seus discursos produzem saberes e verdades que dizem respeito a uma produção de posição subjetiva apática e seu consequente laço social. Dentro desta lógica, pouco espaço é ofertado para as alteridades, para a inventividade, para que um sujeito se abra para novas significações e para que se dê vazão a um caráter questionador da ordem. Novos sujeitos são produzidos – o homem pós-moderno – e novos sintomas eclodem a partir disso. E a psicanálise continua de pé e tendo algo a dizer sobre esses sofrimentos.
Provocar furos nesta realidade é um estilo de convocar o sujeito a uma produção singular de sentidos para sua existência. Entender a ética da clínica psicanalítica como um movimento contra-cultural – portanto político – é assumir que temos responsabilidade acerca do sofrimento psíquico humano enquanto sintoma social.

Anamaria Brasil de MIranda



[1] É importante lembrar que a linha determinada como valida pelo Partido Comunista Internacional é a reflexologia oriunda da União Soviética banindo a psicanálise como ciência burguesa e os psicanalistas das fileiras do Partido.


Anamaria é psicóloga,psicanalista,membro da Associação Clínica Freuiana e mestranda em Psicologia Social


A REVOLUÇÃO EM LÍNGUA MATERNA- Quem é A Negra Ama Jesus?

1-Esta entrevista não deixa de ser uma aventura!Pelo tanto que conheço e desconheço vocês. Explico: imagino muitas coisas a respeito do trabalho,chego a brincar com algumas representações que tomo emprestado, girando um faz de contas universal.Esta é a palavra:Universal.Também desconheço a trajetória, o projeto em si desta construção coletiva.O que é este projeto?
Marcus - O arco onírico inventa-nos. Temos 15 anos de casados e cinco filhos criados em nossa trajetória. A Negra Ama inventa-nos. Quem é esta mãe? O amor em forma de arte. Nossa harmonia, em meio aos espinhos que o destino nos crava, tem sido produzida enquanto nos colocamos no colo desta grande mãe. A dionisíaca ambição do ritual artístico procura louvar uma brasileira jornada, de alegria e encantamento.

2-Conheci o trabalho de vocês pelo Orkut. O que me chamou foi, mais do que tudo, “ A Negra...Assinalo esta questão lembrando que A negra é universal.Mãe e Jesus nem tanto.Quero dizer que mãe, geralmente, está determinada, colocada numa perspectiva de cuidados e de santidade.Jesus, da mesma forma.Porém...A Negra, somos todas nós,as mulheres, as possíveis mães, as putas, as moças, as esposas, as amantes,as...Enfim!É numa potência de construção.O que acham disto?

Sílvia - A Negra Ama Jesus é uma energia movida pela bênção de uma mãe benta, o que guarda a força, o embate entre o masculino e o feminino. A ideia é o sincrético, o espaço de todos, o encontro entre o profano e o divino. A ordem é o mito do novo amor criado a partir do feminino. O acolhimento, o porto, a casa. A oração em línguas diferentes, o espaço pra a crença sem o dogma imposto pelas religiões. A construção de novos olhares sobre as relações. Escrevo em um poema: “Protege o meu andar/Ó santa virgem./Envolve com seu manto/Todas as putas mães/Resignadas ao calvário./Pinga sobre o meu olho/O óleo perfumado de lótus,/Ó amantíssima mãe das cadelas.” A negra construída no imaginário feminino é a raiz do Brasil e seus encantos.

3-“Revolução em língua brasileira”... É isso o que diz um de seus poemas. É surpreendente pois de fato a revolução só pode vir nesta língua, nesta forma de falar que vem de berço, forma de agrupar as palavras e as verdades, numa transmissão de amor.Esta relação com a língua lembra o que antecede e funda o que ainda vem.Como A Negra trabalha com este tempo, com  as tradições, com as invenções?
Marcus - O poema fala: “Enamorar-se por uma dionisíaca intenção./ Amar a cor negra./Rezar pela moça indígena./ Lágrima por uma revolução em língua brasileira./Lógica tropical ritualizando a verdade em cruz e violência”. A forma do português falado no Brasil é doce, como diz Gilberto Freyre, por obra da ama negra de leite. O seio da ama de leite adoça a boca de menino. Freyre relata que há uma espécie de amolecimento no falar brasileiro da língua portuguesa perpetrado pela negra ama: “A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste mundo”. A civilização brasileira já está ocupando o espaço do novo modo de produzir a transformação. A posse recente de uma mulher presidente depois de o país ter sido governado por um retirante nordestino, ex-operário, já revela uma forma pacífica de revolução.

4-Por muitas razões percebo que vocês dão espaço privilegiado ao que podemos chamar de imaginário feminino. Por exemplo: “boneca de pano é leitura em língua ovariana”. Existe uma espécie de pontuação, de articulação com as peculiaridades de formas do existir. Independente de ser homem ou mulher, o feminino e o masculino falando, compondo,dizendo-se nas suas diferenças.Ovários,Dona Deusa,Jesus,Diabo Velho...todos abrindo espaço para a vida.Poderiam falar um pouco disto?
Sílvia - Quando ouvi o Marcus falando em lírica ovariana fiquei fascinada. A linguagem feminina em composição masculina. Assim partimos para uma aventura artística ao mesmo tempo em que reconstruíamos nosso casamento. Fizemos isto, costuramos, remendamos e bordamos a nossa relação. Com todo esse universo em nossa casa, ancorada por Dona Deusa (que vive em mim), começamos a pensar em um projeto criado a partir de nossas percepções mais profundas. Algo assim, místico e grandioso.

