O tempo rasgou minha parede, meu papel enfeite que me abrigava do frio.Cada vez sinto mais o vento gelado do início dos invernos.Ouço pouco e quase não falo porque minha voz é de outra época, é de outras pessoas e sou aqueles que já se foram.Estou fora de um si.Cuidado para não morrer assim,hein?
Firmino Caspel, 95 anos.
OBS: o marcador vozes serve às muitas possibiliddes de fala.
terça-feira, abril 26, 2011
Ponto do que conto
São estas
coisinhas brilhantes
que me fazem
lembrar
como não
é possível juntar
partícula de pó,
sonho,
ser,
outra...
Há cada manhã?
coisinhas brilhantes
que me fazem
lembrar
como não
é possível juntar
partícula de pó,
sonho,
ser,
outra...
Há cada manhã?
sexta-feira, abril 22, 2011
Bicho esquisito
Nasceram-me uns
buracos
recortes intactos
ventre,olhos, voz.
Um bicho esquisito
gastou seu tempo
em mim
Sou o resto,
madeira esculpida,
puro cupim.
buracos
recortes intactos
ventre,olhos, voz.
Um bicho esquisito
gastou seu tempo
em mim
Sou o resto,
madeira esculpida,
puro cupim.
semente
Juntei as flores, num campo de estações.Mais algumas laranjas que nasceram semente e flor.Arrumei a mesa e costurei toalhas que se enfarinharam de pão.O que estranho é este tempo de nuvens, quando dizem que já nem passou.Nele não ouço o que dizes e me carrego... como quem nunca brotou.
Anel de brilhantes
Recebo o presente com gratidão.Esculpindo meu dedo, tua aragem fresca de verão.Seguro e finito o detalhe enfeitado que assegura-me quem sou: apenas uma das que poderias amar.Denuncias a busca aflita com os olhos, o sexo,a voz. Este presente me liberta, me chama de tantas outras que, não estando tua, desejo ser.
quinta-feira, abril 21, 2011
Culpa da voz
Instaura o vazio
rasura
Eco da voz
censura
que me aponta
estanque, estática
Culpa estranha
do que
jamais fiz.
rasura
Eco da voz
censura
que me aponta
estanque, estática
Culpa estranha
do que
jamais fiz.
domingo, abril 17, 2011
Como dizer ?
Com que denúncia abres meu sexo, entrando na palavra da minha dor escrita?Com que direito não me enganas e nem promete casamento, nem reparos, nem unguentos...?Com que olhar me vês calada mudando o jeito de dizer desejo?Em que aventura me imaginas, em que roupas, em que dias num tempo em que não existe nada que não seja um pouco de... alegria?
O perigo
A verdade sobre nós é que não precisamos de muito.Apenas um lugar seguro para, depois de cem anos, ficarmos a sós.A verdade sobre nós é que, juntos, perderíamos todo este mundo que a espera nos dá.Nossa verdade é grande demais!O perigo é morrermos sem perder.Será?
verdade do sonho
Meu nome
é de todo
um espaço pequeno,
um branco.
Esquecimento,
resto enfadonho
em que inscreveu-se
uma
partícula de alguém
que nunca vai
lembrar porque.
é de todo
um espaço pequeno,
um branco.
Esquecimento,
resto enfadonho
em que inscreveu-se
uma
partícula de alguém
que nunca vai
lembrar porque.
A menina
Vez ou outra ela passa por mim, no tempo.Olhar quieto e tristonho.Vestido vermelho, sapatilhas nos pés e a pequena boneca que enrola num manto.Quando me alcança chega a sorrir, um pouco.Fica feliz por tê-la deixado viver, por encanto.
A ave de dentro
Minha ave de dentro criou asas absurdas, estranhas, que não param de crescer.Tudo antes estava certo num ciclo de vida mansa: comer, voar, viver.Esta outra, diferente, tomou-me emprestado de mim mesma sem saber.Jurei que aprenderia a voar mas não me acostumo a morrer.
Minha nudez
Sobre minha fala indecente, jamais vou dizer que me pertence. São tuas as roupas esparramas no chão, se-mente.
sexta-feira, abril 08, 2011
Dia de chuva
O encanto das sombras cercou-me impunemente buscando a luz que nem habitava em mim.A luz é sempre da rua, das passagens obscuras, recantos de onde verte a palavra .Por hora ressentida e inquieta convivo com isso, este tecido escuro que me persegue.Por vezes some, adormece e é quando eu...planto terra,esparramo grãos.
Para o Escrito
Aceito tuas carícias deitando-me no chão, na cama, no céu.Recebo tua boca, teu sexo, tuas mãos.Em mim te moldo todo, criando espaços, buracos, onde nem existiam réstias.Serpente que me diz: quem eu era?Abro-me em espera que se esparrama por si.Vertentes que escrevem palavras na pele em flor, em mim.
Corpo diferente
Minhas mãos-pulmão, um médico não entenderia.Olhos fala, língua ouvida.De resto curar a cicatriz com nova ferida que não se desenha só.
Imagem
São tuas as canções de ferro-estrada?É tua a imagem alada de meu corpo quando acordas em mim.Criei asas nestes últimos dias, te visitando quando bem quero.Pensando bem...nunca mais ganhei o céu, preso no vértice-cordel de ter sido criado.
Poeira no fim
Nós
dias da casa
lençóis esculpindo
a voz amada
de longe
como suspiro de sim.
A sós
dias de rua
luas entranhas
iluminando
o desejo de ir.
E se a lua dispara
sua
a nossa canção?
Somos
nó
de todos
só
poeira no fim
da enunciação.
dias da casa
lençóis esculpindo
a voz amada
de longe
como suspiro de sim.
A sós
dias de rua
luas entranhas
iluminando
o desejo de ir.
E se a lua dispara
sua
a nossa canção?
Somos
nó
de todos
só
poeira no fim
da enunciação.
quarta-feira, abril 06, 2011
O Inventário-II
Estrada de ferro, olhos da construção II
As roupas lavadas com seus nomes diferentes.No rio em cestas pesadas, guardadas na grama do sol.Eram muitas na denúncia da voz.Com suas manchas de terra, de gozo de gente na solidão que rimava com o chamado do patrão.Lá na casa, a mesa dos filhos transformada em balcão.A comida em panelas sem fim, sem o gosto quente da falta de mais querer.Nas fornadas, os pães sem o tempero gostoso dos olhos de vida que a mãe, antes, tinha.Ao lado do forno, ao lado do rio, era a que nem gemia, nem falava, nem sabia que seu não engasgado retalhava sua falta de partida.Misturando palavra que vinha, farinha de osso, de sabão. Era outra, sem olhos mas com enormes mãos.
Na tarde de sempre o pai nem via.Atrás do balcão,de longe feito um quadro, moldura dos antepassados,bebia o que o corpo nunca mais plantaria.Eu mesma nem esperava a violação que me abriria em tantas.O homem de olhos esquisitos, de roupa lavada e estômago cheio calou-me o grito de medo.Pedinte, exigente de sua parte em mim.Segurou-me os braços, as pernas, a voz.Violou-me como se fosse dele o corpo que estava só.O pai tão longe, na sua sombra, cantava qualquer coisa num som embriagado de entrega, de aceitação.Achei que devia, ao homem, pelo caminho que vinha.Deixei que violasse minhas entranhas como contribuição estranha ao que jamais teria volta.A língua do sexo, a língua fendida, aberta em nova poesia.Seria da violência a falta, que faz nascer a ternura?Seria violenta a escrita da doçura que só, inventa o amor depois da estrada,do trem,depois da dor.
As roupas lavadas com seus nomes diferentes.No rio em cestas pesadas, guardadas na grama do sol.Eram muitas na denúncia da voz.Com suas manchas de terra, de gozo de gente na solidão que rimava com o chamado do patrão.Lá na casa, a mesa dos filhos transformada em balcão.A comida em panelas sem fim, sem o gosto quente da falta de mais querer.Nas fornadas, os pães sem o tempero gostoso dos olhos de vida que a mãe, antes, tinha.Ao lado do forno, ao lado do rio, era a que nem gemia, nem falava, nem sabia que seu não engasgado retalhava sua falta de partida.Misturando palavra que vinha, farinha de osso, de sabão. Era outra, sem olhos mas com enormes mãos.
Na tarde de sempre o pai nem via.Atrás do balcão,de longe feito um quadro, moldura dos antepassados,bebia o que o corpo nunca mais plantaria.Eu mesma nem esperava a violação que me abriria em tantas.O homem de olhos esquisitos, de roupa lavada e estômago cheio calou-me o grito de medo.Pedinte, exigente de sua parte em mim.Segurou-me os braços, as pernas, a voz.Violou-me como se fosse dele o corpo que estava só.O pai tão longe, na sua sombra, cantava qualquer coisa num som embriagado de entrega, de aceitação.Achei que devia, ao homem, pelo caminho que vinha.Deixei que violasse minhas entranhas como contribuição estranha ao que jamais teria volta.A língua do sexo, a língua fendida, aberta em nova poesia.Seria da violência a falta, que faz nascer a ternura?Seria violenta a escrita da doçura que só, inventa o amor depois da estrada,do trem,depois da dor.
Estação dos Nascimentos
É a estação do tempo
que nos traz as folhas
pelas calçadas.
Ventres aquecidos
para nascer
na madrugada.
que nos traz as folhas
pelas calçadas.
Ventres aquecidos
para nascer
na madrugada.
terça-feira, abril 05, 2011
O SEGREDO QUE PERPETUA A PALAVRA,É POSSÍVEL DIZER UM POEMA?- Um mergulho na letra de Cristina Macedo
1-O que é escrever poesia?É possível traduzir um poema?
O escrever poesia, para mim, é um impulso incontrolável. Este impulso surgiu há pouco, questão de um ano atrás. Não sei te dizer bem porque, mas meus poemas, em sua grande maioria, falam de erotismo. Talvez porque, com o passar do tempo, cada vez se torna mais clara a importância do ser erótico, do expressar o desejo, do poder dizer tudo com todas as letras. O poema é traduzível, sim, embora seja, a meu ver, a tradução mais complexa que existe.
2-Falando de tradução...Há sempre um mistério na palavra que
circula entre o que eu desejava dizer e o dito;entre o que foi dito e
o que foi ouvido.Numa tradução este segredo é colocado em questão,
quero dizer, é tomado ao pé da letra, nas melhores formas, nas mais
éticas de se fazer uma tradução.Poderia contar um pouco sobre tua
experiência?
Experiência extremamente enriquecedora a da tradução de poesia. O tradutor tem que possuir muita
sensibilidade para tentar se aproximar ao máximo da intenção do texto de partida. Não se pode fugir
do significado nem do significante. O conteúdo e a forma devem ser preservados ao máximo.
O ritmo, a musicalidade e a respiração do poeta precisam ser passíveis de serem transportados para outra língua, a língua de chegada.