5-Mas...Coralina?(ehehehe).O que é Coralina encarnada a mãe Universal, para vocês?
Marcus -  A poesia de Cora Coralina acende o rito de adorar a mãe. Nossa poesia, junto com as imagens que produzimos, pretende dar continuidade a este rito. Um poema de Cora acorda a memória arquetípica da mãe, que enfeita de ouro o lixo: “Beco da minha terra.../Amo tua paisagem triste, ausente e suja./Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa./Teu lodo negro, esverdeado, escorregadio./E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia,/E semeia polmes dourados no teu lixo pobre,/Calçando de ouro a sandália velha,/Jogada no teu monturo.” A arte é nossa réstia de sol.

6-Particularmente sempre pensei que costurar e escrever fossem quase a mesma coisa: num tecido sem fim recorta-se sonhos, costura-se para que possam ser usados.Brinco que as palavras são as melhores roupas e que as cores...Ah! As cores escolhemos, inventamos. Quando percebi que vocês trabalham com tecidos, de fato, encantei-me. Qual a diferença entre roupa e palavra?

Sílvia - A roupa torna-se a palavra vestida, recebida de uma conspiração entre poesia, indivíduo (que veste a roupa) e arquétipos criados no espaço d’A Negra. A sociabilidade da palavra na ótica d’A Negra enquanto projeto de arte e proposta estética. As cores do Brasil. A criação do imaginário através dos arquétipos.

7-Por vezes acho o ritmo da escrita de A Negra ama Jesus parecido com o dos que caminha em grande jornada. É rápido e lento, é pausado e forte... para chegar lá.O que é a escrita enquanto ritmo?Onde desejam chegar?
Marcus - A Negra Ama Jesus quer imitar o tempo mítico do terno gozo que o estelar medo infunde no ser humano, ou seja, ressuscitar na poesia. A pátria origina-se deste medo da sua própria morte.

8-A arte e a ...cidade ( ehehehehe). Nasceu da cidade a arte ou da arte a cidade? Pois é, pois é...Como A Negra ama Jesus pensa esta relação ?

Marcus - A cidade artisticamente se faz. A dor erige um amoroso e lento processo de civilização. A arte alivia esta dor.


9-Causar indignação e esperança, causar uma revolução em língua brasileira, causar movimentos como  “Abrir a Ferro e Sal”...”Com olhares de Dona Deusa”...Sei que Silvia Goulart e Marcus Minuzzi são os idealizadores deste projeto.O que causou este envolvimento, este desejo ?O que os move neste sentido?
Sílvia - A nossa união. O casamento. Depois de uma crise muito grande no casamento, buscamos a reconstrução. Um processo difícil e demorado. Nos reencontramos querendo criar este vínculo divino através da arte. Portanto, a cura. Se você observar, as poesias estão repletas deste tema. “Bordamos, espetamos, despertamos a dor, para depois a curar.” É o trecho de um poema meu. “Cortar a ferro e a sal” é quase um feitiço, uma força feminina em busca do seu amor. Além de tudo, o amor pelo Brasil. Todos os elementos e símbolos brasileiros estão presentes. A “revolução em língua brasileira” é a proposta do novo espaço forjado pela ótica feminina.


10-O bem  e o mal...é o que aparece em muitas composições.Bordar, espetar, curar. A relação da cura com a doença; o pathos ( paixão) do  humano que traz dor mas também toda a delícia de criar e amar.O que seria “ cura”, neste sentido?
Sílvia - Acho que acabei respondendo acima. Em toda a relação homem/mulher, abrem-se feridas, isto é inevitável. As mágoas, as rusgas, enfim, tudo que nos coloca adversários. É uma guerra. Por isso, transformamos esse guerrear num guerrear divino. Guerreamos brincando com a arte. Escrevendo, pintando. Fazendo de nossa casa um templo. Resolvemos nossas dores e diferenças neste espaço. Se você assistir a um de nossos vídeos vai aparecer no final: produzido no espaço mitológico do guerrear divino entre Dona Deusa (Sílvia) e o Boi Arteiro (Marcus). Isto é a cura – a arte.
11-Pelo tanto que conheço (que ainda é pouco) e desejo conhecer o trabalho de vocês, diria que é de fundação, de alicerce, de transmissão de algo. Neste sentido, passar adiante o faltante, o que convoca a cirandar,costurar,escrever,pintar.O que é este espaço  enquanto lugar físico?
12-E enquanto lugar simbólico, nesta terra, neste tempo?

Marcus - A ciranda ordena a lembrança da forma circular. O ouro que descobrimos artisticamente harmoniza o anseio por amor infinito como a violência e a pobreza da vida cotidiana. Girar é tornar a pobreza um espaço olímpico, ou seja, divino. A representação do ouro artístico brasileiro está na cultura popular, especialmente no carnaval. O mito brasileiro tira da espacialidade tropical uma alegria que torna seu tempo molemente aquoso.

13 - Vocês são gaúchos e do mundo. Como chegaram neste espaço e tempo?

Marcus - Sair do Rio grande do Sul nos trouxe para o coração do Brasil. A aventura da exploração de um sertão moderno nos torna a cada dia mais brasileiros.

14-Gostariam de dizer mais alguma coisa?
Sílvia - Gostaria de dizer da alegria imensa de poder falar d’A Negra. Perguntas tão precisas, que refletem o quanto a entrevistadora captou bem a essência do projeto. Este projeto é de todos. Começa aqui em nossa casa. Mas esperamos criar pernas, braços, vozes, para que possamos reinventar relações. Estamos gestando algo que muitas vezes causa estranhamento, dúvidas, as pessoas não entendem. O nome é inusitado, mas chama para o Brasil. Para a mãe de leite, a negra ama. Para o carma crístico, a fé em  Jesus, a religiosidade. Já rezamos o rosário incessantemente para prosseguirmos nossa vida a dois, já o fizemos, sim. Estamos andando e crescendo, temos certeza de que é uma missão.



Agora, terminando por aqui, lembrei de uma inscrição de sonho muito particular.Sempre achei que eu era filha de Pequena, minha mãezinha que tinha a pele escura.Ainda lembro do susto quando me disseram que não.Oras! As pessoas dizem tantas coisas!Quem sabe direito sobre filiação! Pequena...mãezinha para sempre,do coração!Pois é...A Negra Ama Jesus , mãe universal ,possivelmente adota a todos que tem palavra de vestir.Além de agradecer a entrevista prometo à mim conhecê-los, aí no Cerrado, para encontrar comigo mesma, meu Diabo Velho e anoitecer com Coralina a desenhar a janela.Fico feliz e grata pelo nosso encontro , por compartilharem conosco esta obra magnífica de humanidade e amor.
Beijo com todas as letras
Adriana Bandeira

terça-feira, janeiro 11, 2011

Alfabetização

Escrevo para me alfabetizar.
Mas sou um eu ,sempre a outra
...a que quer saber falar!

Vertente de si

Minha língua é terra materna de pai. Descabida de qualquer sentido, encanto, patrocínio, apenas diz coisas por mim. Recebe a última voz e, sem pedido, pergunta: onde queres em mim? Nasço como a vertente que diz que não, mas nem sabe mentir.Vai sem pressa, vou sem fim.

Violação

Dou-me somente se ainda
amanhã me fizeres tua
É meu
não
para sempre
àquela violação

Larva de vulcão

E eles penduram umas coisas no armário,uns peixes no aquário.Gente como nós, em prisões.Andam numas coisas duras que nunca viram pó.Extinção.

Nascer maçã

Quero surgir como árvore que se deixa nascer maçã.

domingo, janeiro 09, 2011

A esquina

Quando te vi passar quis gritar.Não deu tempo! Cresci tão rápido até a outra esquina!

Sonho

Na madrugada te ouvi dizer qualquer coisa
Nunca
Mais
Acordei

Os "ãos"

É como agulha em tecido, é o bordado que faz a mão.É a chuva mais esperada que planta a intenção.Não há resto sem estrada, nem caminho de algodão.Há um moinho que nada, riacho, farinha e pão.

Desistência

Desisti.Comecei a viver!

Agarradinho

Repara que te falo baixinho que é só para nem falar.Um respiro sem som de nada e sei, entenderás.Neste não, toda a delícia, que sempre quis te dizer.
Já volto, mas fica entre nós: agora mesmo éramos um só.

Indecente

Indecente é a falta da tua boca,nuca, mão... no meu desejo.

Vestibular de mãe

Mãe de vestibulando é...minhoca sem terra!

Um dia

Um dia vai me faltar o medo, vai me faltar segredo e eu não vou mais falar.

Silêncio de sim

...É quando o silêncio inventa um dentro e sai.

sábado, janeiro 08, 2011

Por que Indecentes Palavras?

Geralmente não me concedo justificativas. Elas não funcionam. É natural que este seja um registro parecido com isto, portanto curto. Mas nem tanto, nem pouco, nem tarde, um texto que me traz perguntas mais do que respostas. Então me permito.
Também é fato que ultimamente tenho me perguntado sobre esta nomeação. O que há de tão indecente em se falar de universais assuntos? Ah! Sim! É que não são de todos estas questões; sobre esta  função específica de viver para além, esta mesma determinação que têm os gametas na sua perpetuação, quando vistos assim.Mas perpetuação do quê?
Quero os líquidos, eu dizia há pouco... quero o sêmen  dos que desejam plantar.Isso é indecente quando se trata de canção.Só porque eu não sei cantar!
São as palavras indecentes? Sim, sempre o são. O registro delas, bem mais. É verdade pura, letra após letra, texto após texto. Nem tanto pelo que dizem, mais pelo que não é possível dizer.O apelo da vida mais do que morrer.
Mas morrer é o que se espera, é bondade sem ser sincera; dá lucro para alguns que se sustentam na perversa permissão de não existirem.
A sexualidade não é passível de ser reprimida. Ela vem. Não como retorno.Não!Ela somente está! Seja no adultério, no trabalho das prostitutas, no direito conjugal, no ato passional, nas fantasias únicas. Que Freud não me deixe mentir ela surge e se adapta ou não, ela se encaixa para sobreviver. Amar... ah, é outra coisa. É escolher.
Costumo pensar que a sexualidade não faz muita coisa além do que perpetuar uma sobrevida. Isso é moralmente aceito, por incrível que pareça.
 Amar, porém, é registro de impossibilidade de consumação. Afinal sempre se quer mais quando se ama. Isso é indecente. O desejo do amor não é somente sexual. Sustenta-se para além disto, na falta inscrita no corpo.Ou seja: sou tua enquanto me tens, sou teu enquanto te falto.O ato em si...é somente parte.
 A sexualidade e o amor, quando juntos, fazem coisas que não morrem mais no mundo.
Mas afinal, qual a palavra que não é sexual? Vamos escrever juntos?
Seguimos...

Para Anita

Aprendi a escrever, filha.

Crime e castigo

Minha nudez será castigada, desde antes da primeira palavra.É só o frio de sempre que, sem pele, é nada.

Condição

Quero o teu início, não sendo filho.Tu em mim, de onde nasceste.Sou aonde podes retornar.

Velório do pai

O que eu faço agora, Aninha? Fica quieto aí, disfarça! Daqui a pouco chega mais gente e tu sabe que nunca nos foi permitido conversar.