3-Neste envolvimento com a letra do outro acabamos nos envolvendo
com o outro. Aliás, somos estruturados enquanto...significantes.Pois
bem...Estes dias tu falavas nela ( eheheheh) naquela com quem tu
estivesse envolvida.Falavas na letra dela como se , de fato, a tivesse
ouvido ao pé da palavra.Quem é ela?A autora dos textos que
traduziste?
Sylvia Plath, poeta norte-americana moderna, nascida em 1932, em Boston.
Suicidou-se aos 30 anos, em Londres, quando já estava separada do poeta
inglês Ted Hughes, e deixando um casal de filhos pequenos. Traduzi, juntamente com o poeta
paranaense Rodrigo Garcia Lopes, aquela que é considerada sua obra fundamental: "Ariel". Sylvia Plath é considerada uma das mais importantes poetas americanas contemporâneas: em 1982, recebeu,postumamente, o prêmio Pulitzer na categoria Poesia, com o livro "The Collected Poems".
4-Deste envolvimento com a letra do outro nunca saímos impunes.
Não dá.O que a letra desta autora fez diferença na tua vida?
A poesia da Sylvia me tocou profundamente. Fiquei extremamente envolvida com o sofrimento dessa mulher sensível, sofrida e talentosa. E foi um exemplo para mim sua força de poder escrever, num momento especialmente doloroso de sua vida, seus melhores poemas, os do livro "Ariel": Sylvia escrevia de madrugada, quando os filhos estavam dormindo. Os 40 poemas que compõem o livro, produziu em poucos meses, sendo que 25 deles, somente em outubro de 1962, poucos meses antes de se suicidar.
E, muito importante, a técnica, o ritmo, a escolha das palavras, tudo para ela foi sempre
fundamental: os sentimentos estavam à mercê da técnica.
5-Também comentavas sobre o “ garimpo” pelos poemas da verdade,
que seriam de fato da autora.Ocorre que ela, a verdade, sempre
irrompe, num momento ou noutro.Esta tua busca fez-me pensar sobre o
que fica, o que um estilo pode fazer surgir no outro como denúncia,
como ética, como voz.O que achas deste poder da palavra?
Pois é, o que comentava contigo é que a 1ª versão de "Ariel" foi feita sob a orientação de Ted
Hughes, que publicou o livro na Inglaterra, em 1965, e nos Estados Unidos, um ano depois. Foi um sucesso! O que não se sabia, e que veio à tona em 2004, graças à filha dos poetas, Frieda Hughes, é que a versão de Ted para "Ariel" não era a versão que a própria Sylvia queria, e que tinha deixado pronta antes de se matar. Ted retirou 13 poemas do projeto de Sylvia, e colocou outros 13, a seu bel-prazer. Felizmente isto foi esclarecido, e publicou-se, então, "Ariel, edição restaurada" com o prefácio da filha, dando estas explicações. Este foi o "Ariel" que Rodrigo e eu traduzimos, ou seja, o "Ariel" que a Sylvia pensou.
6-Acredito que a poesia, a música...sejam as falas que pertencem
as pessoas, na sua diversidade.Mesmo o poema popularmente visto como
“ incompreensível” não tem como ser recebido assim, visto que
ali onde não compreende faz valer uma certa...condição.Falo da
condição do questionamento que um poema, um texto traz, quando não
se trata de entretenimento.Bem...o que achas desta qualidade
subversiva da escrita?
Acho que esta condição de ser subversiva é que faz a diferença, é o que nos faz questionar,
aprofundar inquirições. Sempre prefiro o "incompreensível" nas artes em geral.
7-Seguindo neste tom é fato que da sexualidade nunca se falou
tanto!Focault na “ história da sexualidade, porém, já aponta a
forma interessante com que se FALA dela: num tom confessional (
ehehehehheeh). Concordo.Ele vai mais longe dizendo que se fala para
não exercer uma sexualidade.Já Freud...bem, Freud nas entrelinhas
acaba dizendo que a sexualidade não é passível de recalcamento.Ela
vem!Fala em sublimação não como sexualidade recalcada e sim como
pulsões encaminhadas, talvez ( digo talvez porque adoro repensar
Freud e, quem sabe, construir sempre uma nova forma de escutar).Pois
bem...o que a sexualidade tem em sintonia com a escrita?
A sexualidade, ou o impulso sexual, o erotismo, o desejo, a paixão, são a própria literatura. Não consigo escrever sem estes impulsos. Minha criação traz, nos contos, o impulso de matar ou morrer; nos poemas, a sexualidade à flor da pele. Mas creio que tu poderias analisar muito melhor do que eu estes impulsos.
8-No teu blog encontramos pérolas , como uma que acabei roubando
para o Indecentes Palavras ( eheheheheh). Nele encontro sintonia com
algumas falas do feminino, de autores mulheres e me pergunto se
nós...as “ elas” estamos mais falantes sobre nossos
sonhos.Explico: geralmente é atribuído à mulher um papel de
queixosa.Por certo talvez tenhamos encarnado o papel de quem fala das
necessidades.Porém, neste momento, escuto uma coisa
diferenciada.Não se trata mais de necessidades mas de...sonhos.Falar
dos sonhos num domínio público, como um blog.O que achas?
Acho que é válido, mas sonhos submetidos a técnicas, a se expressar em boa literatura, para que não sejam apenas "diários". Coloco, em meu blog,
muito da voz feminina em suas mais diversas acepções, assim como a voz masculina também, mas sempre privilegiando o talento no manejar a palavra.
9-Sim!Pois que as mulheres sempre falaram mais, apontaram mais as
coisas mas numa perspectiva de conjunto, de família, de todos.O que
é individualizar-se?
Creio que seja a expressão da mulher enquanto mulher indivíduo, com seus conflitos internos, com sua maneira de ver e pensar o mundo, com seus prazeres e dores, enfim, a mulher enquanto um ser por inteiro, posicionada e dona de si. Aquela mulher que pode ficar sozinha consigo mesma e sentir-se preenchida, acolhida por si.
10-E a Cristina é...mãe!( eheheheheh).Acho que aí as coisas
flutuam e nem são barcos(eheheheheh).O que é isso, Cris?
Ser mãe? É maravilhoso demais! É a completude do ser, é a preservação da vida, um continuar que te renova e te dá forças. Faltaria muito em minha vida, se eu não tivesse sido mãe. Adoro meus filhos, adoro ser mãe, adoro a renovação que os filhos constantemente trazem.
11-No livro A Arca Profana tens contos que nos capturam pela
delícia mas, principalmente, pelo inusitado.Na maioria,histórias de
mulheres que poderiam ser qualquer uma de nós.Tu falas de impulsos,
desde matar uma garotinha que tosse até dominar o homem e
matá-lo.Porém, sei pelas falas de um bom café( eheheheh) que
também escreves poesias ( inclusive a Estação da Cultura desta
terrinha foi presenteada com uma poesia sobre carnaval).Mas, nas más
línguas deste mesmo café falavas da crueza da poesia, ou melhor,de
certa forma, da riqueza dela.Pois bem...dos contos à poesia.Então?
Os contos fazem parte de minha vida, há muito tempo. E, estranhamente, sempre tendem ao inusitado,realmente. As personagens, quase sempre são mulheres com um sentimento de desconforto, deinadequação ao mundo que as cerca. É como se a mulher, em meus contos, não tivesse outra saída, que não matar ou morrer. (Não acredito nisto na vida real, hahaha). E a poesia! Estou apaixonada por ela, por escrever poemas de amor, de amor erótico, de amor romântico, de amor, enfim. Há um ano só escrevo poemas. Espero que, um dia, rendam um livro.
12-E os homens Cristina?Achei engraçado que eu saindo de uma
separação, tu relembrando a tua e me perguntas, Por que ficamos mais
tempo quando nem dá mais?...É, né?Tu também é assim? Acho que
sim! ( eheheheheheheheheh).Pois é Cristina, no teu ponto de vista
como está o amor, no sentido das relações entre os pares?
Difícil!!! Amo amar, estar apaixonada. No entanto, conversávamos sobre o tempo que se demora para
sairmos de uma relação, quando ela deixa de te oferecer crescimento, amor, quando a rotina te torna menos viva, muito acomodada. Claro que não é fácil. O fim de um relacionamento causa muita dor,sempre é uma perda. Mas, acho que temos que buscar o mais satisfatório, não desistir do sonho jamais. (Como vês, sou "um pouquinho" romântica...).
13-Poderia nos falar um pouco da tua experiência como professora?
Pois é, dou aulas de inglês há séculos. Gosto de trabalhar individualmente com os alunos, ou em grupos bem pequenos, para que o trabalho tenha mais qualidade.
14-Cristina...qual a diferença entre mestre e professor?Qual a
diferença entre estes lugares subjetivos de passar um conhecimento
enquanto busca ou de apenas passar um conhecimento?
Que pergunta difícil, Adriana! Mas, acho que minha opção por ser professora, passa por uma
necessidade de troca com o ser humano, especialmente por meu trabalho ser bem personalizado, isto é,chego muito perto de meu aluno. Além de transmitir a ele meu conhecimento da língua inglesa, transmito experiências de vida e recebo isso em troca.
15-Poderias nos contar uma experiência, em segredo ( eheheheh),
inusitada, engraçada, na tua vida de escritora, esposa, mãe,
namorada?
O que pensei, neste momento, foi minha hesitação em mostrar a meus filhos, principalmente ao filho
homem, minha produção erótica. Já falei meus poemas em vários saraus, inclusive nos meus (SARAU
LITERÁRIO ZONA SUL), e eles estavam assistindo. Para minha filha, já tinha lido em casa.
Meu filho ouviu os poemas sendo ditos em público. Mas pensei: afinal de contas, todos somos seres eróticos, ou não? Acho até que foi muito positivo eles vivenciarem este lado da mãe deles. E gostaram muito!
16-Quais os trabalhos que podes destacar como os que são do
coração?
Meus? Todos! Contos na coletânea "Pontos de Partilha", contos de "Arca de Impurezas" e "Arca
Profana", que mencionaste, e os poemas que tenho criado. Todos são meus filhos muito queridos também.
17-Amigos...Cristina, o que são amigos?
Com o passar do tempo, percebemos o papel fundamental que os amigos têm em nossa vida. Precisamos deles para vivermos melhor, para compartilharmos experiências, para chorarmos e rirmos juntos. Quero ser tua amiga, viu?
18-Soubemos que recebeste um prêmio em reconhecimento ao teu
trabalho. Podes nos contar um pouco sobre isso?
Foi maravilhoso! Recebi, com várias outras mulheres, o diploma de "Mulheres de Destaque 2011",oferecido pela Sociedade Partenon Literário. A ideia partiu do escritor Benedito Saldanha, grande incentivador da cultura aqui em Porto Alegre. O evento aconteceu na Câmara de Vereadores e me senti muito prestigiada, motivada a continuar com meu trabalho em prol da cultura.Preciso emoldurar o diploma, para lembrar sempre deste estímulo.
19-Estes dias falávamos sobre o mar.Também dizíamos desta
necessidade de estar escrevendo.Tu anunciavas: vou para a praia e lá
desligo.Então?