"Fazendo Amor" com Carlos Leser

Se cada suspiro teu for assim, quero ouvir teus gritos nunca.
Se cada suspiro teu for assim, quero me encostar no canto da tua boca.
Se cada suspiro teu for assim, palavra-poema, ah, vida louca.
Se cada poema teu for assim, me deixarei suspirar enfim.

Carlos Leser

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Roubo

Das areias vou roubar as conchas.Palavras ao ouvido que te deixe às tontas.Não me é permitido soletrar mas...vamos nadar?

Temporal: verão!

Minha pele molhada, tuas cegas mãos.

Letra de par

Vamos embora hoje, para aquele , aquele lugar.Qualquer um que seja longe, que seja perto da estrada única que há.Vamos agora para aquela canção e sejamos a letra, o par de emoção.

A casa de A

Aprendi que casa não se escreve com A. Mas o que se faz com o telhado e o "se" do beijo que chega para ficar?

Ontem

Respirei ontem, pela primeira vez.

Tua voz

Traga-me uma concha da tua viagem.Preciso das palavras que faltaram, sem elas não posso nadar.Mesmo sendo sereia, nada sou sem teu mar.

Menino sem palavra ou palavra sem menino?

                             
Menino, entrego todo o dinheiro da carteira se me deres cem palavras. Olhos assustados, pés cansados de dor. O revólver erguido impune, Que conversa era aquela agora? Não sei não tia! Vai passando que  tô com pressa. Vou repetir, guri: cem palavras e te entrego tudo, nem vai ser assalto!Pára com isso tia!Não tenho nada e passa a grana que tá me enchendo o saco. Olha aqui gurizinho, estou pedindo com calma que é para tudo sair bem. Assassinato é coisa séria, roubo seguido de morte, então, nem se fala! É só me dar cem que tudo passa.O que tu queres? Minha história, porque eu moro na rua, estas coisas? É, pode ser. Tá bom...Mas olhando para o vídeo que depois vai para a TV. Nada disso, dona, que eu não posso aparecer, não!Vai dizendo, vai dizendo... Sei lá: eu nasci e depois vieram... me perdi na droga que cigarro de pedra é inferno...Tipo um rap? Não sei guri! Vai falando de ti mesmo... De mim? Sou aviãozinho e todo mundo me conhece como ladinho. Ladinho? Mas isso não quer dizer um lugar? Que lugar, tia? Tá complicando, tá complicando. Prá que este negócio de falar? Tô bem sei mãe nem pai. Não quero e nem sei sobre estas coisas. O que a coroa quer? Também tá a fim? Não falou cem ainda. Fica quieta  e me passa o dinheiro!E pára de encher!Prá cada uma das que te disse vai levar pancada. Aguenta vagabunda. Não fala mais? Porque? Muito sangue, muito. Perdoa eu não sei me dizer.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Ensaio sobre o amor IV

O elevador descansa e espera A moça dos botões dos andares esferas Sorri  esperança  alegria de ser testemunha de alguma coisa Nem sabemos Dizem todas as pulsações Mas há o incômodo do movimento o giro dos apertos É só um salto de balé Ele quieto e eu ninguém Quando morremos dói demais Mas há de ser morte o que nos faz honrar as melhores horas de uma noite se a vida voltar
Uma febre repentina pede um mal estar Despedimo-nos na rua como a indiferença faz
Estranho ir embora sozinha Desmaio sem respiração Algumas pessoas socorrem alguém me diz Coração É somente febre respondo sonâmbula Febre de trem
Quando criança assistia o trem abrindo a rua  minha estrada Esperava por ele Nunca parava Um dia parou quieto e tremi Sei quando estou diante de um trem pelo silêncio que sai de mim
Quando se trata disto não há solidão Um homem me segura  abraça apertado Diz-me Minha filha o que te falta Falo sem falar e ele me dá sal Tens a pressão muito baixa Sorri encantado e respondo do que não sei Fico no colo de meu melhor pai O que sabe dos trens


quarta-feira, janeiro 05, 2011

LETRA DE PELE,FEMININOS OSSOS QUE FAZEM CANÇÃO -Entre duas: palavra e palavra,Carmen Silvia Presotto

1-Devemos ao Luis Seguilla nosso encontro. Melhor! Devemos à fome de Luis estarmos hoje, conversando (ehehehehh). Para além de, quem sabe, termos que oferecer a ele um jantar sempre que venha, em pagamento pela dívida, gostaria de saber de teu envolvimento com a poesia portuguesa que é riquíssima.
Adriana que bom esta fome de encontros, de conVersar, de compartilhar e devemos sim a Luís Serguilha um jantar de encontros, porque desde aquele dia do encerramento da festipoa, onde ele era um dos convidados,  não desgrudamos mais de estar juntas em palavras e poesia. Ah, e convidemos o Fernando, já que é dele o grande trabalho deste encontro (rs!)

Bem, a Poesia Portuguesa, chegou até a mim através de Pessoa, como deve acontecer com muitos. Na Faculdade de Letras lemos Camões, mas quem mais me fez vibrar e ir atrás dos recantos lusitanos foi Amália Rodrigues, muito antes, quando menina ao escutar os fados, ao escutar sua voz sentia um encantamento intenso.  Vieram também outras canções, Tanto Mar de Chico Buarque nos sinalizando setas daquela mundo e depois veio o mar de Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e meu amor aumentou... vieram os contemporâneos, veio HerbertoHelder, Serguilha, veio Domingos da Mota, Sylvia Beirute e António Amaral Tavares e sabemos que ainda virão tantos outros. 