O mar...coisa maravilhosa, não? Me sinto melhor perto do mar! Mergulho naquelas águas e me sinto muito viva. É um momento, para mim, de muita reflexão sobre o que fiz e estou fazendo de minha vida.Desligo dos compromissos e me ligo em projetos e na criação literária. Várias vezes, durante o ano,tenho necessidade de sentir o mar.
20-Gostaria de deixar aqui no Indecentes Palavras algo “ a
mais”?
Quem sabe um poema?
SEXO
Desejo
assim benfazejo
que bem faz o amor
sem decifrar o código
Desejo
que injeta a seiva
na veia úmida
na boca do gozo
Desejo
que revela minha fome
no ósculo
e, tosco, desvela o promíscuo.
E, Adriana, te agradecer por esta entrevista e por tua inteligência.
Grande beijo,
Cris
Nunca saímos impunes de um mergulho. Sempre somos outros na
descoberta do que nos habita.A tradução em pouso, a denúncia
escrita de que ainda há voz quando se tem um estilo faz da tua obra
outra, a ser descoberta pelo leitor.Traduzir-se na crueza da rua, na
velha casa que sempre perpetua, no final, o que há de verdade.É
nisso que penso quando te ouço falar do teu trabalho, dos teus poemas
e dos teus contos.Porém, quando leio penso...sabe- se lá..., senão
que o registro de uma fala é só o que vale a pena.Sinto-me
agradecida e honrada em compartilhar contido Indecentes Palavras.
Esteja, sempre!
Beijo com todas as letras.
Adriana Bandeira
Cristina Macedo: cris-cristinamacedo.blogspot.com
domingo, abril 03, 2011
Reconstrução
Faz tempo que não te escrevo.Precisava te reconstruir.Mas...com que verdade me tomaste assim?
tráfico
Sonego o valor primeiro, minha temperança, meus seios... pelo que não hei de pagar.Jamais caberia na receita o remédio, paixão,doença que me faz respirar.Talvez a melhor verdade ainda esteja na delícia, lida em segredo, do que nunca quis escrever.Faço tráfico de letra sem medo de morrer.Não há vida sem o roubo deste tempo, é matar para nascer.
Há mais
Tenho pouca memória
sendo sem lugar
nada que não
seja minha lembrança
teu olhar.
Não possuo frase
que venha como
do tempo,de repente
de anos atrás.
Só
esta vontade solta
de uma voz,de uma vez
ser-me outra
que um dia fui
em ti
Amais?
sendo sem lugar
nada que não
seja minha lembrança
teu olhar.
Não possuo frase
que venha como
do tempo,de repente
de anos atrás.
Só
esta vontade solta
de uma voz,de uma vez
ser-me outra
que um dia fui
em ti
Amais?
sábado, abril 02, 2011
Sobre as idéias de Márcio
Sim Márcio.Tenho pensado que leitor e " escrevedor" são lugares subjetivos diferenciados.Contudo, talvez o lugar de leitor seja o mais próximo da representação primeira.Quando escrevemos apenas registramos um texto inscrito com nossa própria voz.Quando escrevemos...transcrevemos uma leitura que já nem é a mesma mas é uma leitura.O sujeito leitor é o outro da escrita.Pois bem...um colega, Fernando Hartmann fala disso muito bem na sua tese de doutorado.O que tenho pensado diz respeito a esta relação do ser com seu texto.Isso desenha o humano.Carmen, no comentário ao texto de Lau também colocou sobre as várias outras formas de escrita: as artes.Seguimos?
Márcio Almeida Nicolau na discussão sobre leitura e escrita : Lau,adriana,Márcio...
Autor e leitor são papéis que se confundem. Leio em parte o que está no papel e uma outra parte sou eu mesmo. Quando escrevo, me reparto e é como um parto mesmo. Mas o texto parido é um sujeito, um ser que por mais que eu denomine e adjetive, assume novos predicados, conjugando outras ações.
A arte literária não imita vida literalmente.
“Em essência a atividade criadora repete, inconscientemente, a incessante recriação do milagre da vida no organismo; (...) Ela não repete ou copia a natureza; mas obedece às mesmas leis que esta: transpõe-nas para o plano da criação consciente, isto é, humana.” (PEDROSA, Mário, 1947)
Marcio Almeida Nicolau
http://intertexual.blogspot.comq acompanhem o blog de Márcio
quinta-feira, março 31, 2011
Texto e invenção: conversas com Lau Siqueira
Sim...Mas, repara que a tal sedução natural transmitida pela possibildiade de invenção,de letra,de fala estabelece-se de forma diferenciada nos dais de hoje.Isso há algumas décadas.A tal transmissão torna-se incapaz de gerar um outro, elevando a condição humana de ser na linguagem em...alguma outra coisa.Minhas hipóteses vão por aí, inclusive acerca de nosso mal estar apresentado pela drogadição.
Nota que a sedução das oficinas de leitura e escrita muitas vezes não passa da mesma oferecida pelo anúncio de cigarro; nota que entre uma oferta ( pela coisa) e um encontro ( de algo que invente porque falta) surge o encontro sem falta, sem fala.Nisso os textos têm esta função importante mas...para além disso tenho pensado que o autor, a pessoa, aquele que inventa, enquanto presença no que nem é seu ( afinal um texto veio do mundo e à ele retorna) é de importância vital.Nem digo do autor enquanto aquele que dança, canta, declama ( possibildiade igual a dos auditórios transmitidos via tv) mas do texto enquanto história: da sua vida, da sua escrita, de seu processo.Viabilizar um certo reconhecimento entre autor e o resto das pessoas faz um furo, uma hiãncia capaz de, pelo menos, impossibilitar o óbvio.
Para além disso te asseguro que as crianças não estão sendo alfabetizadas.Pior que isso, a forma como são apresentadas à escrita impedem sua natural apreensão desta possibilidade.O texto, antes de tudo, é inconsciente, fundante de sujeito.Isso posto não há influência capaz de distanciá-lo de uma existência.Porém, quando algo aí ocorre...Quero dizer que escolher fazer uso de alguma droga é...da natureza humana.O que não é diz respeito a esta contravenção obediente em que não é um sujeito que escolhe isso ou aquilo...
Seguimos?
adriana bandeira
Lau Siqueira em Indecentes Palavras
LEITURA E SEDUÇÃO NAS OFICINAS
As oficinas de leitura devem provocar, sobretudo, algum tipo de sedução partilhada. Ler um poema ou um bom texto literário é atender a necessidade sempre urgente de recriá-lo. A boa literatura nunca se revela por inteiro. A criação literária enquanto processo aberto substitui o dito pelo sugerido.
O ato criativo deverá estar em aberto, a espera de um outro olhar que virá para reinventá-lo e complementá-lo. A leitura deve,portanto, estimular o pensamento crítico e não estimular um mito e promover um distanciamento estéril entre autor e leitor. Toda obra de arte é aberta: um elo interativo entre autor e "leitor". Ou então, não será literatura, não será poesia, não será arte...
Por isso, ensinar a paixão pela leitura é, sobretudo, despertar para a capacidade humana de criar criticamente e de reinventar-se permanentemente diante do que está posto. Talvez por isso Antônio Cândido tenha afirmado que a literatura é um dos direitos humanos.
Portanto, para despertar a paixão pela leitura e, especialmente, pela literatura, as escolhas são determinantes.
(LS)
--
O ato criativo deverá estar em aberto, a espera de um outro olhar que virá para reinventá-lo e complementá-lo. A leitura deve,portanto, estimular o pensamento crítico e não estimular um mito e promover um distanciamento estéril entre autor e leitor. Toda obra de arte é aberta: um elo interativo entre autor e "leitor". Ou então, não será literatura, não será poesia, não será arte...
Por isso, ensinar a paixão pela leitura é, sobretudo, despertar para a capacidade humana de criar criticamente e de reinventar-se permanentemente diante do que está posto. Talvez por isso Antônio Cândido tenha afirmado que a literatura é um dos direitos humanos.
Portanto, para despertar a paixão pela leitura e, especialmente, pela literatura, as escolhas são determinantes.
(LS)
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Lau Siqueira
(083) 8831.6849
POESIA SIM - www.poesia-sim-poesia. blogspot.com
PELE SEM PELE - www.lau-siqueira.blogspot.comPOESIA SIM - www.poesia-sim-poesia.
“Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz”.
(Roland Barthes)
O Inventáro
ESTRADA DE FERRO- OLHOS DA CONSTRUÇÃO I
Antes das réstias no chão das tábuas, a mãe moía o trigo, pão, fornalha.O pai tinha aquele alarido de mãos grossas, tanta fala.Abria a terra e plantando, sonhava com o que viesse colher.Foram os olhos da mãe, o pão.E o braço do pai toda a água do mundo.Por isso naquele dia havia de ser coisa muito séria.Aquela voz entre dentes propondo morada em pensão.Homens de fala enrrolada, macacão azul de abrir estrada.O pai pensou,repensou.Os olhos do homem eram de um azul de céu que, sabíamos, não existe.O Artigas falava de novo, em castanho olho redondo, reinventando o que a fala ardia: eles querem pouso e roupa lavada.Comida.Pagam pelo mês até seguirem para a outra vila.São trinta...Não há jeito...o trem vem para cá!Iam querer mulher...se tiver lugar.
A mãe...sem olhar.O pai sem os braços, sem o traço que o fez até ali.Não voltaram mais daquele dia que me fundava.Sou a que faltou, a palavra.
Antes das réstias no chão das tábuas, a mãe moía o trigo, pão, fornalha.O pai tinha aquele alarido de mãos grossas, tanta fala.Abria a terra e plantando, sonhava com o que viesse colher.Foram os olhos da mãe, o pão.E o braço do pai toda a água do mundo.Por isso naquele dia havia de ser coisa muito séria.Aquela voz entre dentes propondo morada em pensão.Homens de fala enrrolada, macacão azul de abrir estrada.O pai pensou,repensou.Os olhos do homem eram de um azul de céu que, sabíamos, não existe.O Artigas falava de novo, em castanho olho redondo, reinventando o que a fala ardia: eles querem pouso e roupa lavada.Comida.Pagam pelo mês até seguirem para a outra vila.São trinta...Não há jeito...o trem vem para cá!Iam querer mulher...se tiver lugar.
A mãe...sem olhar.O pai sem os braços, sem o traço que o fez até ali.Não voltaram mais daquele dia que me fundava.Sou a que faltou, a palavra.
Meus escritos de prostituta
Aberta em tantas,
pousada.
Prostituta amada
dos escritos
que jamais serão
meus ditos
mais de uma vez.
pousada.
Prostituta amada
dos escritos
que jamais serão
meus ditos
mais de uma vez.
Solidão de morte
Desprovida de graça, ela figurava entre a calçada e a notícia.Ali , sem existência, anunciava a hora da entrada, o tempo da partida.Tão sem razão,desprotegida, a morte cumpria,ia embora e ninguém via.
quarta-feira, março 30, 2011
O DIA DE HELENA - CONTOS
Bastava um dia! Que nele as horas tivessem gosto e tarde fosse o anoitecer. Umas de prazer, delícia do sei lá o quê. Pelo encanto, que fosse para sempre este instante, mesmo que durasse um dia. Espanto.
O táxi ainda parado, resmungos, Êta, homenzinho difícil. Olha pelo retrovisor, Espera pelo quê? Respiração. Dá partida num ronco de sono. Ainda bem!
Carro sofrendo de mil pecados, estofamentos sem cheiro de solidão. A limpeza é solitária, nos finais dos dias, nas ruas paradas. Quando o táxi é sujo sempre penso assim: homem sozinho não faz verão. Pois este com tristeza, embaraço, desaposento. Ah, o carro com esta falta de preparativos, sempre gostei disto! Clientela sem lugar. Reforço o olhar pelo espelhinho. E então? Arranca devagar.
Olhos de paciência, negros de lente de sol. Tateiam meu vestido, coberto de verão. Enxergo a segunda visão, a que me espia enquanto ele segura o volante. Na tentativa de estar em dois lugares ao mesmo tempo, silêncio de televisão. Acalmo meus braços que limpam a janela de trás. É que a cidade me encarnou. Porto Alegre sempre foi de meus sonhos. Caberia no meu dia, se viesse a ter.
Volto a balançar pelas ruas num encontro qualquer. Queria retornar nesta cidade, nascer novamente na avenida principal. Seria meu dia de festa, estar em meu nascimento. Tristeza, hoje não posso nascer. Nunca pude antes de escurecer. O cansaço, levantar cedo, restrições.
As visitas são nos finais de semana.O pai hospitalizado, diminuindo em cima da cama. Levo maçãs e bolachas. Gostaria de voltar sem que fosse assim, tão doente minha urgência. Sou paciente.
O táxi ainda parado, resmungos, Êta, homenzinho difícil. Olha pelo retrovisor, Espera pelo quê? Respiração. Dá partida num ronco de sono. Ainda bem!
Carro sofrendo de mil pecados, estofamentos sem cheiro de solidão. A limpeza é solitária, nos finais dos dias, nas ruas paradas. Quando o táxi é sujo sempre penso assim: homem sozinho não faz verão. Pois este com tristeza, embaraço, desaposento. Ah, o carro com esta falta de preparativos, sempre gostei disto! Clientela sem lugar. Reforço o olhar pelo espelhinho. E então? Arranca devagar.
Olhos de paciência, negros de lente de sol. Tateiam meu vestido, coberto de verão. Enxergo a segunda visão, a que me espia enquanto ele segura o volante. Na tentativa de estar em dois lugares ao mesmo tempo, silêncio de televisão. Acalmo meus braços que limpam a janela de trás. É que a cidade me encarnou. Porto Alegre sempre foi de meus sonhos. Caberia no meu dia, se viesse a ter.
Volto a balançar pelas ruas num encontro qualquer. Queria retornar nesta cidade, nascer novamente na avenida principal. Seria meu dia de festa, estar em meu nascimento. Tristeza, hoje não posso nascer. Nunca pude antes de escurecer. O cansaço, levantar cedo, restrições.
As visitas são nos finais de semana.O pai hospitalizado, diminuindo em cima da cama. Levo maçãs e bolachas. Gostaria de voltar sem que fosse assim, tão doente minha urgência. Sou paciente.
Mas não é isto que incomoda. Não! O que me parte em duas é o retrovisor com sua miragem em cores novas. O homenzinho abaixa o escuro, dói o temporal. Mira, sem respeito, alguns meus pensamentos. Assédio, pela invasão de meus sonhos.
Ele desconfia, tenho certeza. Ele sabe que espero um dia. Respeito. Exijo mais isto além da corrida em bandeira dois. Tão caro, não? Pergunto pálida, sem saber sobre o depois. Ele responde, não responde. Uma voz grave faz rasgão na música: tão domingo, não? Quieta. Já fiz minha partezinha. Posso pensar no meu dia! O dia de Helena! Mas o pai não deixa. Na última visita ficou chorando sem lágrima. Mal de Alkzheimer. Petro! Petro! Ele gritava, segurando minha mão. Consegui dizer algumas coisas, sem coração. Assim não, pai! Assim não! Ensinava a pequena criatura a não limpar o nariz com as mãos.
Para falar é preciso não ter dó, nem piedade. Não ter início nem conformidades. A palavra sempre é dura, mesmo no mais delicado tom. Compondo lugares, crueza da discrição. Quem seria Petro?
Nariz de Pinóquio, no hospital. Digo que quero, que volto logo. Não obedeço, sobre não mentir. Do pai, as mãos me seguravam lá nas ondas do mar. Barco que nunca virou, verdades sobre me afogar. O ar da rua entra em golfadas, naquilo que as avenidas disparam, oração das calçadas. Aquele mal estar crescente, cheiro de impaciência. O moço me olha sem vergonha, peito aberto no calor dos quarenta. Graus e anos a colher tostões. Ainda penso no dia do sofá, da folhagem ou da esquina. No dia destes pensamentos soltos, das horas vazias. Por aqui, riachos. Guaíba notícias e buracos de antes. Braços em pêlos sobre a direção da via.
Há uma confissão importante a fazer, isto de matar ou morrer. E sempre se morre, aos dias, e sempre se mata na insensatez. Morrer é não e ,embora eu sim, sim, sim,... ainda me espera o final.
Ele desconfia, tenho certeza. Ele sabe que espero um dia. Respeito. Exijo mais isto além da corrida em bandeira dois. Tão caro, não? Pergunto pálida, sem saber sobre o depois. Ele responde, não responde. Uma voz grave faz rasgão na música: tão domingo, não? Quieta. Já fiz minha partezinha. Posso pensar no meu dia! O dia de Helena! Mas o pai não deixa. Na última visita ficou chorando sem lágrima. Mal de Alkzheimer. Petro! Petro! Ele gritava, segurando minha mão. Consegui dizer algumas coisas, sem coração. Assim não, pai! Assim não! Ensinava a pequena criatura a não limpar o nariz com as mãos.
Para falar é preciso não ter dó, nem piedade. Não ter início nem conformidades. A palavra sempre é dura, mesmo no mais delicado tom. Compondo lugares, crueza da discrição. Quem seria Petro?
Nariz de Pinóquio, no hospital. Digo que quero, que volto logo. Não obedeço, sobre não mentir. Do pai, as mãos me seguravam lá nas ondas do mar. Barco que nunca virou, verdades sobre me afogar. O ar da rua entra em golfadas, naquilo que as avenidas disparam, oração das calçadas. Aquele mal estar crescente, cheiro de impaciência. O moço me olha sem vergonha, peito aberto no calor dos quarenta. Graus e anos a colher tostões. Ainda penso no dia do sofá, da folhagem ou da esquina. No dia destes pensamentos soltos, das horas vazias. Por aqui, riachos. Guaíba notícias e buracos de antes. Braços em pêlos sobre a direção da via.
Há uma confissão importante a fazer, isto de matar ou morrer. E sempre se morre, aos dias, e sempre se mata na insensatez. Morrer é não e ,embora eu sim, sim, sim,... ainda me espera o final.
Antes acreditava que eu para sempre, sim! Que pelo menos uma viveria no nunca mais. Hoje, reparos.
O cinzeiro vazio, as luzes do domingo cristão. Os olhos na estrada seguem sem pudor algum. Andam e andam, sem velocidade perceptível.
Sou. Transição.
Quero a que me parte em duas. A verdade nunca foi meu ato bom. Pai, deixe-me ir, nunca mais voltar! Também vou morrer, em algum tempo e lugar.
O táxi segue. Ainda a música canta minha cega condição. Quero um certo respeito que não tem mais nenhum chão. Julgo as aparências e os olhos do espelho acham meus tons. O estranho é que são de pedido, muito mais do que de pretensão. Para falar, para dançar, para intrometer-se naquilo que não divido com ninguém, meu dia principal.
Digo solta: que rua é esta? Ele responde em amor de gesto. Desliga o rádio, pede socorro inquieto. Vejo que segura palavras, como se pudesse ferir. O silêncio dá voltas e percebo que nada lhe disse sobre o destino. Respondo sozinha sobre minhas riquezas, rotinas. Para onde vamos? Neste hoje, seguir estradas. A chuva molha a rua, despreparada.
Sou passageira, mais nada.
O cinzeiro vazio, as luzes do domingo cristão. Os olhos na estrada seguem sem pudor algum. Andam e andam, sem velocidade perceptível.
Sou. Transição.
Quero a que me parte em duas. A verdade nunca foi meu ato bom. Pai, deixe-me ir, nunca mais voltar! Também vou morrer, em algum tempo e lugar.
O táxi segue. Ainda a música canta minha cega condição. Quero um certo respeito que não tem mais nenhum chão. Julgo as aparências e os olhos do espelho acham meus tons. O estranho é que são de pedido, muito mais do que de pretensão. Para falar, para dançar, para intrometer-se naquilo que não divido com ninguém, meu dia principal.
Digo solta: que rua é esta? Ele responde em amor de gesto. Desliga o rádio, pede socorro inquieto. Vejo que segura palavras, como se pudesse ferir. O silêncio dá voltas e percebo que nada lhe disse sobre o destino. Respondo sozinha sobre minhas riquezas, rotinas. Para onde vamos? Neste hoje, seguir estradas. A chuva molha a rua, despreparada.
Sou passageira, mais nada.
adriana bandeira
Dia de árvore
Na tarde,
sono de luz
cansaço
que toda árvore tem.
Toma-me o verde
de antes
a vida
de antes
o que não
cessa
não
vem.
Em parte morta
a réstia de terra
esconde minha
a fala inquieta.
É o tempo
moldando meu ventre.
O dia tem
mãos
de ferro
sono de luz
cansaço
que toda árvore tem.
Toma-me o verde
de antes
a vida
de antes
o que não
cessa
não
vem.
Em parte morta
a réstia de terra
esconde minha
a fala inquieta.
É o tempo
moldando meu ventre.
O dia tem
mãos
de ferro
segunda-feira, março 28, 2011
Para ele
Nossas diferenças
Sempre tuas mãos
serão estranhas,
tua forma recebida
na denúncia
que penetra onde
nada existia
além do pulso:
dor de entranha,
partitura.
Assim ainda
mesmo sendo
violento o espaço
em que me fundas
só
neste sentido tua
quando me dou
em ti,
nua.
Sempre tuas mãos
serão estranhas,
tua forma recebida
na denúncia
que penetra onde
nada existia
além do pulso:
dor de entranha,
partitura.
Assim ainda
mesmo sendo
violento o espaço
em que me fundas
só
neste sentido tua
quando me dou
em ti,
nua.