2-Raramente saio de casa. Já fui apelidada de tatu bola, por uma amiga. No lançamento do livro “ O melhor da festa”, na festipoa, fui. Adorei!Meu habitat natural!Pois bem...a primeira poesia tua que ouvi foi: o Luis está com fome.Vocês não querem comer alguma coisa?Quero dizer que o que me chamou a atenção foi qualquer coisa do pó e do pão. Algo como o universal em qualquer língua, como o reconhecimento de que podemos sair e buscar o pouco que se faz necessário. Na verdade não há exageros se pensarmos que não nos conhecíamos e que Luís era um convidado na festa, sem muitos conhecidos também.Pois bem...entre os desconhecidos: a fome!(ehehehe). Carmen...do que tens fome?
Tenho fome de gente Adriana, é banal mas tenho. Sou uma sedenta por trocar vivência, por aprender, por escutar histórias e causos. Quando descubro uma nova palavra vibro que nem criança e as palavras chegam com pessoas, com conversas, com leituras, não é mesmo?
Sofro de um canabalismo literário... Às vezes sou uma criança grande, e nesses momentos necessito de outros, porque vivemos um tempo em que nos relacionamos muito, conversamos muito em tempo real, em trocas de e-mails, em troca de poemas, temos milhões de amigos, temos milhões de escritos, mas a cada tanto preciso de um reconhecimento olho a olho, humano por demais, que me leiam de fato, que revise meus poros, que me espante as horas mormacentas. Tenho fome de sentar para conVersar e fazer girar a linguagem que é a nossa maior riqueza, porque fui criada assim numa roda de diálogos, de bate-papo, de giros amigos.

-“Tomazzini, isto há de ser uma aventura”!Lembra? Luis falando por nós à nossa amiga. Há algo a  ser dito, neste sentido, porque fui xingada pelos filhos, quando voltei as três da manhã (eheheheh). Conversamos sobre poesia,casais,separações,encontros.Falavas de teu amor pela escrita, pelos amigos e, de certa forma, pelo momento, instante.O tempo fazendo poeira (eheheh). Há quanto tempo escreves? Como descobriste teu desejo em relação as letras?
Sim, o tempo fazendo poeira e nós perfilando os vôos...Te leio e me dou conta  de como é difícil abandonarmos a culpa milenar de estarmos feito outras, lá, amando o momento, xingadas por poemar, conversar... é difícil, para alguns, compreenderem que somos muitas em um só corpo. Os filhos, a família nos querem sempre inteiras e de preferência em tempo integral, mas isso é bom, porque nos dividimos de fato no papel para escrevermos  e aí escrevemos aos dias:  cartas, diários, bilhetes, mails, mais tardes poemas, depois crônicas,e poemas,  novelas e poemas e se vivermos a tempo escreveremos romances e sempre poemas... um fado isso, não?
Meu desejo em relação as letras começou com 13 anos, num poema em homenagem ao aniversário  de minha cidade Sarandi. Ganhei o concurso e nunca mais parei de escrever, penso que nesse desejo esteja o desejo de ser amada, de existir para sempre e então, penso que estar no jornal da cidade, sendo lida me fez perceber que no escrito está a imortalidade.
Na minha opinião, o maior sonho de todo escritor é morrer no papel pelo simples fato de saber que um dia vai morrer de fato, narcisismo primário... Então, por sentir fortemente o vazio, a dor da partida, vamos simbolizando e treinando o momento derradeiro em vírgulas, em travessões, em dois pontos, em ponto e vírgula, em ponto  e eu, em reticências meus vício retrô... (assim posso morrer três vezes, hehehe)  

4-Quando entrei em vidráguas para dar uma olhadinha... Não saí mais.Há uma denúncia do profano, do escondido.Diz-se isto, geralmente, do feminino mas...O que pensas de Ferreira Goulart?
Hehehe, que bom que percebes isso lá em Vidráguas. Realmente o escondido fascina, penso que  isto esteja na poesia, um lugar onde profanamos a morte, a vida, o desejo, o amor, mas nunca um poema, já que nos deslocamos entre metáforas sempre e sempre que nos chega um poema é uma alegria, lemos com maior carinho cada versos, cada momento.
O feminino de que falas penso ser uma compensação da criação, pois vemos o ato de criar como uma posição feminina da linguagem, não um gênero do corpo. É ruim quando colocam a carne onde não deve, mas sabemos que as palavras não deveriam pesar, apesar de pesar a alguns  e  muito. No entanto, para nós palavras são carne, comestíveis e por isso tenho fome de conVersar.
Gullar é nosso maior poeta vivo, está aí para comprovar a importância do escrever, do poemar, do repensar e de existirmos com ele além do Poema Sujo, uma obra de Arte. Gullar é onde nada é mais.

5-Vidráguas é um convite. Ali  estão reunidos poemas, textos, reflexões de várias pessoas.Como pensaste Vidráguas?
O Vidráguas foi pensando por mim e Ricardo Hegenbart, meu parceiro Vidráguas, justamente como este lugar onde muitos poderiam existir em poemas, em textos, reflexões, fotografias. Por isso, mantemos a casa aberta, falamos sempre, que se for bom para nós será bons aos outros, acho que  este é o nosso princípio. Algo do religare grego penso eu, agora, porque essa é nossa  religião: fazer aos outros o que desejamos para nós e assim tem sido... lemos, escutamos, conversamos, publicamos no site, trocamos ideias, publicamos em livro sempre respeitando quem chega, respeitando o estilo, algo muito difícil hoje em dia, alguns até se espantam com tal democracia, mas driblamos a demagogia  dos que não acreditam e seguimos... Vidráguas é nossa Ítaca, e todos devem ter uma para seguir em frente.  