São tuas as minha mãos, as palavras entre nós - Texto de Leonardo B. para Indecentes Palavras
De Improviso
Para a Adriana Bandeira,
O momento,
do momento que se traz cá dentro
como um lume que não se apagou,
como o retrato repentino
da gente que nos ficou no peito,
gaiola em desajeito
de folha e arame improvisado,
como horizonte de mar que se acontece preso ao céu.
E sem preparo
invento, do instante
o tanto ou quanto só,
cheio do que a memória guardou
no rio de dentro,
na margem do forte tambor aluvião.
E de súbito, o momento
do momento que em forma de gente restou
antes ou depois,
do mínimo espaço
do tempo,
do vento vago que se arruma cá dentro,
resto de momento que em mim trago
como brasa dum lume que não se apagou.
Dum gesto, um momento
um passo que trago do levante,
que fica,
dentro do tudo o que me basta, agora
e do instante,
agora, do pouco eu
que invento
ou improviso,
de todo meu passo
futuro e passado,
a gasta pedra onde
em sangue,
também sou letra, momento meu
onde me teimo ficar inscrito,
como mínimo espaço do tempo que me divide,
resgate urgente
do pouco,
pouco do mundo, de repente.
E quem diria que
aqui, ali, mais adiante
no peito, no rio breve, na palavra,
dentro do lume que não se apaga
cá dentro, afinal
também há gente?
Leonardo B- abarcadosamantes.blogspot.com
Março 2011, 27
[breve aparte: o original deste “improviso” surge assim, tão de repente, na caixa de
comentários num post da Adriana Bandeira, numa versão menos elaborada, e aqui
ligeiramente alterada, mas orientada pelo mesmo principio… apenas em passo, caminho
um pouco diferente, porque o principio e fim continuam inalterados: estas poucas
palavras meio desalinhadas (ou alinhadas, conforme a perspectiva), pertencem à
Adriana Bandeira, ainda que saídas de minha mão.]
|imagem: reprodução de Francine Van Hove|
Para a Adriana Bandeira,
O momento,
do momento que se traz cá dentro
como um lume que não se apagou,
como o retrato repentino
da gente que nos ficou no peito,
gaiola em desajeito
de folha e arame improvisado,
como horizonte de mar que se acontece preso ao céu.
E sem preparo
invento, do instante
o tanto ou quanto só,
cheio do que a memória guardou
no rio de dentro,
na margem do forte tambor aluvião.
E de súbito, o momento
do momento que em forma de gente restou
antes ou depois,
do mínimo espaço
do tempo,
do vento vago que se arruma cá dentro,
resto de momento que em mim trago
como brasa dum lume que não se apagou.
Dum gesto, um momento
um passo que trago do levante,
que fica,
dentro do tudo o que me basta, agora
e do instante,
agora, do pouco eu
que invento
ou improviso,
de todo meu passo
futuro e passado,
a gasta pedra onde
em sangue,
também sou letra, momento meu
onde me teimo ficar inscrito,
como mínimo espaço do tempo que me divide,
resgate urgente
do pouco,
pouco do mundo, de repente.
E quem diria que
aqui, ali, mais adiante
no peito, no rio breve, na palavra,
dentro do lume que não se apaga
cá dentro, afinal
também há gente?
Leonardo B- abarcadosamantes.blogspot.com
Março 2011, 27
[breve aparte: o original deste “improviso” surge assim, tão de repente, na caixa de
comentários num post da Adriana Bandeira, numa versão menos elaborada, e aqui
ligeiramente alterada, mas orientada pelo mesmo principio… apenas em passo, caminho
um pouco diferente, porque o principio e fim continuam inalterados: estas poucas
palavras meio desalinhadas (ou alinhadas, conforme a perspectiva), pertencem à
Adriana Bandeira, ainda que saídas de minha mão.]
|imagem: reprodução de Francine Van Hove|
domingo, março 27, 2011
Rapto de poema - Pedro du Bois ...em detalhe
CHUVAS
Na chuva
encharco
ensopo
destaco o guarda-chuva
ao cinza: empoço
o canto do pássaro
escondido
em vão
em vãos de telhados
eiras e beiras
ressurgem ninhos
de pássaros
cantando o final
da chuva: na hora
seco
resseco
destaco o guarda-chuva
em que me apoio.
(Pedro Du Bois, inédito)
http://www.pedrodubois.blogspot.com/
PÉROLAS DE ANITA
A tristeza não se vê porque ela está no olho.O coração se mu(n)do... você faz parte de tudo.O tigrão, eu brinco com ele...e ele me faz feliz.O coelhinho e o Tigrão me fazem sentir a mais feliz do mundo!
Anita Cardoso Rosa
Ps: as crianças fazem poesia.Anita tem 5 anos.
adriana bandeira
Anita Cardoso Rosa
Ps: as crianças fazem poesia.Anita tem 5 anos.
adriana bandeira
CARTA À LEONARDO B., O BARQUEIRO DESTE CAIS...SE O VENTO LEVAR-ME DAQUI ATÉ ELE, ENQUANTO LETRA DE MAR
Acontecer é registro de letra. Antes do corpo, na pele de seda.Que nem existe sem esta camada dura, inscrição da perda.
sábado, março 26, 2011
Quando
Quando me faltarem
as coisas que se desprendem
do tempo: as mãos,olhos
esquecimento
Ainda me faltando
o andar, forma de vôo
de dança
de escrita
de vento
Que eu me falte
como sempre
na verdade que se rompe
de si
Ainda restando
no que sempre
fui nada
só de mim
as coisas que se desprendem
do tempo: as mãos,olhos
esquecimento
Ainda me faltando
o andar, forma de vôo
de dança
de escrita
de vento
Que eu me falte
como sempre
na verdade que se rompe
de si
Ainda restando
no que sempre
fui nada
só de mim
Luta de mulher
Nas floreiras planto o que o tatu bola não come.Não sou boa das mãos.Nem amei, nem foi em vão.Só não sabia destas coisas de prazer.Achei que ser mulher era vencer.
Luiza
PS:Vozes é um marcador que possibilita as falas de vários outros.
adriana bandeira
Luiza
PS:Vozes é um marcador que possibilita as falas de vários outros.
adriana bandeira
estrada marcada
Fui marcando por onde não voltar.Por fim as estradas estavam cheias de letras e desisti de não lembrar mais.
A água de sempre
Chuva benta desenha estrofes, escrita entre dentes.Continua a história, rio serpente, de heroínas que amaram homens valentes.E a coragem, desde antes, nasce no ventre.É da voz que canta as mesmas flores, de forma diferente.
quinta-feira, março 24, 2011
Para conferir
Página do poeta e " cantador " cubano Silvio Rodriguez: http://www.lapalavradesilviorodriguez.blogspot.com/
Vale a pena conferir.
Vale a pena conferir.
Por não ser outra, meu nome na letra dele: brincadeira em poema de Paulo Cezar Alvez Custódio
por onde andadriana,
por ruas
avenidas
estradas?
por onde navegadriana,
em mares nunca Dantes navegados,
ou ares nunca tantos pássaros?
por onde sonhadriana?
em telas teias multidões.
paco cac
por ruas
avenidas
estradas?
por onde navegadriana,
em mares nunca Dantes navegados,
ou ares nunca tantos pássaros?
por onde sonhadriana?
em telas teias multidões.
paco cac
Esperando visita
As janelas fazem o ar.Respiro alinhando a colcha branca, cama de anos atrás.Já reparei, não se troca o lugar.Apenas um espaço entre as palavras de dentro, dando este ar de graça, de enfeite pelo que vem.Perfumada,o chão aquecido nas mãos do ainda nada.O assado no forno e o vinho para abrir depois.Aguardo tua chegada como fazem os anos da casa, que nasceram antes de mim.
quarta-feira, março 23, 2011
CONVERSAS ANTES DE DORMIR ...COM ANTÔNIO AMARAL TAVARES
ENTRE COBERTORES E FALAS
Adriana- A tua poesia faz-me não pensar. É como se a razão sumisse estilhaçada.Todas as que leio, ultimamente.Acho que alguns textos estabelecem este tipo de relação com seu leitor.É a cada vez.Por exemplo, amo o texto " O cavaleiro Inexistente" de Ítalo Calvino.Mas não amo todos os textos de Calvino.Isso vai contra o que se diz sobre o estilo, ou seja, seria mais provável encantar-se com uma forma de escrita do que com o texto a cada vez.São os amanhãs, é o mais um, neste sentido como únicos e estabelecidos num tempo, o da escrita do poeta e o da leitura do leitor...o que achas,Antônio?
Antônio- Parece-me natural que o poeta vá procurando novos processos de escrita e de pensamento. Os meus poemas, em tempos, mudavam muito sob o ponto de vista estrutural e estético, conforme o tema. Isso tem tendência para acabar em mim, julgo eu, mas conheço casos de poetas com nome firme na praça que mantêm essa tendência, como sendo um cunho seu. No caso particular de Calvino não te sei dizer, apenas conheço “As Cidades Invisíveis”, que é mais uma leitura minha, de entre algumas muito desorganizadas que vou mantendo, de forma que não o li todo, ainda. No entanto considero-o um livro de poesia e confesso que o tema da cidade me atrai muito. Acho muito natural, que haja casos em que só ocasionalmente, o tempo do leitor se cruze com o do escritor ou poeta. Eu próprio, como leitor, conheço um exemplo ou outro assim.
Seguindo o teu pensamento, o amanhã do leitor também existe, isso não merece qualquer dúvida, e se um poeta procura comunicar e dessa forma ir ao encontro do leitor, é natural que quando o poema sai para a rua o leitor já lá não esteja. O poema também procura o leitor, tal como o leitor, o poema.
Lembremos Garcia Lorca, que tomou o caminho do surrealismo, também porque todos à sua volta o faziam, e ele, se o não fizesse ficava para trás.
Falas que, na minha poesia, é como se a razão estivesse estilhaçada. É verdade que me sirvo da poesia, em muitos casos, para procurar a razão ou a realidade onde o meu corpo caiba, Em quase todos os poemas que faço, mesmo não sendo esse o tema, há-de existir sempre uma frase, um verso que espelha essa procura. É uma forma de eu a procurar, evitando queixar-me e de falar o menos possível de mim. Sou eu a reconstruir o rosto interrompido, a procurar o mistério das coisas e as coisas de mistério que perdi pelo caminho. É um exercício interessante, esse de procurar as coisas e as cenas que trazem com elas mistério profundo. É algo em que podemos pensar mesmo sem escrever. Temos que procurar nas cenas do dia a dia ou nas nossas memórias mais profundas. Para mim é uma teima, isso de fazer do poema um lugar de mistério, é como se tentasse recuperar tempo perdido. Mas só os grandes poetas são capazes disso, eu apenas ocasionalmente o consigo. Dava um bom tema de conversa, se conseguíssemos falar dele sem ser através da poesia.
Beijos, Adriana.
Adriana- Hummm... O tempo perdido...'No Caminho de Swann"...Mas qual o tempo que não é enquanto perdido?Talvez exista um que na sua repetição consagre o indizível como zona neutra.Gosto de uma expressão minha que é " que não passa sem parar" ou "Não para sem passar".Sei que isso diz respeito a experiência com a psicanálise e este tal inconsciente atemporal.Penso a poesia como algo que não traz nenhuma palavra nova.Apenas uma forma diferente de dizer algo do Universal.Realmente tua poesia tem esta marca de ser outra a cada vez.Como na série sobre Nova Iorque...Ali é outro a dizer algo.
A cidade é universal e é imaginária,de cada um.Deste lugar viemos...Como descreverias este tempo em que ainda não poetavas?Quero dizer...cresceste onde?De onde vem teu tempo?(eheheheheh)...
Antônio- Sim, tens razão, todo o tempo é perdido, mas eu acredito que de tempos a tempos os ciclos de vida, naturais ou provocados, nos farão com que nos reencontremos, como um rio sobre o qual voltamos a passar. É essa ideia que procuro explicar no meu poema “Aveiro Revisitada” que poderás ler na etiqueta “cidade”, no meu blog. Há realmente coisas que não passam sem parar. E uma simples visita a Aveiro, na qual passei bons momentos na infância, com os meus avós, fez-me apanhar-me a mim próprio de uma forma que não conseguiria sem visitar essa cidade. Há um poema de António Gregório, português, que também poderás ler no meu blog, em que ele fala que o Universo se está a expandir, mas mais tarde recebe a notícia que, tal como se expande, um dia há-de contrair-se. Penso que este poema também fala disso.
A universalidade, em poesia, é uma coisa relativa. Por vezes, sendo universal, ela apenas representa um pequeno período da nossa vida e se lhe podemos chamar universal é porque procura uma verdade, em se tratando de boa poesia. Aliás, não sei se a poesia não é um grande engano, tal como a realidade que, existindo, é a de cada um.
A série sobre Nova Iorque é especial. Foram leituras que fiz de fotografias dos arquivos do MoMA e consegui uma economia de palavras que não repetirei, não querendo dizer com isto que nada tirarei dessa experiência, antes pelo contrário, aprendi bastante. É novamente o interesse pelo tema da cidade.
É como dizes, a cidade é também imaginária, podendo ser longínqua e desconhecida, como foi o caso de Nova Iorque, ou podendo ser um lugar pertencente ao nosso crescimento e, é claro, ao imaginário e aos sonhos e desilusões que nela vivemos. Não querendo exceder-me em exemplos da minha poesia, se leres o “Poema da Cidade Distante”, lá encontrarás quatro cidades: duas reais e duas imaginárias, descritas sobre os lugares de Lisboa e Coimbra.
Eu tenho algumas dificuldades em falar do meu crescimento, principalmente da adolescência, peço que me desculpes sobre isso. A primeira publicação que fiz de poemas meus, no caso dois textos, foi aos vinte e um anos num anuário de poesia de autores não publicados que a editora Assírio & Alvim lançava por esses anos. Mas cedo passei a não gostar desses dois poemas e de qualquer coisa que escrevesse. De forma que deitei tudo fora, não se perdeu nada de bom, e parei de escrever. Só voltei a escrever em 2003, penso eu, gostando do que escrevia o bastante para o guardar. A razão para isso é um lugar de dor para o qual não estou preparado para falar, mas que se estiveres atenta, aos poucos vou deixando pistas como que deixa cair migalhas do pão que come
Abraços para ti.
Adri- Sim...recebo tuas migalhas e percebo...tu recebes as minhas( eheheheheh).Sobre o que já falamos e mesmo que não seja igual...são nossas migalhas.É o que somos,não?Somos o que restamos.Mas, de fato, penso na poesia como instância da verdade.Nem tanto pelo que relata mas pelos significantes que assombram o leitor, propondo que este faça algo com o que lê.E digo, com todas as letras,o leitor também é o que escreve.Afinal, lemos algo que nos vem, colocando isso num papel ou tela...numa palavra, para ser mais precisa.A verdade, neste sentido, não tem tempo algum, por ser este assombro, estalo, este gosto que escapa a cada vez.O gosto que se perdeu e " revisitamos".Tenho pavor de ler meu texto,depois que pensei estar pronto.Não gosto de revisitar o que não é um novo gosto, ou seja, outra criação.Neste sentido, achas que lidamos com uma espécie de morte?Digo, a palavra seria uma forma de inscrição de morte?
Antônio- A palavra é uma forma de morte. Eucanaã Ferraz diz que é defeito, Eugénio de Andrade dizia que é o real. Eu digo que é um erro. Caminha do sonho para a morte e por isso tresanda a morte. É um engano que nos faz muita falta. T.S. Eliot dizia que todo o poema é um epitáfio. Provavelmente amamos o real porque ele nos engana.
Há de facto na poesia um caminho para a verdade, senão um encontro com ela. Já falámos disto: se a verdade não é universal, ela tem pelo menos um rosto, uma máscara, que todos já vestimos ou sonhamos no passado, ou até que quisemos que fosse a nossa vida.
O Leitor também é o que escreve, pois é. Correndo o risco de citar demasiados autores nesta questão, o que só prova a minha ignorância, lembro ainda Joaquim Manuel Magalhães ao dizer que “o que o poeta desconhece o poema sabe”. Quem descobre essa sabedoria adicional é o leitor e há leitores que nunca escreveram um verso que são mais poetas do que muitos que já os publicaram.
Entendo que falas também na verdade como algo que nos escapa de um dia para o outro, a nós que escrevemos. Isso é apenas uma condição ou um desprazer de quem escreve. Perde-se um pouco com a prática, mas já li dos maiores poetas que lhes acontece isso frequentemente, que o que deitam fora é mais do que o que conservam. Pessoa escreveu poemas sobre isso. É um risco que se corre, escrever um poema num dia e no seguinte ou dois dias depois estar a mostrá-lo, de qualquer forma. O tempo faz muito bem aos poemas, amadurece-os ou rejeita-os como maus textos. Mas, não sei se podemos falar de morte neste caso. Simplesmente enganamo-nos a nós próprios ou somos palavras que se enganam e enganam o que somos amanhã. Penso que cada um tem os seus truques para evitar ao máximo cair neste engano. Eu por exemplo, evito ouvir música enquanto escrevo.
Não sei bem se fui ao encontro das tuas questões.
Beijos
António
Adri- Hummm...pois é.Pergunto-me seguidamente se portamos as palavras ou se elas nos carregam.Já li que sofremos de uma invasão de palavras que por serem significantes nos consolidam como estruturas psíquicas.Seria o mesmo que dizer que a escrita é consequência de uma doença!(eheheheheheeh) Quem sabe?Se pensarmos na nomeclatura pathos que significa sofrimento,paixão e, também, doença...estamos no caminho ( eheheheh).
Quando falas de engano surge-me o enorme engano que é o amor.Sim!O amor pelo outro é o do por si mesmo...Salvo aquilo que possamos detalhar.Amar uma voz, um olhar, uma forma de vestir...então a verdade sobre o amor estaria no mesmo tempo que a verdade do poema: no que vem a falar depois.Pensei nisto porque amar é restar...sobre o que falávamos das migalhas.´..deixar para além de si.Algo assim...Não sei o que pensas disso?
Antônio- Observas bem. Penso que as palavras nos carregam e que é um engano pensar que as carregamos e manipulamos. Ouvi de alguém, há dias, que as pessoas são textos, tal como as salas ou as mesas, etc. Sendo um reflexo da nossa realidade, as palavras compõem-nos. Assim poderíamos muito bem ser representados pelo desenho de letras, que compusessem sílabas, que por sua vez compusessem palavras, ou que não compusessem coisa nenhuma, fossem apenas sons.
Ronald Augusto diz que a poesia é linguagem em crise. Isso tanto mais é verdadeiro quanto é a descrição exacta de certas doenças mentais, marcadas por um desfasamento da realidade e como tal, da linguagem, e marcadas, pela mesma razão, por um desmoronamento das palavras enquanto suportes de nós próprios, da nossa história de vida, do nosso dia a dia. As palavras são a nossa casa. Quando, ao fim do dia de trabalho, pensamos “vou para casa”, esse pensamento aquece-nos. Mas numa linguagem em crise, essa frase pode muito bem ter perdido as paredes e deixará de ter qualquer significado para nós, embora lá fique o seu espaço vazio. Sim, as palavras carregam-nos espiritualmente e desconfio, também fisicamente. O sexo, por exemplo, tem a ver com tudo, com todos os parâmetros da nossa vida. E ele está na nossa mente e também se estrutura em palavras e no forte significado que têm para nós. A beleza chega a doer e logo tentamos atribuir-lhe palavras. Sobre tudo isto, tu saberás mais do que eu.
Não é fácil falar do amor. Mas, já pensaste que, muitas vezes, o amor atinge-nos não com a verdade do presente, a atracção por alguém que nos responda às ansiedades do presente e da nossa idade, mas surge-nos como uma vingança sobre o passado, uma vontade de preencher lacunas do passado. Assim sim, o amor pelo outro é muito mais um amor por nós próprios. Isto sem falar dos casos em que escolhemos o parceiro ou parceira mais bonita, não porque gostamos profundamente dela, mas porque é a mais vistosa no grupo de amigos ou na sociedade. Também no amor as palavras nos carregam, ama-se porque se chega ao amor. Ou, no caso que descrevi, ama-se porque somos admirados, e então as palavras não são bem nossas, é tudo uma grande trapalhada e a palavra deixa de ter qualquer valor, lembrando esse velho conceito de cultura geral, muito usado nos meios sociais, mas que mais não é que a cultura dos outros. Não tem relação alguma com o nosso corpo cultural.
Não sei se amar é restar ou estar. Mas, se damos muito de nós, é provável que nos tornemos em algo mais do que aquilo que vemos no espelho. Talvez deixemos, nesses casos, uma cauda de cometa para trás, que os outros seguem ou simplesmente lêem. Essas coisas não são invisíveis. E se a relação se desfaz é natural que algo em nós se sedimente e fique para trás como se largássemos migalhas.
Tem sido bom, o Carnaval? Beijos para ti.
António
Adriana- Pois é...ainda as mulheres e os homens são de alguém ou de algo.Mas o amor, de fato, constrói mais do que um si mesmo...Talvez aquela verdade de que nos encantamos por um resquício, por uma voz ou olhar.E sempre há de ser de antes, muito antes.Por faltar ou por lembrar.Aliás: qual a diferença entre falta e lembrança?
Fiquei pensando sobre o que tu dizias de não escrever ouvindo música.Também não gosto...
O carnaval...sobre a reunião que te relatei estava maravilhosa!Agradeço tua colaboração com a poesia além mar.Para mim o carnaval é um manifesto, uma ruptura, uma possibilidade de dizer algo do si mesmo.Muitas vezes, ficamos encantados com a obra sem saber do autor.Isso dá a falsa idéia de que as coisas caem do céu, que não há um eu ou vários eus que puseram-se a trabalhar, a falar coisas, a manifestarem-se.Assim é que gosto do carnaval...como possibilidade do Manifesto, com letra maiúscula.Esta correspondência além mar não deixa de ser uma expressão, um certo retorno.Já reparaste que me chamo Adriana Bandeira, não?São os barcos voltando...O que achas disso?O que achas da poesia que vem do Brasil?