6-Anáguas ! Quem não lembra desta palavra? Aquela saia colocada por baixo, aquela forma diferenciada de esconder , cuidados com todo o prazer.Mais do que isto anáguas é uma SAIA, um verbo no imperativo que escorrega moldando um vestido,uma pontinha de renda a denunciar o que escapa.Textos eróticos?O que são?
Hey, aí está a sublimação do que falo ser possível em poesia. Já no falo está o “falo” então, vivemos escorregando nossa sexualidade entre palavras, entre meias palavras, algo que  sabemos ser vital em sentimentos, porque a coisa é fálica sempre... por baixo dos panos  há muitas escaramuças em todos os sentidos da linguagem, mas nos textos eróticos podemos ser sempre potentes, as deusas, os heróis, os piores, os melhores, os desejáveis de sempre amor, etéreos, e aí penso entrar o amor platônico, já que sem Eros não há vida, sem Eros tudo será morte, será nada, e como não queremos mortalhas, buscamos  Anáguas, buscamos o sensível para amar além da idade, além do tempo, além do além... e a Arte não teme se desnudar, porque nascemos nuas de palavras, nascemos escondidos de vida e aos poucos vamos formando nossas segundas peles, nossas defesas de viver e nossas anáguas de morrer sempre  com muito amor de construção!!
Criamos a coleção Anáguas para trabalharmos a poesia erótica em Vidráguas. Este ano teremos mais publicações e também estaremos criando uma coletânea de poemas eróticos, já estás convidada a participar. 
7-A sexualidade e a poesia... O que uma coisa tem em comum com a outra?
Tudo, porque a palavra é a carne do poeta. Com palavras nos desnudamos, nos vestimos, amamos, suamos, porque a palavra é nossa holografia, nossa linguagem, nosso sentir e nosso fluir e isso é a Poesia, um tempo de viver de amor mesclado de desejo e, por isso, digo que está em todos os gêneros. A Poesia é a mãe da linguagem, e na linguagem está a nossa sexual idade.  E deve ser leve, deve ser anáguas...

8-Por causa da fome do Luis também acabaste me falando de teu envolvimento com a psicanálise. Como isto também me fala...Pois bem, os dois lugares, de escritor e psicanalista dizem respeito a palavra.Qual a diferença entre estes dois lugares?
Aprendi com um grande Poeta, Oscar Miguel Menassa, que quando a escuta é poética a palavra será  psicanalítica. Também compreendi com ele que quando é possível o poema, será possível a vida... mas, deixei o lugar de psicanalista para me vestir de  poeta, escritora, editora e a usar a psicanálise como ferramenta para meu conviver entre as pessoas e a escritura diária.
Mas, tanto poeta quanto o psicanalista, tem na palavra a materialidade com que se tece os sonhos. Freud nos dois princípios do suceder psíquico nos revela isso, temos duas vidas, uma sonhada e uma desperta, então os dois lugares trabalham por esta construção e digo sempre: sonhar sonhamos todos, a diferença estará no que fizermos com os sonhos... e como diz Gullar, a vida não nos basta, por isso a reinventamos. 
9-Carmen escreve...a mulher Carmen escreve. Marido, filhos...Há uma diferença importante entre o ficcional e o tempo real, de um sujeito.Neste sentido, o titulo desta entrevista: duas Carmens- palavra e palavra.Como percebes isto?
Amei esta letra de pele, com ela tatuas o fazer poético, a importância da escritura na minha vida. Sim, há diferenças entre as Carmens , mas há quem confunda, isso é do nosso ofício, então, penso que quem não pode confundir somos nós mesmos.. a mão que escreve é a mesma que educa, que alimenta, que ama, que odeia, mas a que vive é sempre mão dupla, às vezes tripla até... então, espantemos os “euísmos” e vamos viver em muitos contextos, difícil mas possível. 

10- E a editora? Já pensavas em tê-la? Qual o principal objetivo nisto?
A editora foi nascendo junto com o nosso trabalho, crescendo junto a mim e Ricardo. Ao perceber a dificuldade de poetas jovens, menos conhecidos de existir, vimos que é importante estarmos abertos para que cheguem novos escritos, novos momentos. Pensamos a editora como um trabalho artesanal, isto é, de escutar e respeitar cada um que nos procura, ler os escritos, respeitar a Voz que se apresenta, sugerir, trabalhar junto e incentivar e propiciar a quem desejar a ter o seu livro, falamos em livro do autor, porque pensamos que quem chega a nós tem sua trajetória para narrar, contar, concretizar, para isso nos ausentamos e buscamos construir com quem chega. Escutar, projetar, viabilizar  um sonho possível... e principalmente, incentivar e fomentar a Poesia no mercado, é difícil, mas se está sendo bom para nós, será bom para outros. Já falei em outra entrevista, mas repito aqui, o editor de hoje me parece ter o mesmo papel do antigo livreiro, alguém que lerá os manuscritos e estará próximo do sujeito da publicação, entrecruzando escritos, viabilizando caminhos.
E nunca se escreveu e se publicou tanto poesia quanto hoje, então algo está mudando... antes, não sabíamos que a maioria banca seus livros, agora isso é conversa comum, penso que a diferença estará no que se fizer com o que  e com quem publicarmos, por isso pensamos cada livro como um projeto de vida. 

11- Agora... Postigos!Tem um poema aqui que me pega de jeito. Perdoa, mas vou transcrever: “Existe um sono a que chamo silêncio/velho mapa de onde voam meus pés/vento/em que me espelho momentos/existe um tempo em que desperto memórias/terras/em que calço meus rastros/fendas/onde soluço meus ossos.” É Pisares, em Postigos.Pois é minha amiga...pode falar um pouco deste silêncio até os ossos?
Incrível, mas amo este poema e este primeiro verso estava muito tempo em mim, onde ia seguia com ele anotado nos cadernos... aí, teve um dia que comecei uma oficina de quatro encontros com Gullar no Polo do pensamento no Rio e escuto algo dele, sobre o livro que havia encaminhado a sua editora, Em Alguma Parte Alguma,  e que havia um poema que se chamava “Reflexão sobre o osso da minha perna” e ao falar ele nos recita uma parte do poema, ou todo, não recordo... só sei que ao escutar “...de mim/já que a pele/e a carne/ irrigam-nas o sonho e a loucura...” despertei ao meus versos e solucei até os osso...
É como ele diz no poema e tento dizer  em meus soluços enrodilhada em seus versos: “o osso é  parte mais dura e a que menos sou eu...” o osso é desprovido de carne, de palavras, de vida e dura. 
Então, que as musas existem, existem...  mas, que nos peguem trabalhando, como aconteceu com  meu “muso” Gullar.

12-Quando me explicavas o que era Postigos, pensei no abrir e fechar dos olhos que registra sempre o diferente. São as denúncias de que somos sempre outros, de instante a instante. Também pensei no inconsciente e suas escapadelas, como piscadas de olho na janela ( eheheheh). Enfim!pensei em muita coisa.Porém, mais do que  se imagina há um apelo para a conversa.Tua escrita chama outra, teu poema pede que se responda com poesia.” Versos que conversam”, não é ?Podes falar um pouco disto?
Sim. Acredito nisso. Acredito que os versos conVersam. Não há dom sem trabalho, isso precisamos entender, divulgar e passar a diante. Poeta que lê poeta tem mil versos na mão...  muitos ainda falam em dom,como falam em vocação para professor, para médico e com isso dizem também: se é dom vem de graça, não custa nada, então nada a trocar, porque se não há valor de troca, não há mercado ... mas sabemos e vivenciamos já, que os tempos estão mudando, os blogues aumentando, a poesia se volatizando e sabemos que ler vicia, escrever vicia, contar vicia, conversar vicia, Arte e Poesia vicia, são hábitos que temos que ter a diário, por isso nunca se escreveu e leu tanto poesia, é verdade, mas talvez porque agora estamos nos publicando, estamos na rede, estamos na leitura de todos e não mais ouvindo: não, poesia não vende, não muda isso, não isso, não aquilo... bem, sabemos ainda não vende, mas cada vez mais lida será que não venderá? Algo está mudando e rápido Adriana e para melhor!!!

 13-No lançamento do livro Postigos... também fui! Acho que estou ficando saidinha (ehehehehe). O acolhimento dados aos convidados, o piano e os amigos fizeram com que o lançamento de Postigos parecesse um pouco como... uma celebração de nascimento.Mas não somente do livro!Não! Fomos chamados, convocados a ler e reinventarmo-nos a cada poema.Sei que lançaste primeiro no Rio de janeiro e depois aqui no StudioClio.Como foi esta experiência?
Postigos é um livro e  são portinholas, são janelas, são reflexos de leituras e de conVivência,  nele está a Lua, a mulher, as dobras do tempo e encaiXes, está o selo Vidráguas. Nele estão os olhares atentos e amigos de intenso tempo que acreditam no amor de construção, nos tijolos invisíveis de nosso cotidiano.  Por isso, Postigos é uma festa sim. Postigos para mim, para Ricardo,  para Vidráguas é uma célebre ação, tem que ser comemorado. No Rio, com Marcio, Saulo, Oliani. Aqui, com Ricardo e Tiago, Américo, Adriana, Berenice, Tânia e Pedro Du Bois, Denise, Ronald, tinha que ser festejado entre os acordes de Chopin, no StudioClio com amigos e familiares, poetas e escritores. No livro, ainda estão Aline, António, Ivan, Gerci, Walmor e Nestor...    Sim, um livro que reúne versos, imagens, áudio, música e amigos é uma grande comemoração Vidráguas, porque entre nós os versos conVersam, amam, e ganham vida e postigam (rs)!

14-Qual a diferença entre pele e palavra, Carmen?
E, há?!!
A pele é a palavra da alma, ela responde, ela conversa e atua... Eu, sou exemplo disso, vive na pele o que deveria ter vivido no papel. Imagina que tive por muito tempo uma dermatite de contato  grave, quase crônica. Mil e um medicamento, sempre com o anti-alérgico na mão, até conhecer um dermatologista que me disse: isso é psicosomático, Carmen... eu sabia, mas como curar, como tornar consciente o problema?... foi aí que ele me disse: olha cada vez que der desespero e começar a te coçar, em vez de rasgar a pele, seja a hora que for, tenha sempre um caderno e uma caneta perto, escreva cada reação, cada momento vivido dessa coceira e todas as sextas-feiras venha aqui para me ler o que escreveres... gente escutar isso, foi um bálsamo, não precisa mais me rasgar e assim tive meu primeiro leitor depois do poema que fiz aos 13 anos, e ter um leitor cura, porque escrever para ser escutada me curou. Não cito o nome aqui, mas quem quiser pode dar meu telefone que passo, ok?
Por isso, escuto a todos. Observo que cada poema traz algo da pele da mão que escreve e respeito muito isto, pois foi assim que curei uma dermatite de contato ao ser lida. Então Adriana, essa é a diferença da palavra, para mim ela estava na pele, colada nela estava meu desejo, apenas faltava quem o interpretasse.    
15-Gostarias de registrar mais alguma coisa?
Um beijo grande Adriana e obrigada por este convite, li a entrevista de Jorge, um primor e me honra estar agora em conversas ao seu lado. Parabéns pelo blog Indecentes Palavras, por teus escritos e que bom que nos encontramos e saibas que lá em Vidrágua e em meu coração já estás tatuada.  Seguimos!! 
O que dizer, Carmen?Talvez não precise mas deixo escrito sobre a satisfação do nosso encontro, da dívida que tenho com a fome de Luis, da referência que tens sido na minha estrada; por não me sentir tão sozinha ao tê-la, para sempre, convidada.
Beijo com todas as letras
Com todas as letras, e tônicas acentuadas sempre, beiiiiiijos! Gracias.



terça-feira, janeiro 04, 2011

Subterrâneos

O sol está tão forte...que esburacou meu corpo inteiro, fazendo letra onde pele receio.É esta falta de chuva que me faz! Arranha céus em bueiros.