Antônio- Um poeta escreveu que “O amor costuma responder por acordes simples”. Não sei se será sempre assim, mas talvez não devêssemos deixarmo-nos enlevar por esses acordes.
Os dias de hoje, no Brasil, estão muito enriquecidos por uma novíssima fornada de autores de grande qualidade. Já ouvi dizer que são grandes as dificuldades em que os críticos e os seleccionadores da boa poesia se têm visto. No entanto já chegaram às minhas mãos duas colectâneas de novos autores e ainda alguns livros de autores, que sendo contemporâneos e ainda relativamente novos, já gozam de grande reconhecimento. Quanto aos novíssimos autores, faço o reparo de que produzem uma poesia bastante cerrada e que não é à primeira leitura que conseguimos extrair algo dela. Parecem ter riscado da sua escrita, e fizeram muito bem, grande parte das metáforas e palavras do passado. Tenho alguns favoritos, mas não vou adiantar nenhum porque concerteza deixaria, injustamente, alguns para trás, apesar de que o que eu disser relativamente a escolhas não adiantará nada ao cenário existente, estou longe de possuir essa influência, mesmo no quadro da blogosfera.
Beijos e abraços
António
Adriana- Boa noite, Antônio.Até amanhã ...que o dia aqui já amanhece e as luzes se dissipam fingindo estarem impunes.
Beijo com todas as letras
Antônio Amaral Tavares, poeta português: http://acasaquecaminha.blogspot.com/
Adriana Bandeira, Brasil: http://indecentespalavras.blogspot.com/
terça-feira, março 22, 2011
Olhos de alegria
Desfiz-me dos traços: boca,sexo,ouvidos, nariz.Sem respiração,sem dormir.Ergui em gesto uma voz interna, arrebatada e descontente.Saída de mim, evaporada, toda a casa morada que um dia habitei.Restou uma neblina, uma confusa tendência, de obediência somente ao cio.Virei pedra,serpente.Virei este "rio".
sábado, março 19, 2011
O piano
O piano escuro adormecia na chave da caixa.O som morto que dele vinha assombrava meu sono, o quarto pequeno do abandono, que se perguntava por existir.Nunca mais dormi.Ficaram estes ruídos que escrevem em " si".
sexta-feira, março 18, 2011
Os órfãos
Deixo órfãos meus armários embutidos,o muro do vizinho e a árvore que cresceu.Abandono no canto do pátio o horizonte do lábio e um olhar que perdeu: a vista, a fome, a palavra.Deixo órfãos os beijos meus.
quinta-feira, março 17, 2011
O INVENTÁRIO
INTRODUÇÃO
ESTRADA DE FERRO, OLHOS DA CONSTRUÇÃO
ESTRADA DE FERRO, OLHOS DA CONSTRUÇÃO
Vieram os homens com a língua ferida, olhos pedindo comida. O pai enterrou as ferramentas, abriu negócio, " bodeguita".Água de ardência e, atrás do balcão, perdia o sonho de plantação.Feito riacho, o ferro partia o campo em linha,costurava o chão.Suadas as dores da perda, mulheres invadidas pela fala alheia.Riscavam serpentes, lá para os lados da vila, anunciando a estrada nova, gritaria.
Ainda a luz na janela, casamento com a estrada de ferro.Nunca daria parada, guarida.Sangrando sem estancar, iam-se os dias de colheita de frutas, no pé dos dias.Aberta a terra incontida, propriedade da Estrada da língua.
E quando era dia, o dia.!,de longe as barrigas avistavam tamanho apito.O ferro batido,o calor dos ungidos,batizados pelo santo cristo.O trem vinha como nunca havia sido.Era grande demais, era tarde demais, era incompreensível.Esperavam na plataforma que ele, o deus de antes e de agora, parasse recolhendo os restos de sonhos, de gente.Passou, sem juntar seus resquícios...não era Estação as sobras da construção.
quarta-feira, março 16, 2011
Feminina letra
Insisto em te dizer
que tudo que sou
vela o que a letra vem dizer
A do teu nome,suspiro;
do teu delírio, alívio;
a que calas sem saber.
Por ser segredo da letra
descanso aguardando
tua designação.
Sou tua, desde então.
que tudo que sou
vela o que a letra vem dizer
A do teu nome,suspiro;
do teu delírio, alívio;
a que calas sem saber.
Por ser segredo da letra
descanso aguardando
tua designação.
Sou tua, desde então.
Teia do fim-suspiro grande
O encanto da noite feito teia, assombra o rosto num desenho próprio.Descansa minha voz que escuta, enquanto cega tua visão estrela.É por entre teus navios,cabelos rasos, que esvazio teu peito no meu arfado, extravio que se aquece nas mãos.É esta distância que te faz no sempre,ausente, lembrança em pequenos botões.Fio intacto, semente por onde retorno a cada manhã.De longe te escuto, inquieto murmúrio e riso na velocidade da luz.Aos poucos morro, nas vezes que sinto tua composição de ser.Digo, Nasço!, quando ainda te encontro, na luz dos dias entre um vir a dizer ...dos teus medos, dos teus desejos destas coisas que de longe me fazem despedida.Amanhã...não lembrarei que parti. Depois, nem mais distante em teia de mim.
domingo, março 13, 2011
sábado, março 12, 2011
Antônio Amaral Tavares falando do tempo destas coisas
OS CROCODILOS DO RIO
Os crocodilos do rio esperam famintos
a flor branca dos primeiros corpos que se
afundam na água dos próprios olhos
ao queimar do pano da tarde quando
nos corações já rarear a erva verde. A morte
ama estas casas de gesso construídas
sobre a febre o alvoroço do movimento das patas
os registos de viagens remotas
estes gestos de barro tão velhos de
quem sempre atravessou este rio. A morte
insurrecta espalha pétalas muito brancas
sobre as suas águas como outro sinal de si
mas é negra a noite que descansa sobre o rio.
Ah outras sombras que se inclinam
como uma asa e ali se perdem. A morte
ama estas casas turvas de lodo. Os gestos
de barro são da idade do rio
só ela é mais velha ela tem a idade
das primeiras poeiras a morte.
Insaciável desde então.
sexta-feira, março 11, 2011
Meu partido de esquerda
Minha esquerda nasce no não dito.Perpetua em fala a verdade do grito.Incha o peito e o sexo pela denúncia em sigilo, dando leite ao seio pela verdade do filho.Sem volta, criou o verbo no infinitivo.
quinta-feira, março 10, 2011
O MANIFESTO NA ESTAÇÃO DA PALAVRA
A idéia de reunirmos as diferentes expressões das artes teve o carnaval como porto. Um barco assim, de primeira viagem, estava sem rumo, sem certezas, como os primeiros desbravadores restaram.Para cada história, um novo lugar e a Estação da Palavra,da Cultura, das Artes recebeu aquilo que poderia surgir: terra a vista.
O acolhimento de uma idéia diz respeito a isto, a um encontro especial, faltante das determinações que já desenham o final.
Foram os dias do antes em que o grupo das artes plásticas escreveu uma oficina de máscaras, escritores desenharam poesias, músicos pintaram sons e tudo somou fantasia. Diziam alguns que diante de tanto nada daria certo, já que carnaval é carnaval.
Por outro lado já ali estavam os significantes: fantasia, música, máscara...Ali já nascidos nossa disposição para o existir, no que nos faz como isso ou aquilo: somos o que restamos em verso, em fala, naquilo que vestimos, naquilo que acabamos produzindo, compondo.Nossa fantasia de existência derrama alegria ou tristeza, esperança ou covardia.
O carnaval nasceu deste manifesto, pelo menos aqui no Brasil. Nasceu desta fresta pequena que supõe o subversivo espaço que habita nossa fronteira mais íntima: os contrários.
Pois bem...a Estação estava iluminada na quinta-feira da semana passada.Poemas, máscaras, pessoas, músicas e falas encantaram os trens que nem passam mais por lá.Porém, por algum breve instante, voltamos no tempo quando de onde , antes, vinham os trens, sugiram os músicos, os artistas, as pessoas, caminhando pelos imaginários trilhos em forma de nuvem. Ao som de instrumentos e canções, vozes de longe chegavam reconhecendo as luzes de um palco, aquelas da plataforma dos embarques.Foram chegando,pedindo licença, anunciando nossa indecência.Sim!Indecente a verdade que nos abraça nus neste tempo. Éramos esperados pela estrada, como todos o são.
Assumindo o palco, estas pessoas da Faculdade de música, artes cênicas e artes visuais da UERGS invadiram a letra e voz de Nadir e Manu, juntando-se a Nilton, João, David...juntando-se a Celiza e todas as outras vozes que cantavam uma música só.Todos acatando a convocação de manifesto, de expressão de vida.
Bem...aos poucos o tempo dos trens...Era a hora de ir.Talvez a melhor frase seja aquela dita por Davi, antes do fim ( diz ele que esta surgiu no café comercial lá no centro, antes do antes): É ...saudade não se vive, se sente.
Pois ficou este sentimento, este desejo de volta. Acho que os trens nunca deixam de existir!
Agradecemos a todos que fizeram deste cordão uma vivência de poesia. Aos que chegaram com suas máscaras e intenções coloridas; que estiveram conosco na palavra cantada, tocada,escrita,encenada...àqueles que pelo manifesto mais íntimo e sutil, fizeram-se presente nesta pequena estação da palavra.
Até o próximo trem!
Beijo com todas as letras
Adriana Bandeira
Primeiro navio
Fui colonizada, importunada pela estrada esquisita que sangra o ventre do mês.É sempre primeira,a vez.
Colonização
Antes de mim eu não sabia o que cobravam as manhãs de estradas.O leite, farinha, a água que amanheciam como se não fosse faltar.Ainda nas mãos a luz das colônias, dos ventres mulatos, da língua engasgada em censura.Não se abre buracos sem esta dor.Não se escreve sem morrer de sonho sem cor.
Palavra de flor
O chão cobriu a estrada e dos restos das falas surgiram flores cor de carmim.Poderia haver verso mais belo do que este fim?
quarta-feira, março 09, 2011
Amar tem que ser fatal- Luiz Aldana em Indecentes Palavras
Para conferir...prata da cidade , com letra de Pedro Sthiel , produção de Diego K e a voz inconfundível de Luiz Aldana.Ah!...Gravado lá na Peña del Sur.Vale a pena.
http://www.youtube.com/watch?v=zGFQ-XToZV0
http://www.youtube.com/watch?v=zGFQ-XToZV0
terça-feira, março 08, 2011
Ruídos noturnos de Jorge, para "acender" Indecentes Palavras
BACK DOOR MAN
na linha que separa os hemisférios
no anel marrom como de ameixa murcha
exploro a densidade do meu beijo
e o pudico tremor de tua cintura
às firmes dobradiças da fronteira
do circo/cidadela
falo na língua viva dos safados
e o séssamo se abre enquanto eu
falo
para acolher o fim dos meus exílios
neste parto do avesso
em que me entorno fruto do teu ventre
e o corpo todo se transtorna em caldos
Jorge Rein
Dia de mulher
Pagaria com um pedaço de carne, com meu sexo, com minha mordida...Pagaria os vestidos de esposa,o leite de quando fui mãe...a conta da padaria.Mas não possuo o que não me pertence ,nem meu ventre algum dia foi meu.Pago com esta escrita que se diz letra minha, se me recebes como mulher.
sábado, março 05, 2011
Amanhã
Amanhã letra, sonido que me criou. Sopro fundante,como palavra que veste o som. Amanhã serei cor.