Aviãozinho de filho de "doutô"

No dia da minha revolta escrevi amor com sangue de coelho.Fiz chá com erva daninha e urtiga e caldeirão.No dia da minha revolta criei asas como o passarinho que já morto voa até aprender a ser gente.Sou avião, sou cortador, sou da coragem engenheiro.Que ninguém me interrompe quando tô no direito de morrer ou de matar.Sou aquele do corpo fechado, de batida, de tremores e de anseios...tenho medo só do Fiapo.Se ele me pega, cativeiro.

Dois prá lá, dois prá cá

Daqui de longe pergunto se não cheguei cedo ou tarde para te convidar para dançar.Mas a música está tocando e já tomei tua mão.Este tempo faz da distância finita...Tua minha respiração.

Um par de brincos,presente de Jorge Rein

LIGAÇÃO A COBRAR
Do outro lado da linha, o pescador.


HIGH HOPES
Aspirava algo mais, além de coca e cola.

Jorge Rein

domingo, janeiro 02, 2011

Tua para sempre

Para ter-me sempre, esteja na hora e local combinados,venha sendo ou não convidado e sente-se a mesa para o jantar.Abra a palavra com cuidado, o mesmo segredo do vinho e mar.Já não era eu, tua, lá?

Chuva para as flores

Subia correndo, num gesto de vida.Trazia espalmada a água perdida...para as flores não secarem de falta.Subi lenta demais, sem tempo.Já era outra : sapatos na mão,verdade, veneno. Levava flores para a chuva que caía morrendo.

Ensaio sobre o amor III

Escrevo para ti que nem é ele, escrevo para este outro inconseqüente. Surge subversivo e inquieto, nas horas todas em que nem lembro. E nem é ele um mesmo , nem a única palavra, seu nome.Não! É só desassossego que rasga a inquietante história dos receios. Dizem alguns que o medo nasceu do desejo ou o próprio desejo nasceu do medo.A verdade fantasma de ter-se nas mãos a falta de palavra, a falta da água que a chuva faz lembrar.
Alucinante silêncio, o do vinho que descansa sem saber se vai ser bebido. Olhando de longe, escondido, dando-se em fermentos que fazem crescer o gosto, sofrimento de transformação.Tornar-se sempre o que o tempo esculpe porque somente o tempo faz  da pedra o rosto, do vento a forma perfeita da palavra só. Assovio da voz.
As crianças seguem para casa. Passam falando, com seus livros nas costas, correndo soltas em pequenos rasgos de luz.É meio dia de verão...ainda.
Hora de descansar. Até agora tirei os sapatos e bebi apenas um cálice.
As crianças estão alegres descendo a rua... alguém se prepara para amar.



Tempo a tempo

Ontem tive coragem e deixei o bilhete, no portão do jardim dele: te quero! O recado fôra escrito há 40 anos atrás.Oras,que importa o tempo? Nem a casa estava mais lá!

sábado, janeiro 01, 2011

Primeiro dia do ano

Hoje...meio que palavra ambulante...(ehehehhehe)

Simpatias de casal

E não tem erro! Segura o amor para sempre!...é duas velas de sete dias,brancas, que não é para fazer o mal.Deixa acesa em lugar de passagem , queimando até o final. Isso é o que mãezinha faz para resolver coisas do coração.O quê? Se ele te ama? Isso aqui não é questão.Condição é condição.

O namorado

Quando anoiteceu preparei a embarcação.Tecidos, letras e a melhor música que lembro.Não sei cantar!

Manifesto silencioso

Abrir a a carne todos os dias! Cortar em cubos as partes vestidas.Secar o corpo com toalhas e gesto.Como evitar que os filhos não sigam um manifesto?

Mãos vazias

Alcei voo sem medo da minha piedade.

Costuras

Teu pedido suspiro faz-me serpente.Nem ouço as palavras... são vertentes que desalinham o cais. É quase manhã e as estrelas precisam dormir.Não sabemos ,não amamos, não queremos o suficiente para despontuar. Tecido da verdade? Saber querer amar.

Daqui de dentro

Daqui esperei a brisa que te traria no primeiro navio.Chegaram-me as encomendas, as tuas horas decências em que não podes vir.Deixei de amar, voltei a sorrir.Fiz-me acompanhar da mais bela mulher que me quer, para pensar que hoje te vi.Mas...onde eu ando se não estás aqui?

Primeiro carnaval

Pó da terra faz a estrada.Pele palavra que me ensina a caminhar.Nem vejo, nem sinto, nem cheiro.Cuido da horta, jardim inteiro.São delícias que respiram nas veias, hortaliças em som de vogal.Na terra se faz a última cama, da terra se tem a melhor ceia, o primeiro carnaval.

Parto

É estranho, filho...tuas mãos nunca mais vão caber nas minhas.Só é a palavra que não finda.