Todo o Sim do meu Não
A pele alva me contradiz
na tua língua
É tão clara a impossibilidade
de me dizer toda
de não me fazer tua
de não me dar inteira
Como se já não fosse
escura a primeira
palavra em que não
pude dizer tudo.
na tua língua
É tão clara a impossibilidade
de me dizer toda
de não me fazer tua
de não me dar inteira
Como se já não fosse
escura a primeira
palavra em que não
pude dizer tudo.
Vasilha
Vasilha é palavra linda.Dá para guardar na arca que é parecida.Beleza sem igual esta santa que se vestiu de rio para lembrar dos peixes.E eles fizeram nascer vertentes.Sangue que corre em veias, que se abre nas colheitas, como parindo barcos no mar do campo.Panela de barro no meio da mata, cozinhando o arroz, fazendo charqueada.Vai que a lua inventa outra? E desce nua para tomar banho também?Vasilha,dique,raso,fundo.Vasilha tem tudo... e carrega o mundo.
Esperança
O vento pede as primeiras lembranças.Como se não iguais, cor de esperança.É sempre de ontem o que nos aguarda.São enternos amantes, as próximas falas.
Eu e Freud V
-Sim?
-Bem...acho que...tem coisas que para mim não tem volta...Quero dizer...
-Hum!Tantas reticências!
-Suspensão.Estou suspensa.Esta é minha pontuação.Estou suspensa por mim mesma e isso me acontece vez ou outra.
-Hum!Sus pensa...
-É...SUS...Atendimento para todos, indiferenciado(ehehehhehehe).
-Ehehehehhehehe...Para cada um, significantes tantos, não é mesmo?
-.Pretendo esta suspensão,este alívio de me vestir com esta roupa que não deixa passar nada!Indiferença.
-E dá?
-Não sei.O fato é que quando algo me atinge sei me vestir direitinho para que nunca mais, daquilo, eu venha adoecer.
-Como assim?
-É um efeito, um defeito, esta queimadura que tive em criança.Até pouco tempo não sabia se ainda não tinha metade do rosto repuxado.Não é raro que me acorde e passe a mão do lado esquerdo...
-Coisas do coração...
-É!Como diria um poeta...interrupção do rosto.
-Ah!
-Pois é...mas é assim...depois de alguma coisa, nunca mais volto.E enquanto a coisa está acontecendo, esta perda, esta denúncia, esta dor...o sentimento é maior porque eu sei que vou embora e nunca mais vai ser possível.
-....
-Eu não sei qual é a coisa que faz com que eu vá embora...quero dizer, embora subjetivamente daquele lugar, daquele bem querer, daquele amor...Vou embora diferente, para sempre!
-...Qual o problema?
-É este tempo em que eu sei que estou indo.É como se eu reconhecesse minha fuga, meu pedido de que o outro me fizesse ficar.Mas quando isso não acontece, vou indo, indo...suspensão!
-Ah!
-Hoje...nos cuprimentamos cordialmente.Roupa de lã, nada me toca.Mas os olhos, a lágrima que não vem, a denúncia esquisita num sorriso um tanto de dor.Senti estas coisas nele.Mas acho que não é verdade.Sei lá...Isso é devastador.Há uma inverdade neste encontro, uma insensatez não da loucura, da lágrima mas a insensatez do abandono.Eu queria ter dito: não me deixa ir! Se me deixares ir...Nunca mais vou voltar!E eu só pude dizer que " não é chique"...o lugar para onde vou.
-Chique?
-É...O lugar para onde vou é de suspensão.Ele falava de outra coisa.Eu digo: suspensão.Quando criança eu chateava as primas.Elas inventavam alguma coisa , para que eu fosse buscar algo...eu era bem menor que elas.Quando eu voltava, já tinham ido embora.Ainda as via felizes, correndo.Era na praia e eu acabava tendo para mim aquele mar enorme, que eu enxergava esquisito.Depois me lembro que me dei por conta que eu enxergava embaçado...Eu estava chorando!Isso aconteceu umas duas ou três vezes.Depois nunca mais! Nunca mais eu mesma quis estar com elas.Acho que ficavam mais felizes sem minha companhia.
-Te suspendiam...e tu ficavas como?
-Sim.É o outro que suspende.Com o tempo...mais feliz sem elas.É isso.Acostumo-me com a solidão.Digo, a solidão que diz respeito a alguém especificamente.Sem SUS...ehehehehhe.
-SUS...a política é algo solitário; a escrita é algo solitário...Sem faltas?
-É como se a falta estivesse ali para sempre.E ela é como a presença dele.Uma queimadura, mesmo que não apareça...Eu amo a distância que vai crescendo.Talvez por ser a única coisa que nos ligue.
-É estranho...Poderias ter dito: vem!
-Jamais eu diria Vem!Tenho medo de não fazê-lo feliz.
-Medo de fazê-lo feliz!Medo de que te faça...
-Talvez.Mas, neste momento, a verdade é que estou blindada e este é só o começo da minha fuga para sempre.Estou indo embora e ele nem sabe.
-Ok...por hoje?!
-Ok.Aliás: é estranho que eu não ouça tua voz?
-Sim.É a escrita que fazes,não?
-Bem...acho que...tem coisas que para mim não tem volta...Quero dizer...
-Hum!Tantas reticências!
-Suspensão.Estou suspensa.Esta é minha pontuação.Estou suspensa por mim mesma e isso me acontece vez ou outra.
-Hum!Sus pensa...
-É...SUS...Atendimento para todos, indiferenciado(ehehehhehehe).
-Ehehehehhehehe...Para cada um, significantes tantos, não é mesmo?
-.Pretendo esta suspensão,este alívio de me vestir com esta roupa que não deixa passar nada!Indiferença.
-E dá?
-Não sei.O fato é que quando algo me atinge sei me vestir direitinho para que nunca mais, daquilo, eu venha adoecer.
-Como assim?
-É um efeito, um defeito, esta queimadura que tive em criança.Até pouco tempo não sabia se ainda não tinha metade do rosto repuxado.Não é raro que me acorde e passe a mão do lado esquerdo...
-Coisas do coração...
-É!Como diria um poeta...interrupção do rosto.
-Ah!
-Pois é...mas é assim...depois de alguma coisa, nunca mais volto.E enquanto a coisa está acontecendo, esta perda, esta denúncia, esta dor...o sentimento é maior porque eu sei que vou embora e nunca mais vai ser possível.
-....
-Eu não sei qual é a coisa que faz com que eu vá embora...quero dizer, embora subjetivamente daquele lugar, daquele bem querer, daquele amor...Vou embora diferente, para sempre!
-...Qual o problema?
-É este tempo em que eu sei que estou indo.É como se eu reconhecesse minha fuga, meu pedido de que o outro me fizesse ficar.Mas quando isso não acontece, vou indo, indo...suspensão!
-Ah!
-Hoje...nos cuprimentamos cordialmente.Roupa de lã, nada me toca.Mas os olhos, a lágrima que não vem, a denúncia esquisita num sorriso um tanto de dor.Senti estas coisas nele.Mas acho que não é verdade.Sei lá...Isso é devastador.Há uma inverdade neste encontro, uma insensatez não da loucura, da lágrima mas a insensatez do abandono.Eu queria ter dito: não me deixa ir! Se me deixares ir...Nunca mais vou voltar!E eu só pude dizer que " não é chique"...o lugar para onde vou.
-Chique?
-É...O lugar para onde vou é de suspensão.Ele falava de outra coisa.Eu digo: suspensão.Quando criança eu chateava as primas.Elas inventavam alguma coisa , para que eu fosse buscar algo...eu era bem menor que elas.Quando eu voltava, já tinham ido embora.Ainda as via felizes, correndo.Era na praia e eu acabava tendo para mim aquele mar enorme, que eu enxergava esquisito.Depois me lembro que me dei por conta que eu enxergava embaçado...Eu estava chorando!Isso aconteceu umas duas ou três vezes.Depois nunca mais! Nunca mais eu mesma quis estar com elas.Acho que ficavam mais felizes sem minha companhia.
-Te suspendiam...e tu ficavas como?
-Sim.É o outro que suspende.Com o tempo...mais feliz sem elas.É isso.Acostumo-me com a solidão.Digo, a solidão que diz respeito a alguém especificamente.Sem SUS...ehehehehhe.
-SUS...a política é algo solitário; a escrita é algo solitário...Sem faltas?
-É como se a falta estivesse ali para sempre.E ela é como a presença dele.Uma queimadura, mesmo que não apareça...Eu amo a distância que vai crescendo.Talvez por ser a única coisa que nos ligue.
-É estranho...Poderias ter dito: vem!
-Jamais eu diria Vem!Tenho medo de não fazê-lo feliz.
-Medo de fazê-lo feliz!Medo de que te faça...
-Talvez.Mas, neste momento, a verdade é que estou blindada e este é só o começo da minha fuga para sempre.Estou indo embora e ele nem sabe.
-Ok...por hoje?!
-Ok.Aliás: é estranho que eu não ouça tua voz?
-Sim.É a escrita que fazes,não?
terça-feira, março 01, 2011
Antonio,tua poesia me inquieta pela verdade sincera que tece esta conversa.Como?Ah!Sim...a Decantação é sempre parte desta verdade...
DECANTAÇÃO
I
Cobrir das algas a nudez
apenas com o mar
é silêncio precário.
O poema procura
a estrutura que o sustém:
ao encontro do rio
desce o monte
o tempo tardo
é no entanto
parco o silêncio para se construir
queima
a mercê da pele aos lagartos de areia
o estoiro dos cem assombros da serra
no meu canto eu não sei bem o que arde
porque o poema é às vezes ordem
ponte pensada
sobre o lodo
desde o banho do amanhecer
à última estrela da tarde.
II
Fechar das algas
o coração dos dias
com sedimentações
do seu acontecer
e guardá-las por detrás
dos muros que sustentam
as terras.
O rosto do mar sabe-se
deve ser velado e seus rumores
distantes.
Dizer pois palavras que atravessam o tórax
o espelho do esterno
quando a maré cobre
a boca das praias
no meu canto eu não sei bem o que digo
mas sei que dizer palavras
acesas pelo fósforo
da respiração
é fechar serenamente
numa mão o silêncio
e na outra o seu ruído.
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